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quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

A eterna dúvida

Comentávamos ontem entre amigos a recorrente questão da educação dos filhos, qual a atitude que devemos ter perante os seus quereres, como se distinguem o capricho e a instabilidade do curso próprio da afirmação de personalidade.
Quando eles chegam à idade adulta, são o espelho das influências que receberam, diluídas ou potenciadas pelo carácter ou feitio que processa essas mensagens. E vamos sempre parar à magna questão da dificuldade de dizer “não”, e de como fazê-lo de forma construtiva, ou formativa, sobretudo se o passado não foi marcado por actuações firmes que pudessem construir crédito para o futuro.
O facto é que dizer “não” dá imenso trabalho. Um trabalho aturado, persistente, de presença atenta, que não adia conversas nem se compadece com o cansaço de um dia de trabalho. E a soma de muitos momentos de complacência – não com eles, mas connosco próprios, para nos poupar à maçada da explicação e da reacção, - dá mais tarde origem a jovens inseguros, incapazes de resistir com coragem aos dissabores da vida, que buscam nos outros a satisfação dos seus desejos sem que estejam aptos a, por sua vez, dar um pouco de si próprios.
O exemplo conta imenso, é um facto, mas tem que ser percebido, não é fácil para uma criança ou a um jovem adolescente perceber o modo de vida e as convicções dos pais que passam por eles a correr ou que estão por perto a olhá-los sem olhos de ver.
Retive o comentário de um dos presentes, dizendo que “nós queríamos aprender a gostar do que fazíamos e eles agora só querem fazer o que gostam”… Como é que podemos aprender a lidar com essa perspectiva sem nos tornarmos um obstáculo que se arreda com enfado, numa repetição monótona do chamado choque de gerações??

7 comentários:

RuiVasco disse...

Cara Suzana:
Não posso estar mais de acordo com as suas preocupações! Também que o exemplo, a atenção e a preocupação ( que eles sentem e gostam de sentir, mesmo que não pareça) são a maior influência e e o melhor sistema!
Porem é verdade que os tempos, mudam todos os dias! A disponibilidade dos pais, o convite do exterior, por todas as vias, a panóplia de alternativas e de apelos, são s grandes dificuldades! Mas...não tenhamos tb ilusões: Os mesmos pais, com os mesmos comportamentos e padrões, perante filhos da mesma idade e portanto sujeitos aos mesmo "sistema", criam filhos completamente diferentes! ( 2 gemeos, dos mesmos pais, e antagonicos na sua personalidade e comportamento, quantos conhecemos?) Há genes, carateristicas individuais do adolescente, que têm um peso enorme, na impossibilidade de pensar ou admitir a definição de padrões ideais, ou mesmo, de denominadores comuns na educação. O exemplo, a atenção, o acompanhamento, a tal preocupação sentida pelo jovem, ajudam muito, é facto! Mas, e mais ainda hoje, há imponderáveis que não controlamos, e a genética pode justificar, mas nunca explica.
Este é o drama e o desafio de ser pai ou mãe!

Suzana Toscano disse...

Sem dúvida, tem razão. Sabe que há uns dias participei num debate organizado por jovens da JSD e o tema era "A influência da comunicação social nos jovens". Fique muito admirada com a facilidade com que eles admitiam que os programas "maus" fosse cortados, a publicidade vigiada, etc. Em resumo, reconheciam a influência mas punham-se de fora, à espera que alguém tomasse conta deles. E revoltavam-se por ver que "ninguém faz nada"! Como se num mundo global, eles que vivem agarrados à internet, pudessse (ou devesse!!)alguém a controlar. A única forma é desenvolverem o seu sentido crítico, terem os princípios básicos bem definidos, depois cada um receberá as influências de todos os lados e surgirá sempre como um ser autónomo, diferenciado, melhor ou pior que o seu irmão gémeo.

Jorge Lucio disse...

