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domingo, 1 de maio de 2005

A mulher de César

A história conta-se que terá tido lugar no 1 de Maio do ano 62 a.C., há precisamente 2067 anos.
Nesse dia festejava-se a Bona Dea (“a boa deusa”) em casa de Júlio César, recentemente eleito pontifex maximus (sacerdote supremo). Tradicionalmente, o acesso a estas festas estava reservado às mulheres. Pompeia Sula, segunda mulher de Júlio César, era a jovem e bela anfitriã do que era conhecido como uma orgia báquica reservada ao sexo feminino. Nesse ano as festividades acabaram em escândalo: Publius Clodius, jovem nascido em berço de oiro, mas conhecido pela sua insolência e audácia, estando apaixonado por Pompeia, não resistiu. Disfarçou-se de tocadora de lira e introduziu-se em tão reservada celebração. As coisas correram mal a Publius Clodius que acabou por ser descoberto por Aurélia, mãe de César, sem usufruir da bela Pompeia.
O escândalo correu por Roma o que levou César a divorciar-se de Pompeia. Publius Clodius foi acusado de sacrilégio e julgado em tribunal. O povo estava com Clodius e César, chamado a depor como testemunha, disse que nada tinha, nem nada sabia contra o suposto sacrílego. Foi o espanto geral entre os senadores: “Então porque se divorciou da sua mulher?”. A resposta tornou-se famosa: “A mulher de César deve estar acima de qualquer suspeita”.
A mulher de César ficou eternamente sob suspeita. Publius Clodius beneficiou da demagogia de Júlio César e do receio dos senadores de perderem apoio popular.

Na versão portuguesa actualizada ficou a frase: “ À mulher de César não basta ser, terá que parecer”. Não consta que exista qualquer máxima relativa a Publius Clodius. Para César o que parece é e o que realmente é convém não parecer. Em Portugal, Pompeia dificilmente poderia ser candidata autárquica, Publius Clodius manteria o seu estatuto de nobre respeitado e potencial candidato a Senador. Só porque não parece.

7 comentários:

Massano Cardoso disse...

De facto, a máxima está tão enraizada que é usada até à exaustão. Não sei se terá, ainda, algum impacto. É mau sinal, o seu uso excessivo e por vezes mal contextualizado. Não sei se as pessoas, ainda, reconhecem o seu verdadeiro significado. Se tiver que a utilizar (habitualmente não a uso) vou transformá-la. Assim direi: “ A Pompeia Sula não basta ser séria, tem que parecer”. - Quem? Pompeia Sula? Quem é? Aproveitarei a oportunidade para contar a história (deliciosa).
Agradeço ao David Justino a história da frase. A razão é simples. Há muito que procurava conhecer as suas origens. Eis que, de bandeja, acabo por alcançar o meu objectivo.
Pois, quanto às candidaturas autárquicas, Pompeia Sula não tinha muitas probabilidades de se candidatar e não só…

Anónimo disse...

Já agora, um pouco da história de César antes de se casar com Pompeia.
César foi eleito questor pela Assembleia do Povo em 69 a.C., com trinta anos de idade, como estipulava o cursus honorum romano. No sorteio subsequente, calhou-lhe um cargo na província romana da Hispania Ulterior, situada mais ou menos nos modernos Portugal e sul de Espanha.
No regresso a Roma, César prosseguiu a carreira como advogado até ser eleito edil em 65 a.C., o primeiro cargo do cursus honorum a deter imperium. As funções de um edil podem ser equiparadas às de um moderno presidente da câmara municipal e incluíam a regulação das construções, do trânsito, do comércio e outros aspectos da vida diária. Mas o cargo poderia ser um presente envenenado, pois incluía a organização dos jogos no Circus maximus o que, dado o limitado orçamento público, exigia a aplicação dos fundos privados do edil. Isto era especialmente verdade no caso de César, que pretendia realizar jogos memoráveis para impulsionar a carreira política. E de facto aplicou todo o seu engenho para o conseguir, chegando até a desviar o curso do Tibre para uma representação no circo, mas acabou o ano com dívidas na ordem das várias centenas de talentos de ouro (o equivalente a vários milhões de euros).
No entanto, o sucesso como edil foi uma ajuda importante na sua eleição para pontifex maximus em 63 a.C., depois da morte de Quintus Caecilius Metellus Pius. O cargo significava uma nova casa no Forum, a Domus Publica, a responsabilidade por toda a vida religiosa de Roma e a custódia das virgens vestais. Para a vida pessoal de César, também significava o alívio do fim das dívidas. A sua estreia como pontifex maximus foi então marcada pelo escândalo que recorda o David Justino.

Anónimo disse...

Não se esforcem em imaginar associações. Não há versão portuguesa. É história mesmo...

mummy disse...

É, no mínimo, curiosa, a decisão de relembrar o delicioso episódio da mulher de César no dia em que também se celebra o dia da mãe, mas é um absoluto direito de autor efectuar as mais inesperadas associações de ideias, que transcendem, e estimulam, a imaginação do leitor mais entusiasta.
Mas já que se falou de César, e aproveitando o exemplo das frases feitas, talvez não fosse menos interessante relembrar, ainda a propósito de autárquicas, a celebérrima máxima - a César o que é de César!

David Justino disse...

Por manifesto esquecimento não referi que o dia 1 de Maio é referenciado no calendário politeista (http:www.pt.paganfederation.org/calendario.htm), para além de dia de Bona Dea, como o dia do Festival das Donzelas (Ibéria) e dia das Fadas (Irlanda). Confesso que não conheço os motivos porque escolheram o 1 de Maio como Dia da Mãe. Não era assim há alguns anos. Presumo que a escolha se orientou por razões comerciais.

Vítor Reis disse...

O dia da mãe ocorre no primeiro domingo de Maio. Por obra do calendário, este ano coincidiu com o primeiro de Maio.
A escolha recaiu num domingo para facilitar a compra das prendas.

LopesCaBlog disse...

Achei muito interessante a explicação :)