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segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

“Misérias uterinas"

Saber porque é que as doenças ocorrem é vital para as combater e prevenir, contribuindo para que possamos viver mais e com qualidade. Dentro das diversas teorias, algumas começam a ter certa relevância não só pelo impacto que possam causar, mas sobretudo, porque na sua essência mexem com determinados valores, explicando muito do inexplicável.
O desenvolvimento intra-uterino é influenciado por muitos factores, nomeadamente alimentares. Mas também o período a seguir ao nascimento é muito vulnerável às condições ambientais. Tanto num caso, como noutro, podem ocorrer modificações na expressão de certos genes (“ligam-se” uns e “desligam-se” outros de acordo com as exigências da situação) que irão acompanhar o indivíduo. A hipótese segundo a qual muitas doenças crónicas têm origem neste período ganha alguma credibilidade. Por exemplo, as pessoas que à nascença tinham pouco peso – condicionado por más condições alimentares durante a gestação – têm mais probabilidade de virem a sofrer, décadas mais tarde, doenças cardiovasculares. Quase que poderíamos afirmar que o tal “ligar e desligar”, à nascença, foi o mais adequado perante a falta de alimentos. Uma forma de adaptação, sensata sem dúvida. Mas com o tempo essa adaptação não será a melhor, sobretudo se o indivíduo for confrontado com a “abundância”. Deste desajustamento sairá alguma desordem que pode materializar-se num risco cardiovascular acrescido. “Misérias uterinas”! No entanto, os problemas não se cingem apenas a aspectos de saúde, estendem-se, também, ao sucesso socioeconómico. Os recém-nascidos menos robustos, que foram gerados em períodos de fome ou de epidemias, revelavam menos probabilidades de ingressarem no ensino superior. Os homens mais tarde auferiam menos proventos, além de serem mais pobres, relativamente aos seus descendentes e outros da mesma geração.
A saúde dos adultos depende, em parte, das condições em que decorrem o desenvolvimento intra-uterino e os primeiros tempos de vida. Mas não se esgota na área da saúde, já que ocorrem sequelas socioeconómicas nada desprezíveis, comprometendo o desenvolvimento de muitos povos onde a fome e as péssimas condições de alimentação e de higiene são uma realidade. As “misérias uterinas” não se esgotam naquele momento, mas prolongam-se no tempo com graves consequências para a saúde das pessoas, e bem-estar das comunidades, comprovando que uma política de boa saúde pré-natal se acompanha, no futuro, de um efeito muito forte em termos de ganhos.

As patuscadas...e os patuscos!...


Recebi mais um convite para um jantar do PSD, agora o Jantar de Natal da Secção.
Desde que, em Maio de 2005, passei de “independente” a militante encartado, integrando uma lista de 31 novos “recrutas” especialmente convidados para celebrar o 31º Aniversário do Partido, convites para almoços e jantares têm sido mais que muitos.
Aliás, e para bem começar, até posso referir que a cerimónia de entronização se celebrou com um banquete em Santarém!...
Com o avolumar dos convites, normalmente para celebrar um qualquer acontecimento com a presença do líder nacional ou distrital, quis-me parecer que a Direcção considerou que o meu valor acrescentado de militante seria a minha presença nesses frequentes repastos.
E como nunca fui convidado para mais nada, muito menos para trabalhar, o que é óptimo, fiquei definitivamente convencido que esse era mesmo o único e exclusivo valor acrescentado que a Direcção considerou no convite de adesão.
Infelizmente, esse valor vai-se esvaindo, porque não tenho comparecido muito….
Enfim…um partido de patuscadas e de alguns bons patuscos...a começar por mim, obviamente!...
Mas que querem, eu gosto do PSD e, para que não surjam dúvidas, independentemente do chefe cozinheiro!...

domingo, 17 de dezembro de 2006

“Vegetarianos e quociente de inteligência”…

Nas minhas idas a Lisboa, cada vez mais frequentes, devido a uma crescente força centrípeta, lembrando arrogantemente aos pobres cidadãos (da província!) onde se situa a sede do poder, acabo, de vez em quando, por ser convidado para almoçar com simpáticas colaboradoras. Nada de especial, excepto o facto de serem almoços vegetarianos. Na minha qualidade de médico, acabo por ser alvo de atenções especiais (o que não deixa de ser agradável!), mas tenho de ouvir verdadeiras dissertações sobre as múltiplas virtudes dos pratos propostos. Por exemplo quando falam de um determinado tipo de sopa bombardeiam-me com coisas do género: - Vai ver que gosta, e além do mais faz bem ao fígado, ao coração, aos rins, ao colesterol, ao cérebro, olhe faz bem a tudo! Percebe? Está a ver não está, são coisas fabulosas que o senhor doutor tem que saber! Claro que simpática e educadamente vou anuindo com um ligeiro sorriso e um discreto acenar de cabeça. É evidente que, de um modo geral, os produtos vegetais são bons. Por outro lado o excesso de consumo de produtos animais, nomeadamente carnes vermelhas e gorduras saturadas têm sido responsabilizados por inúmeros problemas de saúde, desde certas formas de cancro à aterosclerose.
Há necessidade de modificar certos hábitos, seleccionando certos produtos alimentares e evitar excessos de outros. Enquanto ia a pensar nestas coisas já estava a comer a sopita que, diga-se em abono da verdade, era agradável, embora, reflexamente, começasse a recordar as saborosíssimas sopas com que sempre fui mimoseado. E também são vegetarianas, tirando uma ou outra.
A par destas reflexões, recordei-me de um trabalho publicado numa importante revista médica internacional em que se concluía que os que optaram pelo regime vegetariano, em crianças tinham quocientes de inteligência superiores aos não vegetarianos, e eram mais saudáveis. Talvez, o facto de terem Q.I. mais elevados facilitasse a aquisição de estilos de vida mais saudáveis, nos quais se integra a opção vegetariana que, sendo habitualmente saudável, face a muitas outras opções, evitariam o aparecimento de muitas doenças.
De facto, as minhas acompanhantes apresentam traços inquestionáveis de inteligência superior, corroborando os achados.
Passando ao restante prato com “simulacros” de “carne vegetariana”, cujos nomes e classificações e formas de confeccionar iam debitando com uma força e confiança notáveis, também consegui comer. No entanto, confesso que – quando ingeria os produtos – me perpassou pela mente coisas como torresmos, dobrada, rojões e outras coisas que dispenso de enunciar. O pior foi a bebida. Não quis, naturalmente, pedir algo que pudesse contrariar o ritual e, deste modo, bebi chá. Fiquei tranquilo, embora preferisse beber água ou um vinhito, mas como adoro chá, pensei que não teria problemas. Pois foi! Não gostei daquele chá e não consegui bebê-lo todo. Às tantas deveria ser um chá “apropriado” para acompanhar os alimentos. Não desgostei de todo da refeição, nem passei fome e reconheço naturais virtudes aos vegetais e frutas na alimentação humana. Quanto ao resto, opção vegetariana, acabo por concluir, através do citado estudo, que devo estar uns pontos abaixo dos valores encontrados no Q.I. dos vegetarianos. Não sei se me fazem falta, mas, em contrapartida, ao contribuir pela opção omnívora, propicia-me alguns prazeres gastronómicos que não dispenso. Sem abusos, claro!

Cesteiro que faz um cesto...

Segundo notícias veiculadas ontem por parte de alguns candidatos, terá havido fortes irregularidades nas eleições para a Comissão Política Distrital de Aveiro e para a Secção de Algés do PSD.
Não sei se é verdade ou mentira ou se, no caso de Algés, o facto não se insere na campanha que Helena Lopes da Costa move contra Marques Mendes.
Mas sei que as sucessivas irregularidades apontadas em actos eleitorais dos diversos partidos evidenciam a forma como alguns dos mais “proeminentes” militantes de base se posicionam na vida política: vencer, vencer a todo o custo, não olhando a meios, mas simplesmente aos fins.
A questão é que se trata de pessoas normalmente já com responsabilidades políticas nas Autarquias e em outros órgãos de poder e que, mais tarde ou mais cedo, serão Secretários de Estado ou Ministros.
Ora, a serem verdadeiras as irregularidades, essa gente, como muita que ascendeu a cargos elevados à custa de “aldrabices” similares, não merece qualquer confiança. Porque, cesteiro que faz um cesto...
Compete à Comissão de Fiscalização do PSD averiguar e punir quem praticou as irregularidades ou, se não as houve, castigar quem propalou falsidades.
Para que se sintam bem no Partido os que não pactuam com tais métodos.

sábado, 16 de dezembro de 2006

Calçada à Portuguesa, uma distinção...

Até que enfim! "Já era tempo de fazer justiça aos calceteiros".
Foi ontem inaugurada pela Câmara Municipal de Lisboa na Baixa Pombalina – Rua da Vitória, em frente à igreja de São Nicolau – uma estátua de homenagem ao Calceteiro de Lisboa. Trata-se de uma obra do escultor Sérgio Stichinni composta por duas figuras em bronze: um calceteiro a esculpir a pedra e um ajudante com o maço a bater a pedra.
Lisboa é provavelmente a única cidade de todo o mundo em que vale mesmo a pena olhar para o chão. Peixes, flores, pássaros e caleidoscópios ondulados e muitos outros motivos artísticos adornam as praças e passeios públicos em rendilhados de pedra, que envelhecem com as memórias de quem por cima deles anda.
É genial o embelezamento do chão público com os pequenos cubos de pedra preta e branca, uma solução ecológica e esteticamente colorida e brilhante.
A calçada à portuguesa é uma distinção nacional, genuinamente artesanal, em que com uns martelinhos de 800 gramas, se cortam ali mesmo pequenos cubos de calcário, granito ou basalto, que artisticamente combinados revelam uma faceta da nossa cultura.
É portanto muito merecido o monumento ao Calceteiro de Lisboa.
Seria importante que a Câmara Municipal de Lisboa não se ficasse por esta homenagem e invertesse a redução drástica do número de profissionais calceteiros ao seu serviço e promovesse esta profissão, de modo a que a calçada à portuguesa continue a brilhar como nos tempos antigos.
Não é com os 20 calceteiros actualmente ao serviço da Câmara e com o trabalho dos empreiteiros cuja aptidão técnica é muitos vezes deficitária que iremos manter o ex-libris nacional que é a calçada à portuguesa.
Se por um lado, a calçada à portuguesa nos põe de cabeça baixa, pedindo-nos que olhemos para o chão, por outro lado, é-nos exigido que saibamos estar com a cabeça bem levantada, que tiremos partido deste e de todos os outros valores nacionais.

Estado e regulação

As teorias que apontam para o Estado modesto, vêem na regulação a função sucedânea da intervenção ineficiente dos poderes públicos na economia e em sectores de interesse geral. Regulando, e não imiscuindo-se directamente no jogo do mercado, o Estado desempenhará um papel mais positivo na promoção do desenvolvimento.
Mas qual deve ser o estatuto dos diferentes reguladores?
Recentes decisões governamentais, parcial ou integralmente contrárias a deliberações de entidades reguladoras, trazem a debate a questão dos limites dos poderes reconhecidos pela lei a estas entidades.
É um debate necessário e oportuno porquanto as experiências sectoriais da última década já permitem que se faça uma avaliação no sentido de aperfeiçoar os modelos regulatórios.
A questão central é esta: a independência dos poderes político e económico que deve ser garantida ás entidades reguladoras, deve significar que as decisões destas entidades não podem ser postas em causa, nem mesmo pelo Governo como vejo alguns defender?
Ou dever-se-á entender que regulação é ainda intervenção da Administração Pública, e nessa medida a intervenção do Governo, ponderando o interesse geral nas suas diferentes vertentes, não é mais do que a consequência lógica do seu estatuto constitucional de órgão superior da Administração Pública?

