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domingo, 16 de julho de 2006

Dia para recordar Florbela Espanca

Paisagem Alentejana de Manuel Faia


Árvores do Alentejo


Horas mortas... Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a benção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
- Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!

A ordem ecológica das coisas

Segundo o Público de ontem, já está em construção na A24, entre Vila Real e Vila Pouca de Aguiar, uma passagem superior para lobos e javalis, de modo poderem “atravessar com segurança a auto-estrada”.
Chama-se um ecoduto e as instalações são de 5 estrelas: 15 metros de largura e barreiras em madeira a ladear as bermas. Em madeira, claro...como o tablier dos carros de luxo!...
Aliás, toda a área envolvente ao ecoduto, “vai ser sujeita a melhoramento paisagístico, sendo plantadas árvores e arbustos, cujo objectivo é minimizar o impacte que a auto-estrada terá na vida dos animais..."
Mas há bichos e bichos. Para os indiferenciados, desprotegidos ou párias, estão a ser construídas sete passagens inferiores, com 12 metros de comprimento e 8 de altura, sem arranjos paisagísticos, sem bermas em madeira e possivelmente menos largos, mais adaptados à menor nobreza dos que lá vão passar.
Obviamente que haverá sinaleiros para regular o trânsito, de modo a impossibitar completamente eventuais ousadias dos membros das estirpes mais baixas utilizarem o ecoduto, com o inerente risco de molestar as castas superiores...
Não foi referido, mas com o ecoduto de Vila Pouca de Aguiar também será construído um Posto Médico, bem como um Gabinete de Acompanhamento Psicológico para os bichos que evidenciem receio de se abalançarem às alturas.
O que, segundo o Instituto da Conservação da Natureza, será estimulante para os nativos, homens e mulheres, dando-lhes a esperança de, contemplados os bichos, chegar a sua vez, na ordem ecológica das coisas.

sábado, 15 de julho de 2006

A política de abandono do interior-III


Não há hoje pequena cidade do interior de Portugal que não lute pela manutenção de alguns dos serviços de interesse geral.
Vão-se as maternidades, fecham-se as escolas, acabam os pólos universitários, desiste-se da construção do novo hospital, um teatro que falece, o fim de mais um centro de juventude, o quartel que desloca os últimos magalas...
Tudo em nome da reorganização administrativa.
Paulatinamente vai morrendo o interior. Para gáudio dos que nas capitais já reclamam pelo fim de municípios e freguesias, indiferentes a quem ali vive.
País de paradoxos, o nosso!
O litoral dos mais sobrepovoados da Europa (vd. aqui o alarmante relatório da Agência Europeia do Ambiente sobre a situação das zonas costeiras, ou por aqui alguns passos significativos desse relatório) apresenta hoje factores de risco e decréscimos assinaláveis da qualidade de vida. Porém, esvazia-se o interior para que todos os dias aportem mais pessoas ao continuum urbano do litoral, exercendo assim maior pressão sobre estas zonas problemáticas.
Paradoxo também porque sendo a realidade aquela que é, a proposta de Programa Nacional da Política de Ordenamento do Território do mesmo governo que todos os dias fecha mais um pouco do interior, diz nem mais nem menos do que isto:

"A promoção da coesão territorial pressupõe a capacidade de as cidades dinamizarem processos de desenvolvimento regional e assegurarem o acesso generalizado a serviços de interesse geral, incluindo os serviços económicos. Por outro lado, a eficiência das intervenções de desenvolvimento regional depende da forma como as diversas acções se reforcem mutuamente, o que implica a concentração de intervenções tomando a rede de cidades como referência.

Nas áreas de urbanização difusa torna-se necessário estruturar polarizações urbanas que racionalizem as redes de infra-estruturas e equipamentos. Nas áreas de menor desenvolvimento, o reforço das cidades é condição de suporte ao desenvolvimento das actividades económicas e do emprego e de renovação demográfica, social e cultural.

Para além de uma atenção particular ao desenvolvimento das cidades de média dimensão, importa reconhecer o papel dos pequenos centros, sobretudo no desenvolvimento sustentável do espaço rural".


Aprender

Segundo as suas próprias palavras o Primeiro-Ministro aprende com o Presidente da República. O Presidente da República é o mesmo homem de quem um dos ministros da confiança do Primeiro-Ministro dizia há seis meses que uma vez eleito se dedicaria a preparar um golpe de estado constitucional.

