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terça-feira, 5 de julho de 2016

Gente independente



Foi a primeira vez que ele olhou para dentro do labirinto da alma humana. Estava muito longe de o compreender. Mas mais importante que isso: partilhava com ela.(...) Pois a compreensão do desamparo da alma, do conflito entre os dois pólos não é a fonte da canção suprema. A empatia é a  fonte da canção suprema.” Halldór Laxness, Gente Independente

No meio de tantas desgraças que os telejornais noticiam, e que nos consomem os dias e a esperança, brilhou hoje uma imagem espectacular de júbilo genuíno e força de um povo: os islandeses todos juntos, uma massa imensa, imensa, a receber a sua selecção de futebol, regressada da grande aventura que os levou aos quartos de final. Já antes os adeptos islandeses se tinham mostrado incondicionais, orgulhosos, sem mas, sem ses, sem reservas, atrás da sua equipa como se fossem milhões, cantando e celebrando cada jogo mesmo que fosse o último.
Já vimos muitas imagens de multidões aos gritos, celebrando vitórias, mas esta tem qualquer coisa de diferente, uma espécie de alma profunda, de êxtase, de hino à sua existência e à sua força, de que os outros não fazem parte.
Leio os jornais e falam que, "apesar da goleada" e "vergados ao peso da derrota", foram recebidos "como heróis". Não compreendem, por cá é sempre a angústia, o medo da desilusão que não nos deixa viver cada momento com toda a alegria que encerra, cada promessa só se cumpre na promessa seguinte e depois, depois, falta sempre qualquer coisa, amargamos o travo do que poderia ter sido e nem chegamos a provar o gosto do que realmente foi. Que contraste! Os islandeses, povo sofrido numa natureza bela e madrasta, sabem que cada momento bom é uma conquista árdua, uma dádiva soberba que não pode ser desperdiçada.
Talvez lendo o magnífico livro do prémio Nobel islandês Halldór Laxness, " Gente Independente", ou o também fantástico "Arde o Musgo Cinzento", de Thor Vilhjálmsson, se possa entender a força impressionante daquele hino gutural, quase místico, que celebra a solidão ancestral da luta constante pela sobrevivência e a glória de, contra todas as probabilidades, se sentirem vivos e fortes. Unidos.

10 comentários:

Pinho Cardão disse...

Belo, cara Suzana!
E nós, com todas as probabilidades a favor, fracos e desunidos...

Suzana Toscano disse...

Pois é, caro Pinho Cardão, há poucos dias, depois de passarmos às meias finais, um programa da rádio tinha o seguinte tema: "como é que chegámos aqui sem ter ganho uma única vez durante o tempo regulamentar dos jogos?"Ou seja, não contam as vitórias por penalty nem o golo no prolongamento, o que nós queremos mesmo é ganhar no tempo "regulamentar",assim é que era bom.Também achamos que o Ronaldo é pretensioso, bem pago e não joga nada, ou então é a equipa que está desorientada e não lhe faz chegar a bola, enfim, é tudo sorte ou demérito dos outros, e depois ficamos a roer as unhas a ver se "passamos", sem merecer, claro, à etapa seguinte.Somos assim, avaros de elogios e pouco dados a reconhecer o mérito, mesmo com os melhores resultados (que, claro, nunca esperámos obter!)É sina.

João Pires da Cruz disse...

A Gabriela Canavilhas viu esta fotografia? Isto é o triplo da manifestação da FENPROF, devem ser uns 3 milhões de pessoas!!!

Sobre o tema, recordava que o Scolari conseguiu o mesmo dos portugueses e, saindo do futebol, recordava o campeonato do mundo de Rugby em França onde as imagens dos portugueses correram o mundo quando perderam com a N. Zelândia por dezenas de pontos. O nosso problema é dar-se demasiada importância aos "dejectos" que acham que as conquistas do outros são as deles e as derrotas envergonham quem não mexe uma palha. Mas isto não é um país pobre por acaso, é porque merece.

Bartolomeu disse...

