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terça-feira, 9 de janeiro de 2007

Ufff!


Prestes a partir, e em rescaldo da operação “fazer malas”, tenho que concluir duas coisas. A primeira, é que tenho coisas demais, senão não teria tido tanta dificuldade na selecção (calma, homens do 4r, ainda não acabei!...). A segunda é que me faltam imensas coisas que eu nunca tinha reparado que não existiam no meu armário e que, de repente, se tornam imprescindíveis. Descobri um largo manancial de compras futuras pelo simples facto de dizer às sempre solidárias amigas, irmãs, tias, sobrinhas e, claro!, filhas, as minhas angústias de eleição. E vinha logo a pergunta: “Então não tens isto? E aquilo? NÃO TENS??” Comecei a sentir-me diminuída, esborrachada mesmo, quando ao ar de misericórdia se iam juntando saquinhos com os ditos objectos, generosamente emprestados para me evitar enxovalhos durante a viagem…E alinham-se ali adornos para todos os gostos, conforme as opiniões se dividiam: cores fortes, lamés, sedas e ouros. Ou, pelo contrário, sóbrio e levezinho, cuidado que não se amachuque, e o ferro? Levas o ferro? - Não é preciso, no hotel tratam…- NO hotel? És doida, se confias no que fazem no hotel…
Enfim, já despachei as malas com o meu espólio, indigente, se der crédito ao que ouvi.
Estou muito entusiasmada com a partida mas quando vier, vingo-me nas lojas, olá se vingo!;)

Memórias de uma viagem presidencial I

Começo,desde já, por referir que se trata de uma cena verdadeira, mas de um "post" politicamente incorrecto!...
O Presidente da República inicia hoje a sua visita à Índia. Acompanhado por seis dezenas de empresários, que têm que pagar a sua deslocação.
Este facto altera radicalmente o que acontecia com anteriores Presidentes, nomeadamente Soares, que sempre se fazia acompanhar de gratuitas e luzidias comitivas.
Em 1990, se bem me recordo, integrei a comitiva da viagem de Mário Soares a Itália, na minha qualidade de Administrador de uma das empresas convidadas. Para a preparação do passeio, os empresários e gestores foram convidados a deslocar-se a Belém, dois ou três dias antes. Na sessão, foi evidenciado o programa e foi entregue a cada qual um envelope, que um dos presentes, mais apressado, logo abriu. Deparou com documentação vária e…pasme-se, com umas dezenas de contos de dinheiro de bolso!...Tendo, de imediato, expressado o seu espanto, logo lhe foi explicado que essa era uma prática inaugurada pela “Presidência”, já que o Presidente convidava um grande número de pessoas e nem todas, nomeadamente jornalistas convidados a título pessoal, e artistas possuíam os meios que os empresários possuíam para uma deslocação condigna!... Deste modo, e para não haver discriminações, o dinheiro de bolso para despesas ocasionais era entregue a todos!...
Passado o episódio, alguém questionou a Presidência sobre alguns “pormenores” da visita. Foi então respondido que a “Presidência” pensava que a integração de empresários nas viagens à Europa não envolvia nem atenção nem contactos especiais, sendo apenas desejável que estivessem presentes na Sessão com a Cofindustria e nas cerimónias protocolares!…Isto, porque os empresários conheciam bem os seus clientes europeus e a Europa estava mesmo aqui ao lado. Para viagens a continentes distantes, então sim, talvez se justificasse algum apuro!...
E assim, lá fui eu e tantos outros, que encheram um grande avião, como mero objecto de adorno da comitiva!...Foi uma visita de estadão, com escritores, escultores, arquitectos, artistas, jornalistas aos molhos, políticos, empresários, gestores, dirigentes associativos, eu sei lá!...
Só faltou mesmo o elefante de embaixadas anteriores ao Papa e a Roma…mas Soares era agnóstico e o elefante já tinha morrido!...
(A continuar)

O "arakiri" do ministro Correia de Campos, para 2007!

É voz corrente o velho ditado "ano novo, vida nova"...pois não é que o Ministro da Saúde profetizou para este 2007 "um ano difícil e controverso"? E mais...
Parece que disse, com seu ar compostinho-blasé que, este ano, retiraria o primeiro lugar de impopularidade à sua colega da Educação!
E aí está a promessa do alargamento do novo modelo digital de controlo da assiduidade os médicos, a todo o País!

Visto assim, "a seco" todos perguntam: e por que não? Acontece a todos!
Então se há lugar a pagamento de horas extraordinárias, não há controlo de horário?

Surgem as mais variadas perguntas, provavelmente com a sua lógica...
Eu sou radicalmente contra esta medida e mais, nem sequer a entendo num contexto ( tambem anunciado pelo ministro, no mesmo "pacote") de entrega da gestão de serviços clínicos aos médicos desses serviços, que se organizem em grupo e se candidatem.
Esta proposta de modelo de gestão intermédia, já contemplada na Lei de Bases da Saúde ( dos anos 90, governo PSD) nunca foi posta em prática, a não ser timidamente num Centro de Responsabilidade Integrada (CRI) nos Hosp. da Univ. de Coimbra, no celebre serviço de cirurgia cardio-toráxica, dirigido pelo Prof. Manuel Antunes.

Como é que se faz uma proposta destas, que é excelente e já era mais que tempo para que qualquer governo a concretizasse...(pena o PSD não o ter feito!) como é que se faz uma proposta destas, com base em contratualização de serviços prestados e correspondente remuneração de acordo com os serviços prestados...e depois se funcionalizam os médicos!!!

Será que o Prof Manuel Antunes anda de relógio electónico pelo serviço?
Será que ele não sabe quem lá vai e a que horas?
Será que ele não tem o trabalho programado?
Será que o imprevisível não é o dia-a-dia da Medicina?

O Ministro bem pode vir dizer ( e isto é popular, as pessoas gostam de ouvir...) que "as obrigações contratuais são para cumprir, quem não quiser cumprir que o diga e vai trabalhar lá para fora"...cá para mim, está no lançamento do seu arakiri, já está na rampa para 2007!!!!

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

Parabéns, Atlético!...


O F.C. Porto deu ontem uma enorme alegria às gentes de Alcântara e sobretudo ao tristonho reino onde convivem águias e leões. A Bola, pela primeira vez de há muitos anos, dá quase toda a primeira página ao F.C.Porto…pela derrota, claro, já que, nas horas de vitória, o jornal é muitíssimo mais comedido.
Também, quase pela primeira vez, concordo com o critério editorial: é que uma derrota do Porto é acontecimento único, que urge salientar e aproveitar até ao limite!...
Amolecido por falta de oposição interna, pretensioso e certo da vitória, o Porto não foi capaz de reagir ao querer e denodo do Atlético.
No futebol, na economia, na política, como em tudo na vida, uma saudável concorrência e uma boa oposição são o melhor estímulo para a vitória.
A sua falta só pode levar à derrota!...Parabéns, Atlético!...

domingo, 7 de janeiro de 2007

Um bilião de árvores

Inspirado no exemplo de Wangari Maathai, a queniana a quem foi atribuído o Nobel da Paz em 2004 que liderou um movimento responsável pelo plantio de milhões de árvores por vários dos países africanos, o Programa para o Ambiente da ONU (PNUA) desafia as instituições políticas centrais e locais, as empresas e em geral a sociedade civil dos Estados a promover a reflorestação, plantando mil milhões de árvores durante o ano que agora se inicia.
Trata-se de um excelente programa, esperando-se que o mundo a ele adira.
Compensar não só os milhares de hectares de floresta que diariamente se perdem, mas também apostar nas cidades verdes, é um projecto que só pode ser acarinhado pela comunidade internacional pelos beneficios colectivos que serão colhidos do seu sucesso.
Espero que Portugal adira. É uma oportunidade de se reporem vastos activos biológicos perdidos nos desvastadores fogos florestais. Mesmo em tempo de dificuldades financeiras, oxalá o governo, as autarquias, a sociedade, saibam fazer as contas. Neste caso as contas não se fazem tendo em vista o curto prazo, mas sim os benefícios que uma floresta sustentável trará no futuro. Benefícios no plano económico de que o País de resto vem tirando vantagem há muitos anos. Mas também no combate à poluição, à erosão e à desertificação. Na protecção da paisagem. Na defesa da diversidade biológica através da recuperação de habitats.
Do governo espera-se que os estímulos financeiros ou fiscais sejam pensados em função da mais valia para o País no desenvolvimento das actividades ligadas à floresta.
Mas esta é também um oportunidade de corrigir os erros das políticas de florestação levadas a cabo no passado, apostando mais nas espécies autóctones, aspecto que igualmente preocupa o PNUA que garante assistência técnica de modo a evitar que este programa favoreça a alteração dos ecossistemas pela introdução de espécies inadequadas.

Filhos precisam-se!

A Alemanha está preocupada com a sua baixa de natalidade, com efeito uma das mais baixas da Europa; cada alemã tem em média 1,4 filhos, valor claramente insuficiente para assegurar a renovação de gerações.
Esta preocupação conduziu o governo alemão a reforçar os incentivos à natalidade, aumentando o período de licença de maternidade/paternidade – para 12/14 meses – e criando um novo apoio monetário, medidas que visam incentivar as mulheres que trabalham a ter filhos.
A iniciativa do governo alemão passou praticamente despercebida entre nós. Não nos diz respeito, pensamos nós.
Sim, é verdade, que não vamos dela beneficiar, mas devíamos, isso sim, parar um pouco para pensar no assunto: a verdade é que Portugal tem a taxa de natalidade mais baixa da Europa.
O Eurostat divulgou recentemente um estudo com as projecções demográficas para a população com mais de 65 anos. Portugal deveria prestar mesmo muita atenção ao que projecta o Eurostat – o que aliás não é novo – porque os países europeus onde a percentagem da população com mais de 65 anos será maior em 2050 são a Espanha (36%), a Itália (35%), a Alemanha, a Grécia e Portugal (32%).
No ano que terminou o Governo aprovou a sua “reforma da segurança social” – matéria à qual dediquei, em Novembro de 2006, por ocasião da sua discussão na Assembleia da República, dois aprofundados textos no 4R, razão pela qual me abstenho agora de a voltar a comentar – sem, no entanto, ter colocado os incentivos à natalidade como um tema central do debate. Recordo que o Governo deixou cair, isso sim, a proposta que apresentou aos Parceiros Sociais de modular a taxa social única em função da natalidade, agravando-a para quem não tivesse filhos.
Políticas de incentivo à natalidade precisam-se! Privilegiando medidas que incentivem os casais a terem mais filhos, apoiando-os e beneficiando-os, diferenciando-os através de políticas activas, daqueles casais que optam por não o fazer ou porque não podem.
O Governo e os Parceiros Sociais acordaram – no âmbito do "Acordo sobre a Reforma da Segurança Social", assinado em Outubro de 2006 – debater ao longo de 2007 a definição de uma política de natalidade.
Espero sinceramente que não haja mais adiamentos, porque o tempo corre a favor do envelhecimento da população!
O País terá muito a ganhar – e não apenas por razões de mera aritmética de segurança social – se for capaz de se rejuvenescer. Uma sociedade com mais crianças e mais jovens será por certo uma sociedade mais equilibrada – de todos os pontos de vista – e necessariamente mais feliz.
Filhos precisam-se!