Grandes lições tem dado Cavaco, pelos vistos!

Gratidão!...

Segundo notícias de hoje, Scolari renovou por dois anos o seu contrato como seleccionador nacional de futebol.
Com uma cláusula que lhe permite sair, caso Madaíl não seja reeleito Presidente da Federação.
Scolari soube ser grato e Madaíl tem a reeleição garantida.
Nem poderá hesitar na candidatura, face aos riscos que a selecção correria com o abandono de Scolari.
Apesar de muito cansado, como vem afirmando, para realçar o sacrifício!...
Parabéns pelo exemplo de excelente aplicação pessoal da estratégia win, win!...

sexta-feira, 14 de julho de 2006

Não se pode ter tudo!


Nos estudos de investigação, em que utilizamos inquéritos, há necessidade de confiar nas respostas dos inquiridos. Às vezes as coisas não correm lá muito bem, porque as pessoas, mesmo na sua boa-fé, podem falsear os dados. “Dizer” a verdade é mais fácil se o ser em questão for uma bactéria ou um animal. Nos seres humanos as coisas são muito mais complicadas. Senão vejamos: se inquirirmos as pessoas sobre a duração dos seus sonos, acabam por afirmar que dormem mais do que é verdade.
Um estudo recente, em que se utilizaram sensores especiais nos pulsos, veio provar que as pessoas passam, em média, sete horas e meia na cama, mas apenas seis a dormir. Além do mais foram detectadas interessantes diferenças, as mulheres dormem mais do que os homens (embora refiram que dormem menos e procuram mais os médicos por causa de problemas do sono!), os brancos mais do que os negros, e, de acordo com os rendimentos, os mais ricos dormem mais do que os menos ricos, apesar de passarem menos tempo na cama, ou seja, aproveitam melhor o sono. A investigadora ficou particularmente surpreendida com este último achado! Eu não sei porque é ficou surpreendida. O pobre deverá fazer melhor uso do tempo que passa na cama sem dormir, ao passo que os ricos, bom… Não se pode ter tudo, não é verdade?

O verdadeiro Simplex...

Dizem que funcionava como um relógio...

O verdadeiro poder!...


Segundo o Expresso do último fim de semana, o Simplex está atrasado no Ministério da Educação.
Pela simples razão de que, para aplicar o Simplex, é exigida burocracia grossex.
Para pôr fim à obrigatoriedade de passagem pelos Serviços Centrais do Ministério de todos os pedidos de equivalência de habilitações de estudantes estrangeiros que querem prosseguir estudos em Portugal, a burocracia exige nada menos que 40 portarias!...
Segundo o Ministério, em 3 meses, foram já publicadas dez, faltando as 30 restantes!...
O que significa, na melhor das hipóteses, que o processo só acabe lá para meados de 2007!...
Isto, se não voltar tudo à estaca zero!...
A burocracia é um verdadeiro poder que não perde oportunidades: elimina-se por um lado e logo reaparece por outro!...

A frase da semana!...

“…Até parece que as pessoas que fazem crimes são homenageadas…”.
Luís Filipe Vieira, citado por A Bola, num jantar de homenagem.

