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domingo, 10 de dezembro de 2006

Irónico

O dia 10 de Dezembro passará a assinalar a data em que a Assembleia-geral das Nações Unidas tornou universal a proibição do genocídio e a afirmação dos direitos humanos mas registará igualmente a morte de Pinochet.

Ironias da História...

11 comentários:

Massano Cardoso disse...

É verdade Ferreira de Almeida! Ainda há pouco, quando ouvi a notícia sobre a morte do ex-ditador lembrei-me da nota da Margarida sobre o Dia Internacional da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Estas coincidências sempre ajudam a pensar...

RuiVasco disse...

Morreu um ditador!
Só espero, sem ironia, que um dia, quando morrer, por exemplo, Fidel Castro, todas as noticias de radios e TVs comecem: "Morreu o ex-ditador Fidel Castro..."!
Porue a declaração dos Direitos Humanos abrange todos e em todos os sentidos!

Anónimo disse...

Duvido, RuiVasco, duvido...
Creio que abrirão com uma peça glorificadora da revolução cubana.

Anónimo disse...

O General Augusto Pinochet Ugarte, um grande chileno, liderou - com a ajuda logística da Embaixada dos EUA, e bem - um golpe militar em 1973, que derrubou o governo presidido por Salvador Allende. Allende, eleito democraticamente, era um marxista utópico, boa pessoa e certamente bom pai de família, mas totalmente incapaz de impedir a derrocada da economia nacional, através de medidas anti-populares e, muito mais perigoso, de conter os comunistas. O General Augusto Pinochet, quando, por consulta popular voluntária, abandonou o poder, deixou um país desenvolvido, sólido, moderno e rico - um dos três únicos das Américas.

Em 1973, era inconcebível permitir mais um país comunista na América Latina. Ficarão por desvendar os planos de Moscovo em relação à tomada do poder no Chile - à semelhança de muitos outros casos nos anos ‘70, alguns bem sucedidos - mas é evidente que, neste particular, os EUA tomaram a dianteira sem hesitações.

Augusto Pinochet era um nacionalista. Tudo de bom para o Chile justificou o recurso temporário ou circunstancial ao estrangeiro. Só nesta óptica - em ditadura, convenhamos - se compreende a introdução de espectaculares e profundas reformas económicas e financeiras num país à beira do abismo político-económico-social. O Chile é o único caso conhecido da aplicação quase integral - e com êxito estrondoso - das teorias liberais e anti-estaduais da então chamada Escola de Chicago.

Ao momento ideal e às condições políticas, contou o Chile com outro importante factor: a sua população. É politicamente incorrecto afirmá-lo hoje, mas exacto defendê-lo amanhã: a origem da maioria da população chilena, o tipo de imigração de que beneficiou, é da Europa Central. Alemães, polacos, bálticos, alguns escandinavos, alguns italianos - até franceses, como o pai de Pinochet. O país não é tropical e nele não houve plantações de açúcar ou de café. Era primitivamente povoado por índios, mas poucos. O seu interesse económico, aliás, foi residual para os espanhóis. Tornou-se independente em 1818 e, muito diferentemente do Brasil também independente, nunca se decidiu pelo expediente da importação maciça de africanos.

Quando se vê a televisão ou se lêem os jornais e revistas, Pinochet logo aparece apontado como um dos ditadores mais repressivos do mundo. Há uma enorme diferença entre ditadura e totalitarismo: a primeira presume-se que é temporária, e permite várias liberdades fundamentais, como a propriedade e a economia de mercado e, não menos importante, o simples facto de se poder sair e reentrar livremente no país; o segundo, comunista, não admite nenhuma liberdade, nenhuma expressão que não seja geometricamente alinhada com a do regime, proíbe a propriedade privada, não deixa ninguém sair e abate continua e sistematicamente ao passivo todas as pessoas, grupos de pessoas ou populações que possam constituir um obstáculo, por qualquer forma, à concretização do sonho socialista. A primeira é sempre de pendor nacionalista; o segundo é sempre soviético. Por isso Pinochet, em 1975, respondeu a um jornalista, que lhe insinuou que havia presos políticos chilenos, que "não são chilenos, são comunistas".

Mesmo em números muito menores do que aqueles que os jornalistas vendem, são lamentáveis as violações dos direitos humanos e os assassínios permitidos pela cimentação dos primeiros tempos da ditadura pinochetista. Mas exibir, actualmente, camisolas do internacionalista comunista argentino Ernesto Guevara é um insulto ao respeito pela mais elementar dignidade humana: presidindo a um dos muitos tribunais populares então montados, o Guevara foi pessoalmente responsável por 900 execuções só num mês de revolução cubana, ao ponto dos próprios irmãos Castro terem comentado, em tom privado, que estava a exceder-se um pouco no zelo. São estas realidades que é necessário conhecer na América Latina, sobretudo a dos anos ’60 e ’70. Quanto aos anos ’80, ’90 e a esta primeira década do séc.XXI, em termos sociais de pobreza e riqueza, basta ir ao Chile e compará-lo com todo o resto da América Latina; ou então voar de Lima, capital do vizinho Peru, para Santiago: a proporção é igual à de viajar de Islamabad para Zurique.

António Viriato disse...

Caros Amigos da 4R,

É verdade que o ex-ditador Augusto Pinochet morreu sem deixar saudade, mas não deixa de ser contrastante com outras práticas, tidas até por revolucionárias, a forma como exerceu a sua Ditadura, terminando por permitir uma saída democrática para o Chile.

