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quarta-feira, 7 de março de 2007

Lata


O Governo resolveu incentivar o abate de automóveis mais antigos, naturalmente mais poluentes, como forma de contribuir para a diminuição das emissões. Empenhou-se de resto numa campanha destinada a convencer os cidadãos do elevado serviço que prestariam ao planeta se se desfizessem dos seus carritos mais vetustos. Campanha que envolveu até o Secretário de Estado do Ambiente que numa atitude do mais impressionante heroismo, frente às câmaras de televisão, levou pelas suas próprias mãos o carro de família - com uns respeitáveis 9 anos (salvo erro), mas aparentando bom estado -, ao centro de abate. E ali mesmo o País assistiu, quase em directo e ao vivo, ao final daquela vida de lata sob o olhar satisfeito do Secretário de Estado por ter dado para tão nobre peditório. Tocante, a demonstração de dedicação ao serviço público do governante...

Pois o mesmo Governo que em nome da luta contra o aquecimento global convida os cidadãos a livrarem-se de uma companhia por vezes de muitos milhares de quilómetros e ao sacrificio adicional da aquisição de um novo, devidamente equipado de muitos impostos, veio agora vender parte do seu património sobre rodas, constituído por veiculos com muitos e muitos anos. Mas mais: ouvi um dos secretários de estado do ministério das finanças dizer, com o maior dos á-vontades, que as normas que se aplicam ao cidadão e o penalizam por não se desfazer do seu carro velhinho mas fiável, não se aplicam, afinal, ao Estado. E que aqueles automóveis, muitos deles avôs do finado carro de família do secretário de estado do ambiente, estavam ainda ali para as curvas!

Espantam-se? Eu não.

É o mesmo Estado que pela mão do Governo publicita, ameaça, persegue e agride impiedosamente o contribuinte faltoso, não se importando com dramas e justificações. Mas continua, desavergonhadamente, a incumprir com o pagamento nos prazos devidos, com os seus credores.

É o mesmo Estado que, pela mão do Governo, diz combater os "interesses". Mas, como há dias foi revelado, perante - esse sim, espantoso! - silêncio da oposição, desvia o esforço financeiro que deveria ser feito na modernização da rede ferroviária e em especial na linha do norte, para um projecto cujo interesse público todos perceberam que é nenhum e só se percebe numa lógica duvidosa de cedência a lobis.

É o mesmo Estado que penaliza funcionários, ergue a bandeira do PRACE, mas dispende fortunas em aquisição de serviços de consultadoria, cria a eito novos serviços e empresas.

Não vale a pena declinar outros exemplos dignos do breviário de Frei Tomás.

O nosso problema - e são cada vez mais aqueles que o percebem - não é a falta de meios para combater o deficit. Nunca o foi. Esta estória da venda dos automóveis do Estado revela bem que o problema é, ao invés, uma questão de superavit. Um superavit de lata...

4 comentários:

Nuno Nasoni disse...

Abater um carro com nove anos parece-me um rematado disparate. Dos dois carros da minha família, o mais novo tem oito anos - e vai ter de durar mais uns anitos.

E tenho sérias dúvidas do mérito ambiental proceder à destruição de carros com 9 anos...

Pinho Cardão disse...

Excelente post, caro Ferreira de Almeida.De facto, menos ou mais que um governo,já nem sei, parece que temos um bando de tecnocratas, alguns até muito mal preparados, que procura safar-se o melhor que sabe, e pouco sabe, no âmbito da sua corporação. No fim, temos essa política incoerente e descoordenada, ao jeito de tropa fandanga, que o meu amigo tão bem descreve!...

MAR disse...

Caro Dr. Ferreira de Almeida
Por sugestão do Prof. Tavares Moreira solicito, para possivel exposição de assunto a tratar no seu blog 4R, que me enviasse o seu e-mail DE CONTACTO para :
marioribeiro99@clix.pt
Agradeço.

Félix Esménio disse...

Excelente!
Esta cada vez maior divergência entre o discurso e a prática política constitui, como é consabido, um factor de descrédito do Estado perante os cidadãos. Depois, não temos que nos admirar que cada um se safe como pode. O exemplo, quando vem de cima, legitima a insubordinação face à norma por parte da plebe dorida e sofrida. Uns resignar-se-ão, outros indignar-se-ão mas, a maioria, vai tentando sobreviver à sua maneira, sem grande apego aos valores da civilidade e da solidariedade. Neste paradigma de desenvolvimento, os alunos bem comportados em vez de irem para o quadro de honra são ultrajados pelos “mais espertos”. É chamada esperteza saloia – olhe para o que eu digo não olhe para o que eu faço. Resta-nos a esperança, embora mitigada, das boas consciências individuais.