Número total de visualizações de páginas

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Cartões de plástico

Já estou a ficar farto dos cartões de plásticos. Parece que não há ninguém que não os ofereça para obter descontos, para fidelizar o cliente, para pontuar coisas que nunca vamos comprar, para atulhar a pobre da carteira, para nos confundir no momento da sua escolha, para termos de fixar códigos e mais códigos, e, sobretudo, para encher a mula à banca, que nos “aluga” logo de início ou ao fim de algum tempo em que são “gratuitos”. Algumas entidades bancárias até os “oferecem” sem que sejam solicitados, para não falar dos assédios telefónicos sobre as vantagens, que são sempre superiores aos da concorrência.
Por vezes chego a ficar verde de raiva. Ainda faço parte daquela fração da humanidade que pensa com o fígado. A revolta é tanta que tenho a perceção de que vou vomitar a bílis.
Há dias comecei a contar os cartões que habitualmente tinha na carteira. Uma loucura! Acabei por retirar uma catrefada deles e escondê-los em casa. Passei a utilizar apenas um cartão de crédito e dois de débito, porque um deles serve para identificar a minha instituição e o outro utilizo para a minha extravagância, compra de livros. Uma contita para este efeito é muito útil.
Os cartões são de PVC, um produto derivado do petróleo. Para fabricar um são necessários 4,25 grama de petróleo. Se multiplicarmos pelo número de cartões que andam à solta, verificamos que são muitas centenas ou mesmo milhares de barris de petróleo. Só nos Estados Unidos produzem-se anualmente 1,6 mil milhões de cartões de crédito e de débito, correspondente a 45.000 barris de petróleo, sem falar nos larguíssimos milhares de milhões de outros tipos de cartões. Ainda por cima não são reciclados e não devem ser incinerados porque libertam as perigosas dioxinas. Há uma tentativa de utilizar novos produtos mais amigos do ambiente, biodegradáveis, mas ainda é muito cedo para a sua implementação, apesar de haver já um cartão feito de milho.
Substituir os cartões pelas notas não significa que seja uma atitude mais amiga do ambiente. As notas são feitas de vários produtos, nomeadamente algodão, cuja produção exige grandes quantidades de água, de pesticidas e fertilizantes, para não falar do transporte e distribuição.
Fiquei a saber que o Banco Central Europeu produziu, em 2003, oito notas por cada cidadão europeu. Claro que não diz, mas presumo que para nós, portugueses, contabilizaram apenas notitas de cinco e se muito de dez euros! Somos uns pobretanas. No fundo, o impacto ambiental cumulativo das oitos notas é o equivalente ao produzido pela condução de um carro durante um quilómetro.
Fiquei sem saber qual dos dois tipos de “dinheiro”, cartão ou notas, é o mais ecológico, o mais “verde”. Da minha parte vou passar a reduzir os cartões. Não há grandes vantagens em ter muitos, sempre vou contribuir para não consumir uns gramas de petróleo, evito poluir o ambiente, corro menos probabilidade de ser trafulhado através de alguma clonagem, resisto à tentação de comprar coisas supérfluas, enfim, ser um pouco mais amigo do ambiente. Entretanto, com a crise que vai por aí, acabaremos por ser mais amigos do ambiente, à força, já que começa a faltar dinheiro, embora tenha ouvido dizer que vão por as rotativas a trabalhar em pleno, produzindo mais notas! Mas essas coisas transcendem-me.

PCP: a nova revolução

O mundo ao contrário

No país em que todo o enriquecimento se não é ilícito é sempre obsceno, não há bicho-careto que não ambicione aparecer na frente dos que combatem o flagelo, sempre com propostas muito originais, que se um dia virem a luz do dia irão sem demora pôr o país a gritar por liberdade. Hoje, foi a vez do PCP apresentar o seu pacote (em Portugal legisla-se sempre por pacotes) contra a corrupção. Entre as medidas propostas acha-se a tributação a taxas elevadas (75% - 90%) de prémios e indemnizações pagas aos gestores de empresas apoiadas pelo Estado. Nada tenho contra a proposta, embora não vislumbre o que tem a mesma a haver da corrupção, pelo menos no seu sentido juridico-criminal. Verifico, porém, que 2009 está a representar para o PCP tanto ou quase tanto como a revolução bolchevique de 1917, já que o inspirador confessado desta medida é, nem mais nem menos, do que o simbolo do capitalismo imperialista, o Presidente dos EUA.