Quantos outros ditadores o terão feito, sobretudo os idolatrados por uma certa esquerda, muito selectiva na distribuição dos seus ódios e indignações ?

Convém sublinhar bem este aspecto, quando se não deseja o triunfo da execrável bitola dos dois pesos e das duas medidas.

Para muitos, infelizmente, ela tem curso corrente, porque todos os princípios lhes são meramente instrumentais.

Boa semana para todos.

Jorge Lucio disse...

Caro Antunes Pedroso,
Gostaria de saber se na sua opinião teria achado bem que os EUA tivessem apoiado algum golpe contra Salazar, com base nos erros da sua política africana.
O Governo de Allende fez erros, mas se algo de positivo havia no Chile à data do golpe, era exactamente a sua história de democracia, pelo que o mais provável teria sido a frente de esquerda ter perdido as eleições seguintes. Já agora também lhe foi conveniente olvidar que Pinochet não fez mais do que qualquer ditadorzeco africano, tendo acumulado uma fortuna em contas no exterior ?
Sugiro-lhe que leia o livro de Isabel Allende "O meu país inventado". Com a distância que o tempo permite, creio que é um bom exercício de catarse de alguém que esteve envolvido, onde os erros de Allende são reconhecidos, e que relata a barbaridade e a estupidez de um grupo de militares que "se passou" no dia em que se viu com um poder absoluto.
Numa nota final, se é irónico que um dia dedicado aos Direitos Humanos fique associado a uma das personagens mais desprezíveis do Séc.XX, também nos poderá fazer lembrar como os mesmos são constantemente violados

Jorge Lucio disse...

Caro António Viriato,
Considerar adequada a maneira como Pinochet abandonou o poder é curioso. Pinochet acreditava que os chilenos o adoravam e foi completamente surpreendido, como a imprensa séria tipo Le Monde ou El País hoje relembra, pela vitória de Patrício Aylwin que o obrigou à saída. Mas os cargos de senador e comandante general vitalício, com impunidade e honrarias garantidas com que se armou à partida, foram muito convenientes nos anos seguintes...
Se necessário friso que considero
correcta a sua crítica aos ditadores de esquerda que se eternizam no poder, e serei o primeiro a criticar aqueles que vierem a elogiar Castro no momento da sua morte. Mas se se pretender elogiar alguém porque soube sair, olhe-se para Nelson Mandela um dos poucos heróis dos nosso tempo

Anónimo disse...

Caro Jorge Lúcio,

Ninguém tem vontade de o impedir de ler os jornais socialistas El Diario e Le Monde, e de sugerir às pessoas aquilo que diz a filha do Presidente Salvador Allende – uma escritora de relevo, sem qualquer dúvida. Mas isso não é cultura política e, muito menos, económica. Aliás, conheço relativamente bem uma parte da literatura chilena, belíssima – que inclui Pablo Neruda, comunista. Não lhe sugiro a si que leia nada. Não é necessário.

Quanto à sua referência aos dinheiros ilícitos do General Pinochet, explico-lhe, por uma questão de ética muito apreciada neste blog, que, à semelhança do que aconteceu noutras ditaduras e regimes autoritários, saíram da contabilidade pública montantes que foram depositados em nome individual, para fazer face a gastos “ilegais”, de qualquer modo publicamente injustificáveis, como os relativos às dispendiosas acções dos serviços de informação.

Anónimo disse...

Caro Jorge Lúcio,

Na primeira linha do meu último texto, onde se lê "El Diario" deve ler-se "El País". Peço desculpa pelo lapso.

Jorge Lucio disse...

Caro Antunes Cardoso,
Mas eu gostaria que me sugerisse alguma leitura que apoiasse Pinochet; gosto de analisar os dois lados em qualquer questão (e Pablo Neruda já li).
Mas finalmente parece-me que estamos em lados demasiados afastados, ou então não percebeu o meu post, pois a questão que eu coloco é se faz sentido justificar regimes como o do Pinochet com base em "cultura política ou económica"
E já agora, inclui a Operação Condor nesses custos dos serviços de informação ?

RuiVasco disse...

É claro que o nosso amigo Antunes Pedroso exagera um pouco na sua análise à figura de Pinochet.
Verdade yambem é que o Jorge Lucio na sua critica a A Pedroso ao falar da democracia de Allende, esquece depois que Pinochet que, com todos os seus erros politicos, conseguiu uma recuperaçao economica num país em descalabro ao tempo de Allende.
Quanto ás contas pessoais e contas no exterior, por desvios de dinheiros publicos, é melhor, que seja de esquerda ou de direita, se aponte o erro, mas não se apontem regimes, pessoas, de direita ou de esquerda. Sabe porquê Jorge Lucio? Porque sempre houve ditadores de esquerda ou de direita, a fazer o mesmo! De esquerda dar-lhe -ia muitos, de direita tb! Por isso, nestes casos é melhor ninguem dizer nada - ou entao qd diz fale de todos!
Diz o Jorge Lucio que um dia que alguem venha aqui elogiar Fidel vc virá criticar esses elogios...( vou aguardar ansioso, a sua posição, não a morte do homem!) mas entretanto, mantem-se calado, e faz de conta, assobiando para o ar! Ficam-se as criticas apenas para um lado e os outros vão sobrevivendo imunes. Não me parece justo!
E leiam, leiam muito. O Neruda e outros semelhantes. Como são todos muito cultos já leram todos o Neruda! OK. Então leiam a Suzana Toscano e os dramas do José Alves! Tambem aprenderão muito.