Número total de visualizações de páginas

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Grécia abandona o Euro: Cenário de Terror...

1. Nestes dias de frenética agitação em torno de um possível “break-up” da zona Euro, com muitos investidores, nomeadamente asiáticos, a desfazerem-se de dívidas soberanas europeias com excepção da Alemanha – a segurança máxima, por definição – será interessante apreciar as consequências possíveis do cenário “saída da Grécia do Euro”, que tem sido o mais aventado...
2. Esse cenário, que irei apresentar sintéticamente, desenvolver-se-ia de forma sequencial, avisando desde já que a leitura dos pontos 4 e seguintes não é recomendável a pessoas que padeçam de insuficiências cardíacas ou de hipertensão...
3.Não vou entrar na questão de saber se a saída do Euro implica tb o abandono da União Europeia, como parece ser a opinião jurídica mais consistente, uma vez que essa circunstância apenas agravaria as perspectivas, reforçando a nota de Terror deste cenário.
4.A 1ª etapa deste cenário consistiria na decisão do Governo grego de avançar, ainda sem confirmação, para a saída, começando de imediato os rumores sobre o tema e o consequente levantamento de dinheiro (notas) dos bancos gregos por particulares, as empresas ordenam transferências de fundos para contas no exterior. Os financiadores externos de empresas sediadas na Grécia cancelam as linhas de crédito, os bancos gregos são forçados a suspender a actividade por falta de recursos...
5. 2ª Etapa, o Governo grego reúne de emergência, anunciando o regresso ao drachma, impondo controlos de capitais, incluindo o controlo das saídas de dinheiro (notas e outros valores) através das fronteiras. A dívida pública é redenominada para drachmas, o valor externo do drachma cai a pique, a inflação dispara...
6. 3ª Etapa, começam as disputas jurídicas para saber, por exemplo, se um empréstimo que tenha sido concedido por um banco alemão à Filial grega de uma multinacional alemã, passa a ser denominado em drachmas ou se continua ser denominado e exigível em drachmas...se o entendimento for no sentido do drachma, então o banco alemão passa a ter um sério problema pois o seu activo passará a valer muito menos...
7. 4ª Etapa, aparecem fenómenos de contágio, pois os cidadãos portugueses, italianos e outros, pensando que o mesmo pode acontecer no seu País, começam também a fazer levantamentos em massa das suas contas bancárias e as empresas transferem fundos para o exterior enquanto é tempo, colocando a banca entre a espada e a parede, forçando alguns bancos (para começar) a suspender a actividade...
8.5ª Etapa, espalha-se a confusão acerca da magnitude da exposição dos bancos europeus em geral ao sector privado da periferia atingida pela brutal crise de confiança, pelo que as transacções entre bancos são suspensas, as acções representativas do capital dos bancos, já muito depreciadas, tombam vertiginosamente...
9.6ª Etapa, em resposta a uma entrada maciça de capitais, a Suíça decide impor taxas de juro negativas aos depósitos de não-residentes...
10. 7ª Etapa, o crédito concedido pelos bancos por toda a zona Euro fica praticamente paralisado, a economia entra em abrupta recessão...
11. Não me vou estender mais, esclareço que este “Cenário de Terror” não é criação minha, foi publicado na edição do F. Times de 8 do corrente, num interessantíssimo artigo assinado por Robert Jenkins, membro do ínterim Financial Policy Commitee do Bank of England...para quem queira ler, o título do artigo é “Greece will restructure but it must do so within the Euro”.
12.Pela minha parte, direi apenas mais o seguinte: vai ser preciso termos todos (europeus) muito “juizinho”, pois apesar de não ser certo/garantido, a simples possibilidade deste Cenário se verificar é de molde a deixar-nos os cabelos em pé...

