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sexta-feira, 1 de julho de 2016

Vidas suspensas

Hoje voltei a ouvi-la e não pude deixar de pensar no significado daquela frase de comum proferida pelos juízes: "Pode ir à sua vida!". 
Era assim que os magistrados se despediam do réu absolvido (ou condenado a pena que não o privava da liberdade). Mas era também assim que se despachavam as testemunhas que se apresentavam a colaborar com a justiça, reclamada não para elas mas para outrem ou no interesse geral da comunidade. 
"Pode ir à sua vida!"
Sem que magistrados e advogados disso tivessem consciência, a expressão, dita quase sempre num tom misto de magnanimidade e condescendência, fazia absoluto sentido e todos os intervenientes na sala de audiências agiam em conformidade com o que ela pressupunha: até o juiz ditar o direito aplicável à situação do réu ou até dispensar a testemunha, as respetivas vidas encontravam-se suspensas de uma decisão pretoriana. Estavam ali à disposição do tribunal, em nome de um interesse superior que se sobrepunha às conveniências ou necessidades pessoais. Era como se, dentro do tribunal, a vida deixasse de ser daquelas personagens para passar a ser do Estado que as requisitou e por uns tempos as capturou em nome de uma justiça a fazer. Enquanto não pudessem ir à sua vida, eram tratadas em conformidade, fazendo-se-lhes ver que, estando ali, a vida só seria restituída no momento em que o juiz assim o determinasse.
Não caiu em desuso a expressão, é no entanto mais raro ouvi-la. Continua a ser frequente senti-la. Mas só nos tribunais do Estado pois nos tribunais dos media, povoados pelos novos Torquemadas, ou nos pelourinhos das redes sociais, raramente se devolvem vidas suspensas ou se reparam as que se esfrangalham impiedosamente.

5 comentários:

Bartolomeu disse...

Vidas suspensas, começa a ser um lugar-comum para cada cidadão português.
A indefinição, o absurdo, o paradoxo, a irrealidade, a irresponsabilidade, o deturpe, a negligência tornaram-se vulgares e aceites como banalidades a que ninguém atribui qualquer valor.
A ética, a honestidade, o caráter, os princípios, passaram a ser vistos como uma doença perigosa e letal.
Isto faz com que, tal como assinala a Dra. Margarida Aguiar no post anterior, a comunicação social, pesem embora abusos especulações e deturpes, desempenhem um papel importante nesta sociedade, descobrindo, investigando e denunciando publicamente atos que sem esse trabalho, nunca chegariam ao conhecimento público, e dificilmente seriam alvos de processos judiciais e de julgamento.
Atos esses, cujos autores, ajudados por hábeis advogados Como o que hoje ouvimos declarar perante as câmaras de televisão, que o inocente diretor do museu da presidência se limitou a comprar a um individuo, objetos que a presidência lhe terá vendido, por já não precisar deles.
Ou seja, o Dr. Diogo Gaspar, Diretor do Museu da Presidência, está a ser ouvido pelo juiz, acusado de vários crimes de peculato, abuso de poder, desvio de objetos de arte, falsificação de documentos, benefício de firmas fornecedoras, quando afinal se limitou a comprar a um Senhor, umas cadeiras velhas e umas mesas partidas. Ora Senhores investigadores da polícia judiciária... "Podem ir à vossa vida!".

Alberto Sampaio disse...

Caro Bartolomeu,
"A ética, a honestidade, o caráter, os princípios, passaram a ser vistos como uma doença perigosa e letal."

tem toda a razão!

Acrescento que no dias de hoje uma grande parte da população com mais formação (em geral relativamente jovem) conhece muito bem todos os seus direitos,, que exige, na mesma medida em que desconhece ou ignora os seus direitos e deveres.

Julgo haver aqui um paralelo com a UE, em que muitos de nós exigimos que nos dê, que sirva para dar, sem termos de retribuir, como se houvesse uma fonte caudal abundante inesgotável do outro lado. A torneira não é inesgotável em abundância e o outro lado também é o nosso lado.

Bartolomeu disse...

A realidade é essa, caro Alberto Sampaio. No entanto, ignora-la e até contradizê-la é um pregão de que muitos se servem e, que muito lhes serve.

Suzana Toscano disse...

Muito interessante esta reflexão, caro Zé Mário, o direito de "interromper" a vida dos outros ou, melhor de "irromper" pela vida dos outros implica um interesse maior da comunidade, a prestação de contas ou o dever de colaborar com quem tem a missão de apurar a verdade, punir ou ilibar. Mas há muito hoje quem se arrogue o direito de "investigar", "suspeitar" e, claro" julgar", sem a contrapartida de agir de acordo com o poder e a responsabilidade que se arroga. É sempre bom lembrar o profundo significado de uma frase tão simples como a que aqui nos traz.

Alberto Sampaio disse...

Correcção: "direitos e deveres" para "obrigações e deveres" Que lapso...imperdoável :-)