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segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Ultraje à inteligência

PCP e Bloco de Esquerda insistem até à náusea que "este dinheiro que vai ser emprestado está a ser pago pelos contribuintes" ou que a "solução põe em risco dinheiro dos contribuintes", ou que "os contribuintes vão pagar a factura", referindo-se à solução encontrada pelas autoridades portuguesas e europeias para o BES. Simultaneamente insistem nos escandalosos lucros dos Bancos. 
Sendo os termos tão contraditórios, custa a entender como não arranjam outro tipo de argumentação. A verdade é que, pelos vistos, quanto mais primária a argumentação, mais vende, e a comunicação social é a primeira compradora e distribuidora de tão colossal falsidade. 
Tirando o triste e execrável caso do BPN em que, por culpa de uma nacionalização desastrada sem sentido ético ou económico,  os contribuintes vêm perdendo milhões, os apoios que, ao abrigo do Programa da Troyca, foram dados aos Bancos têm-se saldado por ganhos significativos para o Estado, tal o diferencial das taxas de juro. E sem risco quanto ao reembolso, aliás já maioritariamente efectuado.  
Por muito maioria de razão, neste caso do BES, e em estritos termos financeiros, o Estado será o grande ganhador da intervenção. Uma operação de risco nulo, num Banco constituído após expurgo de créditos problemáticos, a uma taxa de juro elevada, e ainda garantida pelo sistema bancário português.   
Critique-se com veemência e indignação o que levou a esta situação e critique-se mesmo o modelo. Mas criticar o modelo com a argumentação bloquista e do PCP é um ultraje à inteligência. 

10 comentários:

Luis Moreira disse...

E qual será o impacto no PIB ?

Tiro ao Alvo disse...

Tem toda a razão, a solução encontrada tem tudo para dar certo e não é tão inovadora como alguns nos querem fazer crer.
Sendo que não se poderá dizer, com toda a segurança, que a operação é de risco nulo, o certo é que soluções deste género têm dado resultado por esse mundo fora, podendo dizer que esta é, hoje, uma solução clássica. Lembremos que coisa parecida aconteceu há muitos anos em Espanha, com o Banesto, então liderado pelo Mário Conde e que a solução adoptada tem muitas semelhanças com o caso BES.
Com isto quero dizer que o Estado, através do BdP, ao coresponsabilizar todos os Bancos pelo êxito da intervenção, arranja os melhores aliados para que tudo dê certo, bastando pensar nas taxa de juro elevadíssima que o Fundo de Resolução terá que pagar e que, portanto, é do seu interesse liquidar a operação o mais breve possível, nem que seja envolvendo mais directamente alguns bancos que se queiram substituir ao Estado - lembremos que a taxa de juro, a pagar pelo novo banco, é tentadora e que a esmagadora maioria dos aforradores portugueses se contentaria com pouco mais de metade. Além disso, todos os bancos têm interesse em ultrapassar rapidamente esta fase, reganhando o mais depressa possível a confiança da clientela, hoje tão abalada.
Disse acima que a solução adoptada em Espanha, no caso Banesto, foi parecida, mas a verdade é que o Mário Conde foi parar à cadeia. A ver vamos o que acontece por cá.
Claro que alguns investidores, sobretudo aqueles que andam sempre à procura de juros a taxas elevadíssimas, vão sentir-se lesados e tudo vão fazer para mamar nas tetas do Estado. Esperemos que não tenham grande sucesso.
Com tudo isto não quero dizer que o desmoronar do grupo CES não é mau para Portugal. É mau, muito mau, bastando pensar no aumento do desemprego que, directa ou indirectamente, vai ocasionar. Mas, do mal, o menos. E que nos sirva de lição.

Rui Fonseca disse...

Caro António,

Vim aqui depois de escrever um apontamento sobre o assunto no meu caderno de apontamentos. Intitulei-o: "O Bes não é o BPN, pois não. Poderá ser muito pior."

Para corrigir o eventual exagero já tirei a segunda metade ao título mas mative o texto.

Posso estar enganado, oxalá esteja, mas o governador Carlos Costa estatelou-se ao comprido quando despediu Ricardo Salgado sem prevenir a ocorrência de novos desmandos durante o interregno de quinze dias em que Ricardo ficou à porta e Bento não entrou.

Ontem à noite, repetiu e repisou que o banco estava suficientemente financiado, os depósitos garantidos, e os contribuintes (não sei se pensava nos pensionistas também) a salvo de mais contribuições.

Ora Carlos Costa não garantiu nada, quem garantiu foi o empréstimo tipo troica, isto é, intermediado pelo Estado porque os fundos necessários são da ordem dos cinco mil milhões e dos bancos no Fundo de Resolução não estão mais que escassos 380 milhões.

Se a venda do banco ficar muito aquem do valor do empréstimo quem
é que vai pagar a bruta diferença?

Se me deres uma garantia que também não sou eu prometo retirar o que escrevi.

Zuricher disse...

Caro Pinho Cardão, um dos momentos cómicos (na vertente do humor negro, claro está) da democracia em Portugal é a existência do PCP, do BE e uns quantos mais mas que são (felizmente) irrelevantes. Daqui que, pois, meu caro, é a vida. Há que aguentar. Da mesma forma que não pode esperar que uma galinha cante como um rouxinol também não pode esperar que o PCP e o BE deixem de ser o que são e de disparatar a cada oportunidade.