“Liberdade, direito e estilos de vida”…

A liberdade em optar por determinados comportamentos ou estilos de vida é um direito que, aparentemente, ninguém contesta. As afirmações segundo as quais eu fumo, eu bebo, eu como o que quiser, eu faço o que entender, mesmo conhecendo que tais práticas constituem factores de risco que possam por em causa a sua saúde, porque existem evidências nesse sentido, são aceites como sinal inequívoco de um direito intocável. Mas há quem comece a questionar esse direito, porque as consequências daí resultantes para a sociedade, que tem que os “suportar” e pagar os ditos “desvios”, são pesadas para os restantes cidadãos que têm de dar a sua contribuição, ficando prejudicados no retorno. É um facto. Não é nada agradável ver os nossos impostos serem canalizados para certos casos, perfeitamente susceptíveis de prevenção, caso houvesse mais cuidados com as opções tomadas. Mas não é justo proceder a qualquer hierarquização de prioridades, em matéria de acesso à saúde, em função de ser, por exemplo, fumador ou não fumador, abstémio ou alcoólico, só para citar duas situações comuns. Qualquer acto neste sentido é sinónimo de discriminação, levando a desigualdades noutras áreas, com graves consequências sociais. Deste modo, independentemente do perfil comportamental, todos, sem excepção, deverão ser tratados em perfeitas condições de igualdade. Mas, o tal direito que cada um afirma ter em relação ao seu destino pode vir a ser alterado futuramente graças a um novo paradigma em construção. A afirmação, segundo a qual cada um tem o direito de escolher o modo e estilo de vida que lhe apetece, porque se houver consequências são os próprios a sofrer, pode não ser verdadeira. Isto é, há forte possibilidade de as consequências não se materializarem só no próprio mas estenderem-se a futuras gerações. Sendo assim, poderemos perguntar: - Será legítimo comprometer a saúde de um filho, de um neto, de um bisneto, por causa do estilo de vida adoptado? Os descendentes poderão vir a sofrer consequências graves por causa dos maus hábitos ou estilos de vida adoptados pelos seus antepassados. Não se trata de doenças genéticas, mas de modificações operadas a nível do ADN que tende a “perpetuar-se” no futuro. Será legítimo agravar ou aumentar o risco de, por exemplo, uma doença neoplásica, num descendente, devido ao comportamento dos pais ou dos avós?
As evidências científicas nesta área começam a ser bastante esclarecedoras a ponto de poder por em causa o tal direito à liberdade na escolha de um estilo de vida, porque terceiros, que ainda irão nascer, terão de pagar por erros para os quais não contribuíram.
Todos deverão ter direito a serem tratados em pé de igualdade, independentemente das opções tomadas, mas deverão começar a respeitar os direitos de outros que um dia irão nascer, e, para os respeitar, terão de começar a alterar os seus actuais estilos de vida. Dizem que a liberdade de uma pessoa termina no ponto onde começa a de outro. Nesta perspectiva o conceito deixará de ser meramente espacial, passando a ser transgeracional...

Nordeste Transmontano

Esta fotografia é Portugal.
É Trás-os-Montes.
Lá...onde "muda a face da terra e a alma do Homem", como disse Jaime Cortesão.

É com este pedacinho deste Portugal esquecido, por onde(esquecida) há uns tempos me perco...
que mando a todos, ao somatório de todos os gloriosos republicanos da 4R, um grande abraço cheio de Natal.
Quanto a Esperança...que ela nos toque a todos, tão profunda, infinita e grandiosa quanto a paisagem despoluída destes montes sem fim.
Com sincera amizade, um BOM NATAL!


sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

Honra ao mérito

O Professor e Empresário António Câmara ganhou o Prémio Fernando Pessoa, em boa hora instituído.
Nos últimos anos tem-se falado muito em inovação em Portugal.
Mas pouco se tem referido que a inovação com efeitos positivos no crescimento e no desenvolvimento económico é a que se concretiza em novos produtos susceptíveis de serem comercializados ou a que se traduz em aperfeiçoamento dos existentes.
Sem novos produtos, não há criação de riqueza e os gastos com investigação constituem um mero custo, isto é desperdício.
Neste contexto, o Plano Tecnológico, em vez de ser um arrazoado de centenas de medidas, algumas só para fazer número e sem significado real ou mesmo simbólico, deveria enfatizar esta ideia primária, mas tão afastada de muitos, de que a investigação deve levar à inovação e esta será totalmente estéril se não criar produtos aceites pelo mercado.
Assim, o Plano Tecnológico atingiria melhor os seus objectivos se, num simples artigo, incluísse a obrigatoriedade de os Laboratórios do Estado negociarem com as empresas contratos de investigação aplicada, definindo objectivos a atingir, meios a afectar, linha de comando, modo de financiamento dos programas, e estabelecendo o seu encerramento se não conseguissem, num prazo razoável, que o mercado justificasse a sua existência.
Salvaguardando, obviamente, um segmento de investigação fundamental, sem a qual a aplicada se pode tornar inviável.
As empresas deAntónio Câmara inovam e criam produtos para o mercado global. Fazem gerar emprego e riqueza. O Prémio Pessoa foi justamente atribuído.

Salário Mínimo, ilusão máxima?

Na semana passada foi anunciado com grande alarido mediático – para não variar – o acordo obtido na concertação social para o aumento de 4,4% do salário mínimo nacional (SMN), de 386 para 403 euros, em 2007.
Segundo o marketing oficial, tratou-se de mais um acontecimento inédito.
Tenho reparado aliás que os acontecimentos inéditos se vêm sucedendo a um ritmo tal que corremos o risco de esgotar em breve o “stock” do ineditismo e ficarmos reduzidos a acontecimentos apenas banais.
Curiosamente, desta vez quase todo o espectro político alinhou num coro de elogios a este acordo, tendo notado em particular na efusiva declaração do CDS-PP. Apenas o PCP achou pouco, como aliás lhe competiria sempre dizer qualquer que fosse o resultado do acordo.
Acabei entretanto de saber que SÓ no concelho de Manteigas e SÓ este ano, emigraram mais de 100 pessoas, para países como a Suíça, a Alemanha e a Espanha.
São pessoas atingidas recentemente pelo desemprego, sobretudo do encerramento de unidades fabris e que querem trabalhar, não se acomodando a viver à sombra do subsídio de desemprego, de resto agora também mais precário.
E são pessoas que não encontrando trabalho em Portugal, não hesitam em procurá-lo longe das famílias.
Sabe-se que trabalham na construção civil em Espanha alguns milhares de trabalhadores portugueses, contando APENAS os oriundos do distrito de Braga, emigrados nos últimos anos também por falta de oportunidades em Portugal ou atraídos por melhores remunerações no país vizinho.
Um estudo muito recente da Universidade Católica veio revelar aquilo que mais ou menos já se sabia: cerca de 60% dos jovens que saem do ensino superior ou secundário passam os primeiros anos da sua actividade profissional em empregos precários, sob vínculos laborais que podem terminar a qualquer momento.
Acrescenta o estudo que estes jovens mudam em média 3 vezes de emprego nos primeiros 5 anos de actividade.
Tendo esta dura realidade presente, ocorre perguntar o que é que significa para toda esta Gente o aumento do SMN?
Só pode significar, se tiverem tempo para pensar nisso – provavelmente nem terão – um amargo de boca, um benefício que nada lhes diz.
Quando atento nestes factos e realidades, fico com a noção de que entre nós se cultiva cada vez mais a política da ilusão, tentando fazer crer aos cidadãos que ainda somos capazes de aplicar medidas socialmente avançadas.
E toda a classe política alinha nessa venda de ilusões, para sua própria auto satisfação.
O SMN é um benefício, com certeza, para aqueles que já têm outros benefícios que esta legião de menos-afortunados não tem, designadamente alguma estabilidade no seu emprego.
Não pretendo por em causa a justiça do aumento do SMN, entenda-se. Quem o receber e tiver apenas essa fonte de rendimento continua a ganhar muito pouco, provavelmente merece ganhar muito mais.
O que não me agrada nada, sou franco, é a transformação deste facto numa grande operação mediática de venda de ilusões, sem respeito pelos muitos milhares que nem o SMN têm.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

Desenvolvimento social na ordem do dia

No discurso que fez na sessão de abertura do Congresso do Poder Local o Presidente da República voltou a focar o imperativo do desenvolvimento social para o progresso do País.
Com efeito, penso que há um sentimento generalizado e consensualizado de que o País está num ponto de viragem, em que o investimento subjacente à competitividade e ao desenvolvimento social deve assumir um maior relevo do que no passado, em que o esforço de investimento foi direccionado maciçamente para infraestruturas e equipamentos.
Para este “voltar de página” deve concorrer uma maior responsabilidade do poder local, atribuindo-lhe o poder central novas competências e funções e dotando-o dos recursos financeiros adequados, a par da instituição de mecanismos de avaliação e controlo de desempenhos e resultados obtidos.
O Presidente da República depositou, justamente, nas autarquias especial vocação e capacidade para responderem ao desafio do desenvolvimento social, tendo presente um conjunto de vantagens únicas que se lhes reconhecem, designadamente a proximidade das populações, o conhecimento e a agilidade para encontrar soluções que melhor respondam às suas necessidade e anseios.
Sem duvida, que as autarquias pelas razões apontadas estarão em melhores condições, como já o vão fazendo, de assumirem maior responsabilidade, em domínios de índole social como sejam, apenas para citar alguns exemplos, o combate à pobreza e à exclusão social, o apoio às pessoas mais carenciadas e mais vulneráveis, a prestação de cuidados na área da saúde e a mobilização de vontades e capacidades locais de sectores da sociedade civil.
As autarquias podem e devem contribuir, também, com um papel mais activo para despertar na nossa sociedade uma maior consciência e responsabilidade social, orientadas para a acção individual e colectiva.
A intervenção do Presidente da República foi, para além de muito oportuna, extraordinariamente rica na vertente social, manifestando uma enorme sensibilidade e preocupação com o bem estar das populações e atribuindo de forma muito significativa um papel relevante às autarquias no desiderato da realização do desenvolvimento social.
Esperemos, pois, que o seu apelo seja escutado: que governo e autarquias trabalhem em conjunto para encontrar o modelo político e financeiro que pragmaticamente e com efectividade responda ao novo desafio e que, simultaneamente, a sociedade civil se sinta impelida a empreender, de forma concertada, mais e melhores iniciativas.
Esta não é matéria isenta de polémica política, centrada essencialmente em questões de divisão do poder. Veja-se a recente discussão sobre a Lei das Finanças Locais, que acaba de ser enviada pelo Presidente da República para o Tribunal Constitucional.

"Estórias" politicamente incorrectas...

No último fim de semana estive no Museu do Pão, em Seia. Trata-se de um empreendimento original e digno de nota, que alia a um excelente restaurante um bem concebido museu, em que o tema é o pão. Nele se faz a história deste alimento, se mostram as diversas fases de fabrico, do amanho da terra, à sementeira, à cozedura e à distribuição, e se documentam fases históricas dos cereais em Portugal.
Além de outros, achei um documento particularmente interessante, por retratar uma época de racionamento, coincidente com a 2º Grande Guerra e com a governação de Salazar.
Trata-se de uma carta escrita em 30 de Novembro de 1942, em que D. Maria do Resgate de Oliveira Salazar, irmã do então 1º Ministro, requisitava à Comissão Reguladora das Moagens 1.476 quilos de milho para semear na sua propriedade, no Vimieiro, Santa Comba.
Em 17 de Dezembro, a Comissão Reguladora das Moagens respondeu negativamente, dizendo que só distribuía milho à Indústria e que deveria dirigir-se à Federação Nacional de Produtores de Trigo.
Em 21 de Dezembro, D. Maria do Resgate assim o fez. Como resposta, foram-lhe atribuídos apenas 180 quilos, já que aquela Federação considerou irregulares alguns dos manifestos em que se baseava a requisição.
Não sei se esta amostra, relevante por ter como titular um familiar de Salazar, era a regra. Mas pelo menos evidencia que ligações pessoais ou familiares não seriam razão para favoritismos ou enriquecimentos sem causa.
Como hoje, aliás!...Por isso, nem compreendo por que se fala tanto em corrupção!...