Mais uma vez!...

Ontem, e mais uma vez, pelo menos uma estação de televisão entendeu voltar a transmitir, pela centésima vez, as imagens “clandestinas” da execução de Sadam. Mais uma vez mudei de canal, pelo que só conheço o início da cena, quando há dias fui apanhado desprevenido. E, mais uma vez, ouvi jornalista e comentadores em grandiloquentes manifestações de crítica à gravação das imagens e de condenação do sujeito que fez. Com o que, aliás, concordo em absoluto.
Mas tenho que registar a hipocrisia, falta de ética e recusa de princípios deontológicos mínimos, para além da falta de gosto, que levam os jornalistas, editores, subdirectores, directores adjuntos e directores de informação a considerar como boas para emissão imagens cuja recolha dizem reprovar.
Atitude indigna esta, que faz regredir ao tempo em que se dava ao povo o “espectáculo” das execuções públicas. Nessa altura, para “exemplo”, e sem preconceitos. Agora, por razão de preconceituosos “critérios jornalísticos” ou, então, por razão de outros não menos reprováveis conceitos, voltados para um “voyeurismo” e comercialismo sem limites. Mas não venham então falar da superioridade moral dos critérios informativos!...

A fazer as malas...


Fazer as malas é sempre uma operação complicadíssima. Ou se leva tudo o que parece que vai fazer falta, caso em que a mala se recusa a sair do chão, ou se leva “o essencial” e sou eu que não quero levantar voo. É incrível como a sensação de segurança está ligada a uma montanha de objectos que no dia a dia nos parecem tão pacíficos mas que, na hora de os largar por uns dias, ganham vida, são caprichosos, aparecem-nos a sair das gavetas e a ameaçar que se não os levamos…
Bem sei que hoje pode parecer absurdo, com a garotada a correr mundo mal lhes nascem os dentes. Mas a primeira vez que fiz uma viagem maior foi pouco tempo depois de casar, íamos estar fora três semanas e foi no princípio de Outubro, tanto podia estar calor como frio, enfim, o cenário mais difícil de gerir em termos de roupa. Preparei então a minha mala esgotando todas as hipóteses de que me lembrei para garantir que nada me faltaria naqueles dias fantásticos. Quando fiquei pronta, o meu marido tentou pegar na mala e ia caindo. Cheio de paciência, desafiou-me: -“Quando conseguires andar 2 metros com esta mala, estamos prontos a partir!” É claro que tive que me separar de metade dos indispensáveis e mesmo assim não consegui passar a barreira dos 2 metros…No fim da viagem tive que reconhecer que não cheguei a tirar da mala nem metade do que tinha levado!
Espero poder contar-vos algumas das coisas que vou ver na Índia, se conseguir fazer a mala…Até breve!

"À morte de Inês"


Columbano
«Toldam-se os ares,
Murcham-se as flores;
Morrei, Amores,
Que Inês morreu.

«Mísero esposo,
Desata o pranto,
Que o teu encanto
Já não é teu.

«Sua alma pura
Nos Céus se encerra;
Triste da Terra,
Porque a perdeu.

«Contra a cruenta
Raiva íerina,
Face divina
Não lhe valeu.

«Tem roto o seio
Tesoiro oculto,
Bárbaro insulto
Se lhe atreveu.

«De dor e espanto
No carro de oiro
O Númen loiro
Desfaleceu.

«Aves sinistras
Aqui piaram
Lobos uivaram,
O chão tremeu.

«Toldam-se os ares,
Murcham-se as flores:
Morrei, Amores,
Que Inês morreu.»

Bocage (À Morte de Inês de Castro)
7 de Janeiro - Morte de Inês

sábado, 6 de janeiro de 2007

Galeria do absurdo

Foi hoje divulgado que alguns organismos que o PRACE extinguiu, continuam a abrir concursos para nomeação de pessoal.
Acham absurdo? Então atentem na explicação. Segundo fonte oficial do Ministério das Finanças as contratações servem para «evitar soluções de descontinuidade».
De facto, ficaria mal ao governo não garantir a continuidade de um organismo extinto!

"Saúde e lampreias"...

As notícias sobre saúde, acidentes, fugas ao fisco, inoperância tributária, violência infantil, falta de recursos e corrupção têm andado num corrupio mais do que estonteante, verdadeiros dramas que roubam a esperança e a alegria de um português dito normal.
No caso da saúde continuam a encerrar serviços, uns atrás dos outros, com a promessa de que os excelentes resultados acabarão, um dia, por provar as capacidades económico-proféticas dos actuais responsáveis.
O mal do país é ser muito pequeno. E como é pequeno não tem recursos para resolver certas situações.
Chegou-se à conclusão que parir em Badajoz é mais barato. Viram? Aqui está. Fica mais barato! Se falharem alguns recursos não há problemas, manda-se a criança queimada para a Corunha ou para Madrid caso necessite de um transplante hepático. Não é que não se fazia entre nós, pelo contrário, e com muita qualidade. O pior são os recursos, porque, como é óbvio, certas situações não podem depender apenas de uma pessoa ou serviço por mais excelentes que sejam, e são! Mas se falharem, qualquer que seja a causa, é um verdadeiro desastre. Por que é que isto acontece? Porque somos pequeninos.
O caso da não assistência atempada aos recentes náufragos – quer estivessem ou não em situação ilegal – revela o quê? Que somos pequeninos e, neste caso, até mesquinhos, a testemunhar pelas declarações públicas de alguns responsáveis.
Ficamos com os cabelos em pé quando ouvimos que o fisco não conseguiu cobrar judicialmente, em 2005, salvo erro, qualquer coisita como 230 milhões de euros! E o que dizer de um ídolo do desporto que mente e foge ao fisco, acabando por não ter que pagar os devidos impostos? Revela que somos pequeninos. E os exemplos ficam por aqui? Claro que não, porque nestas matérias somos, verdadeiramente, "grandes". Mas há decisões que revelam a faceta escondida da grande alma lusitana. Podemos exemplificar com o facto de ter sido aprovado, ou melhor, ter havido consenso entre as bancadas parlamentares para a elaboração de um projecto de recomendação ao Governo relativamente à necessidade de ser construída uma nova, e mais eficiente, escada para os peixes do Mondego poderem ultrapassar a ponte-açude de Coimbra. Confuso? É mesmo assim! Deste modo, talvez se consiga encontrar uma solução depois de, ao longo de 30 anos, se reconhecer que a actual não serve aqueles propósitos. Parece ser um bom sinal para os amantes das lampreias, as quais muito dificilmente conseguem galgar aquele obstáculo, garantindo a satisfação gastronómica de muitos, mormente governantes. De facto, nada nos impede de prever que um dia, os mesmos, poderão festejar as suas decisões, nomeadamente as relativas à região e à cidade. Caso não sejam apreciadores, ou estejam impedidos medicamente de as “atacar”, é difícil a um político não engolir certas preciosidades, mesmo que sejam jurássicas. Mas se não tirarem dividendos ou não possam comemorar o que já nos fizeram engolir, podem, em última análise, solenizar a nova escada de peixe, grande e atapetada à maneira….

O poder dos bons blogs

Estive seis dias fora do país. No regresso, passei os olhos pelo Bloguítica e fiquei a saber tudo o que se passou. Parabéns ao Paulo Gorjão!...

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

"Não digam mal da barriguinha"!

A obesidade constitui um grave problema nas sociedades ocidentais. As razões são relativamente bem conhecidas e as consequências muito pesadas. As próprias crianças começam a ser vítimas desta epidemia. A situação é de tal modo perigosa que se aponta para a possibilidade de, pela primeira vez na história da humanidade, podermos vir a assistir a uma redução da esperança de vida. Mas há que ter certos cuidados na forma como se divulgam certos dados.
O convite a uma certa forma de beleza tem causado o oposto, ou seja a morte por anorexia como tem sido relatado com uma frequência inusitada nos últimos tempos. Mas o objectivo desta crónica não é enveredar por esta área, mas sim chamar a atenção para o facto de que um ligeiro excesso de peso poder ser benéfico para a saúde. Parece uma heresia? Pois parece. Mas já algum tempo um estudo norte-americano apontava para o facto de que um ligeiro excesso de peso se acompanhar de uma aumento da sobrevivência. Recordo-me de uma explicação interessante a este propósito. O tal ligeiro aumento de peso permitiria aguentar, actuando como reserva, os efeitos nefastos de certas doenças. Não sei se tal explicação corresponde à verdade. O que é certo é que um estudo recente, efectuado em Israel, envolvendo milhares de homens, acaba de confirmar aquele achado.
Os homens com peso superior ao normal (ligeiro!) vivem muito mais anos que os normais.
Estes resultados devem ser muito gratificantes para os homens que transportam uma barriguinha. Quem diria! A partir de agora, a auto estima dos "barriguinhas" vai aumentar, e muito, justificando que tal fenómeno é, ao fim e ao cabo, um modo de prevenir certas doenças, permitindo viver mais.
Não sei, ainda, mas vou tentar saber, se o "sindroma de obesidade masculina pós casamento" (será que acabei de inventar uma nova entidade?) tem ou não um efeito promotor da longevidade. Muitos homens, após terem dado o nó, ganham uns quilitos nada desprezíveis. Recordo-me que comigo se passou algo semelhante, ao ponto do meu saudoso professor de neurologia, que eu não via, fazia algum tempo, me ter interpelado dizendo: - Oh S. que é que lhe aconteceu?! Está mais gordo! Acto contínuo respondi sem pensar: - Oh senhor professor, deve ser do casamento! - Ah! Casou-se?!
Aqui está uma boa hipótese de investigação: aumentar de peso após o casório é uma medida saudável, fonte de maior longevidade.
Para terminar, dois aspectos a assinalar: em primeiro lugar a obesidade mata mesmo, em segundo os efeitos positivos de um ligeiro aumento de peso só se manifesta nos homens. Nas mulheres ainda não está comprovado. Paciência, minhas caras!

Quem muito fala...

O senhor Ministro da Saúde surpreende frequentemente pela pouca ponderação de algumas das suas intervenções públicas.
É próprio de quem se anseia por figurar na nobre galeria dos "picaretas falantes". Quem tanto fala, amplia o risco de acertar pouco.
Acordei com a notícia de que o senhor Ministro teria anunciado que os estabelecimentos públicos de saúde não estavam em condições de garantir o sigilo em caso de interrupção voluntária da gravidez. As mulheres que quisessem garantir o anonimato que recorressem às clínicas privadas.
A minha epidérmica desconfiança dos media levou-me a duvidar que o senhor Professor Correia de Campos dissesse coisa que se assemelhasse. Mas há minutos ouvi-o da boca ministerial.

Noutros tempos, afirmações deste jaez proferidas por um ministro provocariam uma pateada geral. Hoje, de tão frequentes os disparates, são encarados com um encolher de ombros colectivo.
Sinal dos tempos. Desta anarquia mansa...