O jornal de referência benfiquista, A Bola, continua hoje o habitual hino à “instituição” da 2ª Circular e ao seu emérito Presidente. E para além das matérias de fundo, dá notícias que enternecem qualquer adepto vermelho. Começando logo por aquela que ocupa toda a página 9, que refere as medidas dos pés dos jogadores e, por falar em pés, por aquela outra que refere que o Léo removeu parcialmente uma unha encravada do pé esquerdo…
Por curiosidade, o Léo calça 38, bastante abaixo da sapatuda média benfiquista de 42!...
Mas a grande notícia de primeira página e de mais uma quantas é a de que o jogador Vieira fica, logo seguida pela da atribuição da Águia de Ouro ao mesmo jogador, e pela da recandidatura. Ao todo, 9 páginas, por inteiro!...
O jogador Vieira quer ficar no Benfica. Sugeriu a três sócios amigos que convidassem uns tantos outros para um jantar em que o convidassem a ficar. O jantar realizou-se ontem e, por acaso, A Bola soube. E relatou que Vieira ficou surpreso por ver tanta gente convidada, torceu o nariz, ameaçou ir-se embora, só não o fazendo por lhe ter sido muito pedido por um amigo e, no fim, ficou feliz.
Discursaram os convidados/convidantes:
Onde estava o Benfica há meia dúzia de anos? À beira do abismo…Filipe Vieira ganhou o campeonato da credibilidade…”- disse um. E fez um apelo a que ficasse, apesar dos sacrifícios que tem feito. “…Em nome dos benfiquistas, pedimos-lhe para alargar esse sacrifício, em nome da gloriosa história do Benfica…”.
Vieira respondeu dizendo: “…sei o que represento para os benfiquistas, mas por vezes as pessoas têm dificuldade em perceber o que é estar no futebol, onde até parece que as pessoas que fazem crimes são homenageadas…”
Oh! Vieira, não era preciso ir tão longe!...
Ah! E Fernando Seara ofereceu-se para Mandatário.

quinta-feira, 13 de julho de 2006

A realidade virtual!...


Para alguma filosofia, e já desde a Antiguidade, as coisas não são o que são, mas são como nos parecem ou aparecem.
Nos tempos modernos, apareceu uma nova entidade a forçar com que as coisas nos pareçam ou apareçam de determinada maneira. É a Comunicação Social, dando muitas vezes voz aos seus próprios interesses ou a interesses de outros indivíduos ou grupos.
Durante o Mundial, não houve incêndios em Portugal. As atenções das televisões e dos media estavam concentradas naquele evento e não havia nem tempo, nem equipas nem equipamentos para tratar outras realidades.
Era a Comunicação Social a dar voz aos seus próprios interesses.
Os meios estão agora disponíveis, pelo que os fogos já recomeçaram e não tardará a situação oposta de se apresentar um país a arder.
Os media continuarão a dar voz aos seus próprios interesses.
Entretanto, morreram seis pessoas num ataque a um incêndio, cinco deles chilenos. A notícia passou despercebida, aliás a vida de um chileno não é nada que incomode um português…
Os media continuaram a dar voz, agora através do silêncio, a outros interesses, os do Governo.
Durante o campeonato do Mundo, e apesar de o futebol ser um jogo de equipa, só houve destaques, fotografias de primeira página e tempo de antena diário para o Figo, o Ronaldo e, ocasionalmente, o Ricardo.
Não me lembro de o Maniche, seleccionado pelo corpo técnico da FIFA para a selecção ideal, ou o Deco, escolhido como o melhor em campo pela FIFA num dos jogos e pela generalidade da imprensa como o melhor português num outro, serem alvo de qualquer atenção especial ou fotografia colorida de um quarto de meia página.
Os interesses das empresas, dos produtos e da publicidade que se move em redor do Figo e do Ronaldo impuseram-se aos media, obtendo realces diários, qualquer motivo sendo óptimo, jogando bem ou assim, assim...
A Comunicação Social deu voz aos reais e efectivos interesses de terceiros, que se movem na área da produção empresarial e publicitária.
A realidade é meramente virtual. Quem dá as cartas é que a faz!...

A única lição

A ler.
Um excelente artigo de Luciano Amaral no Diário de Notícias de hoje sobre a Guerra Civil de Espanha.