Mau mercado

Os preços dos combustíveis aumentaram substancialmente ao longo de boa parte de 2006.
A razão apresentada foi sobretudo o aumento dos preços no mercado internacional. Entretanto o barril do crude baixou para os US$ 60.
E nos últimos tempos o dólar, moeda em que são feitas as transacções no mercado internacional do petróleo, depreciou-se fortemente em relação ao euro. Menos euros comprarão, por isso, mais petróleo do que há uns tempos atrás.
Apesar de tudo isto o preço ao consumidor não reflete nem a baixa do preço na origem nem as alterações cambiais favoráveis.
Acomodação por antecipação ao aumento do imposto sobre os produtos petrolíferos?
Ou má prática de um mercado cuja liberalização do sector prometia para o consumidor pelo menos uma maior transparência?

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

“Dançar nas ruas”…

Festa é festa e, de acordo com vários estudos, perde-se na noite dos tempos. Tudo leva a crer que no Paleolítico a rapaziada já dançava, festejava, mascarava-se, enfim, eram verdadeiros adeptos de forrobodó da época. Parece que as festividades, que durariam vários dias, ocorriam ao redor de fogueiras e, depois, à medida que as civilizações se iam desenvolvendo, nas ruas ou noutros espaços públicos.
A história das festividades é comum a todos os povos e continentes, traduzindo uma “necessidade” comum. Mesmo os gastos energéticos inerentes a estes esforços não eram impeditivos do divertimento. A partir de certa altura tudo devia servir de pretexto, que digam as festividades pagãs que ainda hoje permanecem sob outras roupagens. Por exemplo, na França do século XV, um em cada quatro dias era dedicado a festa, habitualmente em honra de um santo! Parece que esta prática tem seguidores hoje em dia. Basta recordar os defensores de “fins-de-semana de três em três dias”, como aconteceu recentemente através de um partido político. Poderia ser interpretado como um provável sinal de algum resquício medieval ou mesmo troglodita, mas, nunca se sabe…
Depois tudo mudou. Apareceram os “puristas” religiosos, as aversões ao “pecado”, os promotores da nova ética de trabalho pós revolução industrial, os “workaólicos” e os que tinham medo de que tais festividades poderiam ser fontes de contestação social e embriões de revoluções. E agora? Agora, ainda vamos tendo alguns dias festivos mas sem a intensidade de outras eras. No entanto, as festividades promovidas, e que constituem fonte de divertimento e de distracção, vão ocorrendo com alguma regularidade. Mas há que promovê-las e dar-lhes outra dimensão, porque poderão ser muito úteis como forma de combater a inactividade física e a obesidade.
Neste momento, os britânicos, tal como os portugueses, estão a sofrer uma grave epidemia de obesidade. O custo da inactividade chega a atingir os oito mil milhões de libras por ano, constituindo uma forte dor de cabeça para o governo. Foram anunciadas muitas medidas, algumas interessantes, todas com o objectivo de reduzir o peso, fazendo com que as crianças tenham pelo menos uma e os adultos meia hora de actividade física diariamente. Dentro destas actividades o governo, através de Caroline Flint, propôs classes de dança, “danças nas ruas” com vídeos pop e outros programas não convencionais, como ida a supermercados (a pé!) para analisarem os alimentos aí vendidos, enquanto os mais velhos são convidados a praticar box, saltos (skipping) e outros exercícios, incluindo “dançar o tango”. O programa tem uma verba na ordem dos 2,5 milhões de libras e as perspectivas em matéria de poupança são astronómicas. Afinal, os nossos antepassados já sabiam da poda. O melhor é dizer ao senhor ministro da saúde para “abrir” uma sala de baile por cada urgência que fechar, promover concertos de rock e outras festividades e reconverter as maternidades em recintos desportivos para a prática de box, kickboxing, karaté, kung fu e quejandos. Com o dinheiro que anda a poupar por esse pais fora, é capaz de ter uns trocos que podia investir neste tipo de actividades das quais pode resultar muita saúde e, pelo menos, alguma satisfação. Vá lá senhor ministro ponha os portugueses a dançar nas ruas, não ao som da contestação, mas de boa música…

Justiça à moda de Madaíl!...

A coisa vai bonita e recomenda-se!...Pelo que acabo de ouvir, o Dr. Gilberto Madaíl foi nomeado porta-voz do Juíz do processo Apito Dourado!...
Segundo declarações agora passadas na TV, à saída da audiência em que prestou declarações como testemunha, o Presidente da Federação Portuguesa de Futebol revelou estar autorizado a dizer que o Juíz em causa está a apressar a instrução do processo, de forma a que a mesma possa ficar concluída até Fevereiro de 2007...
Ou Madaíl não compreendeu o Juíz e foi além do chinelo, ou este entrou em intimidades impróprias de um sistema de justiça sério e digno, encarregando um depoente de ser o seu porta-voz!...
Haja senso!...

A eterna dúvida

Comentávamos ontem entre amigos a recorrente questão da educação dos filhos, qual a atitude que devemos ter perante os seus quereres, como se distinguem o capricho e a instabilidade do curso próprio da afirmação de personalidade.
Quando eles chegam à idade adulta, são o espelho das influências que receberam, diluídas ou potenciadas pelo carácter ou feitio que processa essas mensagens. E vamos sempre parar à magna questão da dificuldade de dizer “não”, e de como fazê-lo de forma construtiva, ou formativa, sobretudo se o passado não foi marcado por actuações firmes que pudessem construir crédito para o futuro.
O facto é que dizer “não” dá imenso trabalho. Um trabalho aturado, persistente, de presença atenta, que não adia conversas nem se compadece com o cansaço de um dia de trabalho. E a soma de muitos momentos de complacência – não com eles, mas connosco próprios, para nos poupar à maçada da explicação e da reacção, - dá mais tarde origem a jovens inseguros, incapazes de resistir com coragem aos dissabores da vida, que buscam nos outros a satisfação dos seus desejos sem que estejam aptos a, por sua vez, dar um pouco de si próprios.
O exemplo conta imenso, é um facto, mas tem que ser percebido, não é fácil para uma criança ou a um jovem adolescente perceber o modo de vida e as convicções dos pais que passam por eles a correr ou que estão por perto a olhá-los sem olhos de ver.
Retive o comentário de um dos presentes, dizendo que “nós queríamos aprender a gostar do que fazíamos e eles agora só querem fazer o que gostam”… Como é que podemos aprender a lidar com essa perspectiva sem nos tornarmos um obstáculo que se arreda com enfado, numa repetição monótona do chamado choque de gerações??

A história

Verifiquei que houve, durante o período do fim de semana alargado, em que estive ausente, uma animada discussão no 4R sobre a morte de Pinochet.
Mas pouco se falou de Allende. Salvador Allende nasceu em 1908 e concorreu por 4 vezes às eleições presidenciais do Chile, tendo sido derrotado em 1952, 1958 e 1964, tendo ganho as de 1970. Nestas eleições, concorreu como candidato da coligação de esquerda Unidade Popular, um agrupamento formado por socialistas, comunistas, alguns sectores católicos e liberais do partido Radical e do Partido Social Democrata.
Embora sem maioria absoluta, conquistou o primeiro lugar com apenas 36,2% dos votos. Segundo a Constituição Chilena, coube ao Congresso confirmar a eleição, sem o que teria que haver nova consulta popular. Numa atitude de grande espírito democrático, o Congresso confirmou a eleição de Salvador Allende.
Allende, com apenas 36% dos votos, pretendeu destruir o que denominava de predomínio económico imperialista, abrindo caminho para a construção de uma sociedade socialista, embora dissesse que o pretendia fazer em liberdade. Com esse propósito, iniciou nomeadamente a concretização do seu plano de nacionalizações e de reforma agrária.
O processo não correu bem, tendo gerado enorme perda de nível de vida, descontentamento, greves e profunda agitação social.
O resto é conhecido.
É voz corrente que a política de Allende era legitimada pela vontade popular, já que ganhou eleições. Mas tal é um logro e uma completa falsificação da história. Allende quis impor uma “revolução” no Chile, contra a vontade da maioria da população, já que apenas um terço lhe dera o seu apoio. Esta é uma verdade que tem sido escondida.
Escamotear a história e não aprender com ela dá sempre maus resultados.
Mas nada perdoa nem desculpa os crimes de Pinochet.

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Franquezas...

Na SIC-Notícias, Mário Crespo, no final do debate entre Vicente Jorge Silva e Freire Antunes, que se seguiu a uma entrevista com o Dr. Almeida Santos a propósito da publicação das suas Quase Memórias, desabafou em frente daquelas personagens: "Vou-me penitenciar toda a noite por não ter dado mais tempo ao Dr. Almeida Santos".

Por 15,5 €...

Aquele anúncio é uma vergonha.
Um homem chega a casa do trabalho e vai chamando pela mulher, ou pelo filho, ou vai ao quarto da filha à procura dela. Os detalhes da casa são de conforto, com o pormenor dos ursinhos abandonados na cama da filha. Nas três ou quatro versões do anúncio, o homem lê com estupefacção os bilhetinhos secos a comunicarem que o deixaram por outro melhor ou seja, por outra pessoa que não se importava de pagar 15,5 € para lhes dar a felicidade insubstituivel de terem mais canais de televisão à escolha.
Não sei se o anúncio aumentou as vendas, mas é no mínimo de muito mau gosto. Digo no mínimo porque admito que, desastradamente, alguém tenha julgado que havia ali algum sentido de humor, uma espécie de paródia falhado da sociedade de consumo no seu melhor. Mas, lá diz o ditado, com a verdade me enganas, e como o humor é mesmo muito subtil(??) e as imagens são muito directas, a verdade é que pais e filhos se trocam por um prato de lentilhas várias vezes ao dia, na rádio e na televisão, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Há sentidos de humor que dão vontade de chorar. De dó.

Batemos no fundo?

A enorme maioria dos nossos bons escritores e poetas nunca teve por parte da comunicação social a promoção de um qualquer dos seus livros como uma senhora autora que acabou de lançar a obra que penso chamar-se Eu Carolina.
Não sei se tem sido mais publicitada a autora se a obra. Mas sei que há muita gente notável neste país, pela solidariedade que nunca nega, pelo espírito empreendedor que cria trabalho e riqueza, pela investigação que permite inovar, pela obra realizada nas mais diversas áreas, que nunca mereceu uma linha num jornal, uma palavra na rádio ou uma imagem na televisão.
Não é preciso mais nada para demonstrar os valores que presidem à nossa comunicação social, cujos responsáveis são ciclicamente condecorados pelo elevado critério editorial que exibem.
De qualquer forma, ou me engano muito ou aí teremos em breve a escritora Carolina a integrar algum ou alguns grupos da comunidade cultural que ciclicamente aparecem com abaixo-assinados na defesa dos grandes valores civilizacionais e democráticos. Com merecimento idêntico ao dos seus pares. Obviamente!...
Nota: Quando falo em publicitação do livro nos media, falo do espaço informativo que os "critérios editoriais" dedicaram à "obra"; não estou, pois, a referir-me a publicidade paga.
Contudo, também se poderá dar o caso de tal publicitação entrar na crescente categoria de "informação" devidamente remunerada...