A nova profetisa

Saí do país com “declarações” de Ana Gomes; regressei ao país com “declarações” de Ana Gomes. A respeito dos voos da CIA, a senhora anda num frenesim intenso, numa obsessão atroz, num “stress” agudo, mas já crónico, numa inquietação doentia. É um lamentável problema pessoal.
Mais lamentável, porque só aumenta o problema da senhora e nos massacra a todos, é o facto de ter, em qualquer parte onde se encontre ou vá, uma câmara e um microfone solícitos e sempre disponíveis a relatar as suas contínuas crises.
Crises essas que já lhe foram diagnosticadas não só pelo Governo do seu partido, como também pelo seu próprio partido, em Portugal, e ainda pelos seus colegas socialistas portugueses no Parlamento Europeu.
Hoje, o massacre informativo é que a senhora revelou que ouviu dizer que outros viram “ coisas estranhas” num qualquer aeroporto dos Açores.
Normalmente, as verdades reveladas têm na base as audições e visões estranhas dos profetas. Por isso, não me admira muito que esteja a nascer uma nova profetisa. Mas esta com a grande vantagem inicial de não ter que se esforçar muito para propagar a sua doutrina, já que nasceu com microfone incorporado e feixes móveis prontos a emitir!...
O que mais nos irá acontecer neste Novo Ano, com tão pouco auspiciosa amostra informativa inicial?

Nunca digas: desta água não beberei

O Tribunal de Contas (TC) apresentou o seu relatório e parecer sobre a Conta Geral do Estado (CGE) de 2005.
Em primeiro lugar cumpre saudar o facto de ser agora possível dispor deste documento nos prazos estabelecidos na Lei de Enquadramento Orçamental (artigo 73º).
Recordo-me de, pela primeira vez deputado à AR, em Abril de 2002 e me ter sido atribuída a presidência da (nova) Comissão de Execução Orçamental, havia ainda para apreciar as CGEs de 1998, 1999 e 2000...
Graças a um enorme esforço de alguns deputados dessa Comissão, entre os quais merece destaque o que foi desenvolvido pelo Deputado Pinho Cardão, chegou-se ao final de 2004 com o trabalho quase em dia - a apreciação e votação das CGEs de 98, 99, 2000 e 2001 concluída.
Ficou a CGE/ 2002...porque a AR foi dissolvida, e já não houve tempo para a tratar.
Em segundo lugar, merece destaque o facto do o TC apontar de novo o dedo ao problema das desorçamentações, isto é, da realização de despesa que não tem cabimento nas dotações orçamentais e por isso não é paga no ano em que o encargo é assumido, ficando em dívida para anos seguintes.
O TC aponta para valores muito elevados, da ordem de algumas centenas de milhões de euros, que numa óptica de contabilidade pública (ou de gerência) deveriam ser acrescentados ao défice apurado em 2005.
Temos aqui um problema recorrente, que enquanto persistir legitima dúvidas quanto aos dados oficialmente declarados: do défice na óptica da contabilidade pública e na óptica da contabilidade nacional (na primeira contam os pagamentos efectuados, na segunda contam os compromissos de despesa, independentemente de terem dado ou não origem a desembolsos).
Quer isto dizer que em 2005 terão sido efectuados pagamentos de despesas correspondentes a compromissos assumidos em anos anteriores, que numa óptica de contabilidade nacional não contam para o saldo (défice) de 2005.
Baseado nesta diferença, o Governo afirma que o saldo oficialmente declarado está certo, o TC coloca dúvidas.
Não me competindo dilucidar a questão, vou apenas avançar dois comentários a este episódio que a pressão do marketing oficial por certo apagará rapidamente dos espaços noticiosos:
1º) Não podemos esquecer que 2005 foi o ano “de todas as despesas”, com um Orçamento Rectificativo que, na opinião curiosa da Drª Ferreira Leite (em declarações à RR), foi elaborado perguntando aos serviços “quanto é que queriam gastar”.
Chegou-se assim ao défice de 6% do PIB (mais umas centésimas).
Verifica-se agora que foram realizadas despesas para além das dotações inscritas, em montantes significativos.
Apesar disso, o exercício orçamental de 2005 foi apelidado por algumas almas caridosas de “consolidação”.
2º) As solenes declarações de responsáveis do Governo segundo as quais estas práticas tinham terminado.

Conclusão? Nunca digas desta água não beberei...

"Aviso à navegação"

A mensagem de Ano Novo do Presidente da República tem sido motivo de abundante análise política, em que ressaltam posições antagónicas: de um lado, surge a tese de que Cavaco Silva reforçou o apoio ao Governo e, do outro lado, a ideia de que não, pelo contrário, o “estado de graça” acabou.
Denoto, mais uma vez, na intervenção do Presidente da República, e ainda bem que assim é, uma profunda vontade e uma grande capacidade para apelar à mobilização do País em torno da necessidade de empreender, trabalhar, reformar e unir esforços para alcançar o objectivo central de criar riqueza e bem-estar, de construir um Portugal desenvolvido. Não será por certo a última vez.
Também encontro na mensagem um compromisso forte de obrigar o Governo a apresentar progressos claros – em particular na educação, no crescimento económico e na justiça – numa atitude que espelha uma partilha com os portugueses da preocupação de ir sendo tempo de verem resultados palpáveis na melhoria das suas condições de vida e verem diminuídos os sacrifícios que lhes têm sido impostos pelo Governo.
A leitura que faço é a de que o Presidente da República reitera o apoio às reformas do Governo e, em simultâneo, explicita uma vigilância à acção governativa e impõe uma exigência de resultados. Um compromisso que é muito bem vindo e necessário.
E fez bem Cavaco Silva em fazer um “aviso à navegação”, não dificultando, mas exigindo como lhe compete, não aligeirando nas dificuldades existentes, mas deixando uma palavra de esperança. Enfim, para concluir, esta não parece ser mais uma mensagem de Ano Novo, parece ser sim uma mensagem que vai fazer história...

quinta-feira, 4 de janeiro de 2007

Crianças “eternamente” crianças…

Ashley é uma menina de nove anos com uma idade mental de três meses que nunca vai conseguir andar nem falar. Sofre de uma grave encefalopatia. Precisa de muitos cuidados. Mas se crescer vai provocar graves problemas. Se permanecer “eternamente” com um corpo de menina, a sua vida, e também a dos pais, ficam mais facilitadas. Deste modo, foi solicitada autorização para que fossem efectuadas as terapêuticas necessárias, inclusive a retirada do útero e das mamas. Para que servem neste caso, perguntam os pais?
Esta atitude foi objecto de debates e recebeu autorização de um conselho de ética.
Os beneficiários da medida são os pais, mas na opinião destes também a filha vai beneficiar.
Carinhosamente chamam-lhe o “Anjo do travesseiro”, porque onde a colocam (habitualmente num travesseiro) aí fica.
Esta medida poderá ser no futuro adoptada para casos semelhantes, nomeadamente deficientes profundos, para os quais não há terapêutica, nem foram tomadas medidas de prevenção. No fundo é transformá-los numa espécie de “Peter Pan” com o encanto que todas as crianças têm, mesmo as que apresentam graves e profundas deficiências.
Recordo-me dos meus tempos de estudante de ter visitado uma senhora da minha terra que tinha tido há poucos meses um rapaz deficiente. Os olhos brancos, traduzindo uma cegueira completa, causaram-me arrepios que ainda hoje sinto. De resto, era quase, em tudo, semelhante a qualquer bebé. Claro que a deficiência era muito mais vasta, como mais tarde se veio a confirmar. A mãe tinha cuidados extremos, denotando um amor ilimitado. Era jovem. Passados muitos anos, e apesar de saber que o rumo da doença não era dos melhores – chegaram-lhe a propor o internamento numa instituição, que sempre recusou – vim a saber das graves dificuldades que entretanto tinham ocorrido. A criança tinha-se transformado num adulto com uma força impressionante, violento, permanecendo desnudado a todo no tempo, porque não admitia roupas, incapaz de dizer um única palavra, permanentemente enclausurado no seu quarto. Mesmo assim, e apesar das limitações da idade, a mãe continua a alimentá-lo, a limpá-lo, dando-lhe todo o conforto possível e a acarinhá-lo com a mesma doçura de sempre, e já se passaram mais de trinta anos.
Quando li a notícia da pequena Ashley recordei-me deste caso e pensei que bom seria, no meio de tanta tragédia, manter o filho num estado “permanente” de criança, mais consentâneo com a dignidade da mesma.
Dizem que o mundo é das crianças. Mas há crianças que têm o direito de nunca crescer, porque o mundo lhes deve algo, e esse algo é muito…

O poder... ou a falta dele!...

Estive uns dias em Paris, onde passei o fim do ano.
Contraditório tempo este!... Numa época de grandes liberdades, não houve liberdade para fazer a festa pública da passagem de 2006 para 2007. Foi proibido o fogo de artifício, um dos ex-libris dos Campos Elísios e da Torre Eiffel nesta época do ano. Em nome da prevenção e da contenção de aglomerações, terreno fértil para perturbações da ordem pública pelos habituais grupos de “suburbanos”.
O facto a reter é que os governos e as populações têm medo. E que os grupos, organizados ou não, que o provocam já ganharam a primeira batalha. E, por este andar, vão ganhar outras.
Oxalá os governos não cheguem ao ponto de também proibirem a música ou outros espectáculos, com a desculpa de não dar terreno ao pleno exercício do poder soberano dos grupos marginais.
A “grande” França, que se proclama defensora das grandes causas, já o começou a fazer com o fogo de artifício!...
Um Ano Bom para todos, sem medo, e com muita saúde e alegria!...

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

“Ópera rock”

Antes do Natal passei por uma livraria para ver as últimas novidades, comprar um livrito, utilizar um bónus na sua aquisição e passar um bocado de tempo, já que é tão raro.
Acabei por comprar dois e, quando cheguei à caixa, a funcionária, muito delicadamente, cumprimentou-me, dizendo que tinha um livro especial para eu ver. Acto contínuo, retirou um exemplar debaixo do balcão e mostrou-me. Tratava-se da Divina Comédia de Dante, tradução de Vasco da Graça Moura com ilustrações de Júlio Pomar, edição limitada e assinada por ambos. Perguntou-me se estava interessado. Disse-lhe logo que sim, não obstante o preço. Mas como a obra sempre me agradou, tendo inclusive já lido algumas passagens, achei que era o momento de a ler. Afinal é uma das mais marcantes obras universais. A funcionária aquiesceu com um simpático sorriso e perguntou-me se era para oferta. Disse-lhe que sim, mas para mim! Uma auto oferta natalícia.
Já li grande parte da deliciosa obra do "homem que procura o amor".
Hoje, fui confrontado com a notícia segundo a qual o Vaticano planeia realizar uma “ópera rock” baseada na Divina Comédia. Um padre "liberal" é responsável pelos diferentes estilos musicais, de acordo com o momento do poema. Assim, o rock vai ser usado no Inferno, o coro gregoriano no Purgatório e a música clássica no Paraíso. A obra vai ser divulgada por esse mundo fora, e acho muito bem. Só não compreendo as razões do monsenhor Marco Frisina ao escolher os diferentes estilos de acordo com os três patamares, Inferno, Purgatório e Paraíso. Não pretendo afirmar que o senhor seja preconceituoso, nada disso. Mas seria muito mais interessante escolher a música clássica para o Inferno, sempre tranquilizava os diabinhos que por lá abundam e o rock para o Paraíso, ao menos alegrava e dinamizava a rapaziada. Quanto ao canto gregoriano, não esquecer que este estilo de música foi divulgado pelo papa Gregório I, o mesmo que teorizou o Purgatório, é muito bem feito para os que “andam” por estas bandas. Claro que o canto gregoriano é bonito, mas ter que o “gramar” durante tempos infindos, enquanto não subirem ao Paraíso, deve ser cá um tormento!
Estou convicto que Dante e a sua amada Beatriz, na sua jornada pelo Paraíso, iriam divertir-se com o rock, mas têm que contentar-se com música clássica. Melhor sorte tem Dante, sempre dá umas voltas pelo Inferno…

Desconcertante...ou talvez não!