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Falta de honestidade

São quase horas para ir almoçar, pensei. Eis que o telemóvel toca estridentemente, fruto da velhice e de avarias a prenunciar a sua morte, mas mesmo moribundo consegue inquietar-me. Olho para o écran e verifico que é um telefonema do meu serviço. Qualquer banalidade, pensei. Após umas trocas de impressões, a confirmar que eram as trivialidades do costume, estava prestes a desligar quando do outro lado me avisaram: - Estão aqui dois alunos que querem urgentemente falar com o senhor professor, quando é que pode recebê-los? Não gosto de adiar nada e, quase que imperceptivelmente, dei a entender que poderia falar já com eles, afinal, os meus colaboradores já me conhecem suficientemente. - Posso passar o telefone? - Pode. Mas o que será que os alunos querem tratar tão urgentemente, se ainda ontem tive uma aula com eles? Fiquei ansioso, como é meu timbre, e quando comecei a ouvi-lo, dizendo que ontem à tarde, no decurso de uma aula teórico-prática, tinha ocorrido um problema, pus-me logo de atalaia, com os neurónios a saltitarem, as glândulas suprarrenais a hipersecretarem e a preparar-me mentalmente para mais um quadro de confusão que teria de resolver. - Será que algum assistente cometeu algo de errado que pudesse ferir os direitos dos alunos, sabendo quão reivindicativos e, até, mesmo intolerantes se tornaram nos últimos tempos? Não! Afinal foi o aluno a comunicar-me que ele e um outro colega, devido a sobrecarga de trabalho e à necessidade de apresentar trabalhos para outras disciplinas, pediram a um outro para que assinasse pelos dois. Só que a minha assistente, que não é nada burra, procedeu no final da aula à chamada dos alunos. Os dois que tinham "assinado" não responderam, como é óbvio. Perante tão inusitado comportamento informou que iria dar conhecimento ao regente da disciplina. Um acontecimento verdadeiramente insólito, até porque legalmente os alunos têm direito a dar as faltas previstas no regulamento sem qualquer problema, mas iriam perder as benesses decorrentes dos que não faltassem às aulas. Tiveram a consciência de terem cometido uma fraude e, por esse motivo, anteciparam-se, denunciando-se. Ouvi e nem quis acreditar. Deu as explicações que entendeu sem conseguir justificar a falta. Ouvi, respirei fundo, em silêncio, e perante a situação tive que tomar uma decisão. Em primeiro lugar, o sermão habitual nestas coisas. Blá, blá, blá. O que seria de esperar. Em seguida disse-lhe que ele, e os outros dois colegas, deveriam, publicamente, ou seja, em frente dos colegas da turma a que pertencem, pedir desculpa à assistente. Espero, não tenho a certeza, que tenham aprendido alguma coisa e que esta história não seja mais tarde contada como um episódio de irreverência estudantil, porque não foi. Espero que nunca contem a ninguém, que guardem só para eles e que os ajude a não usar estratagemas do género no futuro. Ninguém deveria proceder como procederam, mas vão ser médicos e, como tal, irão defrontar-se com muitas responsabilidades. Não lhes contei o que vou fazer em seguida, não vão poder beneficiar do facto de não terem nenhuma falta, tal como foi previsto no início do ano, mas, legalmente, não serão privados dos seus direitos, porque podem dar até vinte por cento de faltas.
Acabei de almoçar há pouco e tive que escrevinhar este pequeno apontamento. Não escolhi o sítio, foi o local que me obrigou a escrever. Pela primeira vez na vida escrevi um texto numa igreja. Gosto deste espaço acolhedor, silencioso e tranquilo. Sentei-me perto do local onde durante muitos anos esteve sepultado o marquês de Pombal, de acordo com a lápide que se encontrava à minha frente, sob o olhar atento da Senhora do Cardal. Não sei qual dos dois me inspirou, mas pouco interessa, talvez tenham sido ambos.
Acredito que os tais alunos tenham, hoje, crescido um pouco. Quero mesmo acreditar, acreditem, porque se não cresceram...