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

“O Governo Britânico vai encerrar 60 hospitais!”…

O Serviço Nacional de Saúde Britânico anda com problemas há muitos anos. Foi pioneiro e fonte de inspiração de muitos outros. No entanto, a qualidade das prestações tem vindo a diminuir nos últimos anos, a insatisfação e críticas a crescer e os custos a disparar de tal forma que os responsáveis são obrigados a radicais medidas de poupança.
A melhor maneira de proceder à sua implementação, evitando a natural contestação e ruído de fundo, é justificá-las através de medidas técnicas, em que a bondade na prestação de cuidados de melhor qualidade é uma constante. Deste modo, o Governo Britânico acaba de anunciar a intenção de encerrar dezenas de hospitais com o argumento de salvar vidas. É verdade! Podem, de acordo com as suas contas, salvar mais de mil vidas, se concentrarem serviços em hospitais de maiores dimensões, mesmo que tenham de percorrer distâncias maiores. Sessenta hospitais poderão encerrar ou terem de transferir determinados serviços.
O exemplo subjacente a esta intenção prende-se com as doenças cardiovasculares. Caso ocorra um acidente agudo, o melhor é transportar o doente para um hospital de referência sem ter de passar por qualquer unidade de saúde intermédia. De facto, esta afirmação é verdadeira. Já em tempos, tivemos oportunidade de verificar, mesmo entre nós, atrasos substanciais na chegada aos hospitais especializados no tratamento destas situações (uma verdadeira “eternidade”!), agravados se tivessem de passar pelos centros de saúde, colocando em perigo de vida o doente. Muitas centenas de vida poderão ser salvas se forem referenciadas de imediato para uma unidade de cuidados intensivos. Mas é preciso que o transporte seja feito em veículos adequados para o efeito e com uma tripulação constituída por profissionais altamente qualificados. Ou seja, a urgência passará a ir a casa do doente. Se for assim, tudo bem. O pior é se o transporte continuar a ser feito de modo “meio artesanal”!
Os cálculos efectuados pelos colegas britânicos estão correctos, quando aplicados aos casos de enfarte do miocárdio ou de acidentes vasculares cerebrais, resta saber qual a sua eficácia, nomeadamente em outras situações que sendo, também, graves, não comportam o risco de morte imediata. A contestação à medida é um facto, e, apesar da forma elegante e tecnicamente correcta dos argumentos aduzidos, é ponto assente que o que está na base são problemas financeiros, porque esta realidade é conhecida há muitos anos, mesmo em Portugal!
Não sei se o fecho dos hospitais por parte do Governo Britânico se baseia nas ideias do nosso ministro da saúde, o qual tem vindo a tomar, como é do conhecimento geral, medidas idênticas no caso das urgências e maternidades. Talvez não!
Algumas maternidades já foram à vida e muitos Serviços de Atendimento Permanente vão encerrar de acordo com a “política de melhoria da qualidade técnica a prestar pelos serviços de saúde portugueses”. Face ao que está a acontecer, não me admiraria muito que, no futuro, alguns hospitais fossem também encerrados com o pretexto de melhorar a qualidade da assistência e salvar vidas! É sempre possível, tecnicamente, provar a “bondade” das iniciativas que “escondem”, como é óbvio, motivos financeiros, até, porque, não podemos ignorar que a assistência aos doentes se reveste de outras particularidades além das situações de emergência…

Prémio merecido

Portugal foi contemplado a semana passada com o prémio europeu de iniciativa empresarial na categoria "redução da burocracia", com o instrumento "empresa na Hora".
Este prémio visa reconhecer e recompensar iniciativas criadas pelas autoridades locais para apoiar o ambiente empresarial.
A "empresa na Hora" constitui uma prática amiga da economia e um excelente exemplo de modernização administrativa.
Prémio bem merecido, que constitui uma prova de que uma parte significativa do relacionamento dos cidadãos e das empresas com o Estado passa pela informatização de actos e processos administrativos.
O e-Government é o futuro...

O orçamento ininteligível, porém inquietante...

A senhora Dr.a Maria José Nogueira Pinto absteve-se hoje na votação do Orçamento para 2007 da Câmara em que tem assento como vereadora, a Câmara Municipal de Lisboa.
Disse do orçamento proposto o que não se atreveu a dizer toda a restante oposição. Descreveu-o como «ininteligível, inquietante, imobilista e incoerente». Nem mais nem menos. Ininteligível. Inquietante. Imobilista. Incoerente. E mesmo julgando-o assim, não votou contra, bem sabendo que a sua abstenção acabaria por viabilizar a aprovação do documento.
Não me espanta esta atitude, coerente com o tacticismo habitual com que se tece a política em Portugal mas também o plano inclinado por onde anda a credibilidade dos políticos.
O que já confrange é a explicação dada pela senhora Vereadora para não votar contra. Declarou ela que não quis "dar um enorme alibi" ao presidente Carmona Rodrigues para não governar a Câmara!
Se não soubéssemos o que está por detrás desta atitude, ficaríamos então a conhecer que para a Dr.a Maria José Nogueira Pinto uma Câmara, com a dimensão e as responsabilidade como a de Lisboa, pode ser governada, sem alibis, com um orçamento "ininteligível, inquietante, imobilista e incoerente".
Se depois dos episódios que se têm sucedido na Câmara de Lisboa restasse aos mais directamente envolvidos um pingo de dignidade, estaríamos por certo confrontados com outro desfecho. Em nome da decência na política.

Administração Pública: mais Estado?

Está genericamente compreendido que a reforma da Administração Pública assume uma enorme importância, não só pela necessidade imperiosa de oferecer aos cidadãos serviços de qualidade, mas também pela urgência de aumentar a produtividade da economia portuguesa em geral, libertando recursos humanos e financeiros para outras actividades.
A reforma da Administração Pública só é possível, já o está repetidamente afirmado, com uma redução significativa da sua dimensão, com uma abertura ao sector privado e com um novo modelo de gestão. É também indiscutível que o excessivo peso do Estado na economia portuguesa é uma força de bloqueio ao crescimento económico.
O Governo decidiu avançar com uma reestruturação da Administração Central do Estado – tendo criado para o efeito o PRACE (Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado) – começando pelo telhado, isto é, por estabelecer a macro estrutura, sem antes se conhecerem alguns exercícios indispensáveis, que constituiriam, a meu ver, os alicerces do edifício:
- Repensar as funções do Estado, trabalho que foi iniciado pelo Governo do Primeiro Ministro Durão Barroso, mas que como vai sendo habitual em Portugal – até parece que temos todo o tempo do mundo e os recursos financeiros não constituem problema – não foi retomado pelo actual Governo.
- Separar as actividades do Estado pela sua natureza:
1. aquelas que só o Estado pode desempenhar (estão neste caso as funções de soberania).
2. aquelas relativamente às quais o Estado deve garantir a respectiva prestação, mas que
podem ser realizada pelo sector público ou pelo sector privado (estão neste grupo a educação e a saúde).
3. aquelas que não devem ser retiradas à sociedade civil.
- Definir um novo modelo de gestão para as actividades que compete ao Estado assegurar - níveis de responsabilização dos dirigentes, níveis de descentralização das decisões, gestão plurianual dos recursos, gestão por objectivos, práticas de avaliação de performance dos serviços, estímulos à excelência do desempenho, etc.
O Governo foi por um caminho diferente, admitindo, é certo, a "externalização" de funções, “em casos em que se verifiquem ganhos de eficiência ou eficácia é ponderada a possibilidade de transferência de actividades, não críticas para as funções do Estado, para o sector privado ou social”. A transferência de funções para terceiros pode assumir formas desde a empresarialização pública da função (sector público empresarial do Estado) à privatização total, … pelo outsoursing e pelas parcerias público-privadas”.

É hoje notícia na comunicação social que o Governo vai proceder à empresarialização pública da "gestão pública", isto é, de actividades que se configuram de suporte à gestão dos recursos, designadamente a gestão de recursos humanos e a gestão de compras e da frota automóvel do Estado. É também referido que a futura "Empresa de Serviços Partilhados da Administração Pública (ESPAP)" poderá, por sua vez, "proceder à constituição de sociedades comerciais integralmente detidas por si ou igualmente participadas pelo Estado, com vista ao desempenho indirecto das atribuições que lhe são cometidas.
Sabemos ainda pouco sobre este projecto, mas uma coisa é certa, é que estamos perante uma mega estrutura pública, que me suscita grande preocupação, não só porque poderá vir a ser mais um "monstrozinho", mas também porque "engordará" o universo do sector empresarial do Estado.
A propósito do PRACE (ou não?) o Conselho de Ministros aprovou a semana passada uma outra empresarialização pública, a “Parque Escolar, E.P.E.” entidade que terá por missão modernizar as escolas secundárias. Esta nova EPE não constava, contudo, do PRACE, aprovado recentemente e considerado um instrumento político emblemático. Afinal, em que ficamos?
Começa assim a desenhar-se o caminho da reestruturação da Administração Pública.
Desejo profundamente uma mudança que conduza a nossa Administração Pública para patamares elevados de eficácia, eficiência e sustentabilidade de desenvovimento, mas não à custa de mais Estado.

A Promessa


Calem-me esta cegarrega!
(José Alves, quando a conversa já não tinha interesse nenhum)

Acho que nunca conheci uma mulher tão feia como aquela.
Era uma criatura atarracada, de um moreno sujo, com uma cara de lua cheia com duas continhas no lugar dos olhos, um nariz de batata e uma boca enorme onde ainda assim não cabiam os dentes todos. Chamava-se Maria do Céu, como uma provocação, mas todos a conheciam como “O Mastro”.
O Mastro vivia ansiosa por se casar e espalhava aos sete ventos que só não arranjava noivo porque não tinha enxoval e, nessa pobreza, não havia quem lhe pegasse na mão.
Morava na cave do prédio e, quando apanhava alguém nas escadas, era sempre a mesma cantiga. Cansado de ouvir as suas lamúrias, José Alves teve um dos seus ímpetos:
- Não seja por isso, mulher! Arranja lá o noivo, que nesse dia eu ofereço-te um serviço de jantar da Vista Alegre! – e contou em casa a sua liberalidade, perante a fúria da filha casadoira, que há muito lhe moía o juízo reclamando o serviço de pratos. Ele resistia ao pedido, afirmando que não sustentava vícios, o marido que lho comprasse, se a tanto lhe chegassem os pergaminhos.
Foi por causa dessa teima que se lembrou de fazer a promessa, assim como quem acha que era o mesmo que prometer a lua…Mas foi sossegando a mulher, que logo veio tirar cara pela filha, garantindo que não havia homem nenhum que se casasse com o Mastro nem que a visse coberta de ouro…
Até que um belo dia chegou a casa esbaforido.
- Não queres lá ver que o estafermo vai casar? Ele há cada um! Com tantas mulheres por aí, logo havia quem se embeiçasse pelo Mastro. Mesmo com o serviço de pratos, é obra…! E arrependia-se do seu impulso, a deitar contas à vida, que com aquela é que ele não contava.
Não teve outro remédio senão honrar a promessa e desviar as economias para a Vista Alegre e o sonho da filha para o bragal da outra. E o Mastro, de gratidão, ainda o convidou para padrinho…
Quando contava esta história, rematava sempre com a lição: “Fui buscar lã e vim tosquiado…!

domingo, 10 de dezembro de 2006

Irónico

O dia 10 de Dezembro passará a assinalar a data em que a Assembleia-geral das Nações Unidas tornou universal a proibição do genocídio e a afirmação dos direitos humanos mas registará igualmente a morte de Pinochet.

