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quarta-feira, 12 de julho de 2006

"Doença, terror e vida"...


Os problemas éticos relacionados com a saúde têm vindo a aumentar, dia para dia, graças às descobertas e inovações nas áreas da medicina e da biologia. Para evitar maus usos ou descalabros, susceptíveis de por em causa a dignidade humana, os responsáveis têm a obrigação de definir as regras a seguir. Claro que nestes aspectos há sempre os que fazem a sua própria interpretação, sem que isso possa ser considerado como um “desvio” às normas. No final prevalece as opiniões da “maioria”. Afinal, mesmo em assuntos delicados existe uma “ ética democrática”.
Quando se manipula a vida ou se interfere com a sua própria evolução estamos a “mexer” em matérias muito complexas e delicadas que, durante toda a nossa existência, como humanos, era considerada como atributos de forças superiores, divinas. Só que o céu começa a baixar à terra. E, às vezes, o “céu cai mesmo em cima de nós”.
A tentativa de conhecer a existência de uma anomalia que comprometa o futuro de uma criança, ou a utilização de “embriões-medicamentos” para salvar a vida de um filho constitui duas das principais medidas enquadradas no diagnóstico pré implantação. Há os que querem ir mais longe, numa verdadeira selecção genética que, sendo condenável, não tem o aval de médicos conscientes.
A decisão, desde que tenha enquadramento legal, pertence sempre aos pais. É comum, de acordo com as informações prestadas pelos colegas que se dedicam a estas áreas, a tradicional pergunta: - O que é que o senhor doutor faria se estivesse na nossa posição? Sensatamente, os médicos não respondem, porque não podem, nem devem saber. Claro que quando estão do outro lado têm posições e ambições como qualquer outro. É humano!
Num debate sobre estas matérias, rico e esclarecedor, verifiquei que um dos colegas considerava a doença como sinónimo de terrorismo e que deveria ser combatida a qualquer preço, justificando algumas opções. Argumentou a sua posição, reiterando o conceito de terror. Claro que quando adoecemos, de um modo geral, a maioria de nós fica aterrorizado, sobretudo se estamos perante uma doença grave. No entanto, e apesar de comungar algumas das suas posições, senti que não podia aceitar aquela atitude. A razão é muito simples e fez-me recordar um investigador que em tempos afirmou: “A doença é mais antiga do que o homem, é tão antiga como a própria vida, porque é uma atributo da vida”. De facto, a evolução da vida teve de ser feita à custa de compromissos que, curiosamente, estão na base de muitas doenças, inclusive o próprio cancro. Devemos lutar contra as doenças? Claro que sim. Devemos fazer todos os possíveis para a prevenir? Com certeza! Seremos capazes de a eliminar? Provavelmente, não. Quando tal acontecer, se é que isso irá algum dia acontecer, deixaremos de ser humanos e passaremos a ser transhumanos ou qualquer coisa semelhante. Afinal a doença é uma inevitabilidade e temos de viver com ela, porque é, paradoxalmente, essência da própria vida. Mas daí a considerá-la como terrorismo….

4 comentários:

Clara Carneiro disse...

Prof.Massano, para variar...gostei imenso do seu post!
"A doença é um atributo da vida", uma inevitabilidade enquanto formos seres humanos; mas como a investigação não tem parado, o conceito "doença" lá continua, as doenças é que são já outras.
O que há uns anos era doença hoje é cohabitação pacífica!
O que há uns anos se desconhecia ou não existia hoje é a nova doença.
A partir de ontem somos, finalmente, um País que colocou na ordem jurídica aquilo que a ciência já fazia.
A mensagem do Presidente à Assembleia a propósito da promulgação da Lei da PMA é, na minha modesta opinião,um
respeitável pedido de reforço, de
sensibilidade e rigor para a futura legislação complementar e uma grande preocupação com a composição e as condições para que possa funcionar o novo Conselho Nacional de PMA.

Aproveito para lhe pedir o favor de me ligar para o meu nºtelemóvel
pois caiu-me dentro de poço...e perdi toda a informação k estava fora do cartão, um deles era o estimado Prof. Massano!

Anthrax disse...

Sabe professor, eu não percebo nada sobre medicina, biologia e essas coisas todas que o prof. costuma falar, logo jamais estaria em posição de me pronunciar a fundo sobre estas questões.

No entanto, devo confessar que acho que, todas as pessoas que desempenham funções nessas áreas (médicos, cientistas, etc), têm sempre pela frente um desafio brilhante que é; adequar as práticas do seu quotidiano à ética subjacente às mesmas e aos prícipios que os próprios defendem. Digo-lhe, embora esse desafio me pareça muito estimulante, não deve ser um exercício nada fácil.

Digo isto porque, até eu que não percebo nada disso, tenho dúvidas quanto à adopção de uma posição clara sobre as questões da "clonagem" por exemplo. Isto porque se colocarmos a questão a um nível prático (muito básico), eu podia dizer que sou a favor da clonagem de órgãos por exemplo. Permite salvar vidas, logo isso é muito positivo. Assim, se é possível fazê-lo e se é positivo, então deve ser permitido e deve ser feito.

Por outro lado, se a reprodução de órgãos, através da clonagem, é positiva e deve ser permitida, porque é que a reprodução de algo maior tem uma conotação tão errada? O princípio é o mesmo ainda que o resultado final seja diferente.

Pergunto-me se esta coisa toda não terá mais a ver com a avaliação do resultado do que, propriamente, com a aplicação do princípio.