Numeros do BdeP não podiam ser mais negativos...

1. A expressão em título foi utilizada hoje pelo Presidente da República (PR) para se referir às novas previsões económicas do BdeP, ontem divulgadas e já comentadas até à saciedade pelos “opinion makers” do regime (que me perdoe Bagão Félix...).
2. Trata-se de uma expressão particularmente curiosa, na minha análise algo enigmática na medida em que consente múltiplas interpretações se bem me parece.
3. Numa primeira interpretação – para a qual admito a maioria se inclinará – o PR quer simplesmente significar que estes números mostram que nos encontramos numa situação muito difícil, que não podia ser pior do que é...
4. Nessa interpretação, o PR admite a verosimilhança das previsões e a sua aderência à realidade, excluindo assim um cenário ainda pior...
5. Mas é perfeitamente possível uma interpretação diferente: ao dizer “não podiam ser mais negativos” o PR visa transmitir a ideia, de forma “sub-liminar”, de que os números não podiam ser piores neste momento...temos de ser preparados passo a passo para cenários ainda mais negros, este terá sido um primeiro passo outros se seguirão...
6. Nesta segunda interpretação o PR estaria a dar razão aos que sustentam que esta revisão não será a última - como tem sido saudável hábito de resto – e que poderemos daqui por algum tempo ser defrontados com cenários mais adversos...
7. Numa terceira interpretação, o PR estaria a referir-se ao contraste entre esta previsão e a anterior, de -0,8% – que é realmente chocante - pondo em evidência a falta de lógica na apresentação de cenários tão distintos, em tão curto espaço de tempo...
8. Esta terceira versão equivaleria a um remoque indirecto ao BdeP pela falta de rigor na apresentação de previsões...e veladamente exprimindo o voto “não voltem a enganar-se por amor de Deus”...
9. Embora admitindo como possíveis outras interpretações, creio que estas serão já suficientes para podermos especular fecundamente sobre tão romanesco tema...
10. Perguntar-me-ão: mas porque “carga d’água” não comenta o senhor os números do BdeP em vez de se dedicar a comentar os comentários do PR sobre tais números? Que ideia esta de se refugiar nas palavras do PR?!
11. A resposta é simples: o 4R já apresentou suas previsões em 28 de Janeiro último – economia a contrair entre -2 e -3% em 2009, como estarão recordados - e só em Junho, como prometido, efectuaremos uma revisão se a considerarmos justificada.
12. Até lá não emitiremos posição sobre o tema - até porque, como tb se recordarão, a OCDE nos colocou na galeria dos optimistas e isso confere-nos especiais direitos como o de ficar calado até nova ordem...

O risco do aumento da pobreza...

