Anoitecia assim lá para os lados dos Olhos d´Água.
O calor convidava a sair e a contemplar este mesmo por-do-sol.
Triste ideia a de interromper a jura que a mim mesmo fiz de voltar, por uma vez, as costas às desgraças com que todos os dias, durante uma hora, os telejornais do horário nobre nos brindam.
Olhei para o televisor e, porque se não tratava de mais um daqueles importantíssimos eventos mundanos em que se exibe o jet set a banhos no Algarve e se intervalam as desgraças, fixei-me por momentos na reportagem que passava no ecran.
Não é que a peça visava elucidar a opinião pública sobre quais os pontos da costa portuguesa onde estão localizados os sistemas de vigilância e detecção de movimentos marítmos suspeitos de transporte e tráfico de droga e outras actividades criminosas?!
E não é que se explicava com pormenor como funcionavam os supostamente sofisticados sistemas recentemente adquiridos para a GNR?
Fiquei abismado quando apareceu um graduado da GNR que mais explicou, tim-tim-por-tim-tim para que a coisa não ficasse pela suspeita palavra de jornalista, como é que funcionava a aparelhagem e quais os muitos pontos do litoral que estavam absolutamente desguarnecidos de vigilância!
E eu que julgava que a eficácia destes meios dependia da absoluta discrição na sua utilização, mesmo do segredo sobre a sua existência, muito mais do que a sua sofisticação que se vê rapidamente superada pela capacidade dos barões da droga em adquirirem o que há de mais evoluído...
Confesso que a minha ingenuidade ia, aliás, mais longe. Ia ao ponto de pensar que a polícia era a última interessada em divulgar a extensíssima faixa da nossa costa onde os traficantes podem dedicar-se em absoluta segurança às suas actividades.
Percebi depois. A nossa democracia chegou também ao grau máximo de sofistação e transparência. A investigação criminal deve ter, afinal, paredes de vidro. Ou não são os traficantes cidadãos com o direito constitucional a verem-se informados pela comunicação social de tudo quanto lhes diz respeito, em especial, sobre aquilo que os pode prejudicar?
Já tinha suspeitado que para aí caminhávamos face às reiteradas e descaradas violações do segredo de justiça que nunca tiveram, até hoje, uma face a quem se imputem responsabilidades. E em boa verdade, se violar o segredo de justiça se faz em nome da transparência e do direito à plena informação, quem pode, de resto, ser punido?
Bom, a verdade é que com isto lá se estragou aquele anoitecer mágico.
Para que fui eu quebrar a jura?
O calor convidava a sair e a contemplar este mesmo por-do-sol.
Triste ideia a de interromper a jura que a mim mesmo fiz de voltar, por uma vez, as costas às desgraças com que todos os dias, durante uma hora, os telejornais do horário nobre nos brindam.
Olhei para o televisor e, porque se não tratava de mais um daqueles importantíssimos eventos mundanos em que se exibe o jet set a banhos no Algarve e se intervalam as desgraças, fixei-me por momentos na reportagem que passava no ecran.
Não é que a peça visava elucidar a opinião pública sobre quais os pontos da costa portuguesa onde estão localizados os sistemas de vigilância e detecção de movimentos marítmos suspeitos de transporte e tráfico de droga e outras actividades criminosas?!
E não é que se explicava com pormenor como funcionavam os supostamente sofisticados sistemas recentemente adquiridos para a GNR?
Fiquei abismado quando apareceu um graduado da GNR que mais explicou, tim-tim-por-tim-tim para que a coisa não ficasse pela suspeita palavra de jornalista, como é que funcionava a aparelhagem e quais os muitos pontos do litoral que estavam absolutamente desguarnecidos de vigilância!
E eu que julgava que a eficácia destes meios dependia da absoluta discrição na sua utilização, mesmo do segredo sobre a sua existência, muito mais do que a sua sofisticação que se vê rapidamente superada pela capacidade dos barões da droga em adquirirem o que há de mais evoluído...
Confesso que a minha ingenuidade ia, aliás, mais longe. Ia ao ponto de pensar que a polícia era a última interessada em divulgar a extensíssima faixa da nossa costa onde os traficantes podem dedicar-se em absoluta segurança às suas actividades.
Percebi depois. A nossa democracia chegou também ao grau máximo de sofistação e transparência. A investigação criminal deve ter, afinal, paredes de vidro. Ou não são os traficantes cidadãos com o direito constitucional a verem-se informados pela comunicação social de tudo quanto lhes diz respeito, em especial, sobre aquilo que os pode prejudicar?
Já tinha suspeitado que para aí caminhávamos face às reiteradas e descaradas violações do segredo de justiça que nunca tiveram, até hoje, uma face a quem se imputem responsabilidades. E em boa verdade, se violar o segredo de justiça se faz em nome da transparência e do direito à plena informação, quem pode, de resto, ser punido?
Bom, a verdade é que com isto lá se estragou aquele anoitecer mágico.
Para que fui eu quebrar a jura?
4 comentários:
Faz parte da nossa originalidade copiar tudo o que os outros têm mas depois dar um toque "pessoal"à sua utilização - vigiamos mas todos sabem da vigilância (depois não se queixem se forem apanhados), temos segredos de justiça escarrapachados nos jornais (para que não se repitam os crimes e não se esqueçam as investigações), temos as leis mais avançadas do mundo em termos de ambiente mas não há maneira de ordenar coisa nenhuma. Só como exemplos, claro, porque daria um longo post falar da nossa originalidade lusitana.
Há pouco mais de 20 anos, era possível ir descansado ao futebol: o acesso ao estádio não era discriminado pela cor das camisolas, as "clacks" não existiam, ou se existiam, comportavam-se, em geral, pacificamente.
Mas o "hooliganismo" começava a dar sinais preocupantes na Inglaterra.
Então a BBC fez e exibiu um extenso documentário em que revelava as técnicas dos hooligans, as suas tácticas e estratégias, o modo de confecção dos materiais de ataque, etc, etc.
Admito que tal documentário se destinasse, na Inglaterra, para além de informar, a concitar a reprovação da população por tais condutas.
Em Portugal, tal documentário foi um verdadeiro curso de formação em hooliganismo.Passado muito pouco tempo, o fenómeno começou, em força, em Portugal.
De facto, a responsabilidade social que inerente ao poder editorial deveria exigir que os responsáveis editoriais fossem, isso mesmo, responsáveis.
Mas para serem responsáveis têm que ser educados, instruídos, cultos, bem formados, conscientes, com bom senso,amigos da verdade etc, etc.
Infelizmente, não é isso que se exige.
Basta que cumpra as ordens do patrão, económico ou político, não hostilize a "nomenklatura" e tenha na ponta da língua a explicação do inexplicável, invocando apenas e tão só os famigerados critérios editoriais que ninguém sabe o que são...
Os resultados vêem-se em factos como os relatados...
Esqueci-me de referir no comentário anterior( e seria necessário referi-lo para que o mesmo se pudesse entender devidamente) que tal documentário foi, então, exibido em Portugal pela RTP, que assim deu a conhecer, com todo o pormenor, os métodos avançados dos hooligans!...
Não vi esse documentário sobre a vigilância marítima.
Mas o que conta seria anedótico se não fosse tão grave.
Mas como neste país continuamos a punir muito mais um furto de carro ou uma agressão do que um desfalque, um abuso de menor, uma fuga de informação em segredo de justiça, a divulgação de informaçãoes que deveriam ser resevadas, etc. etc. já nada me espanta.
Mas é triste e frustrante.
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