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segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

Uma realidade difícil

Creio que uma das informações mais relevantes do último Boletim Económico do Banco de Portugal (Novembro 2006) passou despercebida a muita gente. Do que se trata, então?

Mantendo, face à projecção anterior, a previsão para o crescimento do nosso PIB em 1.2% para este ano, o banco central refere que 92% deste valor (sim, não há engano, é isso mesmo: 92%) são explicados pela procura externa e apenas 8% pela procura interna. Quer dizer: o crescimento económico de Portugal em 2006 dependeu quase na sua totalidade das exportações. Não é que seja uma surpresa: com as famílias e as empresas endividadas como estão não será, com certeza, com o consumo privado e o investimento que se poderá contar para reanimar a economia. É dos livros: quando existem dívidas para pagar, menos recursos restam para gastar (consumir e/ou investir). E as taxas de juro europeias devem continuar a subir, o que até vem agravar a situação…

Também não creio que se possa contar com o consumo público, se a descida do défice baseada na contenção/consolidação da despesa pública for mesmo uma realidade (e espero bem que o seja…).

Juntemos, agora, a este panorama interno as nuvens que existem no horizonte para a economia internacional em 2007.

Desde logo, a esperada – e que já está a ser sentida – desaceleração dos EUA, que afectará negativamente a Europa. Que, por seu lado, ainda terá que enfrentar a subida do IVA na Alemanha (o “motor” do crescimento europeu) de 16% para 19% logo em Janeiro, e a já referida continuação da subida das taxas de juro do Banco Central Europeu. Julgo que não é preciso mais para podermos concluir que só um milagre manterá o dinamismo do nosso sector exportador no próximo ano.

Assim sendo, é legítimo questionar: deveremos esperar um crescimento da nossa economia em 2007 superior aos 1.2% estimados para este ano? Não creio que a resposta seja difícil…

Sou pessimista? Pode até ser. Mas os números e a informação que vai sendo disponibilizada não me permitem, infelizmente, ter outra leitura da realidade…

5 comentários:

Pinho Cardão disse...

Caro Miguel Frasquilho:
O meu amigo mantém-se empedernido e ainda não se rendeu ao génio de Sócrates!...
Sócrates pensa global e não sendo capaz de fazer Portugal crescer autonomamente, o seu génio levou-o a dar prioridade às políticas económicas dos nossos parceiros comerciais, de forma que o seu crescimento viesse a potenciar o nosso.O nosso crescimento foi pois devido às medidas oportunamente tomadas pelo governo português nos outros países.
Todavia, depois deste esforço, também seria injusto culpar Sócrates das contra-medidas que os outros Governos arbitrariamente tomaram e que nos irão prejudicar seriamente!...

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

Caro Miguel,

Mas porquê tanto pessimismo?
Pense num milagre da economia, mas com esperança.
E a esperança é a última a morrer.
Portanto, seja optimista porque vai ver que o milagre ainda se vai dar. Nunca é tarde para acontecer!

Tiago Mendonça disse...

Caro Dr.Miguel Frasquilho,

É sempre um gosto ver os seus comentários, sempre tão elucidativos acerca das realidades, iminentemente, teoricas do nosso país. São uma óptima influência e um excelente contributo. Um muito obrigado pessoal, e sabendo que me entende, um muito obrigado institucional.

Tonibler disse...

Caro Miguel Frasquilho,

Temos duas hipóteses. Uma é acreditar que é possível que o crescimento económico se deva em 92% às exportações, que concordará comigo, é para lá do absurdo. Outra é admitir que esse é o crescimento económico que é possível detectar por passar pelas contas dos bancos porque todo o outro, o que vem nos inquéritos, não é declarado porque todos andam a fugir ao fisco.


Diga-me uma coisa, conhecendo o Banco de Portugal, não seria melhor ir pela segunda hipótese? Sabe porque os Boletins do Banco de Portugal passam despercebidos? Porque são irrelevantes!

Miguel Frasquilho disse...

Caros amigos,

Muito obrigado pelos vossos comentários (Tiago: não tem nada que agradecer a ajuda institucional... Estarei sempre ao dispor!...). Eu posso até ser mais optimista... mas também já ouvi dizer que um pessimista é um optimista... realista! :-)