Eu não sei, cara Dra. Suzana se a expressão maciça de efusiva alegria, demonstrada pelos Islandeses, se deve exclusivamente á batalha desportiva travada e não vencida, se á desistência das negociações com vista á entrada para a União Europeia.
Diz bem, aqueles Vikings possuem um orgulho mastodôntico e perceberam que, apesar da luta titânica para manterem a sua qualidade de vida, preferem enfrentar com coragem e espírito de equipe as dificuldades, a ter de se sujeitar a coleiras estranguladoras.
Não sei até, se nos seus ancestrais conselhos, em redor de fogueiras, no meio dos bosques ou no alto de uma arriba, quando evocam o espírito dos ancestrais, algum deles não os terá advertido: Vikings!!! Atentem no exemplo daquele povo navegador como vós, conquistador como vós, comerciante como vós, quis viver de subsídios e agora está entalado entre multas externas e discussões internas sobre quem fez e não fez, sobre quem devia ter feito e não fez, sobre quem fez mal e quem consegue fazer melhor.
Vikings!!! Continuem a vender-lhes o bacalhauzinho, mantenham a vossa cultura e nunca se deixem embalar pelo canto da Europa... Unida.

Suzana Toscano disse...

Sim, sim, caro João Pires da Cruz, por esse critério são 3 milhões bem contados, cada islandês vale por 3 e picos. Quanto ao resto, também estou de acordo, será sina mas merecida.
Caro bartolomeu, sobre isso também o Prémio Nobel (1955) dizia no livro que acima cito, a propósito do que acontecia na Islândia em meados do sec. passado:
"(...) acontece que tinha pouco sentido oferecer a homens pobres um subsídio do fundo nacional para comprarem tractores e maquinaria moderna. Ou um empréstimo a quarenta anos para construírem uma casa com paredes duplas em betão com todas as comodidades, linóleo e luz eléctrica.(...) Ou perdões de grandes dívidas enquanto são forçados a trabalhar dezassete a dezoito horas por dia para poderem acumular dívidas alimentares cada vez mais altas. Pois não tem sentido nenhum oferecer condições vantajosas a ninguém excepto aos ricos, os homens ricos são os únicos que podem aceitar condições vantajosas. Ser pobre é exactamente aquele peculiar estado do homem de não poder desfrutar das condições excepcionais. Ser um agricultor pobre consiste em nunca poder tirar proveito das vantagens que os políticos oferecem ou prometem, e estar à mercê dos ideais que apenas fazem os ricos mais ricos e os pobres mais pobres.”

Bartolomeu disse...

Ilhéus, cara Dra. Suzana, Ilhéus.
Gente tenaz e audaz, gente com uma consciência muito concreta da sua realidade e daquilo que são capazes.
Mas sobretudo, gente que cultiva a cultura na sua forma mais genuína, que os torna mais próximos, unidos e conscientes dos seus valores.
Daí a comemoração gigantesca, a receção á sua seleção que apesar de ter saído do campeonato, foi consistente e causou admiração pela forma como disputou os jogos.

Diogo disse...

Julgo que nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Os islandeses até há bem pouco tempo era invariavelmente os bombos da festa em qualquer torneio de futebol onde entrassem. Daí a espantosa proeza da sua prestação neste Europeu (algum trabalho de fundo deve ter começado a ser feito).

Se a coisa pretende ser um hino aos nórdicos, relembremos que a única outra equipa nórdica a ir à fase final final foi a Suécia (que empatou com a Irlanda e perdeu com a Itália e a Bélgica, não indo ao quartos de final). Dinamarca, Noruega, Finlândia e os outros países bálticos nem puseram lá os pés.

Quanto a Portugal, como tantos outros (incluindo alguns dos principais favoritos) tem tido uma prestação assim, assim. Em minha opinião temos um treinador medroso que, mesmo sabendo que tem uma equipa melhor, não arrisca atacar (para não perder) e prefere ir a prolongamentos e a penáltis (ou seja, moeda ao ar).

Não há muito mais ilações a tirar disto - nem futebolísticas nem políticas...

Suzana Toscano disse...

Caro Bartolomeu, será de serem ilhéus, alguma influência terá, além disso vivem congelados a maior parte do ano, têm muita energia para expandir :)
Caro Diogo, um hino aos nórdicos nem me ocorreu, foi só mesmo a esta explosão de alegria sem reservas. Não percebo absolutamente nada de futebol, nem nunca tinha ouvido falar sequer que houvesse, por exemplo, uma equipa do País de Gales, vamos ver como serão recebidos os últimos resistentes que chegaram até às meias finais. Também não sei se a nossa equipa jogou bem ou excelentemente ou assim assim, em qualquer caso acho que merecem todo o louvor, dada a importância que o futebol tem para Portugal.

Ilustre Mandatário do Réu disse...

Vi agora mesmo o filme no Guardian. Obrigado, nem sequer sabia. Cumprimentos, IMdR

Suzana Toscano disse...

Ainda bem que viu, caro Mandatário do Réu , vale bem a pena! Cumprimentos.