Cara Suzana,
Gostei muito do seu post, mas atrever-me-ia a considerar o "choque de gerações" como algo inevitável, ainda que provavelmente também positivo enquanto motor da sociedade: basta lembrar o exemplo estafado do Bill Gates, e de como provavelmente hoje estaríamos se ele não tivesse deixado a faculdade a meio, provavelmente contra a opinião dos pais.
Por outro lado, batemos sempre na dificuldade de dizer "não". Mas não nos podemos esquecer dos momentos críticos em que, pela primeira vez, dizemos "sim", seja para um simples jantar com os amigos, ou para as férias num colégio em Inglaterra. Nesse momento não os estamos apenas a pôr à prova, temos também de analisar o que temos feito e se temos confiança no que conseguimos transmitir aos nossos filhos para os libertar e dar-lhes asas. E creio que é aqui, quando os sentimos "crescidos", que poderemos ter orgulho no nosso desempenho de Pais

Suzana Toscano disse...

Excelente ponto de vista. O momento de mostrar confiança nos nossos filhos é muito mais difícil do que dizer "não". A conversa que suscitou o meu post começou exactamente com um caso em que se disse "sim" e que gerou polémica sobre se seriam os pais a facilitar para não ter que enfrentar a reacção ao "não", ou se seria altura de deixar as asinhas baterem sozinhas, como bem refere no seu comentário.

LMSP disse...

Permitam que entre no diálogo,
Parece-me que mais do que o dilema do “sim” e do “não”, a coerência do “sim” ou a convicção (ou falta dela) do “não”, o importante, o que fica retido, os tais princípios básicos são transmitidos com eficácia apenas e só quando são prática dos pais. Os miúdos estão muito atentos aos comportamentos dos pais. É claro que o “não” e o “sim” pode constituir um traço da personalidade dos pais mas normalmente assumem um carácter de táctica facilmente desmontada pelos filhos. Afinal eles estão a full-time nessa dialéctica e terão tendência para sair vencedores.

Bartolomeu disse...

Creio que esta dúvida, cara Senhora, irá perdurar eterna. E não será somente em relação ao "não" ou ao "sim", mas também, em relação á certeza do momento certo de os proferir.
Dizia-me um amigo, pai de um rapaz de 17 anos, que trocava de bom grado uma boa parte dos seus bens pessoais, pela certeza das decisões a tomar, relativamente à educação do filho. É frequente constatarmos este tipo de dúvidas entre os pais que conhecemos e que, tal como nós vivem a angústia de conciliar equilibradamente as decisões educacionais, com as exigências e hábitos dos tempos actuais. No que respeita ao modo de educar, ou à forma como ela è aceite e apreendida, penso que não ha receita infalível. Tenho a experiência de educação de 2 filhos, um com 25, outro com 20 anos. Muitas vezes tentei antecipar conversas que visassem prevenir hipotéticos acontecimentos indesejáveis. Verifiquei, que a minha atitude não era compreendida, imagino até que apesar de todo o tacto utilizado para ir ao encontro dos temas que desejava debater, os meus filhos deviam estar a ver-me como um extra-terrestre. Optei por alterar o meu modo de entender e de fazer entender, o meu e os pontos de vista deles. Optei por responsabiliza-los mais pelas suas decisões, nunca deixando de lhes fazer sentir o meu completo apoio em qualquer circunstância, e sempre que a "coisa azedava" um pouco mais, colocava à sua consideração a melhor solução, colocando-os no meu lugar e pedindo-lhes a solução. Porém, atenção e apoio permanentes, parecem-me ser a melhor forma de fazer entender aos nossos filhos, que os os amamos e que desejamos que cresçam em harmonia com tudo o que os rodeia, não descurando a sua segurança e bem estar.

just-in-time disse...

É verdade tínhamos que aprender a gostar do que fazíamos.
E o corolário era:
"Quando começares a saber, logo começas a gostar..."