É a vida.

João Baptista Pico disse...

Como é que se vão arranjar novos investidores (accionistas) para cobrirem os 4,9 Mil Milhões, se entretanto ou a médio prazo o défice não aumentar ainda mais do que agora foi revelado? É que de entre os 30 mil antigos accionistas do BEs não vejo apetência para tal, tanto mais que agora vão perder tudo. Como dizia um comentador atrás, os fundo da nossa banca só cobrem 380 milhões, no caso da venda do Banco Novo ficar aquém dos 4,9 mil milhões. Logo, a devolução aos credores da troika ou terá que ser alvo de "renegociação" palavra que o Governo e o BdP não conhece no seu vocabulário, ou terá que ser o Estado a encontrar um "sindicato financeiro" conjuntamente com a nossa banca ( CGD incluída) para cobrir aquele défice. Portanto, a solução é pífia...

Pinho Cardão disse...

Caro Luís Moreira:

A situação terá certamente impacto no PIB, face às perdas que numerosas entidades, accionistas das várias empresas do Grupo (família e muitos outros para além da família), accionistas do Banco, obrigacionistas, etc, com reflexos óbvios no investimento e no consumo, e também face ao desemprego que poderá provocar.
Qual a medida do impacto, creio não existir, por agora, informação pública suficiente para o prever.

Caro Tiro ao Alvo:

De facto, a solução encontrada tem tudo para dar certo e o meu amigo enuncia algumas das razões. Mal seria, aliás, que um Banco que nasce com um forte balanço sem activos tóxicos, uma enorme base de clientes e, por cima, bem capitalizado não conseguisse atingir os objectivos mínimos de reembolso da dotação que lhe foi atribuída.

Pinho Cardão disse...

Caro Rui:
O meu post não era sobre se Carlos Costa se estatelou ou não, como dizes, quando despediu Ricardo Salgado sem prevenir a ocorrência de novos desmandos durante o interregno de quinze dias em que Ricardo ficou à porta e Bento não entrou, mas sim sobre o modo como o PCP e o Bloco se referiram ao modelo encontrado para “salvar” o Banco.
Ora se o PCP e o Bloco se apresentam com certezas, o meu amigo Rui apresenta-se com dúvidas, certamente apenas dúvidas metódicas, sobre a capacidade de os fundos colocados à disposição do Novo Banco serem reembolsados.
A dúvida metódica também a cultivo sempre e sabemos bem que prognósticos certos só no fim, como dizia um emérito jogador do meu clube. Mas que, no princípio, tudo parece ter sido feito para dar certo, isso é inegável.
Se não, vê:
a) os ativos problemáticos, que, no essencial, correspondem a responsabilidades de outras entidades do Grupo Espírito Santo e às participações no Banco Espírito Santo Angola, S.A., não passaram para o Novo Banco
b) o Novo Banco nasce devidamente capitalizado, segundo o Banco de Portugal, com um rácio Common Equity Tier 1 de 8,5%a nível consolidado, contemplando uma margem relativamente aos rácios mínimos de capital em vigor.
c) O Novo Banco, como em comentário anterior referi, começa com um Balanço sólido, excelente base de clientes, uma equipa de colaboradores eficiente, uma administração que se pensa como capaz.
Assim, à partida, tudo parece ter sido delineado para dar certo. E, por certo, e a não se verificar um desastre que teria que ser de proporções quase bíblicas, passe o exagero, a venda do Banco permitirá os fundos pelo menos suficientes ao reembolso .
Penso eu de que…

Caro Zuricher:
Todavia era possível e desejável, e até rentável para esses partidos, uma atitude mais pedagógica, mesmo dentro dos seus cânones.

Caro João Batista Pico:
Um Banco são e com o poder de mercado que tem em Portugal terá sempre compradores. O tempo e modo como será vendido, isso é cedo para especular.

João Baptista Pico disse...

Caro Pinho Cardão, ao falar num Banco são, não estará a especular demasiado cedo para uma realidade que se iniciou hoje mesmo, com contornos de que ainda ninguém consegue explicar com grande nitidez?

O poder de mercado do ex_BES será o mesmo que irá ter o Banco Novo? Como e porquê? Não são os depositantes capazes de olharem com desconfiança p+ara o Banco Novo?

E a boa saúde do Banco Novo não pode vir a ser alterada no curto prazo, através de iniciativas acutilantes por parte dos restantes bancos concorrentes no mercado interno?

Entre um Banco Novo, com o anátema de 4,9 mil milhões a terem que ser reembolsados dentro de 2 anos e um BCP, um BPI e um Santander à espreita, não poderá vir daí a pior das ameaças?

Zuricher disse...

Caro Pinho Cardão, concordo com o desejavel mas não com o possivel. Não está no ADN de qualquer dos dois partidos qualquer outro tipo de posicionamento que aquele que sempre tiveram e continuam a ter. É da sua natureza serem o que são.

É pena mas é o que há.

João Pires da Cruz disse...

Ei estou farto de dizer que me sacrifico. Eu compro o Novo Banco. Voces emprest-me o dinheiro e eu pago-vos o dobro do que o estado paga de juros à troika...

O impressionante de tudo isto é que ninguém sinda entendeu a causa da crise mas já todos criticam a solução. Até se poderia argumentar que esta é a forma de funcionamento de uma regulação bancaria a sério