Ironias da História...

“Encanto e desencanto”…

Certos acontecimentos provocam-nos mal-estar e até um certo desencanto. Hoje, tive oportunidade de ver uma senhora que há cerca de seis a sete anos viveu um período dramático. Quase que não a reconheci. Bastante envelhecida e com ar muito triste, típico dos depressivos, vinha acompanhada da filha adolescente, bonita, bem cuidada e portadora de um sorriso meio triste, tradutor de uma sentida preocupação. Foi a voz que me levou a dar atenção aos traços faciais, permitindo deste modo identificá-la. Acto contínuo, lembrei-me do filho que, no início da adolescência, esteve na iminência de morrer devido a uma grave doença do sangue e que graças a um transplante, no qual me empenhei de forma muito particular e intensa, acabou por evitar uma morte anunciada. Não fiz qualquer comentário ao assunto, deixando que a senhora expusesse os motivos da sua visita. Tal como previa, passou a descrever um conjunto de sintomas e sinais de uma depressão. Apesar de no passado já ter passado por algo semelhante, diz-nos a experiência que temos de procurar factores exógenos. Foi o que fiz, perguntando-lhe se nos últimos tempos tinha ocorrido algo de relevante na sua vida que pudesse justificar a situação. Falou do marido, dos seus hábitos e estilos de vida menos saudáveis, e que eram fonte de preocupação. Importantes sem sombra de dúvida. O meu silêncio, propositado, foi suficiente para deslocar a atenção para o filho. Assim que começou a falar, teceu um conjunto de laudatórias considerações sobre o papel que desempenhei na altura da grave doença, voltando a agradecer tudo o que tinha feito. Perguntei-lhe se estava bem de saúde, que idade tinha neste momento e o que fazia. Quanto ao problema da doença estava tudo bem, estava curado. Mas o pior foi quando me olhou com um ar meio destruído dizendo: - "Oh senhor doutor, ele não trabalha, não permanece tempo nenhum nos empregos, faz vida de noite e ninguém me tira da cabeça que não se droga!" Antes de iniciar a frase, a parte interna do olho direito da filha começou a ficar meio brilhante anunciando lágrimas de dor. E assim foi! A conversa passou a desenhar-se ao redor deste assunto, da negação permanente por parte do filho, mesmo quando confrontado com evidências mais do que suficientes dos produtos aditivos, das suas reacções e das companhias, entre as quais se conta um jovem que também no início da adolescência sofreu um cancro do sistema linfático que foi curado, tendo na altura provocado as normais angústias e dor nos familiares. Vi e acompanhei o sofrimento e o desespero de ambas as famílias. Vi e congratulei-me com a vitória sobre doenças que ceifariam a vida de duas crianças. Vi renascer a alegria e a vontade de viver. Enquanto pensava nesta dualidade, dois jovens que estiveram condenados à morte, e que ao renascerem optaram por formas de conduta que poderão provocar se não a morte física mas outras formas de morte, a doente apressou-se a dizer: - “Oh senhor doutor como é possível desperdiçarem a vida depois de terem vencido a morte? Deviam dar graças a Deus e agora procedem desta maneira”.
A conversa continuou sempre debaixo do olhar triste e sem ânimo da jovem de dezasseis anos. Não deixei de transmitir esperança, muita esperança, embora interiormente sentisse um desencanto e um mal-estar que nem agora consigo disfarçar…

Direitos Humanos, um infindável caminho a percorrer…

Assinala-se hoje o Dia da Declaração Universal dos Direitos do Homem, assinada em 10 de Dezembro de 1948, após a constituição da Organização das Nações Unidas.

A Declaração, apesar de ser diária e grosseiramente violada por muitos países, ainda por cima signatários, é uma referência máxima e primordial dos direitos, garantias e liberdades de todos os seres humanos.

Mais lamentável do que a inexistência de um mecanismo que obrigue e puna os estados que não respeitam os valores e os princípios que subscreveram, é a verificação de que persiste, em grande parte do mundo, uma mentalidade não humanista – seja por razões culturais e religiosas, seja por razões ideológicas ou outras – que sistematicamente agride os mais elementares direitos humanos, num total desrespeito pela existência.

Mesmo os países desenvolvidos, incluindo o espaço da União Europeia, não correspondem integralmente, bastando para tal não ocultarmos a pobreza que consome uma parte dos seus cidadãos – ainda que nos pareça pequena – privando-os de dignidade e de felicidade.

É importante sermos ambiciosos quanto a melhorias neste fundamental domínio. A questão é como fazê-lo.

sábado, 9 de dezembro de 2006

Deixem-me rir!

"O Partido Socialista Europeu aprovou hoje uma carta com dez princípios que defende uma Europa com «direitos e deveres», rejeita um futuro entregue às mãos das forças do mercado e garante a luta pela sobrevivência do Modelo Social Europeu", escreve-se hoje no ´Público´.
Rejeita-se a ideia de entregar o futuro às forças do mercado?
Garante-se a luta pela sobrevivência do Modelo Social Europeu?
Em vista da prática política de um dos proponentes destes novos mandamentos socialistas, o Primeiro-Ministro português; das políticas económicas de Zapatero; das medidas sociais de Blair ou das propostas em que se empenha a vistosa candidata socialista à Presidência da República Francesa, a afirmação dá vontade de rir!

O século XXI trouxe a transformação do socialismo, enquanto ideologia ou conceito, em marca. Não importa na natureza das medidas. Importa sim que se lhe aponha o carimbo de "socialistas". E está visto que o discurso do "social" vende.

Boa, a formação dos novos lideres "socialistas" nas técnicas de marketing.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

“Estaria Deus distraído?”…

As notícias sobre a corrente dos negacionistas do Holocausto são preocupantes. É mais do que óbvio o interesse político de certos países do Médio Oriente em por em causa o estado de Israel. Mais difícil de compreender é a realização de uma conferência, envolvendo representantes de 30 países, a realizar pelo Governo iraniano, para se pronunciarem sobre a sua existência ou não.
Quem diria que um português vai estar presente! A notícia descreve-o como um perfeito negacionista que considera o Holocausto "um álibi perfeito para o Estado de Israel".
Independentemente do papel menos positivo que possa ser atribuído à política judaica, não é admissível questionar o genocídio dos judeus. A este propósito, recordo-me, com uma nitidez perturbante, as imagens que folheei, quando tinha 10 ou 11 anos, numa enciclopédia histórica do pai de um amigo que tinha feito recentemente a sua aquisição. Às escondidas mirávamos, incrédulos, as fotos de mulheres e homens enforcados, corpos esqueléticos de crianças, homens e mulheres “sorrindo” sofrimento. Ficávamos meio aparvalhados a olhar um para o outro, perguntando o que era aquilo. Não questionávamos os nossos pais com medo que nos ralhassem por andarmos, na típica curiosidade infantil, a vasculhar coisas proibidas, e ainda por cima com corpos nus. Mas a curiosidade era tanta que ficávamos à coca de qualquer conversa sobre a matéria daqueles estranhos livros. Foi assim que aprendi, ou antes, comecei a compreender, o que tinha sido feito aos judeus pelos alemães durante a guerra, fazendo de conta que estava a léguas de distância distraído com as minhas brincadeiras. Não conseguia compreender as razões de tamanha maldade que muitas vezes perturbou o meu sono, transformando os sonhos em horríveis pesadelos. Com o tempo, a minha curiosidade não teve limites sobre o que efectivamente tinha acontecido. Ainda hoje, quando sou confrontado com notícias, filmes, livros, crónicas e factos que descrevam aquele terrível período, os meus sentidos despertam com a mesma intensidade incomodativa quando tinha dez anos, fazendo emergir as tais imagens que não consigo esquecer. Agora, o aparecimento desconcertante deste estranho movimento, pondo em causa a tragédia daqueles tempos, provoca-me náuseas e um sentimento de repulsa, porque viola a memória de todos os que foram vítimas da ignomínia nazi e ofensiva do respeito dos que carregam sem culpa a culpa dos carrascos, perguntando como foi possível que membros da espécie "mais evoluída" fossem capazes das mais horríveis atrocidades face a seres humanos.
Estaria Deus distraído?...

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Para que conste!...

"O desafio é reorganizar a administração desconcentrada do Estado, preparando o caminho para uma regionalização da eficácia com o valiosíssimo crédito de aditamento democrático".
Eduaro Cabrita, Secretário de Estado da Administração Local, no Debate Olhares Cruzados sobre o Porto IV , citado pelo Público.

Porto! Porto! Porto! És a nossa glória!...


Resisti...mas não consegui!
É que não seria curial nem tolerável deixar os visitantes do 4R sem o supremo gosto de reverem a glória azul e branca!...

Aposta perdida

Acaba de ser anunciado que o BCE decidiu mesmo subir a sua principal taxa de refinanciamento de 3,25 para 3,5%.
Sem surpresa para os analistas, que esta manhã davam essa decisão como certa.
Tenho pois de reconhecer que perdi a aposta que aqui tinha lançado em Outubro.
Por terem confiado na minha precária capacidade de previsão também M. Ferreira de Almeida e Rui Vasco perderam.
Ganharam Tonibler e C. Monteiro, mais astutos do que nós.
O Pinho Cardão, com a proverbial sabedoria/“ratice” dos beirões, optou por não entrar no jogo e agora deve sorrir, divertido, até porque, se não estou em erro, se encontra “longo” em Euros e consequentemente feliz por este desfecho.
Teremos então de organizar, com o maior gosto da minha parte, o prometido jantar na Adega do Saraiva em Nafarros, para o que sugiro 28 ou 29 do corrente, 4 ou 5 de Janeiro pºfº. Aguardo sugestões dos participantes que pretendam aderir, bem como do Pinho Cardão, na sua qualidade de árbitro-convidado.
Noutro plano, esta decisão do BCE deixa-me dúvidas, parecendo-me que estava prefabricada quaisquer que fossem os dados fundamentais após a decisão de Outubro. Explico as razões.
Em primeiro lugar, a inflação na zona Euro, tanto em Setembro (1,6%) como em Outubro (1,8%), ficou bastante aquém do nível de vigilância do BCE – que é 2%, como se sabe.
Em segundo lugar, o Euro sofreu uma apreciação considerável em relação ao US dólar, neste último trimestre de 2006, a qual tem efeitos moderadores da actividade económica, sobretudo nos sectores mais expostos à concorrência internacional.
Em terceiro lugar e mais importante, na minha óptica, a economia mundial depara-se hoje com o dilema do enorme défice externo americano e a necessidade de o corrigir de forma a não por em causa a sustentabilidade do crescimento global.
Para que isso seja possível, tem sido insistentemente referido pelos especialistas um contributo por parte das restantes economias, designadamente através de políticas que promovam, ou não restrinjam, a despesa nacional.
A economia da zona Euro deveria ter aqui um papel muito importante, tal como as grandes economias da Ásia – Japão, China, Índia e outras.
Se pretendermos uma correcção suave, não poderão os EUA só por si corrigir o défice, pois a solução “EUA alone” implicaria uma recessão económica nos EUA ou uma fortíssima desvalorização do US dólar ou as duas coisas juntas, em qualquer caso com nefastas consequências para todos.
Com este exemplo do BCE, será que os restantes parceiros económicos dos EUA vão demonstrar altruísmo e colaborar na tarefa em que a zona Euro não parece disposta a participar?
Como disse esta manhã à R.R., eu não tenho a pretensão de dispor de informação equivalente à do BCE, nem me julgo capaz de avaliar melhor a situação económica global do que os responsáveis dessa instituição.
Mas confesso que esta é das decisões que me deixa apreensivo...O que virá a seguir?
Já não me atrevo a nova aposta...