Leio no DN de hoje que no Outão se iniciou a co-incineração de lamas e óleos.
Nada de surpreendente.
Desconcertantes - ou talvez não - são as declarações do advogado das câmaras interessadas em na oposição judicial à decisão do Ministério do Ambiente. Diz ele, e vêm transcritas as suas próprias palavras, que foi à Madeira encontrar-se com o Dr. Alberto João Jardim para lhe solicitar o seu apoio às causas que patrocina (creio que também será advogado no processo de Souselas), explicando que o presidente do Governo Regional terá prometido empenhar-se politicamente em todas as lutas contra o governo.
Eis mais um caso de hipnose pelo protagonismo. Ao ponto de tornar cego quem tem um mandato para defender os interesses dos seus constituintes no plano da legalidade, não nos domínio da política.
Caso nunca visto? Nem tanto. Andam por aí alguns que frequentemente confundem as suas funções de agentes da justiça com intervenções na política.
Curioso estou em saber o que pensarão os presidentes comunistas das câmaras de Setúbal, de Sesimbra e de Palmela desta convocação do Dr. Alberto João para a causa, pelo próprio mandatário destas autarquias.

terça-feira, 2 de janeiro de 2007

O fim de uma ilusão

O governo espanhol pôs termo aos "contactos" com o grupo separatista basco ETA, anunciou hoje em conferência de imprensa o ministro da Administração Interna de Espanha, Alfredo Perez Rubalcaba.
Ponto final numa ilusão. A de pensar que quem sempre utilizou o terror para impor os seus pontos de vista, quem demonstrou vezes e vezes sem conta desprezar a vida humana, quem sacrificou gratuitamente e sem hesitações nem arrependimento a vida de inocentes, poderia ser digno de confiança. Só os tolos admitem negociar com quem não merece confiança.
Com o terrorismo não se negoceia. Eis um princípio que até hoje não viu contestada a sua validade. Pelo contrário. O atentado de Barajas só veio afinal confirmá-lo.

Que dirão hoje os nossos ilustres concidadãos (lembram-se de algum?) que aplaudiram entusiasticamente a decisão do PSOE de por o governo espanhol a negociar com o terrorismo da ETA?

“Úteros fora de prazo”…

A notícia segundo a qual uma mulher espanhola de 67 anos deu à luz gémeos vem mais uma vez questionar a “legitimidade” de tamanho acto.
As diferentes espécies procriam até muito tarde. Na espécie humana, os homens também dispõem dessa capacidade. Em contrapartida, as mulheres, e também “as” gorilas, partilham da menopausa o que as impede de continuar a procriar. As interpretações e análises evolutivas deste fenómeno são muito interessantes. Parece que surgiu muito cedo, traduzindo uma resposta aos elevados custos de gestação, lactação e longos cuidados maternais que acompanhou a encefalização dos primeiros hominídeos, há cerca de 1,5 milhões de anos. Ou seja, a senescência reprodutiva pode ser vantajosa quando o potencial de vida não ultrapassava os 50 anos.
Ter muitos filhos não é muito saudável, além dos problemas sociais inerentes a esta situação. Basta ver as lutas que foram desencadeadas a propósito do planeamento familiar e que culminou na utilização maciça da pílula contraceptiva. Foi uma das maiores revoluções que a humanidade sofreu.
Na altura, ter muitos filhos, nas condições de penúria generalizada, gerava mais miséria e infelicidade nos novos seres. O custo para a saúde das mães também não seria das melhores. Passados todos estes anos, foi possível concluir que, de facto, a saúde dos casais piora à medida que aumenta o número de filhos. Um maior número de filhos implica maior probabilidade de morte prematura dos pais, mais da mãe, atingindo igualmente os filhos mais jovens.
Estes achados são muito importantes, porque legitimam o facto de as mulheres preferirem ter menos filhos que os maridos e reduzir a sua fertilidade. Para já, a Natureza, em parte, encarregou-se em atender às suas necessidades, graças à menopausa, mas com o tempo e com as revoluções sociais e culturais, entretanto ocorridas, a limitação à produção de muitos filhos tornou-se, para a grande maioria dos casais, um imperativo ao permitir melhores cuidados na longa e complexa atenção que os filhos exigem no decurso do desenvolvimento. Longo, complexo e dispendioso, ao ponto de provocar fortes dores de cabeça aos actuais governantes de muitos países devido aos desequilíbrios demográficos verificados. Nem os apelos e incentivos disponibilizados por alguns governos são suficientes para inverter a situação do envelhecimento demográfico. De qualquer modo, os novos dados vêm dar mais um contributo às mulheres para não terem muitos filhos: prejudicam a saúde! Claro que no meio disto tudo, o aparecimento de mulheres pós menopausa a produzirem filhos não vai alterar em nada o determinismo evolutivo, além de constituir um eventual capricho. É certo que constitui uma prova de, em caso de crise, e havendo necessidade de produzir mais seres humanos (nunca se sabe!), podermos socorrer de úteros, aparentemente, fora de prazo! Sempre é uma garantia, mas é preferível tê-los na devida altura, em condições que não prejudiquem a saúde e promovam o equilíbrio e bem-estar da sociedade.


A adesão de Portugal ao euro, ou um exemplo a evitar

Porque foi divulgado no período entre o Natal e o Ano Novo, terá passado despercebido à maior parte das pessoas o paper da Comissão Europeia (CE) sobre a adesão de Portugal ao euro. O artigo, muito curto (6 páginas) e fácil de ler intitula-se “Portugal’s boom and bust: lessons for euro newcomers” e foi escrito pelo português Orlando Abreu, da Direcção-Geral dos Assuntos Económicos e Financeiros da CE.

Já no início de 2004, outro paper da CE, este mais pormenorizado, intitulado “The Portuguese Economy after the boom” colocava bem a nu os problemas estruturais da nossa economia, tal como identificava os tremendos erros de política económica cometidos no período 1996-2000, quando o nosso país se preparava para entrar no restrito clube do euro.

Agora, é referido preto no branco que os futuros membros da Zona Euro devem olhar para Portugal para perceberem como não devem actuar. Nomeadamente,

(i) a inacção em termos de realização de reformas estruturais que compensassem a perda de instrumentos macroeconómicos tradicionais, como a política monetária e a política cambial, e que vão desde a qualificação dos recursos humanos, à desburocratização da administração pública e da justiça ou à flexibilização da legislação laboral, passando pela fiscalidade; e

(ii) a prossecução de uma política orçamental restritiva adequada, que compensasse o efeito expansionista sobre as famílias e as empresas da queda das (nossas) taxas de juro para o nível das taxas de juro alemãs.

Infelizmente, sabe-se o que aconteceu: depois de ter sido decidido, em 1996, que a Zona Euro teria o seu início em 1999, e que Portugal iria tentar estar no chamado “pelotão da frente”, a segunda metade dos anos 90 foi caracterizada, no nosso país, pela ausência de reformas estruturais (que infelizmente ainda hoje se encontram por fazer, quase na sua totalidade…) e por uma política orçamental totalmente desadequada (expansionista), que ainda hoje se está a tentar corrigir.

Ou seja: tudo ao contrário do que devia ter sido feito – e ainda por cima em tempo de “vacas gordas”, que deviam ter sido aproveitados e não foram.

Não creio que haja outro culpado que não seja o primeiro Governo Socialista de António Guterres. De que já faziam parte José Sócrates e Teixeira dos Santos. Que lá estiveram os 4 anos que esse Governo durou (depois, no segundo Governo Guterres, Teixeira dos Santos saiu; José Sócrates continuou). E que, portanto, tiveram parte activa no descalabro que ainda hoje (e durante quantos mais anos?...) nos afecta.

Por isso, quando ouço o actual Ministro das Finanças referir que teve muito orgulho em ter feito parte do governo que colocou Portugal no euro, penso que só podemos sorrir… perante as evidências! Nem vale a pena irritarmo-nos!

Creio, aliás que, constituindo Portugal um exemplo a não seguir pelos países que possam vir a juntar-se ao euro, podemos concluir que teríamos entrado sempre, fosse quem fosse que nos governasse naquele período fatídico. Logo, Portugal aderiu ao euro não com a ajuda daquele Governo, mas apesar daquele Governo… Mais palavras para quê?!...

A propósito do “2007: Pior do que 2006?”

Caríssimos,

Já em 2007 (bom ano novo a todos!...), confesso que, até por ter sido colocado no período festivo entre o Natal e a Passagem de Ano, não esperava que o meu texto sobre as projecções para o ano em que já estamos tivesse tanta leitura!... Mas enfim, é um sinal de que o Quarta República nunca pára e, por isso, o meu muito obrigado a todos.

Resolvi escrever este novo post e não comentar o texto anterior essencialmente para responder muito sumariamente às questões que CMonteiro me coloca, ao mesmo tempo que, claro, agradeço os comentários e sugestões que todos me endereçaram.

Quanto às questões (provocações...) de CMonteiro, cumpre-me referir o seguinte:

1. Fiz parte do Governo de Durão Barroso como Secretário de Estado do Tesouro e dasFinanças durante exactamente 1 (um) ano: de 8 de Abril de 2002 a 8 de Abril de 2003;

2. O “discurso da tanga” retratava de forma muito fiel e correcta, como hoje facilmente se constata, a realidade do país. Estávamos e estamos “de tanga”. E foi uma pena que os “remédios“ adequados para sairmos a prazo desta situação (que não deixaremos com um passe de mágica) não tivessem sido prosseguidos (alguns tinham sido, aliás, anunciados na campanha eleitoral de 2002 e depois, infelizmente, foram abandonados parcial ou totalmente). Lamento que o país não tivesse entendido na altura, como creio que hoje já entende muito melhor – e quanto mais tempo passar, ainda melhor entenderá – que estamos mesmo, e já desde 1998/1999, “de tanga”… Só que dantes não se sentia tanto!...

3. O “globalmente positivo” a propósito do OE’2006 foi um lapsus linguae lamentável. Fui eu que o protagonizei e, por isso, aqui refiro que o que devia, na altura, ter afirmado, era que “o discurso subjacente ao OE’2006 é globalmente positivo (…) mas não encontra, depois, aderência no próprio documento”. Aqui vai o mea culpa de algo por que sou co-responsável. Quanto aos 3 OE já apresentados pelo Engº Sócrates (sim, já são 3: OER’2005, OE’2006 e OE’2007), meu caro CMonteiro, não tenha dúvidas de que, ao contrário do discurso e intenções que lhes estão subjacentes, consubstanciam opções de política económica erradas – como já em repetidas ocasiões tenho referido/escrito – e por isso o PSD tem feito muito bem em se lhes opor.

