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quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Juros da dívida pública cada vez mais baixos: será para durar?

1. Foi hoje notícia uma emissão de Bilhetes do Tesouro Português, a 3 e a 12 meses, com o seguinte resultado:

- A 3 meses, emissão de € 300 milhões, taxa de juro média anual de 0,097%;

- A 12 meses, emissão de € 800 milhões, taxa de juro média de 0,216%.

2. Ao mesmo tempo, as taxas de juro implícitas na cotação da dívida pública portuguesa no mercado secundário (yields), davam hoje as seguintes indicações: para 2 anos 0,655%; para 5 anos, 1,855%; para 10 anos 3,288%.

3. É necessário recuar até aos primórdios da memorável aventura socrática para se encontrarem yields tão baixas para os diferentes prazos da dívida, para não falar nas taxas da emissão de BT’s, que são “historicamente” baixas...

4. Nem a notícia de um razoável agravamento do défice comercial até Junho (+20%), divulgada com grande fervor por uma boa parte da mesma irmandade mediática que passa o tempo a entoar mensagens que conduziriam invariavelmente a um aumento da despesa interna e a um agravamento ainda maior desse mesmo défice, causou qualquer impacto nos mercados, que aliás sabem que o défice externo não se restringe à componente comercial...

5...sendo que o efeito do tsunami BES sobre a disposição dos investidores neste tipo de activos se mostra em grande parte absorvido, não parecendo capaz de, por agora pelo menos, causar danos maiores do que os já conhecidos...

6. ...e a jurisprudência do TC, com as suas curiosíssimas nuances temporais – a prolação de uma jurisprudência “forward” será talvez o aspecto mais curioso e inovador a registar, desta vez – não parece ter causado nenhuma reacção especialmente emocionada, vide os comentários amenos das agências de rating sobre a matéria.

7. A grande questão que se poderá colocar será a de saber por quanto tempo mais iremos beneficiar desta bonança nos mercados da dívida, que é aliás extensiva aos demais periféricos do Euro - basta notar que a yield da dívida a 10 anos da Irlanda se encontra no nível quase incrível de 2% ...

8. ...quanto mais tempo durar melhor será (me perdoem os Crescimentistas, que sofrem horrores com este cenário), mas é certo e sabido que acabaremos por chegar a um ponto, quiçá pelo 2º semestre de 2015 ( se não for antes, como lembraria Mr. de La Palisse) em que o mercado pode resolver mudar de disposição...

8. Aqui ocorre aplicar o velhíssimo provérbio: “enquanto o pau vai e vem...folgam as costas!



8 comentários:

Bartolomeu disse...

Está assim encontrada a "fonte" que garantirá a sustentabilidade do sistema financeiro (e mais alguma coisinha)...

Tavares Moreira disse...

Caro Bartolomeu,

Será a "fonte" ou a "ponte"?
Qualquer que seja o vocábulo escolhido, não deveremos confiar demasiadamente - ao contrário do que o ilustre Comentador parece sugerir - em tal instrumento de sustentação: de um momento para o outro a fonte pode secar e a ponte pode ruir, como bem sabemos...

Bartolomeu disse...

Bom, pensando melhor caro Dr. Tavares Moreira, nem me parece que seja a "fonte" ou a "ponte".
Se tivermos em conta que há escassos dias, o nosso país era tido no mercado como um reduto de gente não confiável, de gente que gastou a cima das suas possibilidades e que por isso arrombou a economia e a finança do país e que volvidos esses escassos dias readquirimos toda a "honestidade" que "possuíamos" e ainda mais do que algum dia poderíamos imaginar, então, só vejo um motivo plausível para toda esta... (ai caramba... falta-me o termo). Bom, adjetivos à parte, só podemos ter dado um valente pontapé numa pedra, o qual revelou algo que os mercados acharam valiosíssimo, ao ponto de quase nos pedirem por favor para que recebamos dinheiro emprestado a um juro... bom, chamar juro àquilo parece-me uma ofensa em termos financeiros, mas pronto... atribuam-se estes resultados aos insondáveis desígnios dos deuses da alta finança. Tentar ir mais além disto, é estar a arriscar mergulhar num paraíso daqueles onde caem do céu maços de notas, sem que ninguém se incomode em perguntar de onde vieram.

João Pires da Cruz disse...

Péssimas notícias para quem queira ver o estado a gastar menos.

Tavares Moreira disse...

Caro Bartolomeu,

A sua tendência para envolver estas matérias sob um manto de mistério psico-social, apesar de não produzir explicações plausíveis sobre os acontecimentos em apreço, tem bastante graça dada a riqueza imensa do seu arsenal literário...
Esta sua parábola faz-me recordar o bíblico Maná que Moisés conseguiu recolher do Céu para o seu povo errante...

Caro Pires da Cruz,

Tem carradas de razão, no receio que exprime, embora eu não lhe chamasse uma péssima notícia, mas antes uma boa notícia que pode vir a ser desbaratada pelos políticos...
Deixo-lhe uma frase muito engraçada, utilizada na edição de ontem do F. Times (last page) por John Plender, a propósito desta maré favorável dos mercados: "Rarely can bond markets have taken politicians so compreehensively off the hook"...
Sendo isso verdade, a capacidade dos ditos politicians "returning by themselves to the hook" é proverbial...

Bartolomeu disse...

Tem toda a razão, caro Dr. Tavares Moreira, reconheço a inutilidade do teor dos comentários que teço. Contudo, o mistério psico-social, é grande e tenebroso, pelo menos para mim e para outros que como eu, pasmam com a flutuabilidade das avaliações (vulgo, rating) atribuídas pelas agências, e o que as alimenta. Mas como o meu estimado amigo sugere, tudo isto não passa de alucinações de um leigo, com tendências indefiníveis.

Tavares Moreira disse...

Caro Bartolomeu,

Entendamo-nos: eu não qualifiquei os seus comentários de inúteis, disse, tão somente, que "não produzem explicações plausíveis sobre os acontecimentos em apreço" o que é bem diferente...
Bastaria a densidade literária dos seus considerandos - que assaz enfatizei, de resto - para lhes dar utilidade, e não será pequena.
Ou seja, podem não servir esses considerandos para dar explicação sobre os factos que estão sobre a mesa, mas a verdade é que encantam quem os lê - e isso até vale mais do que uma simples utilidade...

Bartolomeu disse...

Mas é claro e evidente, que nos entendemos, estimado Amigo, Dr. Tavares Moreira! E entende-mo-nos, pelo simples motivo, que a natural amizade que nos une, impede-nos de algum dia, seja porque motivo for, que nos venhamos a desentender. A minha doutrina, que julgo ser gémea da sua, é que não existimos para perder tempo com desentendimentos, mas sim, aproveitar o pouco que a vida nos permite, para erguer amizades e fortalece-las. A propósito; e o almocinho aqui no meu pequeno xangri-lá? O nosso amigo Cruz já manifestou a sua disponibilidade (desde que não lhe apresente bichos com pernas). Vamos marcar essa brincadeira, para uma terça ou uma sexta-feira?