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sábado, 11 de outubro de 2014

JJ (uma história de vinte minutos...)

Cheguei à povoação sob uma onda de sol depois de ter percorrido túneis de nevoeiro espesso, uma espécie de parto prematuro, em que a vida surge no seu esplendor, luz, cor, paz e silêncio. 
Os nossos hábitos mantém-se mesmo que estejamos fora do local habitual. Um café vinha mesmo a matar. Mas a terriola, que outrora foi local de passagem, vive agora sozinha e afastada do movimento e das gentes. Passar o pouco tempo que ainda detinha foi o meu desejo. Andei pelas ruelas. Vi um velho sorumbático perdido nos seus pensamentos, ou no seu esquecimento, encostado a um muro a beber o sol da manhã, uma espécie de pequeno-almoço para quem sabe que a vida está a chegar ao fim. Cumprimentei-o, oferecendo-lhe os meus bons-dias. Olhou-me e não disse nada, nem sei se vi qualquer sorriso, apenas um olhar distante. Não insisti, andei e encontrei uma velha capela que já conheceu melhores dias. As portas de algumas casas estavam abertas, e as janelas também, à espera da limpeza do sol matinal. Indeciso, fiquei a olhar para a porta maltratada da capela, até que ouvi: - Diga, diga, diga! Olhei para o lado. Vi uma velha, magra e alta, com a mão a fazer de pala contra o sol, que estava à entrada da sua habitação, a falar para mim. Viu que eu era um forasteiro. Nunca se sabe o que pode trazer alguém de fora. Curiosidade, receio ou tentativa de ajudar o próximo, talvez isto tudo misturado, não sei bem, estava bem escrito nas suas vibrações vocais. - Nada de especial minha senhora, estou a fazer tempo. Quando disse isso senti que a senhora ainda ficou mais intrigada. Sem baixar as mãos, que fazia de pala, lembrei-me de a tranquilizar, perguntando se não havia um café na localidade. Suspirou de alívio, pelo menos fiquei com essa sensação, e deu-me as indicações.- Há sim senhor. Ali em cima. Está a ver? Junto daquela casa branca. Tem um portão à entrada. - Obrigado. Subi a ruela, deixando ainda meio intrigada a senhora, mas mais descansada, porque ficou a saber que eu queria beber um café. 
Ao percorrer a velha rua empedrada deparei-me com uma conversa típica de aldeia, ou meio típica, já que dentro do quintal, e ainda em camisa de dormir, uma senhora de idade não fresca, desgrenhada, falava para uma jovem dentro do carro. - Ai. O senhor Acácio era uma joia de pessoa, e a D. Celeste também. Ele fazia queijos. Não parei para continuar a ouvir, mas a forma lamentosa com que falava era sinónimo de alguém que tinha desaparecido. Conversa de homem morto tem direito a ternura e melaço nas palavras da vizinhança. Sabe-se lá o que é que ela dizia quando estava vivo, pensei. Entremeti-me entre as duas, e, delicadamente, disse: - Bons-dias. Recebi um bom-dia apressado da senhora em camisa de dormir, enquanto a jovem, dentro do carro, ignorou-me olimpicamente. Cheguei ao café, que tinha como anexo um minimercado, e que deveria ser o local de convívio e da má-língua. No pátio, um homem, cuja obesidade impressionava, olhou-me com desconfiança e admiração. Aproximou-se como um animal curioso e ao mesmo tempo medroso, não fosse fazer-lhe mal. Os seus tiques e fácies denunciavam alterações psiquiátricas evidentes. Não lhe liguei, não fosse interpretar a minha saudação como uma ofensa. Entrei no café onde estava sentado um velho que falava com a dona que tentava abrir uma garrafa. Falavam alegremente, mais o velhote, que tremia e apresentava estigmas de quem gostava da pinguita. De repente, virou-se para mim e disse: - Já lhe dei os bons dias, não dei? - Já, sim senhor. Respondi. Não tinha dito nada. E continuou: - Eu saúdo toda a gente seja conhecido ou não. Nunca deixo de cumprimentar quem quer que seja. - Faz muito bem. Enquanto discursava sobre saudações, multibanco, cartões, centros de dia, reformas, levantamentos, pagamentos, histórias de assaltos ou quase-assaltos - não se calava e nem deixava de tremer -, a senhora enchia-lhe a taça de vinho branco que ia bebericando. Entrou um outro sujeito que, ao cumprimentá-lo, lhe despertou este comentário: - Estás a ver? O meu chá da manhã. Ao dizer isto levantou bem alto a taça do branco. Sabes, já comi bacalhau assado de ontem com pão. A conversa não continuou por mais tempo, porque o meu estava a esgotar-se. Saudei-o e desejei-lhe um dia feliz. Estou certo que sim, porque se de manhã estava assim, imagino como estaria a meio da tarde. 
Encontrei-o à hora do almoço. Entrei no lar. Reconheceu-me. Cumprimentou-me novamente e perguntou o que estava a fazer ali. Expliquei-lhe quem era. Deu um salto da cadeira e "recumprimentou-me" efusivamente, ao mesmo tempo que perguntava qual era a minha graça. Disse-lhe. Em troca ripostou: - JJ ao seu dispor, João José. Saiu. Saiu para ir cumprir os seus hábitos. Perguntei quem era aquela figura e fiquei a saber coisas inimagináveis que ainda ocorrem em Portugal do século vinte e um, além de um trágico passado familiar, e da miséria em que vive, tem a casa a cair, sem água, sem luz, sem nada, com heras a entrar pelo telhado e com a ameaça de desaparecer este inverno. Fiquei a saber mais histórias e tragédias sobre o senhor. Dispenso-me de as dizer ou comentar. O que eu sei é que nas profundezas do país vive muita gente infeliz. JJ é uma delas, mas não aparenta sê-lo. Aqui nasce mais uma confusão...
A esta hora está a fazer "terapêutica" preventiva contra o delirium tremens.



3 comentários:

Bartolomeu disse...

Grande texto!
Não, não; em conteúdo, não em tamanho. (o tamanho é sempre escasso)
O Senhor Manuel Correia pode pedir messas literárias, antropológicas, sociais e humanas (não sei até se com alguma vantagem) aos seus ex-colegas, Dr. Miguel Torga e Fernando Namora.

Diogo disse...

Dr. Massano, peço-lhe desculpa por estar aqui a meter este comentário que se refere ou anterior artigo que escreveu. Dado eu ter respondido tarde, penso que não o terá lido. Se o leu, as minhas desculpas. Se não, então não perca o vídeo de 57 segundos.

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Dr. Massano: «Alombar com os cestos das vindimas naqueles locais não é para turista ver. É a única possibilidade de colher as uvas e transformá-las em vinho. Não é nada fácil. Naquelas encostas qual seria a alternativa? Não tem nada a ver nem com moinhos nem com moleiros, Diogo.»


Também tem, Dr. Massano. Tal como moinhos e moleiros foram substituídos por máquinas, também a delicada apanha de uma baga de uva começa cada vez mais a poder ser automatizada.

Peço-lhe que não perca o fascínio deste curto vídeo de 57 segundos:

<a href="https://www.youtube.com/watch?v=uef6ayK8ilY>Strawberry harvesting robot</a>

Strawberry harvesting robot:

https://www.youtube.com/watch?v=uef6ayK8ilY

Salvador Massano Cardoso disse...

Muito obrigado pela atenção. Um abraço.