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terça-feira, 21 de outubro de 2014

A navalha

Se há algo que aprecio imenso é comer num local diferente, não muito frequentado, simples, perdido no meio de uma pequena povoação, e com gente simples a atender. São locais onde se pode comer razoavelmente bem, partilhar momentos agradáveis e saborear motivos para interessantes histórias. Há muito que não encontrava nada parecido. 
Andava há uns tempos com ela fisgada. De semana para semana a curiosidade aumentava. Tinha a sensação de que ali poderia encontrar o que queria. Há muitos anos tive a oportunidade de almoçar no decurso de uma campana eleitoral. Depois esteve fechado. Abriu. Fechou. E agora voltou a reaparecer com as portas abertas. Aproximei-me e fiquei desconfiado se serviam refeições. Nada indicava nesse sentido. Às tantas é apenas um simples café. Olhei mais atentamente e vi algumas mesas com pratos e copos. Afinal também se come. Ao entrar a pergunta sacramental foi: - Boa-tarde. Servem almoços? A senhora, simpática, e com um sorriso a querer dar-nos as boas-vindas, ficou um pouco envergonhada. Disse: - Servimos. Mas só temos perna de porco com batatas. - Então serve! Sentámo-nos. Trouxe umas minúsculas e saborosas azeitonas e perguntou o que íamos beber. - Vinho, natural, da casa. - Sim senhor. Passados uns segundos espetou em cima da mesa uma jarra de um litro de vinho cheia até ao rebordo. A minha mulher e eu entreolhámo-nos perante aquela fartura pouco habitual. Não havia mais ninguém naquela zona, exceto um homem, que, mais afastado, estava a terminar a refeição. Via-se que era conhecido da casa e conhecido do vinho. Entretanto, entrou um homem de meia-idade, com um "barrigoma" típico de quem come e bebe, transportando um saco. Entrou na cozinha. Pensei que deveria ser o dono. A sua face era sugestiva de alguém que gosta de falar e de foliar. Olhou-me e meteu-se comigo. - A patroa está zangada comigo. Hoje vou ouvi-las. Se os senhores não estivessem aqui estava tramado. Mandou-me a Tábua fazer umas compras, buscar coisas para as saladas, mas esqueci-me, encontrei uns camionistas e uns velhos amigos e já se sabe, copo para aqui, copo para ali, uns grelhados, uns coiratos - para tratar do meu colesterol -, e olhe, saí às nove e meia e cheguei agora. - Ena! Mas é uma hora da tarde. - Pois é! Eu quando entrei na cozinha a cara dela parecia um jacaré, daqueles que abrem a boca assim, e com as duas mãos imitava as mandíbulas, batendo uma com a outra. Até parecia que tinha castanholas. Ria-se com uma satisfação dos diabos. - É o que levamos da vida. Não é verdade? E olhe que já tive um AVC. - Ó diabo, tem que ter cuidado. - Pois. Mas uma pessoa tem que esquecer que é doente. Depois contou que tinha sido camionista, e chegou a comentar a tragédia em Espanha - estava a ser noticiada na televisão -, desastre de uma camioneta que levava emigrantes, na sua qualidade de perito e conhecedor daquelas vias e do que se come e se bebe nos serviços de "sel e service", onde se come e se bebe pagando sempre o mesmo. - Está-se mesmo a ver que o vinho não pode ser vinho são químicos para poderem ganhar dinheiro. Entretanto começámos a degustar a perna de porco que dava para mais duas ou três pessoas. Não estava mal de todo. Quando chegou a altura da sobremesa, a minha mulher pediu uma maçã. O pior foi a faca que não cortava nada. De longe acenei para a dona se não podia arranjar uma que cortasse. A senhora disse que sim, mas o folião antecipou-se. - Ó minha senhora, faz favor. E entregou-lhe a sua navalha que tinha a particularidade de estar quebrada. Faltava metade. - Pode ter a certeza que mesmo assim corta que se farta. Veja. Experimente se faz favor. Perante aquela delicadeza, a minha mulher não se fez rogada e utilizou a navalha amputada, tentando segurar o riso que a atacava violentamente. - Ó homem de Deus. Que é que aconteceu à navalha? - Olhe, parti-a nas costas do outro. Quero ver se um dia deste o encontro. E ria-se com satisfação.
Bom. O sítio promete. Tenho encontro marcado para a semana. Palpita-me que vou ter ali uma boa fonte de histórias.

2 comentários:

Diogo disse...

Caro Dr. Massano

Quando vou à praia levo sempre um saco onde tenho a toalha, uma maleta para colocar para colocar as chaves do carro, o telemóvel e cinco euros (para o que der e vier), e um livro do Ricardo Araújo Pereira.

Se estou sozinho, depois de cada mergulho e de um bocado de crawl, puxo do livro do Ricardo Araújo Pereira e ponho-me a ler. Muitas vezes tenho de esconder a cara na toalha tais são os ataques de riso que o livro me provoca.

De igual modo, Dr. Massano, saber-me-ia bem ler as suas crónicas, todas tão simples, tão bem escritas e tão interessantes.

Abraço

Salvador Massano Cardoso disse...

Obrigado. O objetivo é esse mesmo. Partilhar bons momentos já que a vida é cada vez mais complexa e madrasta.
Abraço