E é tudo, até porque, para um “A propósito” de um post anterior, o texto já vai longo!...

Mais uma vez um bom ano de 2007 para todos são os meus votos muito sinceros.

Uma forma muito original de desejar um Feliz Ano

Estive à espera que algum colega do 4R desse o pontapé de saída de 2007, ou melhor, o segundo, porque o primeiro foi dado, e muito bem, pelo Ferreira d´Almeida.
Ouvi e li parte do discurso do papa Bento XVI. Apesar do elevado respeito que merece, mesmo assim, não deixou de provocar algumas reflexões. Aqui ficam algumas.
A abordagem de certos problemas incomoda certas religiões, ao porem em causa alguns princípios que, durante muito tempo, pensava-se estar aquém da compreensão e intervenção humanas. Mas não é assim. As intervenções efectuadas em embriões é uma dessas áreas. A investigação científica pauta-se pelo cumprimento e respeito de normas éticas, cada vez mais apertadas. Se as mesmas forem cumpridas, não vejo razão para que os cientistas sejam comparados a terroristas. Mas foi nestes termos que o actual papa Ratzinger se dirigiu no seu discurso. E não ficou por aqui, porque considerou a prática do aborto também a terrorismo. A nossa actual lei contempla as circunstâncias em que pode ser praticado. Lei terrorista? Na perspectiva papal, sim.
Face às palavras do Papa como sentirão as pessoas honestas, dotadas de sentido ético, irmanadas de responsabilidade social e científica, cultores da paz, ao serem comparadas a terroristas?
Uma forma muito original de desejar um Feliz Ano!

domingo, 31 de dezembro de 2006

No crepúsculo da justiça

A Margarida Corrêa de Aguiar escreveu aqui sobre mais um caso de violência extrema sobre menores, com que fecha este ano de 2006. O Professor Massano Cardoso igualmente se refere ao caso no seu último post.
Estou plenamente de acordo com a opinião e os sentimentos da Margarida e do Massano Cardoso.
Mas o caso assumiu outra faceta assim que caiu no âmbito da justiça. Converteu-se num espectáculo com a audição, pelo juiz de instrução, da mãe da pequena e infeliz Sara.
Nesse dia, logo pela manhã, já as rádios e televisões transmitiam que tinha sido apurado junto de "fonte da Polícia Judiciária" que a mãe da Sara confessara que tinha por hábito exercer violência física sobre a bebé. Ou seja, continua, impune e descarada, a violação do segredo de justiça, mesmo nas barbas dos juizes! A lei, de tão abastardada, já nem sequer é invocada pelo espírito mais sensível aos princípios fundamentais de um Estado que se diz governado por ela...
Como era previsível, à porta do Tribunal onde foi decretada a prisão preventiva da mulher, se juntou uma multidão, sedenta de sangue e de vingança, pretendendo fazer justiça pelas próprias mãos.
E no entanto, nenhum daqueles vociferantes justiceiros - alguns espumando ódios e raivas, de olhares tresloucados - sabia do que se passou no gabinete do juiz. O que foi aí apurado. Que desgraças se revelaram. Que circunstâncias pessoais explicam a morte da pequenina e indefesa Sara. Nem sabiam, nem lhes interessava saber, que razões levaram o juiz a decretar a medida privativa da liberdade à arguida. Nem tão pouco que essa medida de coacção não significa que tenha sido julgada e condenada.
Aliás, para aquela gente, acicatada com a exposição mediática destes casos julgados pelas paixões mais primárias e facilmente manipuláveis da turbe, o julgamento está a mais, é um capricho descartável do sistema, neste como noutros casos.

Mais uma vez a justiça faz-se na rua. Iluminada pelos holofotes da comunicação social que obteve mais uns preciosos minutos de exibição do que pior há no ser humano. Quase em directo. E em prime time. Nada melhor para vencer a competição das audiências. Nada melhor para o negócio da venda de publicidade que se faz, justamente, das audiências conquistadas.
Sinais recorrentes de um Portugal, também aqui, cada vez mais pobre.
País em que são cada vez menos os que acreditam na justiça feita adentro das paredes dos Tribunais. Ponderada e recatada como teria de ser, para que a prova se fizesse de acordo com o princípio da certeza e sem pressões.
Em que todos preferem o protagonismo espalhafatoso do magistrado-polícia, do que o julgamento sereno pelo juiz-prudente.
Em que se fomenta, cultiva e louva a delacção. Em que se estimula a inveja, a devassa e a malidiscência.
Em que se saliva pelo castigo severo, não importando mais a prevenção e o combate às causas sociais do fenómenos crimininogéneos.
Em que a vítima só conta enquanto for protagonista dessas telenovelas em que se transformaram os telejornais (a pequena Sara, e o que ela representa no plano da desprotecção da infância e da adolescência de risco, depressa será esquecida, logo que o espectáculo do julgamento popular da sua mãe seja substituído por um qualquer grotesto episódio no julgamento do caso "Casa Pia"...).
Como detesto pensar, pobre Portugal! Mas é inevitável...

sábado, 30 de dezembro de 2006

Estúpida lentidão!

A lentidão é uma das nossas principais características. Somos lentos a trabalhar, a produzir, a pagar impostos, a chegar a horas ao emprego. A nossa justiça é tão lenta que acaba por "esquecer" os crimes. O serviço nacional de saúde é tão lento que chega a chamar os mortos. As leis levam tanto tempo a serem regulamentadas - quando o são - que até nos esquecemos que existem! Os poderosos da economia são tão lentos que, como no caso dos combustíveis, levam mais de um mês a baixarem os preços (a baixarem!). O nosso jornalismo é tão "lento", parafraseando Baptista-Bastos, que chegam a publicar notícias de primeira página, quatro dias depois do acontecimento. Os governantes são tão lentos que ainda não entregaram o dossier para a obtenção dos novos fundos comunitários. Gasta-se uma fortuna na reestruturação da linha do Norte, mas os comboios teimam em chegar atrasados. Enfim, não faltam exemplos da luso lentidão. Não quer dizer que não sejamos, igualmente, capazes de ser rápidos. Rápidos nas estradas, rápidos nos copos, rápidos na maledicência, rápidos na condenação social, rápidos a chegar aos cemitérios, rápidos a vigarizar, rápidos a prometer fundos e mundos, rápidos a gastar dinheiro (mesmo não o tendo), rápidos a protestar…
Esta dualidade lentidão-rapidez é preocupante, porque além de traduzir, na sua génese, problemas muito graves são igualmente fonte de outros, alimentando um curto-circuito de inoperância estrutural que nos faz afastar cada vez mais dos povos desenvolvidos.
A lentidão é uma constante, e não há banda larga que consiga contrariá-la, nem choque civilizacional que promova uma maior e eficaz eficiência das nossas estruturas organizacionais.
Os últimos acontecimentos são paradigmáticos. Mais uma criança vítima de maus-tratos e um naufrágio onde pereceram pescadores. No primeiro caso, questiona-se pela milésima vez, por que é que continua a haver casos desta natureza? Falta de estruturas, falta de capacidade de diagnóstico e de prevenção? Não nos parece, porque depois de acontecer o que não devia acontecer, avolumam-se evidências de que se deveria ter actuado mais cedo. Mas não se actuou e a sociedade foi mais uma vez cúmplice. No outro caso, a morte desesperada de pescadores, e a poucos metros da praia, sob o olhar impotente de concidadãos, fruto de manifesto atraso no socorro. De acordo com os elementos disponíveis se os meios aéreos de salvamento tivessem actuado mais cedo, teriam sido salvos. Agora, num caso e noutro, vão ser apuradas responsabilidades. Rapidez na constituição das comissões, lentidão nas conclusões e esquecimento das tragédias, e tudo voltará à normal lentidão, tão característica de uma sociedade que estupidamente despreza e ignora a vida…

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

Todos os Anos têm coisas boas...

Muitas vezes, quando se aproxima o fim do ano ou se inicia o Ano Novo, as pessoas tendem a raciocinar de modo perdulário, encarando o exercício dos passados doze meses como inútil, vazio, com muitos problemas e angústias, de meros sacrifícios contínuos. O ano viveu-se, mas não adiantou coisa nenhuma. Foi mais um (ou pior, menos um). Soube a pouco ou não serviu para nada. Ás vezes num acto de razoabilidade diz-se que o ano não foi mau.


Existem, claro está, explicações para este estado de espírito. Por exemplo, a falta de perspectivas gerais da sociedade e a sua mediocridade que, como se dela não fizéssemos parte, observamos diariamente no desempenho profissional, nas relações humanas, na rua. Tudo reprovamos: a classe e os decisores políticos a que o País está entregue, o baixo nível de vida, o comportamento e a desobediência pública generalizada.


Há uns anos atrás, lá fora, uma pessoa minha amiga lamentava-se no final do ano, junto de um grupo restrito de pessoas, sobre a sua vida durante esse mesmo ano. Houve um britânico que lhe sugeriu algo simples e útil: porque não procurava, naquele exercício de mera verificação de não ganhos (portanto, de perdas), identificar os momentos altos, os highlights do ano, aqueles em que tinha sido actor?


Quase infantilmente, porque de modo verdadeiro, espontâneo e sorridente, a pessoa minha amiga isolou dezassete momentos altos naquele ano – que tinham contado com o factor surpresa/novidade – todos de evidente grande bem-estar pessoal. Apontou alguns acontecimentos familiares, factos profissionais, belos trechos de visitas e de passeios culturais, paisagísticos e gastronómicos, cenas cómicas, rodas de amigos especiais, ambientes de encanto, etc. A taxa obtida, por isso, foi de quase 1,5% momentos de antologia por mês. Nada mau - confessou.


Não nos devemos subestimar nem intimidar por condições pretensamente adversas, mas antes ser capazes de manter uma autonomia de satisfação e de demonstrá-lo ao próximo - para o influenciar positivamente. Contribuimos, afinal, para a melhoria do nosso próprio bem-estar e do clima que nos rodeia. Não é nada que não saibamos; mas convém ter em mente uma coisa tão simples, pelo menos até ao Dia de Reis!

Nesta oportunidade, desejo a todos os 4Republicanos, comentadores e visitantes do 4R um Bom Ano 2007 e formulo votos de continuação de um excelente convívio neste espaço muito especial que é o 4R - Quarta República.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Não nos podemos conformar...

São muito chocantes os maus tratos a crianças, que infelizmente são uma realidade bem presente em Portugal.

Acordámos hoje com mais uma notícia de suspeitas de maus tratos que terão estado na origem da morte da Sara, a bebé de dois anos de Monção.

Há duas semanas atrás a educadora de infância da Sara tinha dado o alerta à Comissão de Protecção de Menores e Jovens em Risco, informando que a criança poderia estar a ser vítima de violência por parte da família.

A criança foi, portanto, sinalizada junto daquela Comissão, a entidade oficial que tem a responsabilidade de intervir no sentido de proteger as crianças em situação de risco.