Os novos bobos da corte

Ontem, o Ministro Álvaro Pereira, acompanhado de vários Secretários de Estado, esteve todo o dia a ser ouvido no Parlamento sobre a política e orçamento do seu Ministério. Suspeitava eu que, no intervalo da prolixidade de muitos Deputados que gostam é de se ouvir nas perguntas, já que ignoram ou desprezam as respostas, teria intervindo várias vezes para elucidar os representantes do povo sobre as questões colocadas.
Suspeitava, mas enganei-me redondamente. A avaliar pelos principais telejornais de ontem e pela informação de hoje, o Ministro e os seus Secretários de Estado estiveram sempre calados. Com a única excepção de o Ministro ter dito que o ano de 2012 seria o ano do fim da crise ou que seria o ano do princípio do fim da crise. Facto que deu pretexto aos mais fundamentalistas, primários e grosseiros comentários. Mesmo que, face ao contexto em que o referiu, o significado seja exactamente o mesmo, também os puros, sempre exactos e talibânicos jornalistas não perderam a ocasião de ver aí uma “colossal” contradição. Fazendo, deputados e jornalistas, tábua rasa da inteligência alheia.
E por aqui se teriam ficado as longas horas do debate parlamentar, caso não se desse a maltrapilha e carroceira invectiva ao Ministro por parte de um Deputado e a que me referi no meu post anterior, e que a exigente comunicação social logo tomou como um dos pontos dominantes do debate. Com particular destaque para uma venerável jornalista que grotescamente “lamentou” que tais palavras não tivessem tido mais impacto por não terem tido resposta do Ministro...
Enfim, vamos tendo os bobos que merecemos, nos media e no Parlamento. Com todo o respeito aos bobos que, esses, sabiam ao que iam e, quando exorbitavam, eram punidos. Agora, são promovidos. No caso, a deputados ou a jornalistas.

Democracia e mesa farta?

Em tempo de guerra não se limpam armas, diz o povo, e confirma-se. Também diz, e reconhece, que quem paga, manda, apesar dos calafrios escandalizados que essa frase causou quando proferida no Parlamento, há uma eternidade de pouco mais de um ano.

Leio nos jornais que as pessoas celebram nas ruas a saída de Berlusconi e vejo os jornais a aplaudir a nomeação do sucessor, dispensando-se as eleições antecipadas para não se “criar um vazio” que a urgência da situação financeira desaconselha em absoluto. De entre as inúmeras qualidades do agora nomeado, o Presidente da República italiana entendeu por bem incluir a de nunca ter andado metido nas confusões da política partidária. Na Grécia, o novo Primeiro Ministro intercalar beneficia de grande popularidade nas sondagens e o espectro das eleições está remetido lá para o ano que vem, se tudo correr como previsto. Por cá, ainda há poucos meses atrás, muitos criticaram e temeram a ousadia de convocação de eleições e dos riscos enormes de “desagradar” aos mercados com tanta demora, e não foram poucos os ralhetes que levámos fora de fronteiras. Os mercados, ou seja lá quem for, têm pressa, os exercícios democráticos são um luxo de perda de tempo e, por enquanto, ainda vai havendo personalidades corajosas e dispostas a pôr os seus talentos e o seu prestígio ao serviço do estado desesperado da urgência dos seus países para manterem acesso ao crédito. Quanto tempo resistirão sem a legitimidade de um voto nas urnas? A quanta mais austeridade sobreviverá a unidade nacional decretada? Podemos facilmente adivinhar que essa é uma questão que se vai tornar cada vez mais insignificante. Se, como se deseja, os novos responsáveis se saírem bem da sua árdua missão, fica provado que devem continuar. Se não, então ainda será pior convocar eleições, se ainda servirem para alguma coisa nesse contexto. O que é curioso é lembrarmo-nos do discurso de Barroso a propósito das Primaveras árabes, dos seus votos de rápida instalação da democracia, das esperanças ardentes na Líbia finalmente no bom caminho da livre expressão do povo e, já agora, das múltiplas missões de “observadores” europeus às eleições ditas livres em países africanos que são tudo menos prósperos e organizados.
Mas isso era no tempo em que democracia era sinónimo de via única para o desenvolvimento. Será que a democracia europeia e os seus sistemas partidários só resistem quando sentados à mesa farta do crescimento económico?