O estado da Nação, no dia 12 de Julho de 2006

Não pude ouvir o debate de ontem.
Quem pode estar mais de 5h. a ouvir todo um debate? Só mesmo os parlamentares, porque é sua tarefa.
Mas confesso que tive pena ter de trabalhar, não puder vir para casa e, no fresco, dedicar-me a ouvir tudo... levantar-me da sala (para ir beber por.ex. um chá bem gelado) quando algumas intervenções aí vinham anunciadas...enfim "simular", em casa , no contraste daquele tórrido ambiente inaceitável do hemiciclo, aquilo que fazem os "ocupantes" de todas as bancadas, de todos os quadrantes!
Não pude, paciência!
Mas, por sorte e porque fiz algum esforço para tal, ouvi uma parte do discurso do 1º Ministro, exactamente aquela parte onde ele fez a "revisão da matéria dada" destes 16 meses de governo ( como o tempo passa!!! ).
E claro que ouvi atenta a "revisão da matéria dada" na área da saúde. onde o 1º Ministro disse com garbo: "nesta área revolucionámos o sector farmacêutico, com o que este governo fez os cidadãos passaram a ficar mais próximos e acessíveis do medicamento".
Fiquei à espera do resto, até porque um jornal de grande tiragem trazia ontem, em primeira página, "Um Milhão de Portugueses sem Médico de Família".
Fiquei à espera da apresentação de alguns resultados comparados sobre gestão de hospitais, aquilo a k os economistas chamam benchmarking, ou sobre as vantagens da transformação de hospitais SA em EPE's.
Fiquei à espera de saber há quanto tempo estão em espera os cidadãos que estão em espera nas listas cirurgicas. O número, de facto, não interessa, é politiquice, sempre estive de acordo com isso, mas o tempo de espera interessa e muito....
Fiquei à espera de saber se a dita "revolução no sector farmacêutico" engloba alguma medida que atente à preocupante crescente despesa com medicamentos que, no sector hospitalar, já vai para lá dos 12% ( mto.longe dos 4% que o ministro negociou com a indústria).
Enfim, na área da saúde, pelo menos, fiquei sem saber o estado da Nação.
Oxalá nas outras áreas se tenha ficado a saber.

quarta-feira, 12 de julho de 2006

"Doença, terror e vida"...


Os problemas éticos relacionados com a saúde têm vindo a aumentar, dia para dia, graças às descobertas e inovações nas áreas da medicina e da biologia. Para evitar maus usos ou descalabros, susceptíveis de por em causa a dignidade humana, os responsáveis têm a obrigação de definir as regras a seguir. Claro que nestes aspectos há sempre os que fazem a sua própria interpretação, sem que isso possa ser considerado como um “desvio” às normas. No final prevalece as opiniões da “maioria”. Afinal, mesmo em assuntos delicados existe uma “ ética democrática”.
Quando se manipula a vida ou se interfere com a sua própria evolução estamos a “mexer” em matérias muito complexas e delicadas que, durante toda a nossa existência, como humanos, era considerada como atributos de forças superiores, divinas. Só que o céu começa a baixar à terra. E, às vezes, o “céu cai mesmo em cima de nós”.
A tentativa de conhecer a existência de uma anomalia que comprometa o futuro de uma criança, ou a utilização de “embriões-medicamentos” para salvar a vida de um filho constitui duas das principais medidas enquadradas no diagnóstico pré implantação. Há os que querem ir mais longe, numa verdadeira selecção genética que, sendo condenável, não tem o aval de médicos conscientes.
A decisão, desde que tenha enquadramento legal, pertence sempre aos pais. É comum, de acordo com as informações prestadas pelos colegas que se dedicam a estas áreas, a tradicional pergunta: - O que é que o senhor doutor faria se estivesse na nossa posição? Sensatamente, os médicos não respondem, porque não podem, nem devem saber. Claro que quando estão do outro lado têm posições e ambições como qualquer outro. É humano!
Num debate sobre estas matérias, rico e esclarecedor, verifiquei que um dos colegas considerava a doença como sinónimo de terrorismo e que deveria ser combatida a qualquer preço, justificando algumas opções. Argumentou a sua posição, reiterando o conceito de terror. Claro que quando adoecemos, de um modo geral, a maioria de nós fica aterrorizado, sobretudo se estamos perante uma doença grave. No entanto, e apesar de comungar algumas das suas posições, senti que não podia aceitar aquela atitude. A razão é muito simples e fez-me recordar um investigador que em tempos afirmou: “A doença é mais antiga do que o homem, é tão antiga como a própria vida, porque é uma atributo da vida”. De facto, a evolução da vida teve de ser feita à custa de compromissos que, curiosamente, estão na base de muitas doenças, inclusive o próprio cancro. Devemos lutar contra as doenças? Claro que sim. Devemos fazer todos os possíveis para a prevenir? Com certeza! Seremos capazes de a eliminar? Provavelmente, não. Quando tal acontecer, se é que isso irá algum dia acontecer, deixaremos de ser humanos e passaremos a ser transhumanos ou qualquer coisa semelhante. Afinal a doença é uma inevitabilidade e temos de viver com ela, porque é, paradoxalmente, essência da própria vida. Mas daí a considerá-la como terrorismo….

terça-feira, 11 de julho de 2006

Isenção de IRS dos Prémios dos Jogadores da Selecção Nacional de Futebol?!...