A causa da morte da Sara e a sua história familiar não são ainda oficialmente conhecidas, mas uma coisa é certa: a Comissão de Protecção de Menores e Jovens em Risco tinha marcado as primeiras averiguações para hoje, dia 28 de Dezembro, para concluir sobre a necessidade de accionar os adequados mecanismos de protecção da criança.

Tomando como boas as datas noticiadas, pode concluir-se que a actuação da Comissão foi demorada e não chegou a acontecer, pelas piores razões.

O tema das Crianças e Jovens em Risco é muito sério. É um tema problemático e as respostas para a erradicação do fenómeno dos maus tratos – no sentido lato do termo – são complexas, pela pluralidade de dimensões em presença – económica, social, cultural.

Mas em simultâneo há que assegurar que os mecanismos de protecção das Crianças e Jovens em Risco são actuantes, em tempo e na forma. Para que não aconteça o que não pode efectivamente acontecer: por falta de uma intervenção eficiente, a insegurança de uma criança culmine na maior tragédia - a morte. Que a todos responsabiliza e deve envergonhar.

O Senhor Ministro do Trabalho e da Solidariedade Social afirmava hoje, interrogado sobre mais esta “vida” que se perdeu, que há demasiados maus tratos a crianças. Uma evidência, que passou a ter, por isso mesmo, um espaço repetido na comunicação social. O ano de 2006 foi infelizmente um retrato dessa evidência. Seria bom conhecermos que respostas vigorosas tem o Senhor Ministro para dotar o País de mecanismos actuantes de protecção de crianças e jovens em risco.

Crítica sem sentido!...

Vem sendo veementemente contestada pelo PSD a intenção do Governo de nomear Vítor Santos para Presidente da ERSE, de cuja Direcção, aliás, já faz parte, pelo facto de ter sido Secretário de Estado no tempo de Guterres.
Não conheço Vítor Santos de parte nenhuma, apenas o conheço de nome e sei que é professor do ISEG.
E sei também que a única coisa importante a atender para tal nomeação é saber se o nomeado é competente e sério e se tem perfil para a função. A crítica seria credível se fosse fundamentada na falta de seriedade e de competência para tal tarefa. Se é socialista ou anti-socialista, se fez ou não parte de anteriores governos, isso não interessa nada.
Com este tipo de críticas mais se afastam pessoas competentes, digo competentes, dos Governos, quaisquer que seja, pois ficariam impedidas de desempenhar, no futuro, outras importantes missões.
Também por isto, é crítica sem qualquer sentido!...

2007: Pior do que 2006?

No final de cada ano, é tempo de procurarmos saber o que se poderá esperar para o ano que se segue.
Foi o que procurei fazer no texto que pode ser acedido "clicando" no endereço

http://quartodarepublica.blogspot.com/2006/12/2007-pior-do-que-2006.html.

E, aí, o leitor poderá constatar por que considero que os motivos para celebrar são poucos, muito poucos...

Mesmo assim, votos de um excelente 2007 para todos!...

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

Indignidade!...

Mercê das fortes reestruturações por que passaram e da aplicação de boas práticas de gestão, entre as quais as que visavam a melhoria da satisfação dos colaboradores, por força de melhores remunerações ou de outros não menos importantes incentivos, os Bancos portugueses estão hoje entre os mais modernos da Europa ou da América, seja na actividade da banca comercial como na da banca de investimento. Por isso, e embora já sujeitos a cada vez mais acrescida concorrência de bancos estrangeiros, vêm aumentando a actividade, a produtividade e os lucros. Dos últimos resultados dos maiores Bancos, como, aliás, já tenho referido em textos anteriores, resulta que a rentabilidade dos seus capitais próprios chega a exceder os 20%, com uma inflação de 2,5%, o que indica a recuperabilidade do capital em cerca de 5 anos.
Pois estes mesmos Bancos iniciaram as negociações com os Sindicatos com propostas de aumentos de 1,5%, bem abaixo da inflação e, para algumas classes, de 0%!...
Obviamente que sou pela economia de mercado e pela livre escolha. Mas esta propsta é uma indignidade!...

“Um bom exemplo, apesar da tragédia”…

No dia 13 de Novembro de 2002 ocorreu um grave acidente ecológico nas terras da Galiza provocado pelo afundamento do petroleiro Prestige fonte de uma gravíssima maré negra. Na altura temia-se, e com razão, que as nossas costas pudessem ser, também, afectadas. Felizmente não foram, mas os nossos vizinhos galegos tiveram inúmeros contratempos com as suas praias, viveiros e limitações na pesca. Os esforços na limpeza foram notáveis. Uma verdadeira onda de solidariedade correu por aquelas bandas com o objectivo de minimizar o impacto e proceder às respectivas limpezas. Na altura, surgiram alguns problemas de saúde que atingiram os sistemas respiratório e gastrointestinal, irritações oculares, alterações psicológicas e perturbações do sono. Aspectos considerados transitórios. Acontece que volvidos quatro anos, estudos epidemiológicos, entretanto realizados, apontam para problemas que exigem atenção especial, os chamados efeitos a longo prazo.
A exposição aos agentes tóxicos envolvidos na tragédia estão a provocar alterações do ADN e perturbações hormonais. De acordo com alguns investigadores, é possível que algumas lesões do ADN sejam susceptíveis de “conserto” nalgumas pessoas, mas noutras, as que estiveram mais tempo expostas, é possível que não ocorra a devida reparação. Deste modo, muitos voluntários correm riscos de virem a sofrer as consequências das alterações citogenéticas.
Os efeitos a longo prazo não são fáceis de estudar, mas poderão traduzir-se no aparecimento de patologias indesejáveis. Neste momento, começam ser identificadas várias alterações respiratórias. Em ambos os casos os processos são lentos, exigindo vigilância e controlo adequados sem os quais não será possível estabelecer nexos de causalidade entre a exposição a muitos dos componentes derramados e o aparecimento tardio de várias afecções.
A divulgação recente de alguns estudos, com as cautelas adequadas, não deixam de por em causa a tranquilidade de todos aqueles que, num acto de generosidade, contribuíram para a solução do problema. Inclusive, o uso de equipamentos “adequados”, nomeadamente as máscaras, não terão sido suficientes para a prevenção destes efeitos. E se a imagem de um voluntário galego, ou não, com luvas, máscara, fato branco e baldes na mão, constitui a marca dos limpadores, não podemos esquecer que as populações das vizinhanças, não deixaram de ser atingidas pelos compostos voláteis, os quais através da inalação e até da pele, deverão ter feito das suas em muitos milhares e milhares de corpos. Daqui a muitos anos irão ocorrer certas patologias, comprometendo a vida de muitos, as quais serão aceites como uma fatalidade perfeitamente normal, esquecendo muitos que, um dia, houve um Prestige…
Os estudos epidemiológicos realizados por colegas galegos, e de outras comunidades espanholas, serão, com toda a certeza, vitais para a compreensão dos fenómenos de poluição ambiental, visando esclarecer a sua relação com o surgimento de muitas doenças.
As autoridades de saúde do país vizinho, empenhadas a vários níveis, estão no caminho certo, sinal de respeito dos direitos dos cidadãos. Um bom exemplo, apesar da tragédia…



Rudolfo, a rena do nariz vermelho


É pena que o Pai Natal surja só como o grande obreiro da dinâmica comercial, o gordo bem disposto que nos convida a comprar os presentes que se cobiçam nas montras das lojas. De certo modo, a mágica do Grande Dia foi cilindrada pela euforia das compras e só com muito esforço conseguimos recuperar o imaginário infantil que nos acompanhou tantos anos.
O Pai Natal de que me lembro só entrava na história como o transportador das prendas, que guiava o carro das renas vindo de um país frio e distante, uma espécie de Rei Mago da modernidade que desse modo se juntava à celebração do nascimento de Jesus...
A notoriedade deste ajudante veio da dificuldade que teve num dia de intenso nevoeiro que impedia de ver o caminho para todas as casas onde devia chegar. Havia então uma pequena rena que não conseguia entrar nas brincadeiras porque tinha o nariz muito vermelho, tão vermelho e luminoso que as outras o afastavam quando jogavam às escondidas. Vivia muito triste com a troça dos outros, até que nesse dia teve a sua grande oportunidade, porque afinal o seu defeito era uma vantagem que nenhum dos outros conseguia superar: ele podia ir à frente do trenó, iluminando no meio do nevoeiro!
É essa música que ouvimos por todos os lados quando procuramos rechear os sapatinhos. Convém lembrar que ela celebra um lugar para todos, que ensina que onde os outros só vêem fraqueza e motivo de rejeição pode estar uma força e uma capacidade que pode ser tão valiosa quanto a nossa sensibilidade para a ver e acolher.
Rudolfo ficou para a história porque era diferente. Sem ele, o Pai Natal teria ficado perdido no nevoeiro…


Rudolph, the red-nosed reindeer
had a very shiny nose
and if you ever saw it
you would even say it glows.
All of the other reindeer
used to laugh and call him names
they never let poor Rudolph
join in any reindeer games.
Then one foggy Christmas eve
Santa came to say:
"Rudolph with your nose so bright
won't you guide my sleigh tonight?"
Then how the reindeer loved him
as they shouted out with glee (yippee)
"Rudolph, the red-nosed reindeer
you'll go down in history."

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

Natal laico!...

Entrei numa livraria. O livro Eu Carolina continua a vender-se em grande escala. Em pouco tempo, vi três sujeitos a saírem com a D. Carolina na mão. Falavam de futebol, claro!...
Desatinados com o desempenho das suas equipas, muitos adeptos mais intelectualizados encontram lenitivo no best-seller do momento e nele juram encontrar a explicação dos seus minguados resultados desportivos.
Fico com pena. Além de não passarem a ganhar, perdem uns euros na compra e ainda têm que a levar a D. Carolina para casa!...

