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quinta-feira, 3 de julho de 2014

Irlanda segue em frente...e que contraste!

1. Em evidente contraste com a vozearia oca que somos obrigados a suportar em Portugal, diariamente e até à saciedade – à qual, para espanto meu, é reconhecido estatuto de iluminação pública das nossas pobres mentes - insistindo na irreversibilidade da crise e na necessidade de mais e mais despesa do Estado como se estivesse aí a solução dos problemas por que temos passado em vez da sua causa (!!!)...

2. ...a Irlanda segue em frente, prescindindo do contributo desse sistema de iluminação pública e sem fazer ruído, tendo registado no 1º trimestre de 2014 um desempenho económico notável: um crescimento do PIB de 2,7% em cadeia e de 5,1% em termos homólogos.

3. Esse desempenho ficou a dever-se ao forte crescimento das exportações, que registaram neste período uma variação de + 7,2%, ao mesmo tempo que as importações registaram abrandamento.

4. No tocante às contas públicas, a informação disponível mostra que a Irlanda será capaz de cumprir o objectivo para o défice no corrente ano, que consiste em não exceder 4,8% do PIB (foi de 7,2% em 2013, convém recordar) – mas escusado será dizer que para esta previsão conta, e bastante, o desempenho da economia superior ao esperado.

5. Não surpreende, pois, que a taxa de juro implícita na cotação da dívida pública irlandesa ao prazo de 10 anos se situe actualmente em cerca de 2,36%, ou seja 120 pontos base (pb) abaixo da taxa equivalente para a dívida portuguesa, cerca de 50 pb abaixo da dívida italiana e 30 pb abaixo da dívida espanhola...

6. ...e que na Irlanda o pós-Troika tenha sido encarado com toda a tranquilidade, sem necessidade, como cá sucedeu, de dezenas de altas individualidades virem a terreiro emitir o seu veredicto a propósito de tal transição, não poucas ou quase todas recomendando, solenemente, o famoso Programa Cautelar (quem ainda se recorda?).

7. E, que eu saiba, não surgiu na Irlanda nenhum movimento de altas notabilidades, que entre nós deu que falar, recomendando uma operação de reestruturação da dívida pública com a qual todos teríamos muito a ganhar, obviamente, com juros bem mais altos e enorme dificuldade em aceder aos mercados!

8. Que contraste!



8 comentários:

João Pires da Cruz disse...

A Irlanda, apesar de todas as suas características complicadas e do seu passado substancialmente muito mais complicado que o nosso, soube enterrar os fantasmas do passado para seguir em frente. Nós continuamos com palermices de compromissos para o futuro, conselhos de estado com os obreiros da falência para decidir o pós-troika (alguém avisou Belém que 2014 é depois de 1974? Há muita confusão por aquelas cabeças...), etc.

Os irlandeses não têm para lá costas, seguros e cavacos? Têm, às carradas. Mas têm-nos em sítios onde não atrapalham...E essa é a diferença fundamental.

Bartolomeu disse...

Começando pelo fim:
Não existe comparação possível entre as hipóteses de recuperação da economia Irlandesa e da portuguesa.
Sabe por ventura o estimado Dr. Tavares Moreira que a República da Irlanda possui nas suas costas (mares) reservas de petróleo?
Bom, na verdade estou a faltar à verdade; Portugal também possui petróleo... em Sines e... no Beato. Sabe também, certamente que a Irlanda produz alta tecnologia e que, pasme-se tem a quem a vender, começando logo pelos vizinhos do lado, saltando para o continente europeu e até para o americano. Nós... bom, nós temos um vice PM que antes de o ser comprou uns submarinos ultra-mega-híper sofisticados que nos permitiram ficar a salvo de atentados que nos atirassem o ex-libris da capital... ao fundo; refiro-me à ponte Salaz.... heee... 25 de Abr... grrrrrr...à ponte sobre o Tejo (apesar de existirem várias, ou... talvez a quantidade tenha justificado o investimento).Para além de tudo isto e da exportação de outros bens, minerais e alimentares, a Irlanda possui mão de obra bastante qualificada. Bom, Portugal, também. A diferença, é que a Irlanda emprega essa mão-de-obra no seu projeto de recuperação da economia e nós, incentivados pelo governo, oferecemo-la de mão-beijada.
Mas é claro que não é nestes pontos que nos diferenciamos dos Irlandeses; não são estes pontos que ditam a recuperação económica deles e o aumento do seu PIB e a não necessidade de se preocuparem excessivamente com a sua dívida externa, contra a nossa constante de necessidade de emitir dívida pública e de agora surgirem uns "papagaios" a insistir na ideia peregrina que julgávamos já adormecida de renegociar a dívida e por conseguinte, sujeitar-nos a juros superiores aos atuais. Os pontos fundamentais que nos distinguem dos Irlandeses, são os tagarelas que temos a governar-nos e os choramingões que temos a manifestar-se. Ou seja... eles estão à séria... nós estamos a fingir..