Assim vai a Europa...

A minoria de bloqueio voltou atrás. Ainda bem porque o Programa Comunitário de Ajuda Alimentar a Carenciados é hoje mais preciso do que no passado. Foi corrigido um erro, mas fica a interrogação sobre o que mudou de lá para cá no panorama europeu para que a minoria de bloqueio se tenha reconvertido à evidência da pobreza que alastra na Europa, com milhões de pessoas sem capacidade de satisfazer uma necessidade tão básica como a alimentação.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Obviamente...demita-se!...

O Deputado Paulo Campos insiste em atitudes indignas.
Depois de exibir no Parlamento um Relatório que atribuiu à KPMG, mas que esta empresa afirma que nunca elaborou, hoje dirigiu-se em tom ofensivo, soez e grosseiro ao Ministro Álvaro Pereira, desafiando-o a imitar Manuel Pinho, e convidando-o torpemente a fazer “um gesto feio”, agora em direcção à bancada do PS, “porque as consequências vêm logo a seguir”...
A atitude de Paulo Campos vai de indignidade em indignidade.
Não bastaram a Paulo Campos, para ter vergonha e se calar por uns tempos, as nefastas políticas que promoveu e as danosas iniciativas e decisões que tomou quando esteve no governo, muitas das quais estão na origem directa da ruptura das finanças públicas e da intervenção da Troyka. Nada disso bastou, porque continua a vangloriar-se da obra e do mal que fez. Mais, permite-se agora, e no próprio Parlamento, vilipendiar e chamar incompetente a quem se esforça por corrigir os erros e os desmandos das erradas políticas de que é um dos maiores responsáveis.

A actuação de Paulo Campos devia envergonhar o partido pelo qual foi eleito deputado. Lamentavelmente, creio que o PS não o vai forçar a que se demita das suas funções. Mas deveria.

domingo, 13 de novembro de 2011

Grécia e Itália: Intermezzo democrático, quem diria?

1.Achei particularmente interessante uma frase, a seguir citada, inserta em artigo da edição do F. Times deste fim-de-semana, intitulado “Political turmoil in the eurozone – Enter the technocrats”.
2.A frase em questão, na versão original, é “Eurozone policy makers have decided to suspend politics as normal in two countries because they judge it to be a mortal threat to Europe’s monetary union”…
3.Os responsáveis europeus terão percebido (não era difícil...) que a continuação das soluções políticas vigentes tanto na Grécia como na Itália – soluções político-partidárias, decorrentes de escolhas livremente feitas pelos cidadãos nacionais em actos eleitorais – estavam a colocar gravemente em risco a continuidade do projecto do Euro...
4....e não hesitaram em forçar mudanças de governo com a nomeação de personalidades de prestígio técnico mas fora da vida política activa para chefiar governos de “salvação nacional”.
5.É muito curioso notar que, em ambos os casos, essa pressão dos lideres europeus (com relevo para a Alemanha e a França mas não só estes…) encontrou eco dentro dos próprios países visados, cujos “establishments” também terão percebido que além da sobrevivência do Euro estaria também a sua…
6.Estamos pois a entrar numa nova fase da vida política na Europa, em que as questões de natureza económica e financeira mostram uma tal importância que chegam ao ponto de se sobrepor às regras do jogo democrático a nível nacional, forçando um INTERMEZZO na aplicação das regras habituais desse jogo.
7.Estaremos quiçá a assistir aos primeiros passos de uma União Política Europeia? Passos dados aos sobressaltos e com inevitável dramatismo, mas em qq caso passos muito concretos e que traduzem uma clara afirmação da prevalência das questões económicas, financeiras e monetárias sobre as regras da política nacional?
8.Noutro registo, estes episódios trazem-me à memória a declaração de M.F. Leite, há cerca de dois anos e meio, sugerindo a necessidade de um intervalo democrático em Portugal – a suspensão das regras de jogo democrático - para resolver problemas mais urgentes do País, nomeadamente o excesso de endividamento…
9.Como seria de esperar num País de “opinion-makers” altamente “clarividentes” e de grande “visão” – ontem ou hoje sempre os mesmos – a sugestão de MFL foi satirizada e ridicularizada pela esmagadora generalidade dos comentadores…o paupérrimo "establishment" não os podia suportar…
10.Como agora se constata, MFL estava cheia de razão (antes do tempo): se a sua sugestão tivesse sido escutada provavelmente não teríamos chegado à triste situação em que hoje nos encontramos…
11.Vai ser muito interessante acompanhar este INTERMEZZO político em Itália e na Grécia e ver se e como é que os prestigiados tecnocratas, escolhidos a dedo, vão ser capazes de fazer o que os políticos eleitos não souberam ou não tiveram coragem de fazer…