No Boletim Económico da Primavera do Banco de Portugal que anuncia a maior recessão dos últimos trinta e quatro anos, com uma previsão de contratação do PIB de 3,5%, do investimento de 14,4% e uma quebra das exportações de 14,25%, é publicado um artigo da autoria de Nuno Alves que se debruça sobre “Novos factos sobre a pobreza em Portugal”.
Este artigo faz uma radiografia da situação da pobreza em Portugal, a confirmar os dados do Estudo sobre a “Pobreza e Exclusão Social em Portugal”, coordenado pelo Professor Alfredo Bruto da Costa, publicado o ano passado, e que tratei aqui no 4R em Julho de 2008.
Recomendo a leitura o artigo, não tanto, infelizmente, pela novidade do retrato assustador da pobreza, mas sobretudo porque deixa clara a evidência de que o aumento da taxa de desemprego - registado após 2005/2006 e agravado pelo enquadramento recessivo da economia portuguesa – sobressai de entre um conjunto de factores que contribuirá para aumentar a pobreza em Portugal no futuro próximo.
Se é certo que este surto de desemprego está associado à crise económica, é também uma evidência, verificada anos após anos, que uma parte importante da pobreza estrutural em Portugal está associada a razões estruturais, das quais avulta o “nível de capital humano” (segundo o Estudo, em 2005/2006, cerca de 40 por cento dos indivíduos com mais de 14 anos e sem qualquer percurso escolar eram pobres, enquanto apenas 3 por cento dos indivíduos com um curso superior viviam numa situação de pobreza).
É também uma evidência que não havendo capacidade de gerar riqueza, mais difícil se torna combater a pobreza e que os níveis de pobreza persistentemente elevados em Portugal representam uma questão incontornável no processo de desenvolvimento da economia portuguesa nas décadas mais recentes.
Portugal faz lembrar um corpo debilitado, que padecendo de uma doença grave vai sendo tratado com antibióticos e analgésicos incapazes de o reabilitar e de o imunizar contra novos surtos de doença. Isto é, Portugal nunca está preparado para enfrentar uma crise e ainda menos quando a crise tomou as proporções desta que estamos a viver. Num quadro destes, as defesas do organismo estão mais fracas e a probabilidade de agravamento da doença é mais elevado.
Se, por um lado, é necessário tomar medidas para colocar um tampão ao desemprego, é, por outro lado, igualmente muito importante tomar medidas que impeçam a deterioração da pobreza, em particular actuando no combate à pobreza infantil, responsável pelas elevadas taxas de insucesso escolar, e apoiando as famílias com filhos que tendo cumprindo o ensino obrigatório continuam a estudar, seja para seguir uma via profissionalizante seja para ascender a uma formação universitária. Não actuar nestas frentes, não querendo obviamente desvalorizar a necessidade de aliviar a pobreza dos outros grupos populacionais afectados, é interromper caminhos de progresso, é comprometer o futuro de crianças e jovens, é por assim dizer agravar a transmissão intergeracional da pobreza. A pobreza gera pobreza, dado que as privações que lhe estão associadas limitam o acesso das pessoas à vida social, económica, cultural, institucional e política, reduzindo as oportunidades de quebrar o círculo de pobreza. Mais do que distribuir subsídios, trata-se de fazer um acompanhamento muito próximo das famílias, apoiando-as de forma multidisciplinar. Um investimento que deveria merecer a maior das prioridades.
Precisamos, como do pão para a boca, de elevar o nível de escolaridade do País, não apenas o nível técnico/profissional mas também o nível cívico, pois de outra maneira, como já está provado, um futuro diferente será cada vez mais difícil e os custos serão cada vez mais penosos, ficando mais longe os benefícios que sempre se esperam quando somos chamados a fazer sacrifícios.

Um céu azul e branco!...

Ganhar ou perder um jogo pode ser inspiração, instante, génio, golpe de sorte ou azar, apito a destempo, erro próprio ou infelicidade pura.
Ganhar ou perder é mero acidente e contingência do jogo.
As grandes equipas não são as que ganham um jogo, mas as que conseguem estar, de forma consistente, em posição de poder ganhar ou perder. Esses são os vencedores.
Oxalá o FCPorto possa também ganhar o jogo de logo à noite!...

Rangel e os critérios da sua escolha

São inequivocamente válidas as razões avançadas pela Dr.a Manuela Ferreira Leite para a escolha de Paulo Rangel como cabeça da lista do PSD às eleições europeias. Rangel é, de facto, uma aposta numa nova geração. E o PSD precisa como pão para a boca de uma nova geração de políticos. Não aqueles "novos" que à política devem tudo porque fizeram carreira exclusivamente à custa do próprio partido. Mas seguramente aqueles que adquiriram mundo, conhecimento e, sobretudo, uma nova visão do que deve ser a política. O escolhido parece-me encaixar bem neste perfil definido pela líder.
Depois, Paulo Rangel é a face mais visível da oposição protagonizada pelo PSD. E, concorde-se ou não, nesta campanha é a governação do País que se discutirá, tal como em todas as eleições do passado para o PE foram as opções governativas que estiveram em causa. Para além da visibilidade, Rangel ganhou, por mérito seu, crédito nos debates que travou com o Primeiro-Ministro, apesar da falta de experiência que alguns dos habituais analistas consideravam ser-lhe fatal naqueles confrontos. E no passado, como secretário de Estado, pareceu-me ser bem melhor do que a sua hierarquia política.
Finalmente Paulo Rangel revela, tanto quanto me parece, uma qualidade rara nos políticos, em especial nos quadros desta última fase da história do PSD: para além de ser politicamente culto e juridicamente muito bem preparado, estuda. Aposta no conhecimento dos assuntos, o que lhe permite falar deles com convicção (oxalá resista a tentação dos sound bites, vazios de sentido e que por isso assentam mal no seu perfil, como aquele do Vital-Vitalino do último debate parlamentar).