Terminado o Mundial do nosso contentamento (apesar de tudo…), soube-se hoje que a Federação Portuguesa de Futebol quer isentar do pagamento de IRS o prémio de presença dos jogadores que estiveram na Alemanha, e que ascende a EUR 50 mil.

Esgrimiram-se argumentos do lado da Federação e do lado do Ministério das Finanças (que, naturalmente, está contra). Provavelmente, do ponto de vista formal e legal, assistirá razão, de acordo com os argumentos invocados, a qualquer uma das partes. No entanto, não creio que esta intenção da Federação possa ser analisada sem recorrer ao bom senso.

… E o bom senso, o que nos diz é que, numa altura em que o país passa por dificuldades bem conhecidas de todos, é absolutamente imoral e chocante que a Federação avance com uma proposta destas! Quer dizer, pedem-se sacrifícios a todos – mas aos jogadores de futebol (e ainda por cima tratando-se de estrelas pagas a peso de ouro!...) não; estão isentos de contribuir!!! Mas isto cabe na cabeça de alguém que tenha um mínimo de bom senso?!...

Por isso, neste caso, não posso deixar de estar ao lado do Ministro das Finanças que, espero, não recue, nem seja obrigado a recuar, e faça mesmo com que os jogadores de futebol sejam tributados!

Gostei imenso da prestação da nossa selecção na Alemanha e estou orgulhoso dos nossos jogadores, mas nem que tivessem sido campeões do mundo mudaria a minha posição. Porque se o que a Federação propõe fosse por diante, estaríamos perante um insulto, uma ofensa, uma afronta, a todos os portugueses – a quem são pedidos inúmeros sacrifícios e que devem, por isso, sentir solidariedade da parte daqueles que idolatra.

De elementar sensatez

O senhor ministro da Presidência Pedro Silva Pereira declarou que o Governo não equaciona aceder ao pedido do presidente da Federação Portuguesa de Futebol para que ficassem isentos de impostos julgo que os prémios pecuniários atribuídos aos jogadores da selecção nacional que participaram no campeonato do mundo de futebol na Alemanha.
Atitude de elementar bom-senso, sobretudo por não decair na demagogia fácil de encarecer, e por essa via se associar, ao relativo sucesso da selecção.
Claro que a um ministro se exige que seja mais sensato - nesta ou em qualquer conjuntura - do que um presidente de federação, para quem o dinheiro que falta no país não é problema porque em boa verdade nunca faltou no futebol.
Mas poderia o Sr. Madaíl perceber que existem princípios que não devem ser questionados. Um desses é o da equidade sem o qual não há justiça fiscal, e pior, não haverá consciência colectiva de justiça quanto à imposição de sacrifícios. Sobretudo quando se tratou de propor um benefício para quem tem rendimentos muito acima da média dos portugueses.
E já agora não seria demais exigir a um presidente da federação de futebol que não desconhecesse que num Estado de Direito quem isenta não é o governo a pedido. É a lei segundo critérios gerais. Ao ministro faltou acrescentar este "pequeno" pormenor. Se o fizesse, acrescentaria ao bom-senso um pitada não dispicienda de pedagogia.

Mea culpa

Um dos comentários a esta nota chamou-me a atenção para o facto de a lei já prever a possibilidade de isenção neste caso. Fui verificar e assim é. O artigo 13º nº5 do Código do IRS dispõe o seguinte: "o IRS não incide sobre os prémios atribuídos aos praticantes de alta competição, bem como aos respectivos treinadores, por classificações relevantes obtidas em provas desportivas de elevado prestígio e nível competitivo, como tal reconhecidas pelo Ministro das Finanças e pelo membro do Governo que tutela o desporto, nomeadamente jogos olímpicos, campeonatos do mundo ou campeonatos da Europa, nos termos do Decreto-Lei nº 125/95, de 31 de Maio, e da Portaria nº 953/95, de 4 de Agosto" (estes últimos diplomas entretanto revogados e substituídos por outros que todavia não alteraram o essencial do regime).
Erro meu, as minhas desculpas e agradecimento pela chamada de atenção.
No demais, não retiro uma linha.