A propósito disto, lembrei-me agora das experiências feitas durante a 2ª Guerra Mundial. Será legítimo ou não utilizar os resultados obtidos nessas experiências? Sinceramente, de um modo muito pragmático, penso que sim. Querendo ou não, moral ou imoralmente, as experiências foram feitas e produziram resultados. Não utilizá-los seria voltar à estaca zero, ignorar o sofrimento das "cobaias", e causar mais sofrimento a quem podia beneficiar desses resultados. É claro que nesta época a democracia não abundava por aquelas bandas e as "cobaias" não tinham voto na matéria.

Agora, de certo modo, as coisas são diferentes. Mas será que realmente é errado condenar alguém que OPTE por uma selecção genética? É quase a mesma coisa que condenar alguém que opte por ir ao ginásio todos os dias. Em ambos os casos, de uma maneira ou de outra, o objectivo é a busca pela perfeição. A própria sociedade incentiva a busca pela perfeição e penaliza, seriamente, os imperfeitos. Não vou ao ponto de dizer que não há lugar para os imperfeitos, mas de facto os imperfeitos são socialmente penalizados. Assim, torna-se díficil condenar alguém que queira assegurar que isso não aconteça aos seus.

É... não deve ser nada fácil enfrentar este desafio.

Massano Cardoso disse...

Querida Clara.
A lançar telemóveis a poços! Ao que chegámos!


Pois é Antrhax! Ser-se inteligente é colocar certas perguntas e embaraçar o parceiro.
Há três aspectos nos seus comentários que eu irei procurar analisar. Sou a favor da transferência nuclear somática, vulgo clonagem terapêutica, com o intuito de resolver certos problemas de saúde. É totalmente diferente “reparar” ou “substituir” um órgão ou tecido de uma “reparação total”, eventualmente feita através da clonagem reprodutiva. Neste último caso, o produto final nunca seria igual ao original, quer porque a própria biologia é condicionada por factores ambientais, quer pela própria educação e vivências familiar, cultural e social. Ou seja, em termos práticos, nunca seria possível criar alguém igual ou mesmo idêntico. A personalidade de um indivíduo é extraordinariamente complexa e é o resultado de inúmeros factores, muitos dos quais irrepetíveis.
Quanto aos resultados das experiências efectuadas durante o regime nazi, existe um “acordo” entre os cientistas para não serem utilizadas. Os argumentos são vários: respeito pelas próprias vítimas, não serem “cúmplices” a posteriori dos criminosos, além de que a grande maioria, senão, mesmo a totalidade estão enfermadas de erros de vária natureza. Pessoalmente, sou de opinião de que não deverão ser utilizados. Além do mais, a ciência evoluiu tanto nas últimas décadas que muitas das perguntas formuladas pelos Mengels da altura já têm resposta, através de processos legítimos e eticamente irrepreensíveis. Sei, no entanto, que existe uma corrente a favor da sua utilização. Curiosamente, os mentores são ainda alguns sobreviventes dessas tenebrosas experiências e seus familiares, que querem mostrar ou “dar” ao mundo o conhecimento obtido através dos mesmos. Compreendo-os, mas as suas memórias estarão sempre vivas entre nós, independentemente do seu uso ou não.
Quanto ao terceiro ponto, e último, prende-se com a perfeição. Sabe, tenho uma máxima a este propósito: desconfio dos perfeitos e da perfeição. Diz que a sociedade penaliza os imperfeitos. Nem todos. Aliás a imperfeição é muito relativa. Quantos e quantos são dismórficos, inválidos ou portadores de graves doenças e mesmo assim abrilhantam o nosso universo quer da arte quer da ciência? Inúmeros. Há os que têm “só” cabeça, caso de Stephen Hawkins que só se ouve a si próprio, outros são dismórficos, caso de Toulouse Lautrec, ou doentes mentais, caso de Van Gogh, para citar alguns, são mais “perfeitos” e produzem mais beleza e conhecimento que qualquer outro mortal. Agora, se podermos corrigir e evitar algumas situações, porque não? O mundo é cruel ao impor as suas regras e um ser humano prefere que um seu disponha de meios ou atributos que o melhor defenda dos predadores da sociedade. O problema não está na imperfeição mas sim nos predadores “perfeitos”.
Vá lá, imperfeição q.b. é indispensável à nossa condição humana. Pela minha parte vou dando algum contributo…

Anthrax disse...

Tá a ver onde reside a parte brilhante do vosso desafio? :)) Por muitas respostas que se consiga encontrar, há sempre mais perguntas que se levantam e isso é simplesmente genial.

No meio deste processo todo, só não consegui, ainda, descobrir o que é que acho mais interessante. Se a resposta em si, ou a busca da mesma. Mas um dia destes chego lá.

Não sabia da existência desse acordo relativo à utilização dos resultados obtidos nessas experiências. Se me perguntar se acho bem que exista, acho bem e compreendo os termos da "convenção". Mas não me chocaria nada se não existisse. No entanto, havendo, como diria alguém: «Pacta Sund Servanda».

Ainda no que respeita à questão da perfeição, não existe em termos absolutos, mas se existisse devia ser muito aborrecida.

Quanto à imperfeição, é claro que é relativa mas eu não falei na imperfeição em termos de conceito, falei nos imperfeitos, os alvos predilectos dos predadores "perfeitos". A mãe-natureza é uma coisa tramada e o Darwin tinha razão.