segunda-feira, 13 de Abril de 2009

Deus escreveu a Darwin?

Sempre me disseram que eu não devia ler cartas de outras pessoas. Constitui uma falta de educação e pode ser mesmo um crime, se houver intenção de violar a correspondência. Não foi o que aconteceu com uma carta que eu tive a oportunidade de ler. Vinha num livro, cujo título era o da carta, “O que Darwin escreveu a Deus”. Esta missiva, conjuntamente com muitas outras, nunca chegaram ao destino, pelo menos é o que diz o seu autor, José Jorge Letria. Como comprei o livro, li todas as cartas, e que cartas meu Deus! Verdadeiras preciosidades. Mas, o meu objetivo é falar da carta que Darwin escreveu a Deus. Depois de alguns considerandos sobre se devia ou não escrever a carta, e ter explicado as razões porque escreveu a obra, resultante de “um apurado trabalho de pesquisa e reflexão”, embora tivesse consciência do impacto das suas reflexões, o autor queixa-se: “Fui ferozmente atacado, e até caluniado, pelos defensores da teoria criacionista, que nunca compreenderam corretamente os pressupostos em que assentava a minha inovadora teoria criadora.
O resto, Senhor, é do Vosso conhecimento, pois nada existe debaixo dos céus imensos que Vos escape”.
Continua a interessante carta, argumentando que “nunca teve como objetivo leviano por em causa a existência de Deus”, mas revela que sente um verdadeiro “temor de que com o passar dos anos, por razões de índole puramente religiosa e metafísica, volte a fazer-se ouvir, de forma estridente e aguerrida, a voz dos criacionistas, que para mim, será sempre irracional e contranatura”.
No dia 11 de Abril deste ano, D. José Policarpo proferiu uma interessante homília que vale a pena ler. No ano em que se comemora os 200 anos do seu nascimento e os 150 anos da sua principal obra, o Cardeal-patriarca de Lisboa teceu comentários sobre Darwin, entre os quais destaco as seguintes passagens: “...Responder a Darwin a partir de uma leitura do texto do Génesis, interpretado como descrição factual do modo como as coisas aconteceram, é confirmar a leitura que ele fez do texto bíblico. Enfermaram dessa deficiente leitura, não só muitas respostas da teologia católica ao longo destes 150 anos, mas também muitos dos atuais movimentos chamados criacionistas.
Apesar das já referidas dificuldades que a teoria de Darwin pôs à compreensão cristã da origem da vida e do universo, a Igreja não a pode recusar liminarmente. Nem parece suficiente distinguir os campos da ciência e da fé, aprofundada pela Teologia, como universos tão diferentes, que não se encontram. A Igreja não pode abdicar de um diálogo com a ciência e de uma possível convergência na busca da verdade”.
Uma posição muito interessante que, vinda de uma alta figura da Igreja, me leva a questionar se, afinal, a carta não terá chegado mesmo ao seu destino? Às tantas chegou e esta é a primeira das respostas...

12 comentários:

Bartolomeu disse...

Caríssimo Professor Massano Cardoso, não lhe parece que a única convergência, ou a convergência que se impõe, seja encontrada num compromisso entre a igreja e a ciência, deva ser acima de tudo, o entendimento dos tempos e das sociedades actuais?
Na verdade, a meu ver, os ensinamentos e o modelo da vida de Cristo, continuam actuais e continuam a ser a "escapatória" para os problemas e a edificação de um modelo de sociedade que se deseja equilibrado, cooperante e bom.
A questão da ressurreição, que a igreja assinala com tanto ênfase, não me parece mínimamente importante no panorama da "requalificação" social.
Parece-me sim, ou aliás, estou certo que, é incomparávelmente mais importante como modelo e como exemplo, aquilo que Cristo experienciou e doutrinou enquanto viveu entre os homens, fosse Ele ou não filho de Deus.
Afinal, ele frisou repetidas vezes (pode ler-se no evangelho) que é nosso irmão logo...

Tonibler disse...

Sendo, claro, um progresso face à atitude normal da igreja, que seria matar o máximo de descrentes possível (felizmente, nos últimos tempos, essa possibilidade lhes foi negada pelo resto da sociedade), parece-me ainda descabida a hipótese de "diálogo", sabendo o que a palavra significa na boca de um cardeal da igreja. Além do mais, há 150 anos de ciência em cima da Teoria da Evolução que os criacionistas insistem a ignorar que fazem essas palavras roçar o absurdo.

PS: O corrector automático do meu browser da erro em "criacionistas". Haja alguma coisa que funcione...

JM Ferreira de Almeida disse...

Mesmo muito interessante a homilia de D. José Policarpo. Sobretudo de uma notável clarividência.

Pinho Cardão disse...