Dar-lhes-emos sacos de arroz...

1. A sociedade europeia está em vias de se auto-destruir. O seu modelo social é muito exigente em meios financeiros. Mas, ao mesmo tempo, os europeus não querem trabalhar. Só três coisas lhes interessam: lazer/entretenimento, ecologia e futebol na TV! Vivem, portanto, bem acima dos seus meios, porque é preciso pagar estes sonhos de miúdos...
2. Os seus industriais deslocalizam-se porque não estão disponíveis para suportar o custo de trabalho na Europa, os seus impostos e taxas para financiar a sua assistência generalizada.
3. Portanto endividam-se, vivem a crédito. Mas os seus filhos não poderão pagar a conta.
4. Os europeus destruíram, assim, a sua qualidade de vida empobrecendo. Votam orçamentos sempre deficitários. Estão asfixiados pela dívida e não poderão honrá-la.
5. Mas, para além de se endividar, têm outro vício: os seus governos 'sangram' os contribuintes. A Europa detém o recorde mundial da pressão fiscal. É um verdadeiro 'inferno fiscal' para aqueles que criam riqueza.

6
. Não compreenderam que não se produz riqueza dividindo e partilhando, mas sim trabalhando. Porque quanto mais se reparte esta riqueza limitada menos há para cada um.
Aqueles que produzem e criam empregos são punidos por impostos e taxas e aqueles que não trabalham são encorajados por ajudas. É uma inversão de valores.
7. Portanto o seu sistema é perverso e vai implodir por esgotamento e sufocação. A deslocalização da sua capacidade produtiva provoca o abaixamento do seu nível de vida e o aumento do... da China!
8. Dentro de uma ou duas gerações, 'nós' (chineses) iremos ultrapassá-los. Eles tornar-se-ão os nossos pobres. Dar-lhes-emos sacos de arroz...
9. Existe um outro cancro na Europa: existem funcionários a mais, um emprego em cada cinco. Estes funcionários são sedentos de dinheiro público, são de uma grande ineficácia, querem trabalhar o menos possível e apesar das inúmeras vantagens e direitos sociais, estão muitas vezes em greve.
Mas os decisores acham que vale mais um funcionário ineficaz do que um desempregado...
10. Os europeus vão direitos a um muro e a alta velocidade...
Nota: Considerações de autor desconhecido, mas com grande fundo de verdade.