A escolha foi acertada porque acertados são os critérios e o candidato encaixa bem neles. A liderança do PSD estará ciente de que as razões que presidiram à escolha são marcantes e que não faltará quem dentro em breve, noutras escolhas, recorde que os critérios agora definidos não são somente válidos para as eleições para o parlamento europeu e que a reabilitação do PSD passa muito pela coerência na sua afirmação. Na afirmação da necessidade de uma mudança geracional, na competência e na preparação.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Ora toma!

Em 12 de Junho de 1875 (datado por engano de 19), o número 5 d’A Lanterna Mágica, Revista Ilustrada dos Acontecimentos da Semana, por Gil Vaz, por Gil Vaz (isto é, Guilherme de Azevedo e Guerra Junqueiro, autor colectivo de uma peça que fará escândalo e será proibida em 1879, A Viagem à roda da Parvónia), publicou um desenho do jovem Rafael Bordalo Pinheiro em que veio à luz uma personagem destinada ao mais brilhante destino – imagem e símbolo que seria do povo português. Chamou-se “seu Zé-Povinho” e começou a vida pagando para a cera do Sant’António. Recebe-lhe a esmola António de Serpa Pimentel, ministro da Fazenda do dito santo, que, no seu altar popular, tem as feições do presidente do Conselho António Maria Fontes Pereira de Melo, chefe do Partido Regenerador. Ao colo, o Menino tem o rosto do rei D. Luís I e a sua coroa. Zé-Povinho identifica-se pelo nome que lhe corre ao longo das calças remendadas e dá, com sacrifício, os “reais” que não tem.”

O Zé Povinho é o perfeito representante do “Homo Lusitanus”. Sendo assim, como é possível castigar o treinador do FCP, só por ter feito o “manguito”, o gesto mais patriótico? Isso não se faz! Um perfeito atentado contra a “cultura nacional”!

PS - Acabo de ver o manguito do Jesualdo Fereira. Um manguito perfeito!

Caldos de galinha

Ouvi hoje na rádio que o acórdão do “Julgamento da Casa Pia” vai demorar a sair, e já estão agendadas mais cinco sessões até Setembro. O julgamento foi complexo, dura há mais de quatro anos e, por este motivo, nada melhor do que aplicar o velho provérbio português: “cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém”. Entendo as cautelas, claro, mas quanto aos caldos de galinha o melhor é passarmos a tomar com mais frequência. Não é que descobriram que os caldinhos fazem baixar a pressão arterial? É verdade, tudo aponta para certas proteínas do animal que são dotadas de propriedades idênticas a certos fármacos. Como uma das principais causas de hipertensão é o stresse, agressão a que estamos sujeitos cada vez mais, com inúmeras fontes, justiça, política, economia e desemprego, o melhor é o governo passar a dar aos portugueses não a “sopa dos pobres” mas caldinhos de galinha, alimenta e faz bem ao coração!

Caso Quimonda e a história da "toalha ao chão"...