Levantar a cabeça!...

É preciso levantar a cabeça é a expressão que mais tenho ouvido nas rádios e televisões nas duas últimas noites e hoje de manhã e nem digo a propósito de quê!...
Com todo o respeito pela opinião dos jogadores, treinadores, directores e comentadores, não concordo.
É que gente de costas direitas e cabeça emproada, depois do que fez, é o que mais abunda por aí. E como anda à vontade, sem caução ou sem pulseira, continua a julgar-se dona do mundo e a fazer igual!...
Deste jeito, continuaremos a ser dos últimos da Europa e, no futebol, sumariamente eliminados. De cabeça bem levantada, para esconder a falta de sabedoria e mérito. De cabeça bem levantada, como nada se tivesse passado!...
E amanhã serão novamente heróis nas primeiras páginas dos jornais!...
E esquecidos ou reduzidos a pequenas letras interiores os que, trabalhando bem, têm qualidade e mérito, competem e passam eliminatórias e trazem valor acrescentado para o país!...
Para olhar estes de frente, apoiá-los e seguir-lhes o exemplo é que a cabeça, pescoço e ombros deviam andar bem erguidos!...

Da TLEBS- VII

Para um pouco de boa disposição, e embora interdito a sensibilidades feministas mais aguçadas, mas mesmo desculpável por estas se tiverem um quanto baste de sentido de humor, recomenda-se no Tonibler o post do próprio Tonibler Dos botões do fogão, da bica em chávena morna e do TLEBS.
Dar-me-ão razão!...

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

“Soberana irresponsabilidade”…

Vários factores têm sido responsabilizados pelo aumento da incidência das doenças alérgicas verificado nas últimas décadas. A par de uma excessiva higienização, característica de um mundo moderno e “asséptico”, em que se observa ausência de contactos, em idades precoces, com várias substâncias e agentes, associa-se também uma exposição a determinados produtos químicos. A este propósito, as famosas dioxinas conseguem, entre outros efeitos, provocar, em doses muito baixas, alterações da imunidade da mucosa intestinal induzindo uma sensibilização sistémica aos antigénios orais. As crianças são mais sensíveis, estando mais expostas a este grupo de substâncias tóxicas.
Um outro estudo descreve que os homens com níveis de dioxinas elevados no sangue apresentam taxas de testosterona mais baixas e menor prevalência de aumento da próstata. Claro que a redução do alargamento da próstata é benéfico, mas, espero que ninguém se lembre de combater este problema, que atinge uma proporção elevada dos homens a partir de certa idade, expondo-os à poluição! Este achado resulta de estudos efectuados em veteranos norte-americanos que estiveram expostos ao famoso Agente Laranja durante a guerra do Vietname. E, a este propósito, passados trinta anos sobre o seu fim, as consequências médicas da utilização desta substância ainda se fazem sentir. Uma verdadeira “ferida aberta”. São trágicos os efeitos. Muitas famílias viveram e vivem dramas com os seus filhos deformados, muitos dos quais morreram e outros vão morrendo aos poucos.
Calcula-se que foram lançados mais de oitenta milhões de herbicidas, entre 1961 e 1971, pelas forças norte-americanas nas florestas e plantações. Cerca de 5 milhões de pessoas estiveram expostas e pelo menos um milhão de crianças vietnamitas foram e são vítimas. Ainda hoje vastas zonas do território apresentam valores muito elevados de dioxinas, centenas de vezes superiores aos admitidos noutros países.
Os representantes das vítimas exigem a Washington que reconheça as suas responsabilidades, procedendo às correspondentes compensações. O que é estranho é o facto de os norte-americanos insistirem que não há provas científicas suficientes de que as malformações congénitas, e muitas outras doenças, sejam devidas às dioxinas! No entanto, soldados norte-americanos, assim como australianos e neozelandeses, que estiveram expostos ao agente laranja, receberam importantes indemnizações das companhias responsáveis pela produção do químico, mas quando a associação das vítimas vietnamitas exigiu, também, uma indemnização aos fabricantes o tribunal recusou o pedido! Entretanto, o Governo norte-americano fugiu da demanda invocando ”imunidade soberana”. Curioso! Saddam foi condenado e é responsável por vários crimes, nomeadamente a morte de curdos com substâncias químicas, mas quanto ao crime norte-americano praticado, também, com químicos, e que continua a afectar inúmeras crianças vietnamitas, é invocado um conceito jurídico!
As cicatrizes da guerra do Vietname são visíveis, muitos anos após o fim da mesma. Cicatrizes que tendem a abrir-se em corpos de inocentes que entretanto vão nascendo….

Da TLEBS-VI

Embora economista, fui dos primeiros, há quase um ano, a escrever sobre o TLEBS e a criticar a "monstruosidade" que representa, pelo gongorismo dos termos e sobretudo pelo antagonismo e animosidade que certamente irá criar em relação à leitura e à literatura. Em Outubro cheguei mesmo a abordar este ponto no texto Nunca conseguirão ler um poeta.
Não é escandaloso que um Economista fale da "nova" terminologia: a língua é um património de todos e não um feudo de linguístas, por mais exclusivos que se apresentem.
Ultimamente, e bem, têm-se multiplicado os artigos na comunicação social, pró e contra essa novidade terminológica. De alguns tem vindo a ser dada nota neste blog.
Hoje, permito-me destacar a opinião expressa no Diário de Notícias por Vasco da Graça Moura, com o título As Vestais, e por Vicente Jorge Silva, com o título Deixem-nos trabalhar.
Ah! Hoje dei por mim a consciencializar-me de que vinha trocando o género à TLEBS. TLEBS é um nome feminino, não masculino, nem parece que epiceno. No melhor pano cai a nódoa!...

Argumentação de betão!...

Multiplicam-se as tomadas de posição quanto ao sentido de voto no referendo ao aborto. E utiliza-se um instrumental de argumentos para todos os gostos.
Miguel Relvas, um Deputado social-democrata, antigo secretário-Geral do Partido, assume posição pelo "sim", quando antes era pelo não, e fundamenta, no Diário de Notícias, a sua posição numa razão de modernidade.
"Não podemos ser apenas modernos nas auto-estradas e nas telecomunicações. Evoluí", referiu Relvas!...
Confesso que a argumentação é poderosa e ajustada ao tema!...
Com um pequeníssimo ponto fraco, no entanto: é que, aquando do anterior referendo, já havia auto-estradas e telecomunicações!...

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

Trabalho Voluntário, uma distinção social e económica...

Não comemorámos o Dia Mundial do Voluntário – hoje, dia 5 de Dezembro. Quero eu dizer que não foi conferido, entre nós, ao trabalho voluntário, neste dia que poderia ter sido um dia especial, a relevância política e social que merece, assim como às actividades sociais e económicas que dele dependem e ao seu contributo para a humanização da sociedade.
Naturalmente que o voluntariado vive-se todos os dias, em todos os concelhos do País, apenas para dar alguns exemplos, em centenas de instituições de solidariedade social, de hospitais e de escolas e de outras unidades ligadas ao sector social, e sente-se no dia a dia na disponibilidade e boa vontade de milhares de voluntários de todas as classes sociais, das mais diversas áreas de competências técnicas e abrangendo um leque etário muito alargado.
Ora sendo o trabalho voluntário uma força económica significativa, que não gera “despesa”, especialmente despesa pública (em particular na Acção Social, a cargo do Estado, isto é, financiada através dos impostos), e um tributo social distinto, pela vertente humanista que em si encerra, bom seria que esta realidade fosse publicamente valorizada pelo excelente exemplo que constitui e pelo seu grande contributo para ajudar a construir um País melhor, enquanto factor de valorização social e económica. Seria igualmente uma oportunidade de promover a sua força.
Quando comparamos os pesos do trabalho voluntário e do sector não lucrativo no PIB, percepcionamos que são “fracos” em Portugal quando comparados com outros países da União Europeia. O seu potencial de crescimento é grande.
O desenvolvimento do trabalho voluntário será cada vez mais uma oportunidade e um desafio da sociedade civil, impulsionados pela necessidade, cada vez mais presente, de, por um lado, os cidadãos se sentirem mais úteis, mais realizados e mais responsáveis, colocando o seu tempo e o seu conhecimento à disposição de causas sociais e outras que melhorem o bem estar colectivo e de, por outro lado, as empresas oferecerem respostas concretas ao exercício de políticas de cidadania e de responsabilidade social, através de um apoio formal e organizado aos seus colaboradores, preparando-os e motivando-os para o exercício do voluntariado.

Opostos ou, se quiserem, ainda a República

A verdade é que as famílias se detestavam cordialmente. A bem dizer, a República tinha-se instalado no meio, separando os dois prédios, um em frente do outro na mesma rua, como se fosse um fantasma.
José Alves veio com a família para Lisboa quando o filho mais velho acabou o liceu. Quanto a isso, ele tinha ideias claras: quatro filhos, quatro doutores. E olhava de esguelha para a única filha, agarrada ao crochet, condescendendo: “-Um, pode ser genro.”
Mas no prédio em frente morava uma família abastada com duas filhas bem bonitas. A mais velha, sobretudo, com aqueles olhos enormes, um porte altivo, dava nas vistas quando saía de casa para ir às aulas de piano no Conservatório e a vizinhança comentava que ela parecia uma estrela de cinema. Na janela da frente, uns olhos jovens e ardentes seguiam-lhe os passos como quem segue o traço do destino.
José Alves ditou a sentença ao filho: “-Não costumo vê-los na missa ao domingo. Aquilo é gente herege. Tira daí a ideia.”
Na casa da frente, a Conceição, fiel guarda da sua menina, reportou os tímidos mas teimosos avanços do rapazola que lhes seguia os passos e se fazia encontrado no eléctrico. Era estudante no Técnico e estava apaixonado, isso dava bem para ver.
E a matriarca ditou a sentença à filha: “- Era só o que faltava. Aquilo são ratos de sacristia, diz que o pai até andou no seminário. A nossa família é republicana, tens muito por onde escolher, olha o teu primo António, que bonito rapaz…!”
Mas não houve volta a dar-lhe, com a Conceição a trocar as voltas à patroa e a perder o eléctrico pelo caminho, para não ter que delatar os encontros, e a menina a arranjar maneira de ir com uma amiga à missa de domingo.
Casaram 11 anos depois, ao fim de um namoro contrariado que só lhes sublinhou a paixão. As famílias nunca ultrapassaram uma reserva surda que disfarçavam com cerimónia, salvo quando José Alves, cedendo ao seu espírito trocista, invectivava o vizinho: “- Então, compadre, já deu para o peditório da nova Igreja? Bem precisados estamos, que os fiéis já ficam cá fora quando o novo padre reza a missa!” Para ouvir logo a resposta torta da comadre, cortando o impulso conciliador do marido. “-Qual igreja qual quê! Não precisamos cá de santinhos de pau carunchoso!”
E lá seguiam o seu caminho, que era dia de visita dos filhos e dos netos. Ao almoço em casa de uns, mãos bem lavadas e a tabuada na ponta da língua. Depois, atravessava-se a rua e iam ao lanche em casa dos outros, até à missa das 7.
Esta dissidência entrou para o património do novo núcleo familiar como um exercício permanente de tolerância e capacidade de ver as pessoas para além das suas crenças, respeitando cada um conforme os seus actos e não deixando que isso interferisse com o imenso afecto que todos, à sua maneira, foram mestres em suscitar e transmitir…

Deficiências e Incapacidades

O Plano de Acção para a Integração das Pessoas com Deficiências ou Incapacidade foi ontem formalmente apresentado na Amadora pelo senhor Primeiro-Ministro.
Mais uma vez, e independentemente do mérito do plano, não resistiu o Governo à tentação da propaganda, ao fazer o habitual discurso da quantidade: aprovou noventa e não sei quantas medidas.
O tema é, sem dúvida, por demais sério e importante para não ser instrumentalizado. O que se fizer de bem a favor dos cidadãos com deficiência não deveria servir de contraponto ao impacto das opções orçamentais que os vão penalizar, como este anúncio faz suspeitar.
Mas se é sério e importante, não deveria levar a Oposição, e em especial o PSD, a ter uma palavra sobre a matéria? O que fazer para superar esta incapacidade de reagir em assuntos onde não pode existir omissão sob pena de deixar de haver Oposição?