Doença, violência e democracia


A situação atual é muito preocupante a todos os níveis. Na saúde as coisas complicam-se e vão continuar a piorar, por motivos mais do que evidentes, a saúde é cara, gasta-se muito, por vezes muito mal, as necessidades aumentam, as comparticipações diminuem, dificulta-se o acesso aos cuidados e, por fim, aumentam a prevalência e a incidência de muitas doenças. 
Um país com graves desigualdades socioeconómicas sofre mais doenças. Entre nós começa a ser obsceno o crescendo do fosso que separa os mais ricos dos mais pobres. 
Para lutar contra a estagnação e promover o desenvolvimento são precisas diversas iniciativas e inteligência. Mas, há sempre um mas nestas coisas, os países predispostos a sofrerem mais doenças têm níveis de quociente de inteligência mais baixos como se o "quantum de energia fosse consumido para combater as infeções". 
Nos países mais suscetíveis a doenças parasitárias e a infeções muita da energia nacional é canalizada para as combater em detrimento da "promoção" do cérebro. 
Estamos perante a hipótese "stress-parasita" para explicar a distribuição da inteligência a nível mundial. 
Mas esta hipótese pode estender-se a outras situações e doenças. As doenças apresentam um efeito "stress-parasita" nas sociedades humanas. As pessoas nas regiões mais doentes têm tendência a serem mais xenófobas e preferem associar-se em grupos optando por valores conservadores e governos autocráticos, ao passo que os países com baixas taxas de prevalência de doenças tendem a ser mais individualistas e democráticos. A par destes achados, a própria violência tem a ver com a doença, havendo uma correlação positiva mesmo depois de ajustada em função das desigualdades socioeconómicas, fator per si muito importante. 
Pobreza gera doença, desigualdade gera doença, doença gera violência, doença gera xenofobia, doença gera ultraconservadorismo, doença gera baixos níveis de quociente de inteligência e, para mim, qualquer política de saúde que não combata eficazmente a doença e a previna contribui para a degradação da segurança, da democracia e do desenvolvimento social e económico de um país.
Com base nas notícias e nas dificuldades acrescidas de muitos portugueses, que se queixam do acesso aos cuidados de saúde, aos tratamentos e dos custos crescentes, somados aos efeitos perversos da crise no aparecimento de patologias, então, não é de descurar que o país possa correr riscos em termos de violência e de regime.
Não são só os problemas económicos e ideológicos que estão em causa, é preciso tomar em linha de conta as doenças dos portugueses que, através do efeito "stress-parasita", podem comprometer o sair da crise. E os portugueses estão a ficar muito doentes...

A crise das negações

Esta é a crise das negações. Começou com a negação da própria crise, que inicialmente era só a nuvem negra e longínqua do subprime ao abrigo da qual, felizmente, estaria a maioria dos bancos europeus. Dotada do milagroso tratado de Lisboa, do qual dependia o definitivo reforço das instituições europeias, a Europa não tinha fraquezas, estava mais forte que nunca. Negou-se que a falência da Islândia pudesse ser um sinal de alarme, era evidente que se tratava de um caso de desvario dos bancos e deslumbramento do então Primeiro Ministro; depois a Irlanda, nem pensar em comparações, a dívida astronómica era por causa da intervenção nos bancos, nada mais claro e que nada tinha que ver com os outros europeus; depois a Grécia, esses mentirosos, tinham enganado os ingénuos europeus, a culpa era só deles, quem é que se lembrava de apresentar contas erradas anos a fio, tão espertos que ninguém deu por isso?, pois agora vão ver se entram na ordem e nem piam; depois Portugal, gastadores, muito gastadores mesmo, quem é que os mandou sonhar em deixar de ser pobres, acabou-se aqui a brincadeira, nem mais um bail out para amostra, chega! disse a então ministra das finanças francesa, agora Presidente do FMI, agora a temer o colapso da Europa, então era “Portugal será a porta corta fogo da crise”, por cá negava-se todos os dias a necessidade de pedir ajuda e quem duvidasse era antipatriota. Negou-se o domínio das agências financeira, negou-se a fragilidade dos Governos, negaram-se as crises políticas, negou-se a crise de financiamento, negou-se a impotência das instituições europeias, negou-se o resvalar da Itália, a Itália, esse colosso, não, o problema é Berlusconi, os mercados querem Berlusconi fora dali, a Itália não, por favor, a Itália não. Os bancos não precisavam de ajuda, vejam lá o êxito dos testes de stress que tanto nos stressaram, os bancos não vão ser nacionalizados, a Europa não está a esboroar-se, não, a Alemanha e a França nunca falaram em duas Europas, nem pensar, Barroso nega a pés juntos e garante que a Europa tem mesmo é que se unir cada vez mais. Todas as cimeiras são um êxito, o problema são os políticos que não conseguem que os povos abracem a austeridade, mudem os Governos, quanto mais depressa melhor, depois é só esperar o renascimento, o BCE não vai ser o emprestador de último recurso e não haverá nunca mais países mal comportados numa Europa finalmente unida, próspera e feliz, cheia de banqueiros a Governar. Não há nenhuma crise do euro. Uma agência negou que estivesse a ponderar descer o rating de França, e é completamente falso que haja rumores sobre a Áustria. Neguemos, pois.