1. Em Post de 28 de Março discorri sobre o conceito de “Optimismo Pacóvio” – a propósito da notável máxima “pessimismo não cria empregos”, utilizada pelo PM há algumas semanas quando comentava previsões económicas menos favoráveis...**
2. Nesse Post utilizei como exemplo o lamentável caso Quimonda, lembrando que um tratamento mais discreto e realista, menos mediático e sensacionalista deste caso poderia, quem sabe, ter evitado consequências aparentemente tão difíceis e gravosas como as que já então se podiam antecipar.
3. Mas o Governo nunca resistiu à tentação de tratar este caso sob a óptica e com o instrumental próprio do “Optimismo Pacóvio” – (i) prometendo soluções salvadoras, (ii) garantindo vezes sem conta os trabalhadores e (iii) descobrindo investidores diáfanos - numa saga algo parecida à do cíclico regresso de D. Sebastião no longínquo século 17...
4. Segundo a tese de que o pessimismo não cria empregos, vale então a pena ser optimista – mesmo sem fundamento – pois as expectativas positivas criadas com essa atitude virtuosa acabam por dar os seus frutos...
5. Na semana passada, face à crescente evidência de incapacidade para resolver o caso Quimonda, lá tivemos mais uma frase bombástica do inesgotável arsenal do “Optimismo Pacóvio” – “não vou atirar a toalha ao chão”, disse, ilustrando bem até que ponto o Governo se recusa, por saudável princípio, a negar as evidências factuais...
6. Pois hoje mesmo foi anunciado que a Quimonda vai dispensar 85% da sua força de trabalho, uns a título definitivo, outros (a maior parte) a título “temporário” por 6 meses...
7. Curiosamente, o período de 6 meses da dispensa temporária termina, em condições normais, logo a seguir às eleições legislativas...Já imaginaram o que se vai passar a seguir?
8. Esta mania das frases ardilosamente construídas para impressionar os pobres agentes da comunicação social é uma das pragas político-sociais do nosso tempo...quase não há político que lhes resista e os actuais inquilinos do executivo são “useiros e vezeiros” nesse vício que os americanos apelidam sugestivamente de “bullshit”...
9. “Não vou atirar a toalha ao chão”...que bela frase! O que pensarão hoje os quase ex-funcionários da Quimonda quando recordarem essa frase? Por uma questão de decoro, não quero tampouco sugerir a frase/palavra que mais provavelmente lhes acudirá...

** Que dirá S. Exa. das previsões hoje mesmo avançadas pelo BdeP?

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Deus escreveu a Darwin?

Sempre me disseram que eu não devia ler cartas de outras pessoas. Constitui uma falta de educação e pode ser mesmo um crime, se houver intenção de violar a correspondência. Não foi o que aconteceu com uma carta que eu tive a oportunidade de ler. Vinha num livro, cujo título era o da carta, “O que Darwin escreveu a Deus”. Esta missiva, conjuntamente com muitas outras, nunca chegaram ao destino, pelo menos é o que diz o seu autor, José Jorge Letria. Como comprei o livro, li todas as cartas, e que cartas meu Deus! Verdadeiras preciosidades. Mas, o meu objetivo é falar da carta que Darwin escreveu a Deus. Depois de alguns considerandos sobre se devia ou não escrever a carta, e ter explicado as razões porque escreveu a obra, resultante de “um apurado trabalho de pesquisa e reflexão”, embora tivesse consciência do impacto das suas reflexões, o autor queixa-se: “Fui ferozmente atacado, e até caluniado, pelos defensores da teoria criacionista, que nunca compreenderam corretamente os pressupostos em que assentava a minha inovadora teoria criadora.
O resto, Senhor, é do Vosso conhecimento, pois nada existe debaixo dos céus imensos que Vos escape”.
Continua a interessante carta, argumentando que “nunca teve como objetivo leviano por em causa a existência de Deus”, mas revela que sente um verdadeiro “temor de que com o passar dos anos, por razões de índole puramente religiosa e metafísica, volte a fazer-se ouvir, de forma estridente e aguerrida, a voz dos criacionistas, que para mim, será sempre irracional e contranatura”.
No dia 11 de Abril deste ano, D. José Policarpo proferiu uma interessante homília que vale a pena ler. No ano em que se comemora os 200 anos do seu nascimento e os 150 anos da sua principal obra, o Cardeal-patriarca de Lisboa teceu comentários sobre Darwin, entre os quais destaco as seguintes passagens: “...Responder a Darwin a partir de uma leitura do texto do Génesis, interpretado como descrição factual do modo como as coisas aconteceram, é confirmar a leitura que ele fez do texto bíblico. Enfermaram dessa deficiente leitura, não só muitas respostas da teologia católica ao longo destes 150 anos, mas também muitos dos atuais movimentos chamados criacionistas.
Apesar das já referidas dificuldades que a teoria de Darwin pôs à compreensão cristã da origem da vida e do universo, a Igreja não a pode recusar liminarmente. Nem parece suficiente distinguir os campos da ciência e da fé, aprofundada pela Teologia, como universos tão diferentes, que não se encontram. A Igreja não pode abdicar de um diálogo com a ciência e de uma possível convergência na busca da verdade”.
Uma posição muito interessante que, vinda de uma alta figura da Igreja, me leva a questionar se, afinal, a carta não terá chegado mesmo ao seu destino? Às tantas chegou e esta é a primeira das respostas...