Diogo disse...

Uma visão ligeiramente menos optimista sobre a Crise Irlandesa:


Como podem os políticos representar o povo, se lhes são dados milhões para representar uma elite?

Texto de Caoimhghin Ó Croidheáin - Global Research, Fevereiro 08, 2013


A austeridade é uma farsa. Dívida é a economia dos "pequenos". Se são as pessoas que produzem a riqueza, então por que é que elas são sempre pobres e / ou pessoas a pagar dívidas? Porque as pessoas ricas, nacionais e estrangeiros, emprestam-nos o dinheiro (com juros) que retiraram à sociedade, sob a forma de lucros, para preencher o buraco que eles criaram. Desta forma, somos triplamente explorados:

1 - Somos tributados sobre os salários;

2 - Somos alienados (roubados) da riqueza criada (lucros);

3 - Pagamos juros sobre o dinheiro pedido emprestado pelos ricos para pagar o capital e as despesas correntes necessárias para a subsistência da sociedade.

Quando existe uma crise económica causada por essa drenagem constante da riqueza da economia, os "especialistas" debatem a melhor maneira de impor cortes para nos trazer de volta para "o caminho para a recuperação". Isto até seria engraçado se tantas pessoas não fossem apanhadas pelo mar do desemprego e por uma vida de subsistência. Além disso, qualquer rejeição dessa "Dívida" não é tolerada pelas elites que supervisionam os “reembolsos da Dívida” pelos "pequenos".

Se uma forma de pagamento de uma dívida (notas promissórias) é vista como desonesta e provavelmente insustentável (devido à lei ou oposição pública), então é criada legislação à pressa para converter a "Dívida" numa forma mais aceitável aos olhos do povo - títulos do tesouro. Esta era a situação esta semana (8/2/2013) em Dublin. Como é que isto aconteceu?

"Em 2010, dois bancos, na altura, o Anglo Irish Bank e o Irish Nationwide (agora Irish Bank Resolution Corporation ou IBRC), tiveram necessidade de receber do Estado cerca de 30 mil milhões de Euros por causa de seu “estado periclitante, na sequência do colapso do mercado imobiliário.”

O ministro das Finanças, Brian Lenihan passou uma nota promissória ao IBRC (Irish Bank Resolution Corporation) - dizendo basicamente "Devemos-lhe € 31 mil milhões de euros" - que o banco usou como garantia para pedir esse dinheiro emprestado ao fundo de emergência de assistência de liquidez ao Banco Central da Irlanda (ELA). Segundo esse acordo, o Estado concordou em pagar € 3.06 centenas de milhões de euros (€ 306.000.000) todos os anos ao IBRC (Irish Bank Resolution Corporation) até 2023, seguido de pagamentos menores até completar o pagamento do capital emprestado mais os juros.

Como Stephen Donnelly, que foi veementemente contrário às notas promissórias, salienta: "[Isso] iria entrar certamente em conflito com duas directivas europeias: Que nenhum banco europeu poderia falhar e que as perdas potenciais e perda de lucros dos grandes investidores jamais seria pago integralmente pelo público ".

Uma das hipóteses colocadas na mesa pela Irlanda foi trocar as notas promissórias por um título do tesouro a longo prazo - possivelmente proveniente do Mecanismo Europeu de Estabilidade (ESM) - com os pagamentos distribuídos por 40 anos. O que é que se pretendia com tudo isto? Bem o primeiro-ministro da República da Irlanda - Enda Kenny – explica provavelmente melhor quando recentemente afirmou que seria como trocar um "gravíssimo saque a descoberto (ordem de pagamento de valor maior que o existente numa determinada conta) por uma hipoteca a longo prazo com juros baixos.

(Continua)

Diogo disse...