sábado, 12 de novembro de 2011

Células embrionárias

Bento XVI manifestou-se mais uma vez contra a investigação de células embrionárias. Considera que naquele momento, concepção, já existe um ser humano e que, por esse motivo, não se pode negar o direito à vida. Afirma igualmente que os seres humanos estão dotados de uma alma imortal e são criados à imagem e semelhança de Deus. Alma imortal? Uma questão de fé e, como tal, não se discute, mas, também, não pode servir de argumento. Seres humanos criados à imagem e semelhança de Deus? Bom, se for verdade, não abona nada a favor de Deus, antes pelo contrário. Talvez o inverso fosse mais plausível, Deus criado à imagem e semelhança do homem.
Em termos biológicos a vida humana é um contínuo e não começa no momento da concepção, naquele momento produz-se uma singularidade entre muitas outras que poderiam ter ocorrido.
Concordo plenamente que a investigação tem de respeitar princípios éticos e deverá continuar neste caminho, mas isso não é impeditivo da utilização de células embrionárias em situações muito bem definidas, caso de embriões deficientes e não viáveis, os quais podem "ceder" as suas células para efeitos de investigação científica. O mesmo acontece com embriões excedentários para os quais não se vislumbre qualquer projeto parental. Por isso, em circunstâncias muito bem definidas e eticamente escrutinadas, nada impede o uso de células embrionárias em investigação científica, mesmo que o papa não aceite. O papa tem todo o direito a manifestar a sua opinião, assim como muitos cientistas que aceitam o uso de células embrionárias, e estes últimos também têm preocupações éticas.
Se um dia vier a verificar-se que as células tronco adultas podem substituir as células embrionárias, então, os cientistas serão os primeiros a usá-las, por motivos óbvios. Até lá, e desde que sejam respeitadas as normas éticas, não vejo grandes problemas na utilização de células embrionárias em condições bem definidas.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Juízes não são deuses.

A notícia segundo a qual um juiz foi aposentado compulsivamente devido a ter acumulado vários processos e ter tomado decisões que "violavam os deveres de zelo e o dever de prossecução do interesse público, especificamente, o dever de actuar no sentido de criar no público a confiança em que a justiça repousa" obriga-me a alguma reflexões. Em primeiro lugar, como qualquer ser humano o juiz em causa não está imune às patologias que qualquer um pode sofrer, pelo que merece o máximo de respeito e ajuda no tratamento. Juízes não são deuses. Tenho no entanto de reconhecer que, devido às suas funções, o impacto de algumas decisões poderão ter sido dramáticas e até irreversíveis. É aqui que eu queria chegar, por que razão a entidade própria que fiscaliza os juízes não atuou mais cedo? Quais os mecanismos que dispõe para avaliar as capacidades mentais dos juízes que, como qualquer outra pessoa podem descambar, originando problemas muito complicados. Se acontecer com um canalizador ou electricista qualquer um sabe como atuar, mas se cairmos nas mãos de um juiz com problemas da esfera psíquica como é que nos desenvencilharemos?
Eu já tenho muito medo da justiça, e se adicionar o medo de que alguém que trabalha naquelas áreas não ande com o juízinho perfeito, então, fico meio aterrorizado.
Que São Ivo nos guarde!

José Estêvão para as Berlengas, já!...