Pior que Cilas e Caríbdis: a UTIS, o SIIC, o Citius e a RNSI

Naturalmente depois de um enorme labor, o Ministério da Administração Interna, criou a UTIS, Unidade de Tecnologias de Informação e Segurança.
Esta UTIS visa “a promoção da interoperabilidade entre as tecnologias de informação e comunicação” dos organismos tutelados, criando condições para cumprir a “futura lei do Sistema Integrado de Informação Criminal-SIIC, e viabilizar, com a máxima celeridade, a ligação entre as forças e serviços de segurança e o sistema Citius” do Ministério da Justiça, que contém os inquéritos da investigação criminal. A UTIS, diz o MAI, constituirá um “robustecimento da actual Rede Nacional de Segurança Interna- RNSI, por forma a permitir consolidar e ampliar as suas responsabilidades”.
Tudo isto eu li, ontem, no DN. E mais, também li que o recém nomeado secretário Geral da Segurança Interna, Mário Mendes, não sabe o que se pretende com esta Central.
Muito menos eu!...Mas que os inocentes cidadãos vão ficar mais vigiados, isso parece-me bem que sim. Enquanto os criminosos que actuam às claras continuarão com o caminho bem mais livre e transitável, ocupada que está a polícia em decifrar tanta sigla e em entender o que compete a quem. Enredada entre a Cilas e Caríbdis do nosso tempo.

Detratores da nossa justiça...

... esta notícia é-vos dedicada!

A representação em crise

António José Seguro propõe que, de futuro, a iniciativa da indicação do Provedor de Justiça possa ser popular, e não exclusivamente dos partidos representados na Assembleia da República que o elege. Estava mesmo à espera que, perante o inconcebível comportamento do PS e do PSD no que respeita à rendição do actual Provedor, aparecesse alguém a fazer uma proposta deste jaez. Não me passou pela cabeça, porém, que o primeiro a falar dela fosse alguém que sempre esteve na política e deve os cargos que exerceu ao nosso modelo de democracia representativa, mediada por partidos políticos e muito pouco aberta à participação individual ou de organizações da sociedade civil, sempre alvos da suspeita (e com razão) de alinhamento, colonização ou instrumentalização pelos partidos.
Quem ambiciona grande protagonismo e não sente que tem a atenção que merece por parte da liderança do seu partido tenta a todo o custo encontrar o seu "nicho de mercado", indispensável para se tornar notícia. À falta de cantão, procura o seu cantinho que tenta alargar apoiado na pretensa originalidade da sua agenda. António José Seguro escolhe, há algum tempo, a via da reforma das instituições, em especial do Parlamento. Prossegue agora cavalgando a ideia da crise da representação política. Ideia, contudo, muito pouco original.
Seja como for, e sem avançar aqui com razões de fundo para considerar nada salutar a ideia da iniciativa popular na nomeação ou eleição de titulares de órgãos do Estado fora do quadro eleitoral directo, tivesse Seguro mais atenção ao que está em causa ou resistisse a tentação forçada para a novidade, e veria que esta não é uma crise de modelo (as manifestações de democracia directa entre nós estão longe de consituirem um sucesso). É sim uma crise de confiança, de confiança nos protagonistas e em especial de qualidade das lideranças. O remédio, é, pois, outro, porque o diagnóstico da doença está profundamente errado.