Mea culpa - Take 2

Pelos vistos neste campeonato sou eu quem não receberá prémio de jogo...
O José Manuel Constantino repõe em comentário a este post e no seu blog, as coisas nos seus devidos lugares.
Mais um agradecimento.

Ética e responsabilidade social


Segundo dados da Associação Portuguesa de Bancos, citados pelo Diário de Notícias de hoje, os lucros da Banca aumentaram 30% em 2005, atingindo 1,6 mil milhões de euros, contra 1,230 mil milhões de euros em 2004.
É um aumento fantasmagórico, tanto mais que a remuneração dos capitais próprios bancários já é muito elevada e o retorno do capital investido, o famoso ROE (return on equity), fica aquém dos 5 anos.
A Banca portuguesa soube modernizar-se, apresenta altas rentabilidades e elevada produtividade e está na vanguarda da “indústria” a nível mundial, mas tem vindo a demitir-se da função social de uma redistribuição mais justa da riqueza gerada, que cabe a todas as empresas, nomeadamente às mais produtivas e lucrativas.
A parte distribuída pelos trabalhadores vem-se degradando de ano para ano, os clientes vêm pagando cada vez mais pelo serviço prestado e só os accionistas, através dos dividendos, da capitalização bolsista ou do incremento dos “fundamentais” dos Bancos estão largamente a beneficiar da situação.
Este desequilíbrio distributivo não é justo e vai contra princípios mínimos de ética empresarial e de responsabilidade social.

As contas do Ministro Santos Silva

Quando um ministro não é mostrado, a pulsão para se mostrar é quase irresistível. Eis que o senhor ministro dos Assuntos Parlamentares achou que era a sua vez de aparecer, tão discreto todos o julgavam. E vai daí trouxe umas estatísticas segundo as quais ao longo dos quinze meses que leva a legislatura o PS só por sete vezes terá usado a sua maioria para aprovar sozinho propostas de lei do Governo. Contra a vontade de toda a oposição, portanto. Ao todo, exibe o ministro, foram 73 as propostas de lei trazidas pelo Executivo ao Parlamento.
Estes números merecem análise muito mais aprofundada e conclusões de muito mais amplitude do que aquela que interessou ao ministro retirar. Quer pelo que revelam do comportamento das oposições, quer do governo e da maioria que o sustenta. Mas o que convém, no entanto, reparar é na natureza das sete propostas em que o PS não conseguiu qualquer apoio fora da sua obediente bancada. Foram "só" estas: Orçamento Rectificativo de 2005, aumento da taxa máxima de IVA de 19 para 21%, Orçamento do Estado para 2006, Grandes Opções do Plano (2005/2009), redução das férias judiciais, avaliação e desempenho na administração pública e votação final da nova lei do arrendamento urbano.
Coisa pouca, portanto...