Do TLEBS- Vogalogia e Consoantologia- V

Pois no meu último escrito, ficámos no aparelho fonador, que permite fonar as vogais e as consoantes.
Confesso que, até ao TLEBS, considerava ter conhecimentos bastantes aprofundados no que respeita a vogais e consoantes, da forma de as juntar e de as ler. Mas enganei-me redondamente: não sabia nada de vogalogia nem de consoantologia!....
Quanto à vogalogia, quem pensa saber que o a,e,i,o,u basta é um ignorante. Isso era no tempo de Salazar!... É que é imprescindível conhecer que há vogais orais e nasais, há vogais altas, médias e baixas, e também arredondadas, adiantadas e recuadas!... Quanto às arredondadas, a lógica manda que seja o o; quanto às outras, vá lá saber-se!...
Mas não ficamos por aqui. Se não se souber que também há semi-vogais, sofre de iliteracia profunda. Que também há para vários gostos: orais, nasais, arredondadas, adiantadas e recuadas!...
E as consoantes, Senhor? Pois aqui a variedade é maior. Podem ser, desde logo, surdas e sonoras. Mas é indispensável saber o modo e o ponto de articulação. Porque se não se articulam no ponto, fica tudo estragado. Então aprendam que, quanto ao ponto, as consoantes são labiais, dentais, alveolares, palatais e velares!…E quanto ao modo, podem ser oclusivas, fricativas, nasais, orais, laterais, vibrantes e africadas. E podem combinar-se todas!…Cá por mim, gosto sobretudo de um mix africada, sonora arredondada e alta!...
Para um crianço ou uma criança, a quem esta terminologia se dirige, o domínio completo da vogalogia e da consoantologia é fundamental, para aprender as letras e o seu significado e condição sine qua non para aprender a ler e a escrever!…
Já para indivíduos mais adiantados, por exemplo, para quem escreve num blog digno como o 4R, a importância deste capítulo do TLEBS está em dar pistas para harmonizar devidamente a utilização das letras. O importante é escolher a melhor forma de combinar os diversos tipos de vogais, com os vários especímenes de semi-vogais e os vários géneros de consoantes. Por exemplo, num TLEBS que se preze, nunca se deve combinar uma vogal baixa com uma semi-vogal recuada e uma consoante surda. Ninguém ligará nada ao discurso. Mas a combinação de uma vogal alta com uma semi-vogal nasal e uma consoante vibrante também pode assustar as pessoas, pelo que é desaconselhável também.
Tendo aprofundado o assunto, aqui deixo um bom exemplo de uma boa literatura em TLEBS:
Edgyetc bçotena voteblis lotrnfdesiz folnstexnebs pteqnvcrscemlfri zaunrvs i encdindc i r ronrsbos!
Compreenderam? Quê? Isso não tem qualquer sentido? Mas se é esse mesmo esse o objectivo do TLEBS!... Compreenderam perfeitamente!...

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

Sá Carneiro


Faz hoje 26 anos que morreu Sá Carneiro.
Alguns julgam-se os seus sucessores exclusivos e os paladinos das suas ideias. Não. Sá Carneiro era ele e deixou um Partido, o PSD, e não sucessores individuais.
A minha homenagem no 4R.

Surpreendente ou talvez não

Hoje, Kofi Annan fez saber ao mundo que entende que a situação no Iraque é pior do que no regime de Saddam Hussein.
Kofi Annan é o exemplo vivo de que, nalguns cargos, a coragem de quem os ocupa só surge com o fim do mandato, à medida que a responsabilidade se vai tornando cada vez mais leve.
Há tempos, a propósito de um caso da política doméstica, um amigo dizia-me que a sobrevivência em alguns lugares alimenta-se de elefantes. Annan mostrou uma enorme capacidade de digestão!
A situação catastrófica no Iraque não é de agora. Só um absoluto insensível não a pressentiria há muito. Só um cego não a veria quando começou a perceber-se o erro nas motivações da guerra. A denúncia de Annan, essa sim, é de agora, a escassos dias de cessar o seu mandato, com o propósito de que a História não registe o cúmplice conformismo do cessante Secretário-Geral das NU.
Engana-se. Kofi Annan vai nela figurar como o homem que, tendo um estatuto que o habilitava - como a nenhum outro - para o arbitramento da paz, foi incapaz de um gesto para mudar o sangrento curso das coisas.
E registará mais. Não deixará perder a memória de que a coragem lhe chegou na hora em que a simpatia da Administração norte-americana deixou de valer.

hMaxi-K

A terapêutica génica irá constituir no futuro uma das principais armas para combater muitas afecções. Algumas têm sido alvo de atenção, nomeadamente, as que provocam nas crianças gravíssimas deficiências imunológicas, caso dos “meninos-bolha”. No entanto, em termos práticos têm ocorrido muitos problemas.
Agora apareceu um estudo em que o investigador conseguiu transferir um gene, o hMaxi-K, capaz de estimular o relaxamento dos músculos lisos do pénis, graças à criação de canais adicionais de potássio. O efeito deste gene persiste durante vários meses, eliminando no futuro as actuais drogas utilizadas para o tratamento da disfunção eréctil. Claro que há, ainda, muito a fazer para chegar a uma utilização plena. Mas, atendendo à elevada prevalência da disfunção e à procura de soluções, não temos dúvidas sobre o que o futuro nos reserva. Acresce que as técnicas a utilizar poderão constituir uma forma de garantir o sucesso de tratamento de outras situações mais problemáticas, sobretudo as que atingem as crianças.
Atendendo à prevalência da situação, ainda nos arriscamos assistir ao nascimento de uma nova espécie humana geneticamente modificada: Homo sapiens sapiens hMaxi-K…

Uma realidade difícil

Creio que uma das informações mais relevantes do último Boletim Económico do Banco de Portugal (Novembro 2006) passou despercebida a muita gente. Do que se trata, então?

Mantendo, face à projecção anterior, a previsão para o crescimento do nosso PIB em 1.2% para este ano, o banco central refere que 92% deste valor (sim, não há engano, é isso mesmo: 92%) são explicados pela procura externa e apenas 8% pela procura interna. Quer dizer: o crescimento económico de Portugal em 2006 dependeu quase na sua totalidade das exportações. Não é que seja uma surpresa: com as famílias e as empresas endividadas como estão não será, com certeza, com o consumo privado e o investimento que se poderá contar para reanimar a economia. É dos livros: quando existem dívidas para pagar, menos recursos restam para gastar (consumir e/ou investir). E as taxas de juro europeias devem continuar a subir, o que até vem agravar a situação…

Também não creio que se possa contar com o consumo público, se a descida do défice baseada na contenção/consolidação da despesa pública for mesmo uma realidade (e espero bem que o seja…).

Juntemos, agora, a este panorama interno as nuvens que existem no horizonte para a economia internacional em 2007.

Desde logo, a esperada – e que já está a ser sentida – desaceleração dos EUA, que afectará negativamente a Europa. Que, por seu lado, ainda terá que enfrentar a subida do IVA na Alemanha (o “motor” do crescimento europeu) de 16% para 19% logo em Janeiro, e a já referida continuação da subida das taxas de juro do Banco Central Europeu. Julgo que não é preciso mais para podermos concluir que só um milagre manterá o dinamismo do nosso sector exportador no próximo ano.

Assim sendo, é legítimo questionar: deveremos esperar um crescimento da nossa economia em 2007 superior aos 1.2% estimados para este ano? Não creio que a resposta seja difícil…

Sou pessimista? Pode até ser. Mas os números e a informação que vai sendo disponibilizada não me permitem, infelizmente, ter outra leitura da realidade…

"Esclerose múltipla"...

Comemora-se hoje, pela primeira vez entre nós, o “Dia Nacional da Pessoa com Esclerose Múltipla”.
Trata-se de uma doença com consequências bastante graves e de evolução, de modo geral, lenta, afectando alguns milhares de compatriotas.
A terapêutica desta afecção é gratuita, mas dispendiosa, a tal ponto que, segundo o presidente da Entidade Reguladora de Saúde, alguns hospitais não deverão estar a aceitar estes casos para pouparem alguns milhares de euros!
Ao ouvir a notícia fiquei chocado com o facto, porque, sendo uma atitude discriminatória, vem levantar algumas dúvidas sobre a “real política na área da saúde”. Importa, face à gravidade da denúncia, saber, concretamente, o que é que se está a passar. Se for verdade, então podemos perguntar: - O que é que o senhor ministro tem a dizer?

Retratos ou as insuspeitas consequências da República

José Alves era uma pessoa desconcertante.
Quem o visse, com os cabelos de um branco luminoso, o nariz comprido e uma pálpebra meio descaída a esconder-lhe o lampejo trocista do olhar, julgava-o um velhote sisudo e pouco dado a intimidades. Mas, ao cabo de pouco convívio, logo lhe assomava um humor delicioso, brincalhão mas exigente, e uma cultura de saber feito pela curiosidade imensa do seu espírito inquieto.
Nasceu na Covilhã, corriam os finais do século XIX, e era o mais velho de 12 irmãos vivos. Contava, com graça, que os pais tinham tido 18 filhos, dos quais apenas 3 rapazes, e que o pai morreu novo, pelos 50 anos, não sabia se de susto, se de exaustão.
Herdou o nome do irmão que o antecedeu e que morrera à nascença, e assim justificava uma espécie de dupla personalidade que o tornava tão interessante e imprevisível. “- Sou José pelos dois”, dizia, na galhofa. O irmão mais novo, o Tonecas, distava dele mais de 20 anos, e pelo meio havia uma legião de irmãs cujos nomes ele desfiava como quem conta as contas de um rosário.
José Alves estava destinado ao Seminário, único meio de prosseguir estudos. Mas veio a República, e o incidente desviou-o de ser padre, mesmo a tempo da opção que ele não tinha ainda como pacífica. Seja como for, viu-se entregue ao destino comum e não teve outro remédio senão dedicar-se ao comércio de lanifícios, arranjar noiva e constituir família. Tinha o latim como segunda língua e ouvia ópera na telefonia, horas a fio, desafiando os netos a adivinhar o desenrolar da história através da intensidade das melodias.
Teve 4 filhos e 14 netos, junto de quem era uma referência. O seu gosto pela vida fazia-o dizer que nenhuma pessoa é bonita se não souber dar uma boa gargalhada. E levava isso tão a peito que se afincava a ensinar os netos a rir, mal lhes adivinhava um pouco de tino. “- Ri-te lá, minha menina, ri-te. Ah,ah,ah!” Daí que já poucos o conhecessem pelo nome herdado do irmão, pois José Alves era apenas o “Avô AhAh”, modo como os netos se lhe dirigiam numa homenagem que o enchia de orgulho.
Muitas vezes se perguntava como teria sido a sua vida se a República não lhe tem fechado as portas do seminário. E concluía invariavelmente, para atazanar Maria do Espírito Santo, sua companheira de mais de 50 anos:
-Ai, Maria, Maria, a tua sorte foi a República!
E seguia pelo corredor fora, satisfeito, a enrolar o cigarro na mortalha Ziguezague e a rir baixinho com a rima que lhe chegava como um eco:
- Sorte? Olha para ele!, tem tanta graça como uma cabaça!