domingo, 12 de abril de 2009

A Vida de Cristo e empadas de galinha


A Quaresma era sempre uma época difícil quando visitávamos os meus avós. Já contei aqui que do lado paterno eram católicos fervorosos e do lado materno eram republicanos anti clericais, sobretudo a minha avó, que classificava sumariamente de “patranhas” os rituais de jejum e abstinência.
Mas isso não nos dispensava de ir visitá-los nos feriados, domingos e Festas e,se no Natal a diferença era sobretudo na ausência de enfeites e símbolos na casa de uns, enquanto na dos outros o Presépio ocupava todo o tampo da secretária no escritório do meu avô, na Quaresma já as diferenças eram bem profundas. Logo a começar no comportamento, porque em casa de uns eram dias normais, de janelas abertas para entrar a luz e correrias pelo corredor comprido, na casa dos outros, mesmo em frente na rua, as salas ficavam na penumbra, o suficiente para não ter que se acender as luzes. Além disso na Semana da Paixão tínhamos que ir com roupas escuras, em sinal de luto por Jesus Cristo, e o meu avô paterno, que adorava ópera, tinha a telefonia silenciosa, era proibido correr, falar alto ou cantar. O lanche era frugal, sem o maravilhoso arroz doce com desenhos de canela ou a geleia com crosta de açucar cristalizado, que estalava quando enterrávamos a colher. Para entretar os netos sem fugir à solenidade da época, o meu avô sentava todos no chão e ia buscar a máquina de projectar os filmes Pathé Baby, umas bobinas pequenas, em metal preto, que guardava numa caixa de lata. Havia muitos filmes de fábulas, - a mais popular era o Lobo e a Cegonha, com a história em verso, “Em trincadeiral função/certo lobo glutão/ tão lambonamente comeu/que por pouco a vida não perdeu”, diziam as legendas, que ele lia sempre em voz alta, - mas na Quaresma ele só deixava ver A Vida de Cristo.Encaixava a primeira bobina no meio da máquina, atrás do vidro, puxava-se uma ponta do filme enrolado e ia-se prendendo laboriosamente até se entalar na patilha junto à manivela. A luz acendia e o meu avô começava a rodar o manípulo até aparecerem as primeiras imagens, depois de uns riscos pretos e o título em letras antigas. O primeiro era As Doze Tribos de Judá e havia mais 8 filmes, o que nós gostávamos mais era o que tinha as sete pragas do Egipto, e aí ele abrandava a velocidade da manivela, para se verem os gafanhotos. A debandada dos netos mais rebeldes dava-se por alturas da negação de Pedro, quando o galo cantava três vezes, empoleirado num muro em ruínas e Pedro se afastava a arrepelar os cabelos compridos, envergonhado da sua cobardia. Só os mais velhos é que viam até ao fim as Estações do Calvário, que ocupavam dois filmes, sabíamos de cor a cena de Simão Cireneu a ajudar a transportar a cruz, o momento em que Verónica limpa o suor e sangue do condenado e a cara dEle fica estampada no pano, José de Arimateia era o rico bondoso que, com um amigo, teve a coragem de dar sepultura a Jesus.
O meu avô contava a história sempre com emoção, como se fosse a primeira vez que via os filmes e cada cena o surpreendesse pela crueldade dos homens e pela força de Cristo.
É impossível não me lembrar desses dias da Quaresma, hoje só povoados de ovos coloridos e coelhinhos de chocolate, do mesmo modo que me lembro das deliciosas empadas de galinha que, ao almoço em casa da outra avó, desafiavam abertamente o jejum obrigatório imposto pelos católicos...
Boa Páscoa a todos!

"Para que os feitos dos homens se não desvaneçam com o tempo" (Heródoto)


Acabei de ler um daqueles belos livros que nos prendem o espírito até que se esgote a última página, ao mesmo tempo que demoramos a leitura para saborear cada parágrafo, voltar atrás e reler, espreitar umas páginas adiante para ver o desfecho do episódio, enfim, um verdadeiro luxo para preencher os momentos livres.
O livro chama-se “Andanças com Heródoto” e o autor é Ryszard Kapuscinski, jornalista polaco que nasceu em 1932 e morreu em 2007, presenciou 27 revoluções, foi condenado à morte quatro vezes e foi correspondente na Ásia, Médio Oriente, África e América Latina, tendo sido distinguido com vários prémios de jornalismo. O livro conta-nos episódios das suas viagens mas em todas elas ele leva como companhia permanente as “Histórias”, de Heródoto, um livro escrito há dois mil e quinhentos anos, e o relato do que observa no mundo de hoje alterna com as convulsões e as paisagens descritas pelo grego nas suas andanças pelos mesmos lugares. Em 2 500 anos será que tudo mudou? Ou será que afinal a barbárie subsiste, ainda que sob formas mais sofisticadas? A política, a guerra, as traições e ambições, as caracteristicas profundas de cada povo, será que são assim tão radicalmente diferentes? E a leitura vai deixando que cada um conclua por si, excerto atrás de excerto, relato atrás de relato, ora Heródoto, ora jornalista moderno. E o efeito tempo/espaço é surpreendente.
No final, o jornalista lamenta a pobreza dos relatos da actualidade,receia aquilo a que chama “a armadilha do provincianismo”, não só o do espaço, que só vê e releva o que se passa em redor, mas também o do tempo, o provincianismo que despreza a memória e onde os mortos deixaram simplesmente de existir. “Cada globo, cada mapa-mundo, mostra aos primeiros como estão perdidos e cegos (...) assim como cada página de Heródoto mostra aos outros que a actualidade sempre existiu, sendo a história tão só uma continuação da actualidade”.
Um livro a ler, com o sabor fascinante da História.

sábado, 11 de abril de 2009

Estamos bem "taxados"!...