“Está doente? Vá a Cuba!”…

O estado de saúde de Fidel Castro tem sido objecto de várias opiniões. De acordo com o governo cubano, o senhor não tem cancro. Teve um problema intestinal (hemorragia) e foi operado. Agora chamaram um cirurgião espanhol que afirmou que estava a recuperar muito bem. Aliás se é verdade a sua expressão: “A sua condição física é excelente, a actividade intelectual permanece intacta – eu diria fantástica – e está a recuperar bem da operação”, então, o homem irá aparecer um dia destes em grande! Só não percebo duas coisas. Por que razão foi chamado o médico catalão, se o senhor está a recuperar tão bem? E se o homem está doente, por que é que não vai a Cuba? Não é aí que estão os médicos que fazem curas maravilhosas? Pelo menos, é o que demonstra as frequentes reportagens televisivas e peditórios para obter cura naquelas paragens…

“Jogar na divisão dos macacos”…

Os estudos que se debruçam sobre as capacidades mentais dos animais são sedutores, já que podem por em causa determinados princípios em que se baseia a singularidade humana.
A teoria da mente, que permite pensar os que os outros pensam, característica da nossa espécie, parece que se estende aos grandes macacos.
Falar de consciência é muito complexo. Parte dos elementos que a constituem encontram-se nalguns animais, mas os grandes macacos são os únicos que mostram evidências de uma mente semelhante aos seres humanos, como demonstram estudos recentes A ser assim, ainda poderemos assistir a verdadeiras revoluções, não só em termos de bem-estar animal, como também ao reconhecimento dos seus direitos, originando graves problemas à nossa espécie, excepto se entretanto desaparecerem…
Em termos de direitos, sempre é melhor atribui-los aos macacos do que aos robôs! E é melhor que seja o mais rápido possível, porque, de acordo com um cientista do governo britânico, responsável por um relatório em que são elaboradas projecções para os próximos 50 anos, os robôs, que entretanto irão sofrer transformações inimagináveis, passarão a votar, adquirindo direitos que os macacos de hoje nem “pensam”! Tudo, porque sendo “conscientes” vão querer ter direitos.
O escritor checo, Karel Èapek, que em 1921 criou o termo robô (da palavra checa “robota”, trabalho pesado e servidão), anteviu o dia em que nos libertariam do trabalho pesado, mas decerto ficaria surpreendido com a rapidez com que se libertariam do nosso controlo.
A ficção científica tem perspectivado não só esse momento, como também o surgimento de uma inteligência artificial “superior”.
Neste preciso momento, já há robôs que se auto reparam, e alguns são mesmo “artistas”! No último caso, um português está a tentar criar máquinas capazes de fazerem “arte” ! Há mesmo quem considere que os futuros “seres”, dotados de inteligência artificial, serão o resultado natural da evolução das espécies, ao ponto de, quando olharem para o passado, terem, também, o seu próprio Charles Darwin. Levanta-se uma dúvida, será que haverá lugar para “seres inteligentes artificiais” “criacionistas”?
Algumas destas perspectivas, que aparentemente nos fazem sorrir, não deverão deixar de ser equacionadas. Mas entre reconhecer direitos aos grandes macacos ou aos futuros “robôs”, prefiro aqueles, porque pode acontecer que um dia estes últimos não os reconheçam, e quem sabe o que nos poderá, também, acontecer.
Alguém se imagina a jogar na divisão dos macacos?

O Governo da reacção

Segundo a imprensa desta manhã, o senhor Secretário de Estado do Comércio, Serviços e Defesa do Consumidor quer que a Autoridade da Concorrência avalie os preços dos combustíveis, mais elevados em Portugal que nos restantes países, numa altura em que a alta do euro beneficia os países importadores de crude e seus derivados. E que o preço do crude nos mercados internacionais estabilizou em pouco mais de 60 dólares, 10 dólares abaixo (salvo erro) do preço que motivou o último aumento dos combustíveis sentido pelos consumidores portugueses, acrescento eu.
Por aqui já tínhamos assinalado a situação que aparenta contornos de intolerável cartelização. Parece que o dia de Natal fez despertar o Senhor Secretário de Estado para o problema. Bendito espírito de Natal...
Valendo sempre mais a reacção tardia do que a omissão, anota-se aqui a atitude do governante.
Duas notas, porém.
A primeira tem que ver com esta forma de governar por impulso. Rara é a iniciativa do Governo que se antecipa à denúncia reiterada dos cidadãos, suas organizações ou instituições. É cada vez mais um governo de reacção, que agita só depois de se ver agitado.
A segunda nota é para assinalar que o senhor Ministro da Economia parece não existir para estas questões. E, todavia, esta como outras (por exemplo as do arrastamento inacreditável dos processos das OPA lançadas sobre a PT e o BPI), são questões que em muito excedem o âmbito da defesa do consumidor que preocupam o senhor Secretário de Estado Serrasqueiro. São problemas da economia, cuja saúde só se garante se o Governo estiver atento às práticas lesivas da livre concorrência e agir em conformidade por iniciativa própria.
E não se diga, como têm tentado dizer vários dos governantes, que as questões da concorrência são do domínio exclusivo da Autoridade da Concorrência, porque a própria conduta interventiva do Executivo noutras situações nas quais não hesitou em desautorizar entidades reguladoras, frontalmente desmente quem apresenta tal desculpa. É certo que nesses casos igualmente o Governo, como agora, actuou por reacção. Mas fez sentir a sua autoridade e quis transmitir que não anda a dormir na forma.
Veremos se os interesses da Galp, e da sua posição no mercado, não falam mais alto do que este ruidoso silêncio do senhor Ministro Pinho, neste caso do preço dos combustíveis...

domingo, 24 de dezembro de 2006

O outro “Menino”!

A imagem televisiva de Piergiorgio Welby numa total imobilidade, e com um ar de tristeza profunda em que apenas sobressaía um ligeiro acenar das pálpebras, única ligação ao mundo, deverá ter chocado muitas pessoas. Sofrendo de grave distrofia muscular, acabou por ficar paralisado, tendo o seu estado de saúde piorado substancialmente nas últimas semanas. O italiano mantinha-se vivo à custa de respiração artificial, sendo alimentado através de um tubo. Condenado a morrer, as medidas tomadas estavam a prolongar a vida em condições bastante deploráveis e não dignas da condição humana.
Nos últimos anos as técnicas destinadas a prolongar a vida têm tido um notável desenvolvimento e progresso. Nada a opor se as mesmas respeitarem a dignidade, mas quando se tornam excessivas e desproporcionadas poderão constituir uma violação dos direitos humanos. No caso vertente, o doente solicitou permissão para morrer. Não pediu que o matassem, apenas que não continuassem com certas medidas. A justiça italiana reconheceu que “tinha o direito constitucional de ser desligada a máquina que o mantinha vivo”. Mas ao mesmo tempo invocou que os médicos têm a obrigação legal de utilizar práticas de ressuscitação!
Houve um médico que desligou a máquina, respeitando a vontade do doente. Agora corre riscos de vir a ser julgado e preso por eutanásia.
Neste caso ninguém matou deliberadamente o doente, apenas foi suspensa uma terapêutica por recusa do mesmo. Os doentes devem ter esse direito. Aliás a problemática do testamento vital vai estar, brevemente, na ordem do dia.
Hoje, as inúmeras e sofisticadas medidas terapêuticas permitem manter as pessoas “vivas” em condições impensáveis há alguns anos. Recordo-me dos meus tempos de estudante, em que não haviam ainda medidas deste cariz, de ter lido uma frase do prémio Nobel da Medicina de 1960, Sir Macfarlane Burnet, que, a propósito das medidas de ressuscitação já existentes, embora muito aquém das actuais, dizia que andava com um cartão na sua carteira onde pedia para que não fosse sujeito a medidas de ressuscitação, se as mesmas pudessem por em causa a sua condição de ser humano, “exigindo” morrer com dignidade. Nunca mais esqueci aquela frase.
Recordo-me do “Menino”, era assim que o chamávamos. Na sua cadeira de rodas, com dificuldades tremendas em mexer os braços, vendia lotaria. Sempre alegre e bem disposto apesar de sofrer de distrofia muscular, a qual já tinha vitimado outros irmãos.
Toda a vida pós escolar da altura fazia-se no jardim, quando os dias estavam bons, ou debaixo da arcada do café, nos chuvosos. Mas fazia-se à volta do “Menino”. Era o ponto de referência. Quando me perguntavam para onde ia, dizia: - Vou brincar para ao pé do “Menino”! Ninguém se opunha. Já tinha alguma idade, mas não deixava de ser o “Menino”.
Houve uma altura em que o “Menino” não aparecia com muito frequência. Ia rareando a sua presença. Começámos a andar tristes. Um dia ficámos a saber que o “Menino” nunca mais ia aparecer, e fomos com ele ao cemitério atrás do padre. Teve uma morte natural e um funeral cristão.
Piergiorgio Welby não teve funeral cristão, mas teve uma morte adiada!
No dia do Menino, uma recordação de um outro “Menino”…

Uma recordação de Natal...

Das minhas recordações de Natal, não esqueço, nunca, a crença absoluta que eu e os meus irmãos tínhamos quando éramos crianças na descida pela chaminé do Pai Natal – velhinho, encarnado, com um barrete enfiado na cabeça e uma longa barba branca – que à meia noite vinha pôr no nosso sapatinho uma prenda, que nós iríamos encontrar ao acordar.
Meia-noite! Era a hora fantástica. Lembro-me que me esforçava por não adormecer antes da chegada do Pai Natal. Tinha muita vontade mas ao mesmo tempo algum medo de o ver: no entanto, nunca podia ficar acordada até àquela hora e, no dia seguinte, o meu primeiro olhar ia para o meu sapatinho colocado estrategicamente junto à chaminé.
Causavam-me uma enorme emoção, uma espécie de magia encantada, os presentinhos embrulhados em papel de muitas cores e com as formas que faziam imaginar e sonhar se o Pai Natal tinha recebido a minha carta e atendido aos meus pedidos.
Saltava da cama e corria descalça para me apoderar do meu tesouro, a pensar que tinha sido bem comportada durante o ano e merecedora das atenções do Pai Natal.
Recordo, também, a enorme desilusão que tive quando descobri que o Pai Natal "não existia", mas logo percebi o amor ainda maior dos meus Pais pelos filhos. E foi, então, que percebi o significado do Natal.
A magia do Natal é composta de alegria e felicidade e, por isso, agradeço ao Pai Natal – que nunca vou esquecer – por tão bem me ter ensinado o significado do sapatinho.
Obrigada a todos por partilhar esta recordação.
FELIZ NATAL, com muitos sapatinhos cheios de presentes...

História de um Natal

Era uma noite de Natal chuvosa e fria, como eram as noites da minha terra beirã. As bátegas de água sopradas pelo vento batiam em rajadas nas janelas da casa, altas como portas, e mais adensavam o frio que se sentia, quando se saía da lareira.
Terminara a consoada, com os meus pais e a minha irmã (nunca conheci avós, cedo desaparecidos), com uma tia e com a minha madrinha que viviam connosco, com a Deolinda, criada de há longos anos, que dava uma mão na casa e outras nas terras, a Silvina, miúda de dez ou onze anos e a terceira classe, cuja principal tarefa era “ir” com as ovelhas e o João, que dava um jeito na lavoura (ainda o Sr. Emídio, a que me referi o ano passado, não fazia parte do jantar...) e já tinham passado dois ou três grupos a cantar as Janeiras. Estava agora chegado o momento de pôr o sapatinho na lareira, dar um beijo a todos e ir para a cama. Pois, nessa noite, teimei, com a ajuda da minha irmã, que todos deviam deixar o sapato, já que o Menino Jesus era bom e devia ter prendas para todos. Explicavam-me então que a noite era invernosa e, com tanto vento, o Pai Natal, para poder subir aos telhados e descer pelas chaminés, não podia trazer nem saco muito grande nem cheio. Dizia eu que o Menino Jesus podia tudo. Podia, mas quem trazia as prendas era o Pai Natal e o saco molhado pesava muito, mais do que ele podia aguentar sem cair…mas nada me convencia, nem o facto de me dizerem que o Pai Natal tinha longas barbas, tão longas que o atormentavam tanto como a idade, e que até já andava com as costas muito tortas, mal podia com um saco levezinho…Por isso, eu devia era ter pena do Pai Natal!...
Já a minha madrinha me tinha colocado a botija na cama para aquecer os lençóis e não deixar arrefecer os pés e continuava naquela luta. Para o ano, se estiver bom tempo, o Pai Natal vai lembrar-se de todos, dizia o meu Pai. Pedi então que, pelo menos, a Silvina, que também era pequenina, deixasse o tamanco na chaminé. Foi neste transe que a minha mãe enfim condescendeu, logo se via se o Pai Natal tinha lembranças que chegassem… Mas, se as prendas não fossem suficientes, elas eram para os donos dos sapatos em que estivessem e depois não me podia queixar!... Só então fui para a cama e até rezei uma avé-maria a pedir para que todos fossem contemplados, não sei se por solidariedade profunda ou por medo de nada me calhar…Mas devo ter dormido serenamente, como se dorme numa noite de Natal.
No dia seguinte, ainda a luz das estrelas estava viva no céu, ouço gritar a Silvina junto à minha cama: menino, menino, vá ver a lareira, vá ver a lareira, há lá prendas para todos!…
Levantei-me de um salto e em todos os sapatos havia um pequeno embrulho!…
Levei o meu para a cama e, embalado na ideia de que o Menino Jesus de facto é mesmo bom e poderoso, comi um bombom e tornei a adormecer docemente, até me chamarem para ir à missa de Natal. Excitada estava a Silvina, dava-me beijos e abraços, pois tinha sido a primeira vez que fora contemplada pelo Menino Jesus!...
Estão a ver, dizia eu aos meus pais, se não tinha teimado em pôr os sapatos…
Pois é, se fores bom, há sempre um Menino Jesus que vai velar por ti!...

