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quarta-feira, 16 de julho de 2014

Prof. Doutor Manuel Jacinto Nunes - em memória e singela homenagem

1. Apesar de não ter sido seu aluno, na velha escola do “Quelhas”, tive o privilégio de conhecer bem o Prof. Manuel Jacinto Nunes, ao longo da vida e em especial durante um período em que trabalhamos juntos no CA da CGD (era eu o benjamim da equipa a que ele presidia), já lá vão cerca de 30 anos...

2. Mais recentemente encontrava-o com alguma frequência em reuniões do Conselho Consultivo do BdeP, a que nunca faltava, mostrando sempre uma enorme atenção (e afeição) aos assuntos da Instituição.

3. Não vou aqui repetir as palavras de público e merecidíssimo elogio que lhe foram dedicadas, nomeadamente pela Presidência da República, destacando, em especial, o seu enorme talento como economista e professor, bem como a excepcional dedicação ao serviço público de que sempre deu provas e a absoluta probidade com que exerceu os mais altos cargos, tanto no Governo como no BdeP e na CGD.

4. Vou singelamente destacar uma das qualidades do Prof. Jacinto Nunes: a de um formidável contador de histórias, apoiado por uma memória prodigiosa e por um sentido de humor que encantava quem teve o privilégio de com ele conviver.

5. E proponho-me contar uma das muitas histórias que lhe ouvi, esta passada nos já longínquos anos 40 (parte final), quando foi destacado, então como jovem economista, para integrar a equipa encarregada de negociar a aplicação do Plano Marshall a Portugal.

6. Tinha sido escolhido para chefiar essa equipa uma pessoa das mais curiosas que conheci até hoje, um cavalheiro de nome Cabral Pessoa (conheci-o na embaixada de Portugal em Washington, no final dos anos 80, onde era conselheiro há cerca de 40 anos e, já com mais de 90 anos, mantinha uma vivacidade que muito me surpreendeu). Essa escolha foi feita por ser um funcionário superior do BdeP e considerado, na altura, das pessoas do meio que melhor dominavam o inglês...

7. ...Cabral Pessoa, para além desse atributo era o que se podia considerar um “bom vivant”, gostando de vestir sempre impecavelmente, de bons automóveis...e da boa vida em geral!

8. Pois bem, um belo dia a equipa do Plano Marshall (chefiada por Cabral Pessoa e integrando o jovem Jacinto Nunes) teve de se deslocar a Paris, no âmbito das negociações do dito Plano. Até Paris e em Paris, tudo bem...

9. ...mas no regresso, a comitiva, para absoluto espanto de Jacinto Nunes, em vez de continuar a viagem de comboio (naquele tempo viajava-se muito mais de comboio) até Lisboa, apeou-se em Biarritz! Biarritz era, na época, o Eldorado das praias mais famosas da Europa, a mais procurada pelos famosos (e abonados) da altura...

10. ..e ali permaneceram por alguns dias, seguindo a orientação de Cabral Pessoa que, em Biarritz, se sentia perfeitamente em casa...

11. O Prof. Jacinto Nunes é que não achou muita graça ao assunto pois temia que, ao chegar a Lisboa, fossem recebidos com grande escândalo, dada a ousadia de andar à boa vida em Biarritz sem “darem cavaco a ninguém”...sentindo que punha em risco o seu lugar de assessor no Ministério das Finanças que constituía o seu “ganha-pão” na altura...

12. Quando, para ainda maior espanto seu, ao desembarcar em Lisboa constatou que ninguém tinha dado por nada, Cabral Pessoa tinha tratado de tudo de uma forma superiormente discreta!

13. O alívio que eu senti, contava o Prof. Jacinto Nunes com imensa graça! Querido Prof. Jacinto Nunes, deixa-me muitas saudades, desejo toda a paz à sua Alma.

2 comentários:

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

Dr. Tavares Moreira
As homenagens singelas são as mais bonitas. Tinha admiração pelo Prof. Jacinto Nunes.
A escapadela a Biarritz é deliciosa, o jovem Jacinto Nunes deve ter sofrido um bocadinho, mas ficou a conhecer uma praia muito "in", felizmente correu tudo bem. Quem sabe, sabe!

Pinho Cardão disse...

A minha homenagem também ao Prof. Jacinto Nunes, um grande economista, um grande governante, um grande Homem. Que, discretamente, passou por muitos lugares de destaque, e em todos deixou obra feita. Nem precisou de assessores de imprensa que a promovessem. Porque ela se impunha por si.
Um exemplo.