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domingo, 16 de julho de 2006

A ordem ecológica das coisas

Segundo o Público de ontem, já está em construção na A24, entre Vila Real e Vila Pouca de Aguiar, uma passagem superior para lobos e javalis, de modo poderem “atravessar com segurança a auto-estrada”.
Chama-se um ecoduto e as instalações são de 5 estrelas: 15 metros de largura e barreiras em madeira a ladear as bermas. Em madeira, claro...como o tablier dos carros de luxo!...
Aliás, toda a área envolvente ao ecoduto, “vai ser sujeita a melhoramento paisagístico, sendo plantadas árvores e arbustos, cujo objectivo é minimizar o impacte que a auto-estrada terá na vida dos animais..."
Mas há bichos e bichos. Para os indiferenciados, desprotegidos ou párias, estão a ser construídas sete passagens inferiores, com 12 metros de comprimento e 8 de altura, sem arranjos paisagísticos, sem bermas em madeira e possivelmente menos largos, mais adaptados à menor nobreza dos que lá vão passar.
Obviamente que haverá sinaleiros para regular o trânsito, de modo a impossibitar completamente eventuais ousadias dos membros das estirpes mais baixas utilizarem o ecoduto, com o inerente risco de molestar as castas superiores...
Não foi referido, mas com o ecoduto de Vila Pouca de Aguiar também será construído um Posto Médico, bem como um Gabinete de Acompanhamento Psicológico para os bichos que evidenciem receio de se abalançarem às alturas.
O que, segundo o Instituto da Conservação da Natureza, será estimulante para os nativos, homens e mulheres, dando-lhes a esperança de, contemplados os bichos, chegar a sua vez, na ordem ecológica das coisas.

7 comentários:

JardimdasMargaridas disse...

Dr. Pinho Cardão,

Quanto é que vai custar aos contribuintes toda esta loucura do requinte de vida com que brindamos os nossos bichos?
Tenho impressão que nesta matéria Portugal deve ser o primeiro no ranking!
Ora aqui está uma área em que devemos investir, em que as "vantagens" competitivas são inequívocas.

Acrobat disse...

Os dois bloggers anteriores, Pinho Cardão e jardimdasmargaridas (que se devia chamar jardim da terra queimada por causa da qualidade do post) têm de perceber que já deixámos, à muito, de ser um país de gente burra em que os animais eram só para comer e pouco mais. Leiam umas coisas sobre esta temática e aprendam. Se quiserem terei todo o gosto em indicar uma bibiografia.

Pinho Cardão disse...

Caro Ormigon:
O meu amigo interpreta mal as caricaturas.
Elas exageram os traços, mas o essencial está lá!...
Só que alguns teimam em não querer ver !...
E, por mim, estou sempre disponível para aprender. Venha lá a bibliografia!...

JardimdasMargaridas disse...

Caro Ormigon,
Já percebi que não gosta de caricaturas, muitas vezes a melhor forma de ilustrarmos os exageros de certos actos e comportamentos.
Essa do jardim da terra queimada é verdadeiramente um exagero!
É no que muitas vezes penso que o País se está a tornar, quando por teimosia não somos capazes de encontrar soluções equilibradas que sirvam em simultâneo vários interesses.
Pode crer que já aprendi com o seu post...Mas estou interessada em ler coisas sobre a "temática".
Venha lá a bibliografia!...

Roberto Gorjão disse...

As caricaturas são exageros da realidade. Da forma como esta particular realidade foi "caricaturada" ficamos com a sensação clara de que, na vossa opinião, a culpa é da nossa fauna selvagem ou daqueles que a pretendem defender... quando na verdade a responsabilidade está nos autores dos projectos em questão! A minha opinião mais elaborada em O 4R e a displicência ecológica, no meu próprio blogue.

Pinho Cardão disse...

Caro Roberto Gorjão:
Fui ao seu blog. Verifiquei que o meu amigo critica exactamente o que eu, através da caricatura, critico.
A sua crítica é pertinente; a minha não.
Tudo bem!...
Mas sempre gostava de lhe dizer que fazer juízos através da leitura de dois ou três textos caricaturais é precipitado.
Até porque as caricaturas não têm a leitura directa que o meu amigo parece querer tirar delas.

Roberto Gorjão disse...

Caro Pinho Cardão,

Agradeço a gentileza da sua resposta, quer aqui, quer no meu blogue. Peço também desculpa pelo atraso nesta réplica, mas a vida assim o exigiu.

Fico contente por afinal criticar o que também eu critico. Todavia, tenho então a dizer-lhe que as suas "caricaturas" carecem de nitidez e de precisão, pois, se esta última contém ambiguidade suficiente para poder ser interpretada das duas formas, as anteriores (a que me refiro no meu artigo) foram tão exageradas que foram interpretadas por toda a gente (e não só por mim, como o diz) como críticas de facto à protecção ambiental. E não se tratou de juízos apressados (como também sugeriu), ainda que até isso fosse de alguma forma legítimo, já que a internet em geral e os blogues em particular são lugar de leituras predominantemente rápidas e também isso é preciso ter em conta quando se constroem artigos desta natureza. Atente aos comentários que surgiram, atente à reposta que suscitou do seu colega Ferreira de Almeida, atente nas suas próprias frases, e perceberá que as suas caricaturas, pelo menos neste domínio, erram o alvo – infelizmente! – e que seria interessante reformular a sua maneira de as construir:

"Mas há Governo neste país que possa explicar esta loucura? E temos nós que a suportar? Dá vontade de mandar o Ministério do Ambiente e o fanatismo ambientalista para o meio dos lobos de Vila Pouca, sem estrada para fugirem, que é mesmo o lugar deles!..." – do seu artigo "A ser comidos pelos lobos!..." Diga-me que esta não é uma caricatura que falha o alvo!

Dito isto, tenho de afirmar a minha discordância frontal quando se pretende que a razão do despesismo está nos lobos, dando a entender que a sua preservação é cuidado de lunáticos! – a reacção do seu colega Ferreira de Almeida... Diga-me que sou só eu a interpretar mal as suas caricaturas!

Despeço-me com um link para uma notícia de ontem à noite, no Público: mais " Dois linces morrem atropelados em Espanha no espaço de uma semana"! E morrem porquê? Por que é que esta espécie, o felino mais ameaçado do mundo, viu reduzirem-se os seus efectivos em 80% nos últimos 20 anos? Precisamente porque deixaram de existir "corredores ecológicos" capazes, provocando a "fragmentação do seu habitat" natural! Isso "e a regressão da população de coelho bravo, a sua presa principal".