segunda-feira, 10 de julho de 2006

The World is Flat

The World is Flat é o título de um livro publicado no ano passado, da autoria de Thomas Friedman, um ensaio fascinante sobre as implicações do processo de globalização. Leitura fortemente recomendada.
Recordei-me deste livro quando há poucos dias soube que a cidade de New York, em especial a ilha de Manhattan, vai remodelar todo o seu “mobiliário urbano”, a saber: paragens de autocarro, outdoors, stands para venda de jornais e revistas, instalações sanitárias, sinais de trânsito, iluminação das ruas, etc.
Trata-se de um projecto que pretende dar à cidade uma nova estética, mais agradável para o transeunte e também mais funcional, que constitui uma das apostas do Mayor Michael Bllomberg, conhecido empresário (e milionário) do sector da comunicação social e do comissário (cá seria vereador) dos transportes, Íris Weinshall.
As novas paragens de autocarro, por exemplo, deverão apresentar uma estrutura mais leve, com uma base de sustentação no solo reduzida ao mínimo de forma a facilitar a limpeza dos passeios.
A estrutura dos novos stands para venda de jornais, revistas, tabaco, chocolates e quejandos, será fornecida pela Ikea, consistindo numa estrutura em alumínio e aço inoxidável, apresentando uma imagem mais feliz e limpa, substituindo os velhos e tradicionais stands em que predominam as madeiras e as cores castanho e verde escuro.
Curiosamente, a empresa que ganhou o concurso para a execução deste projecto de renovação geral do mobiliário urbano de New York é...espanhola.
Trata-se da Cemusa, uma subsidiária do Grupo Fomento Construciones y Contratas, grupo espanhol muito conhecido, um dos maiores do sector da construção civil e obras públicas.
O negócio não fica por aí pois a Cemusa celebra também com o município de New York um contrato de 20 anos para vender espaço publicitário a terceiros, nos outdoors e nas paragens de autocarros, em troca de mil milhões de USD dólares pagos ao município.
É curioso, dá que pensar como é que uma empresa da Península Ibérica foi capaz de ganhar um concurso tão emblemático. Seria impensável há 10 ou 15 anos atrás.
A globalização faz destas coisas, não constando que existam quaisquer queixas por parte de empresas ou associações empresariais americanas pelo facto deste negócio ter sido entregue a uma empresa da “velha Europa”.
E também dá para pensar que este pode ser um campo de negócio promissor para algumas empresas portuguesas, como actividade complementar da construção, seguindo o exemplo deste grupo espanhol.
Esta é de resto uma área de actividade em que muito está por fazer em Portugal.
Todos nós temos por certo experiência das insuficiências na sinalização dos nossos trajectos, tanto urbanos como rurais. E também da insuficiente qualidade da informação que é prestada aos turistas nos locais públicos.
Vamos então aproveitar estas oportunidades da globalização? Neste caso nem o plano tecnológico é necessário, pois parece tratar-se de média tecnologia...

domingo, 9 de julho de 2006

A quota do futebol!...


Terminou o Campeonato do Mundo de Futebol.
A Selecção merece os parabéns.
A mastodôntica organização da FIFA conseguiu mais um enorme êxito financeiro, do qual vai receber um enorme quinhão para a sua superburocrática e rica estrutura.
E, politicamente correcta, vai distribuir umas migalhas por alguns países. Mas do principal irão beneficiar os seus poderosos nababos.
O marketing da FIFA é punjante. E não seria de espantar que, em nome de uma maior difusão do jogo, este fosse um dos últimos Campeonatos jogados só entre homens.
Palpita-me bem que proximamente, e para criar mais público, o número de jogadores aumentará para 12, de modo a comportar 9 homens e e uma quota de 3 mulheres!...
O que, para além de ser politicamente correcto, até pode tornar o futebol bem mais aliciante.
Quanto aos árbitros, que são três, não haverá problemas de proporcionalidade.
Mas quanto ao quaro árbitro!...

sábado, 8 de julho de 2006

Valente historiador!

Quando foi noticiada a abertura do túmulo do rei D. Afonso Henriques fiquei cheio de curiosidade. A atitude da simpática antropóloga iria esclarecer muitas dúvidas acerca do fundador da nacionalidade. Claro que surgiu o tal imprevisto da "falta de comunicação" das entidades responsáveis, que se "esqueceram" de pedir autorização à senhora ministra da cultura. Efeito do simplex? É muito provável! Bom, esperemos que o projecto prossiga e seja esclarecedor.
Claro que estas "coisas" despertam reacções interessantes. Uma delas foi de um deputado monárquico (!), por sinal um homem simpático e meu amigo, que considera estarmos perante uma profanação e só a Assembleia da República é que deveria debruçar-se sobre o assunto. Ora abóbora! Se seguíssemos este raciocínio nunca saberíamos nada do passado de muitas personalidades. Conhecer é um imperativo. Mas a par desta posição, Vasco Pulido Valente fez uma “valente” crónica em que considera a posição da ministra como correcta ao proibir a abertura do túmulo. Na sua análise chama, também, para o seu discurso, D. Sebastião. Diz que "O sebastianismo, essência do nosso próprio ser, esburacado por uma análise de ADN, mata Portugal. A sra. ministra faz bem em não permitir esse desastre. Sem a espada do Conquistador e a esperança da salvação numa manhã de nevoeiro sobra o quê?" Apetece-me responder: - Sobra o Vasquinho e o Pignatelli!
Cara Eugénia vai em frente. Não ligues a estes g... E, já agora, guarda umas amostras de ADN do VPV e do deputado monárquico. Podem ser úteis no futuro. Nunca se sabe!