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domingo, 16 de julho de 2006

Dia para recordar Florbela Espanca

Paisagem Alentejana de Manuel Faia


Árvores do Alentejo


Horas mortas... Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a benção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
- Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!

3 comentários:

JardimdasMargaridas disse...

Caro José Mário,
Lindíssima combinação da natureza, pintura e poesia...
Muito bom gosto e sensibilidade também.

A recordar Florbela Espanca escolhi "Eu":

Até agora eu não me conhecia.
Julgava que era Eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte e como o dia.

Mas que eu não era eu não o sabia
E, mesmo que o soubesse, não o dissera...
Olhos fitos em rútila quimera
Andava atrás de mim... e não me via!

Andava a procurar-me - pobre louca! -
E achei o meu olhar no teu olhar,
E a minha boca sobre a tua boca!

E esta ânsia de viver, que nada acalma,
É a chama da tua alma a esbrasear

António Viriato disse...

Boa ideia, esta, de evocar a malograda Florbela, uma sensibilidade torturada pela rudeza do tempo em que viveu, uma voz dramática, desesperada, arrancando gritos lancinantes lá daquele Alentejo profundo, já então desesperado. Com este calor de braseiro, todo o País se vai assemelhando a um Alentejo, saturado de falsa esperança, de demagogia desatada, sedento de, num futuro que se alonga por contínuo, encontrar a sua avara fonte de água fresca. Só aos Poetas de eleição se louva o desespero que exprimem por si e pelos outros, porque, afinal, ser Poeta é ser mais alto, é ser maior do que os homens...

Anónimo disse...

Não menos belos os vossos poemas, caros amigos.