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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Batatas com bacalhau

Estive em terras do meu amigo José Mário Ferreira de Almeida. Adoro aqueles locais. Nunca me canso. Se um dia me perguntassem onde é que eu queria viver, fora da área onde navego, diria sem pestanejar, Alto Douro.

Durante o fim-de-semana pensei no Ferreira de Almeida. Já tinha publicado este texto no Facebook, espécie de diário. Hoje, coloco-o neste espaço e ofereço-o ao meu amigo.


"Viajar até terras do Douro Vinhateiro em tempo de vindima é como ir em peregrinação ao supremo altar da vida. Ver os sulcalcos dos montes prenhes de uvas maduras, desejosas de serem colhidas, obrigam-me a saborear a sua transformação no sangue divinal. Sangue saboroso capaz de acalmar o coração e libertar o pensamento. Assinalo o acontecimento como uma pura manifestação da criação.
Não me passava pela cabeça que certas tradições ainda vigorassem como uma força telúrica que pensava ter sido extinta. Mas não, muitas coisas querem continuar a viver como sendo filhas da força do sol e dos xistos quentes envelhecidos pelo tempo. Os trabalhadores parecem ter sido extraídos de uma obra de Miguel Torga. Os rituais e a forma como alimentam o corpo merecem alguma descrição. Existe uma forma dos trabalhadores comerem em tempos de vindima. De manhã, pelas nove e meia, comem a "sopa branca", e, de acordo com a condição de trabalho, comem batatas com bacalhau ou sardinha, mas são os trabalhadores que trazem o pão. As mulheres comem sardinha. Depois, ao jantar (almoço), comem sopa, agora já não é branca, contém feijão, arroz, massa, favas ou grão, seguida da comida com a "posta". A "posta" tem de ficar em cima da massa, do arroz ou das batatas, mas não pode estar misturada. Coloca-se o frango, as salsichas ou as tiras por cima. Se não se respeitar esta regra ficam incomodados. A grande diferença é a refeição da manhã, que distingue o trabalho dos homens e das mulheres. Os primeiros comem batatas com bacalhau e as trabalhadoras pão com sardinha. O que é curioso é que hoje em dia, os homens correm o risco de comer pão com sardinha se fizerem trabalho de mulher, mas o contrário também é verdade, ou seja, as mulheres que fazem o trabalho dos homens, alombando pesados cestos carregados de uvas, também podem comer batatas com bacalhau. A este propósito, a proprietária da quinta contou-me a história de uma mulher, mãe de uma jovem trabalhadora que estava naquele momento a esmagar as uvas com sapiência e muito "peso", e que tinha uma estrutura muito desenvolvida. Há muitos anos, na sequência da queda de um trabalhador, que não pode continuar a laborar, o caseiro pediu-lhe para ir buscar os cestos dele. Como era forte não lhe seria impossível fazer o serviço. A trabalhadora respondeu-lhe de imediato: - Eu não como batatas com bacalhau! Perante esta atitude, o caseiro garantiu-lhe de imediato que iria comer a sopa branca e as batatas com bacalhau. E comeu. Resultado, durante todo o dia fez o trabalho de um homem.
Ainda hoje se mantém a tradição. Fazer trabalho de "homem" ou de "mulher" implica comer batatas com bacalhau ou sardinha, independentemente do sexo.
Outras tradições se mantêm naqueles locais onde vivem belas vinhas, únicas no mundo.
Não referi o vinho! Porque beber beber vinho é um ato democrático que não distingue o sexo das almas."

7 comentários:

JM Ferreira de Almeida disse...

De repente vi-me num outubro já longínquo, na Quinta do Couraceiro, em Valdigem, num desses picos do Douro, vivendo a festa das vindimas. Senti o cheiro do bacalhau com batatas, e pela noite, o forte e verdadeiramente inebriante odor do mosto que subia do lagar aos quartos onde adormecíamos tarde. Viajei nas suas palavras por esse Douro fantástico, que felizmente mantém tradições que fazem daquela região um lugar único no mundo.
Obrigado, meu estimado Amigo, pela dedicatória, mas sobretudo pela viagem que me proporcionou o seu belíssimo texto.

Suzana Toscano disse...

E nós agradecemos a boleia :) que saudades duma viagem a essas magníficas paragens!

Diogo disse...

« Outras tradições se mantêm naqueles locais onde vivem belas vinhas, únicas no mundo.»


Dr. Massano, acredito que sejam paisagens e vivências indescritíveis no Douro nas suas margens.

Curiosamente, o meu avó foi chefe de estação da CP e esteve na estação ada Ermida do Douro onde eu passei umas temporadas com os meus avós (antes de fazer seis anos).

Mas hoje discordo de si.

Numa conversa que tive com um amigo meu, há anos, ele lamentava que os moleiros tivessem praticamente desaparecido (porque era uma actividade tradicional).

E eu perguntei-lhe se fazia sentido, com a tecnologia que existe hoje, que determinadas pessoas continuassem a «alombar» com os sacos de milho e de farinha, a colocar as mós a funcionar, etc. (trabalho extremamente extenuante), só para os turistas verem...

Abraço

Diogo

Salvador Massano Cardoso disse...

Alombar com os cestos das vindimas naqueles locais não é para turista ver. É a única possibilidade de colher as uvas e transformá-las em vinho. Não é nada fácil. Naquelas encostas qual seria a alternativa? Não tem nada a ver nem com moinhos nem com moleiros, Diogo.

Salvador Massano Cardoso disse...

Esqueci-me de dizer que "mantêm as tradições" significa que comem como comiam os seus antepassados, obviamente, porque não há alternativas para fazer as vindimas. Cálculo que está tradição não seja de muito interesse para os turistas, até pode ser um ato de repulsa comer daquela maneira às 9 da manhã. Um abraço.

Bartolomeu disse...

António Vieira, o padre, disse: "O melhor retrato de cada um é aquilo que escreve. O corpo retrata-se com o Pincel. a Alma com a Pena."

Diogo disse...

Dr. Massano: «Alombar com os cestos das vindimas naqueles locais não é para turista ver. É a única possibilidade de colher as uvas e transformá-las em vinho. Não é nada fácil. Naquelas encostas qual seria a alternativa? Não tem nada a ver nem com moinhos nem com moleiros, Diogo.»


Também tem, Dr. Massano. Tal como moinhos e moleiros foram substituídos por máquinas, também a delicada apanha de uma baga de uva começa cada vez mais a poder ser automatizada.

Peço-lhe que não perca o fascínio deste curto vídeo de 57 segundos:

<a href="https://www.youtube.com/watch?v=uef6ayK8ilY>Strawberry harvesting robot</a>

Strawberry harvesting robot:

https://www.youtube.com/watch?v=uef6ayK8ilY