(Continuação)

ENDA KENNY (PRIMEIRO-MINISTRO DA REPÚBLICA DA IRLANDA): EU SEI COMO É ESTAR DESEMPREGADO. DURANTE ANOS NÃO FIZ A PONTA DE UM CHAVO.

A aterradora expectativa do BCE (Banco Central Europeu) seria a perda do controlo sobre a oferta de dinheiro e o efeito de arrastamento que isto iria ter nos mercados se cada governo da UE fizesse o mesmo. Portanto, de um dia para o outro, foi aprovada em Dublin uma legislação para passar notas promissórias para títulos do tesouro, para encerrar o IBRC (Irish Bank Resolution Corporation) e colocar os pagamentos numa base mais estável, mais "normalizada". O primeiro-ministro Enda Kenny explicou no parlamento:

“A parte principal do pagamento sobre esses títulos será feita em 25 anos (até 2038), com o resto a ser pago até 2053. O prazo médio desses títulos do tesouro será de 34 anos em vez dos normais 7 – 8 anos das notas promissórias.” A taxa de juro média desses títulos do tesouro será de 3 por cento, comparada com os 8 por cento das notas promissórias.”

Claro que os filhos e os netos dos "pequenos" podem pagar a "Dívida" em vez de nós! Isto foi confirmado pelo ministro das Finanças Michael Noonan, que disse que o acordo sobre a Dívida bancária garantida pelo Governo "alivia a carga distribuindo-a por todos" (exceto os seus filhos desavisados).

O Anglo Irish Bank: não apenas o nosso porta-voz da campanha da Dívida, Andy Storey, descreveu a Dívida como "ilegítima – como se arranjou dinheiro para pagar aos especuladores que apostaram o seu dinheiro num banco desonesto, agora sob investigação criminal, e que a Dívida não é das pessoas comuns e não deve em nenhuma circunstância ser reclassificada como "soberana". Afirmou igualmente que apressar hoje "legislação de emergência através do parlamento e do senado nessa base, seria "desonesto e antidemocrático - em vez de haver um debate adequado e informado sobre este assunto extremamente sério, o governo corta a direito através de legislação que levará as pessoas que vivem na Irlanda a assumir a responsabilidade formal do pagamento de dívidas que não são suas"."

Como se isso não fosse suficientemente cruel, o Eurostat, a agência de dados da Comissão Europeia, calculou o custo da crise bancária em cada país da UE e de acordo com Michael Taft, a Irlanda ficou quase a par da Alemanha no sombrio título de gastar mais com a crise bancária. € 41 mil milhões de euros até agora, de acordo com os dados da contabilidade do Eurostat (este número não leva em conta os milhares de milhões enterrados nos bancos pelo nosso Fundo Nacional de Reserva de Pensões, não sendo estes contados como um "custo" para o orçamento do Governo Geral). [...] A crise bancária europeia até o momento custou a cada indivíduo na Irlanda quase 9.000 €. A média em toda a UE é de € 192 por habitante. [...] O povo irlandês pagou 42 por cento do custo total da crise bancária europeia. "

Não é por acaso que Angela Merkel declarou que a Irlanda era um "caso especial" para um acordo da Dívida bancária. Revisando a famosa frase de Churchill - "Nunca tão poucos roubaram tanto a tanta gente ".

Tavares Moreira disse...

Excelente, caro Bartolomeu, excelente, já me contaram que à própria Arábia Saudita fazinveja a quantidade de petróleo exportada pela Irlanda!
Excelente tema para o nosso próximo repasto!

Caro João Pires da Cruz,

Um bom pedaço de análise politico-social, esse seu comentário.
É bem possível que, na Irlanda, não faltem candidatos a opinion-makers desejosos de lançar o País num pranto permanente...só que ninguém lhes dará ouvidos... Enquanto que por cá esses especialistas da vacuidade estão, permanentemente, na linha da frente do comentário oco, o mais ouvido e apreciado!

Bartolomeu disse...

Realmente, aqueles árabes são uns invejosos de primeira apanha. Não me admiro nada que em pouco tempo também estejam a instalar plataformas flutuantes no deserto.

Tavares Moreira disse...

Na mesma linha de inveja militante, não me espantaria nada que esse pessoal saudita venha a ter inveja do nosso próximo repasto!

Bartolomeu disse...

Fora de questão, caro Amigo!
Não me sento à mesa com sarracenos infiéis. Nem que o Presidente da República me peça de joelhos, que adira a um consenso. Além do mais, essa gente só aprecia cus-cus. Nem pensar!