D.José Policarpo limitou-se a dizer o óbvio.
E tão fundamentalistas me parecem os "criacionistas" os que lêem a passagem da Bíblia, escrita há milhares de anos, no sentido literal, para atacar a ciência, como aqueles "cientistas" que também lêem a Bíblia no sentido literal para atacar a religião.
Religião e ciência são coisas distintas, mas coexistentes e não contraditórias. Nenhuma deve invadir o domínio da outra. A religião não deve deve, nem pode, contestar a ciência, é realidade que vale por si, assim como a ciência não deve, nem pode, contestar as religiões. Não precisam uma da outra para se desenvolverem. Mas é saudável e proveitoso que interajam, pois daí resulta progresso.
Assim, se o que disse D.José Policarpo é novidade, muito mal estamos em matéria de abertura de espírito e de desenvolvimento cultural. E, se é assim, o que foi dito pelo Cardeal Patriarca devia ser repetido à saciedade para todos entenderem.

Olhar disse...

Só há um “contra” em toda essa argumentação de D. José Policarpo: e se afinal Deus não existe ?
Cordialmente

Olhar Ateu

Bartolomeu disse...

Caro Olhar, existira o Homem, se Deus não existisse?!

Olhar disse...

Caro Bartolomeu : melhor do que eu Richard Dawkins responde-lhe à questão.
Cordialmente

Olhar Ateu

Pinho Cardão disse...

Caro Olhar:
A existência de Deus não tem prova científica, assim como a não existência de Deus também não se prova cientificamente.
Deus é do domínio da fé, não da ciência. Há cientistas e homens que crêem e há cientistas e homens que não crêem.
Então e se Deus não existisse, pergunta? A questão não tem nada a ver com a narração literal bíblica. A existência de Deus não retira o carácter datado da narrativa da criação do mundo. E a não existência de Deus também não retira à narração esse carácter datado. Pelo que a questão não tem, a meu ver, qualquer pertinência.
Aliás, narrativas semelhantes de criação do mundo aparecem noutras "bíblias" de religiões diferentes e de populações afastadas. Era a explicação do momento para o universo que estava perante a humanidade.

Olhar Ateu disse...

Caro Pinho Cardão

Como muito bem diz "Era a explicação do momento para o universo que estava perante a humanidade."
E daí a minha interrogação, no sentido de que utilizando-se a lógica e a razão que esta civilização adquiriu, bem mais avançada do que nos tempos de Cristo, se faça uma re-interpretação de muitas das questões em que a Bíblia é fértil à luz desses nossos novos conhecimentos. Talvez algumas das interpretações cristãs que a Igreja católica por tradição mantêm e por tradição justifica, mas até agora inquestionáveis, afinal já não façam sentido de existir.
E admiti-lo só faria bem, como de resto assinala no seu post.: " ...e esta é a primeira das respostas...".
Cordialmente

Olhar Ateu

Salvador Massano Cardoso disse...

Caro Olhar

o post é meu e não do Pinho Cardão. Fui eu que terminei com a frase: " ...e esta é a primeira das respostas...".
Já agora aproveito para dizer que estou à espera de mais... "se Deus quiser", como é habitual dizer-se entre nós!

Olhar Ateu disse...

Caros Salvador Massano Cardoso e Pinho Cardão

Upppsss ! Mil desculpas pelo lapso ! "Errare humanum es".
Apesar de não ser este blog a minha "casa", não deixa de ser um local de "peregrinação" obrigatória.
"se Deus quizer" desenvolvo os temas religiosos, directos ou indirectos, no meu blog. :-)
Cordialmente

Bela disse...

(At 16:26, Olhar said...
Só há um “contra” em toda essa argumentação de D. José Policarpo: e se afinal Deus não existe ?
Cordialmente

Olhar Ateu)
Achei muito interessante a dúvida.

Mas vamos apenas pela matemática:
. Deus não existe - eu não ganho nada com isso o Sr. também não.
. Deus existe - o Sr. não ganha nada com isso eu ganho a salvação.

Quem estuda ciência sabe perfeitamente que ainda há muito por responder na teoria evolucionista, assim como na criacionista(embora na ultima exista a fé).

A probabilidade de o ser humano ter sido criado ao acaso é tanta como a de eu atirar ao ar todas as peças desmontadas de um relógio e ao cair no chão elas encaixem exactamente no sítio respectivo e o relógio fique a funcionar.

Não é impossível, mas...

Será que se eu lhe oferecer um pouco de cal, água, minerais, gordura, vitaminas e pouco mais , o Sr. consegue produzir um ser humano?!
Então se a ver , e com toda a ciência e tecnologia disponível, ainda ninguém foi capaz, como é possível que no corpo de uma mulher, sem esta ter a mínima formação para tal, sem controlo algum desta, se cria um ser humano com todas as capacidades que este possui.

Magnifico não...

http://blasfemias.net/