sábado, 23 de dezembro de 2006

Prenda de Natal

Acabei de ver que o 4R-Quarta República foi votado como um dos melhores blogs colectivos no concurso Conjurados 2006 do blog Restaurador da Independência!...Uma bela prenda de Natal para o 4R!...
Embora não andemos a conjurar nada, mas apenas a divertirmo-nos neste espaço virtual de uma ainda inexistente quarta república, agradecemos a distinção que nos deram os blogs que em nós votaram e desejamos ao Restaurador os maiores êxitos nos seus independentistas propósitos e nas iniciativas que promove. E damos, obviamente, os maiores parabéns aos distinguidos, aos que ficaram antes de nós...o que é obra..., mas também aos que ficaram depois...mas muito bem antecedidos!...

Boas- Festas!...

A todos um Bom Natal, com saúde, concórdia, solidariedade e alegria de viver!

Para mim, o Natal ainda é o de quando era pequeno: a noite da consoada e a ternura do sapato na chaminé à espera da prenda do Menino Jesus... E também a cerimónia do beijar o Menino recém-nascido, na missa da manhã fria do dia seguinte e a memória das canções que aí entoávamos:

Correi pastorinhos
Depressa a Belém
Com alma e carinho
Por Deus nosso bem!...

Pequenino, está deitado,
Nas palhinhas Deus infante
E não há no céu estrelado
Astro de ouro mais brilhante!...

Mais que à estrela do Oriente
Mais que o ouro dos Reis Magos
Jesus quer ao inocente
E aos pobres quer afagos!...

É por isso que nada me fará abdicar de enviar as Boas-Festas com um cartão alusivo ao presépio, afinal a razão de ser da época que festejamos.
Para todos os autores do 4R, comentadores habituais, comentadores esporádicos e visitantes os votos de um excelente Natal!

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

O Presépio, o Marklin e a Estrela

O Prof. Massano Cardoso desafiou e aqui estou eu com mais uma história…à falta de concorrência, enquanto se resolvem os problemas informáticos no 4R!
O Marklin era o comboio eléctrico que fazia o sonho de qualquer homem adulto que tivesse mantido a sua alma de criança. Por isso ele aguardava ansioso o nascimento de um filho varão que lhe desse o pretexto para comprar a máquina. Tinha caído na asneira de fazer aquela promessa – “Se for um rapaz, compro um Marklin” e agora estava preso aquela premissa, mais tarde as filhas haviam de lhe cobrar a imprevidência –“Então não festejava se fosse uma filha porquê?” E ele respondia, meio envergonhado – “Foi uma patetice como outra qualquer, podia ter comprado o Marklin logo à primeira…”
A família soube logo que o 5º filho era um rapaz quando o viu chegar, radiante, com um grande embrulho debaixo do braço. E, em vez de dizerem “É um rapaz!” gritaram “Chegou o Marklin!”, como se se tivesse quebrado um enguiço
O comboio integrou o grupo por direito próprio e em pouco tempo cresceu em peças, carris, carruagens e figuras várias, a um ritmo tal que a pequena cidade ocupava em breve uma boa parte de um quarto que lhe estava dedicado.
O problema pôs-se quando foi preciso fazer o Presépio e já não havia onde o montar. Nem pensar em deixar na caixa algumas peças do Presépio e estava fora de questão desalojar o brinquedo.
Foi então que ele teve a ideia:”Vamos ter o Presépio mais giro que já se viu, com um comboio eléctrico a passar junto às palhinhas!” E meteu-se a construir uma montanha de papel verde e castanho, com uma armação de arame que lhe garantia a forma irregular, com socalcos para as figurinhas se manterem em pé, um planalto para a cabana, uns pedregulhos para os camelos dos Reis Magos. A montanha tinha um túnel de lés a lés e era armada bem no meio do estaleiro do Marklin. Desviavam-se os carris para passarem o túnel e, até ao Dia de Reis, o comboio enfeitava o Presépio, ou o Presépio enquadrava o comboio, quem é que vai decidir?, passando sem cessar por entre o musgo e as ovelhas, cancelas que subiam e desciam, o castelo de Herodes, os pastores ajoelhados ou o poço da Samaritana, a uma distância prudente da cabana de Belém e do caminho íngreme por onde seguiam pachorrentamente os camelos com os Reis Magos. Mais tarde, fez-se um desvio para dar espaço à banda de música, que ficou em equilíbrio instável no sopé da montanha, junto à nora.
A única coisa que ofuscava o Marklin e o seu ronronar monótono era a estrela que brilhava por cima da cabana, a acender e a apagar, como se estivesse suspensa no céu a iluminar o mundo de contrastes impossíveis, onde se fez espaço para todas as vontades.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

Feliz Natal 4R


Um recente inquérito diz que as pessoas sentem uma angústia acrescida no Natal, porque é a altura em que há uma grande pressão para comprar, para se sentir tentado por ter o que se oferece aos nossos olhos de modo tentador. Também porque é uma espécie de “intervalo” durante o qual se há uma espécie de legitimidade para se gastar mais do que o bom senso e a realidade do dia-a-dia aconselham.
Eu acho que é o tempo em que gostaríamos especialmente de dizer às pessoas que nos são queridas como gostamos delas. Como foram importantes quando nos acompanharam durante o ano que passou e como confiamos na sua presença amiga no ano que agora chega. E muitas vezes achamos que nos exprimimos mal, que o presente ou as palavrinhas no cartão ou no mail soam iguais a tantos outros gestos, logo agora que queríamos mesmo dizer-lhes que são especiais. E reparamos que devíamos ter preparado com tempo esse momento, que os dias passaram e fica tudo nas entrelinhas, diluído numa ritual que é mais do que isso mas que parece apenas isso.
Mas o que é importante é que se tente e, se ficar essa mágoa de não ter sido possível dizer tudo como queríamos, sempre temos os outros dias todos para ir melhorando…
Os meus votos de um Bom Natal para todos os 4republicanos, a cada um agradeço a companhia, a partilha e os excelentes momentos que tem sido possível passar aqui neste espaço imprevisível de encontro e afinidade. E muitas, muitas prendas, das que marcam esta data de uma forma sempre renovada!

Sindicatos especiais

Por mais que a realidade me force à compreensão, ainda não entendi que sentido faz a existência de organizações sindicais de magistrados judiciais. Esta minha confessada resistência deriva, talvez, de não ver o conjunto dos juizes como uma classe profissional.
Existindo o sindicato, parecer-me-ia porém que a sua actuação se deveria limitar à defesa dos direitos e interesses legítimos da profissão de juiz.
Mas também não. Descubro hoje que o sindicato também é fonte produtora de doutrina jurídica, certamente com o propósito de influenciar a jurisprudência dos Tribunais que são órgãos de soberania que têm precisamente os juizes como titulares.
Segundo os nossos atentos media, a associação sindical dos nossos juizes entende que as normas que visam prevenir e reprimir a violência doméstica não se aplicam aos homossexuais que vivam sob o mesmo tecto, em comunhão de mesa e habitação.
Pretenderá esta especial associação sindical substituir os velhos Assentos dos tribunais superiores por directivas sindicais de aplicação da lei?
Eis uma nova faceta do neo-corporativismo. De consequências imprevisíveis, de resto. Que poderá acontecer ao relapso juiz sindicalizado que, interpretando o seu estatuto de independência, julgue contra a doutrina sindical e condene um homossexual agressor? Correrá o risco de expulsão do sindicato por conduta desviante das boas práticas da judicatura, ainda que tenha as quotas em dia?

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Liberdade para as vítimas de Kadafi


Hoje foi confirmado mais uma vez a condenação à morte de cinco enfermeiras búlgaras e um médico palestiniano pelos tribunais líbios devido a uma hipotética bioconspiração. São acusados de infectarem deliberadamente 428 crianças no hospital de Benghazi com o VIH/SIDA. Este processo arrasta-se desde há alguns anos e é uma perfeita obscenidade. Em tempos, especialistas de renome internacional, na área da SIDA, demonstraram a inocência dos profissionais de saúde apontando para as péssimas condições dos hospitais líbios como sendo o factor responsável.
Em 3 de Maio de 2005 escrevi uma nota a este propósito sob o título “Bioconspiração”.
A Comissão Europeia e o seu respectivo presidente acabam de denunciar esta horrível decisão. Mas não chega. Não sendo necessário dissertar sobre as características do governo líbio e do seu esquizofrénico chefe, porque todos o conhecem, é vital que a comunidade internacional o pressione de forma ímpar, a fim de evitar o “assassínio legal” de seis profissionais de saúde. Deveria haver um boicote total aquele país que não respeita os direitos, as liberdades e sobretudo, neste caso concreto, a generosidade e o altruísmo de seis seres humanos cuja causa é, precisamente, a saúde e o bem-estar de outros seres humanos.

É fartar vilanagem!...

A coisa que dá pelo nome de Apito Dourado realmente promete.
Logo depois de ouvido pelo Juiz de Instrução, Gilberto Madaíl, o tal que confunde “arrolado” com acusado, veio dizer a público estar autorizado pelo Juiz a revelar que o processo estava a decorrer a grande velocidade e terminaria, o mais tardar, em fins de Fevereiro.
Dois ou três dias depois, veio a verificar-se ou que Madaíl também confundiu o prazo, ou então que o Juiz se equivocou, já que admitiu ter que prorrogar o prazo para Março.
Ontem, D. Carolina Salgado foi também ouvida pelo Juiz de Instrução. Pois, segundo o Diário de Notícias de hoje, o magistrado considerou "importante" o depoimento de D. Carolina.
Pelos vistos, em tal Juízo, ao frio da noite ou ao calor do dia, as transparências são plenas e o relato hard ou core das sessões, quando não transmitido on-line, é transmitido em diferido para gáudio da plateia, pouco tempo depois.
Como nas telenovelas, os Tribunais podem assim ir conhecendo as reacções dos espectadores e adequar os procedimentos.
Assim formalmente garantido, o julgamento popular pode continuar!...