Há anos, o ministro socialista Alberto Costa, referindo-se à PSP, afirmou, em frase famosa, que “esta não é a minha polícia”.
Agora, António Costa, ex-Ministro, segunda figura do PS e Presidente da Câmara de Lisboa decidiu cobrar 60.000 euros à GNR de taxa de ocupação da Praça do Império, onde comemora, há 97 anos, o seu dia.
Com diferença de anos, a convivência dos socialistas com as forças de segurança é similar, desconfiança e mais desconfiança, afinal para a esquerda são forças de repressão.
Assim motivadas, tenderão a fazer o mínimo vital, que é marcar o ponto e não se meter em sarilhos. Até porque mostrar zelo é arriscar processo disciplinar.
Mas António Costa pretendeu ainda evidenciar uma outra coisa, que é ele o dono do espaço público. Agora quer taxar a GNR. Amanhã irá taxar os cidadãos que transitam pelas praças, ruas e avenidas de Lisboa.
Directa ou indirectamente, uma coisa é certa: com este Costa estamos bem taxados!...

Académica


Soube muito bem a vitória sobre o Benfica! Um folar da Páscoa...

sexta-feira, 10 de abril de 2009

EU Predict´09

Os interessados na prognose das próximas eleições europeiras podem ver as primeiras previsões, Estado a Estado, aqui.
Para Portugal prevêem os autores das projecções que o PS sofra uma perda de 3 deputados, o PSD 2, prognosticando ganhos para o BE e o PP e a manutenção dos actuais 2 representantes eleitos pelas listas da CDU (note-se que Portugal terá direito a menos 2 representantes no Parlamento Europeu em relação à composição do actual parlamento europeu).
Atenta a metodologia adoptada para as previsões, não admiram estes resultados. A ver vamos o que nos vão trazer estes dois meses, sendo certo que tal como nas eleições anteriores e em todos os Estados-membros, decisiva vai ser a política interna, interessando pouco para o desfecho eleitoral as ideias de Europa de cada um dos partidos. Em Portugal não interessam patavina, sendo evidente que, pormenores à parte, não existem diferenças de projecto europeu entre os dois principais competidores, o PS e o PSD.

O que faz falta ao Zé

Ao Zé não lhe falta lata. Não lhe faltou quando, por causa da irresponsabilidade de uma providência cautelar que se verificou não ter qualquer fundamento, obrigou a CML (todos nós) a pagar milhões de sobrecustos pela paralização das obras do Túnel do Marquês. Também não lhe faltou quando cedeu o espaço público da Praça das Flores, em plena zona histórica da Capital, para a promoção de um automóvel; ou a própria Praça do Marquês do Pombal para promoção de uma empresa de telemóveis. Para já não falar a lata que teve há dois anos, quando, na barriga de aluguer que foi a lista do BE à CML, se candidatou nas intercalares e não se coibiu de se propagandear em outdoors na mesma praça.
Com a mesma dose de lata, arma-se agora em paladino da defesa do espaço público, determinando a remoção dos cartazes do PSD colocados na zona do Marquês, invocando a lei eleitoral e o facto de aquela zona estar classificada.
Ao Zé faz falta um pouco de vergonha. E a nós falta-nos a paciência para aturar criaturas destas!

Stabat Mater

...Vejo-te ainda, Mãe, de olhar parado
Da Pedra e da tristeza, no teu canto,
Comigo ao colo, morto e nu, gelado
Embrulhado nas dobras do teu manto...
Miguel Torga

...Junto da cruz, que estremecia ao vê-la
Chorou, baixinho, a Mater Dolorosa
E a terra, em volta, soluçou com ela...
António Correia de Oliveira