O que torto nasce!...

No Governo de Guterres, Augusto Santos Silva foi o Ministro da Tutela responsável por Administrações que levaram a RTP a um esbanjamento persistente e escandaloso de recursos públicos, a prejuízos monstruosos, a uma dívida insuportável, em suma, à sua maior crise económica e financeira de sempre e a uma inevitável má qualidade da programação, para mais nada conforme aos objectivos de serviço da estação. A prova de que assim foi está no facto de ter bastado entrar uma nova Administração com gestão criteriosa, para os custos diminuírem drasticamente e a qualidade melhorar.
Aquando da transição do Governo, e mercê dos compromissos de toda a ordem no âmbito de um bloco central de interesses, em vez de um despedimento com justa causa, os últimos Administradores foram tratados com enorme reconhecimento, sendo alguns nomeados para importantes lugares de empresas participadas pelo Estado.
O crime compensa e também José Sócrates nomeou Augusto Santos Silva novamente para Ministro e novamente com a tutela da RTP. Se tivesse algum respeito por si próprio e pelos portugueses, Santos Silva, no mínimo, não aceitaria voltar a tutelar a empresa. E a sua presença volta a notar-se da pior maneira, agora através da alteração da Lei da Televisão.
A Lei em vigor refere que os programas não devem, em caso algum, conter pornografia ou violência gratuita em acesso não condicionado. Todavia, o Projecto de Lei, que recentemente apresentou, só proíbe a emissão de programas pornográficos e violentos, se forem susceptíveis de prejudicar manifesta, séria e gravemente a livre formação da personalidade de crianças e adolescentes. É um critério tão lato que se presta às mais diversas interpretações.
Augusto Santos Silva, do alto da sua esclarecida inteligência, considera que, em caso de colisão com a norma, a Entidade Reguladora da Comunicação Social tem poderes para interromper a emissão.
O que pressupõe que, durante a emissão de tal programa, a Entidade Reguladora tenha tempo para reunir, aferir e debater o eventual conteúdo pornográfico ou violento. E que tenha ainda tempo para decidir e comunicar, em tempo útil, a suspensão do programa. E para ouvir as razões da estação. Tudo isto em tempo real, porque o Regulador reúne, debate, decide e comunica a decisão, com o programa no ar!... E pressupondo, claro, que algum dos membros o começou a ver, para pedir a reunião ao Presidente!...
Mais uma lei inaplicável e mais uma vez o Ministro no seu melhor!...

domingo, 3 de dezembro de 2006

Fronteiras

Realizou-se neste fim-de-semana alargado, o VII Congresso Hispano-Luso de Direito Administrativo. Encontro de professores das faculdades de direito portuguesas e espanholas que se dedicam à investigação e ensino daquele ramo do direito público, reúne de dois em dois anos, salvo erro desde 1991, por iniciativa dos Professores Freitas do Amaral e Lopez Rodó (entretanto falecido).
O tema do encontro deste ano, que se realizou na Universidade de Sevilha, foi particularmente interessante: o direito do ambiente e do ordenamento do território no quadro das relações transfronteiriças.
Observa-se que a cooperação entre Portugal e Espanha se tem feito sentir em intensidades diferentes nas matérias ligadas ao ambiente e recursos naturais por um lado, e do ordenamento do território por outro. Se nos domínios do ambiente existem exemplos de boa cooperação no espaço ibérico (embora o triste exemplo do Prestige demonstre que há muito a fazer), já no que respeita à articulação das políticas de ordenamento do território de um lado e de outro da fronteira, dominam os critérios estritamente nacionais e são pouco sentidos os interesses comuns. Se excluirmos as intervenções motivadas pelos (dinheiros dos) programas INTERREG que contribuíram para estimular a colaboração entre autoridades portuguesas e espanholas, em especial na criação de infra-estruturas e equipamentos em algumas regiões de um lado e de outro da fronteira, o que por vezes encontramos são critérios gritantemente distintos quanto ao uso, ocupação e transformação de solos que só uma linha imaginária divide.
O território e a sua gestão estão normalmente ligados à soberania dos Estados. Porém, nos tempos que correm e no espaço geopolítico em que nos integramos, há interesses que não podem ser vistos nem regulados unilateralmente. Não faz nenhum sentido que se institua uma zona condicionada por razões ambientais de um lado da fronteira, e do outro lado, em território com a mesma valia ambiental se admitam ocupações massivas de edificado, como neste momento acontece nas margens da foz do Guadiana. Como não faz sentido que áreas protegidas que ocupam território português e espanhol, tenham objectivos conservacionistas e critérios de gestão diferentes apesar das evidentes identidades situacionais, como acontece com o nosso Parque Nacional da Peneda-Gerês e do Parque Natural Baixa Limia-Xurés na Galiza. E, se pensarmos bem, a Rede Natura 2000, enquanto poderoso instrumento de regulação do território por via da salvaguarda de espécies e habitats, não tem lógica se encontrar nas fronteiras políticas entre Portugal e Espanha um obstáculo a uma gestão conjunta de recursos que não conhecem fronteiras.
Pelo elevado nível das intervenções e pelo interesse de algumas propostas ali feitas, demonstrou-se também que lá como cá a Universidade poderia dar um importante contributo para a definição de políticas comuns de ambiente e de ordenamento do território em espaços mais vastos do que os espaços nacionais a que tradicionalmente se confinam. Assim o poder político queira aproveitar.

Lógica pré- Neanderthal

Segundo notícia do Público, num jantar promovido pelo PSD de Gaia, na passada sexta-feira, o deputado Rui Gomes da Silva referiu que há dois partidos no PSD: “o que ganhou eleições legislativas e que é de todos nós, e o outro dos intelectuais, que gosta de estar na Sede do partido, e não nos ouve”.
Parece-me uma lógica uma pouco pré-Neanderthal.
Pelo que sei, o PSD em que Gomes da Silva gostava de estar foi o que, nas últimas legislativas, teve o pior resultado eleitoral de sempre!...
Aliás, para ser totalmente verdadeiro, não era o PSD. Era o PPD ou, na melhor das hipóteses, o PPD/PSD. Mas aí, para além de gostar de estar, Gomes da Silva estava mesmo na Rua de S. Caetano. Acompanhado, porventura, por outros intelectuais de igual gabarito, o que não se discute, mas de que o povo desconfiou...
O partido que costumava ganhar e ganhou eleições legislativas era, de facto, o outro, o PSD de todos nós!...

sábado, 2 de dezembro de 2006

A nossa Árvore de Natal...

Hoje foi o meu primeiro dia verdadeiramente dedicado ao Natal. Foi o dia da Árvore de Natal, de a decorar, sem antes ter percorrido meia Lisboa à procura do tradicional pinheiro e dos simples e rústicos enfeites que o enchem de um brilho colorido e cheiroso, como nos tempos antigos.
Encontrar o nosso pinheiro de Natal, aquele e não outro, não é tarefa fácil. Porque há sempre qualquer coisa na nossa imaginação que lhe quebra a harmonia – a altura, o verde, a copa – porque há como que um medo de, na hora da decoração, a nossa fantasia não ser correspondida.
Mas encontrar os enfeites que vão fazer do nosso pinheiro uma Árvore de Natal especial, diferente, única, que é a nossa, é uma autêntica maratona, sem fim à vista. As decorações que estão por toda a parte, porta sim porta não, são criativas e bonitas, todos os anos há novidades que levam meio mundo a perder a cabeça e a esquecer o que tem lá por casa, para de novo voltar a tudo comprar como se fosse a primeira vez.
Não me deixo normalmente contagiar pelas modernas e comerciais decorações, preferindo optar pelas nozes embrulhadas em papel dourado, as pequenas tangerinas picadas por pauzinhos de canela, os pequenos bolos secos, as velinhas de cera coloridas, as bolas de vidro matizadas, as estrelinhas cintilantes e, enfim, outras surpresas penduradas com finas fitas de seda.
A meio da tarde, depois de concluídas as necessárias, mas fatigantes, compras, iniciei a sempre fantástica e animada decoração da Árvore de Natal.
É um “ritual” que faço, como aliás tantas outras pessoas, todos os anos, que me dá um prazer e uma alegria muito especial, no recato da minha intimidade. Talvez porque é um daqueles raros momentos em que recordo e sonho o meu tempo de criança, um tempo de fantasia, em que o imaginário me percorria, e o mundo parecia perfeito. E é também nestes momentos que, no meio da escolha e da combinação destes e daqueles enfeites, que penduro mais acima ou mais abaixo, que retoco aqui e ali, vou lembrado sonhos vários e várias concretizações e vou pensando no milagre da vida, no tempo da vida que já passou, em como o tempo voa e a vida se acumula, mas que só assim os Natais se vão repetindo e a esperança continua.
É um momento em que dou largas à minha sensibilidade e projecto emoções, em que o meu coração se abre à Família e aos Amigos, que confio reconheçam na Árvore de Natal um pouco daquilo que somos, eu e eles.
No final tudo parece brilhar deslumbrantemente, numa atmosfera serena e de luz: para renovar noite após noite, até ao Dia 25 de Dezembro, até ao Dia de Ano Novo, até ao Dia dos Reis.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

Do TLEBS: O aparelho fonador!...IV

Economista, desculpe-se-me a imodéstia, de ideias largas, tenho olhado sem preconceitos para o TLEBS, como aliás se verifica dos escritos anteriores. Ontem, já referia que estava a ver o TLEBS com novos olhos. Hoje, tendo aprofundado o estudo, vou muito mais além!...O TLEBS é uma epopeia em prosa, árdua e difícil mas, apesar de tudo, prosa!... O TLEBS é mesmo um tratado!...
Ontem fiz uma descoberta de enorme riqueza no TLEBS: o aparelho fonador!...Ora o que é o aparelho fonador? É o aparelho propagandístico da terminologia!...Enquadra-se como um sub-capítulo da Fonética Articulatória, assim como esta é um mero sub-capítulo da Fonética, que se subdivide em articulatória, acústica e perceptiva!...Mas a Fonética subordina-se à Fonética e Fonologia e esta à Linguística Descritiva!... Uff!...É ou não é um tratado, este TLEBS?
E assim como os grandes tratados de direito não precisam de se publicitar como tratados, mas se apresentam apenas antecedidos da contracção da preposição de com o artigo conveniente (Das Sucessões e Doações…Da regulação do poder paternal…Dos Actos e Contratos…), na esteira da tradição do direito romano, também alterei o título desta série. A partir de agora, o título genérico passará a ser Do TLEBS, para de forma solene vincar a relevância do dito!...
Mas também por uma outra razão. O TLEBS está a dar uma guerra dos diabos entre tribos rivais. Guerra bem maior do que aquela, na Gália, em que Júlio César acabou por derrotar Vercingetórix, depois de longa e amarga batalha. Ora se esta campanha mereceu de Júlio César a crónica no De bello gallico, traduzido Da guerra na Gália, então não haverá o TLEBS de merecer o aristocrático de? Do TLEBS, pois!...
A seguir, salientarei a preversa natureza e fraca índole do tal aparelho fonador, que produz e fomenta as mais lastimáveis divisões, já não digo entre vogais e consoantes, mas sobretudo entre as próprias vogais e de consoante para consoante…
Será por isso que nos entendemos cada vez menos?