Continua o debate parlamentar do orçamento, acrimonioso, acusatório, por vezes ofensivo. Palavras e palavras repetidas à exaustão, numa retórica sem gosto e sem finalidade. Irá passar do Plenário para as Comissões e daqui a um mês voltará ao Plenário. Os aplausos são inversamente proporcionais à qualidade da oratória, o que se compreende: quanto mais primário é o discurso melhor ele é entendido pelos circunstantes.
Devotos imitadores de José Estêvão, o expoente máximo da retórica parlamentar. Só da retórica, pois não se lhe conhece qualquer ideia. Talvez por isso, botaram-lhe estátua junto ao Parlamento.

Seria um acto simbólico a remoção da estátua para as Berlengas. Aí poderiam os devotos Deputados imitar o mestre, sem dano para os humanos.
Deixando em S. Bento apenas aqueles que se interessam pelo país, com trabalho e sem retórica. Ficariam poucos, mas esses seriam bastantes. José Estêvão para as Berlengas, já!...


quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Cornudo?

Recordo ter lido há alguns anos um interessantíssimo texto sobre a famosa frase "À mulher de César não basta ser, terá que parecer". Uma frase que é usada a torto e a direito dando realce mais à importância do parecer do que o ser.
A história é curta. No dia da Bona Dea (a boa deusa), uma festa orgíaca à boa maneira romana em que participavam apenas as mulheres, Pompeia Julia, mulher de César, a anfitriã, viu-se envolvida num escândalo devido à irreverência de um apaixonado, Publius Clodius, que, vestido de mulher, entrou na festa com o objetivo de catrapiscar a bela Pompeia. Mas a sogra desta descobriu o impostor e foi um escândalo. Ai as sogras, sempre as sogras! César não esteve com meias medidas, repudiou a mulher e divorciou-se. Clodius foi julgado pelo ato e acabou por ser absolvido graças ao testemunho do próprio César que afirmou não saber da atitude sacrílega, e nem duvidava da honestidade da mulher. - Então, porque é que se divorciou? Perguntaram-lhe. Foi então que surgiu a conhecida frase atribuída ao grande César.
No fundo é mais importante parecer do que ser. Esta reflexão tem a ver com algumas pessoas que utilizam estas frase para denegrir outras, pondo em causa as suas posições e respeitabilidade. Resta saber se muitos dos que a utilizam, e que aparentam ser honestos, o serão na realidade. Se forem, muito bem, os meus parabéns, continuem, porque bem precisamos de pessoas assim, se não forem, então, o melhor é estarem calados.
Quem não deverá gostar muito destes abusos é a Pompeia Julia, que deve habitar ainda o céu dos romanos. Muitos falam dela e nem sabem o seu nome, o que é muito chato. Saber se pôs ou não os cornos ao Júlio César, o que é muito aborrecido para um imperador que foi dono de meio mundo, continua em aberto. Não sei se o uso da coroa de folhas de loureiro era para mostrar a sua divindade ou para esconder eventuais excrescências. Imaginem que Pompeia foi mesmo uma adúltera, o que é que poderia ter acontecido? Hoje ninguém falaria dela e o império romano poderia ter-se desagregado mais cedo, fazendo fé de que o Júlio cornudo entraria em melancolia e como não tinha meios para a tratar, ia fazendo uma guerra aqui, outra acolá, aliás como andou a fazer, só que, deprimido, perderia o bom-senso estratégico que o caracterizava e desse modo sairia derrotado. Digo isto no pressuposto de que lhe aconteceria algo parecido às atribulações do chifrudo rei da Dinamarca, Christian IV, um bêbado incorrigível, que conseguiu que o seu reino perdesse toda a importância internacional assim como grande parte dos territórios. Sempre que desconfiava que a mulher o havia traído, caía numa melancolia profunda. Para combater a dor arranjava uma guerra que, invariavelmente, perdia. Como a mulher traía-o com frequência é fácil de ver as consequências.
Júlio César conseguiu descartar-se da vergonha de ser traído pela mulher aos olhos do povo e contribuiu para a criação de uma máxima que vale o que vale, mas que muitas vezes vale mesmo pouco, sobretudo quando é utilizada com certos propósitos pouco confessáveis, e quem sabe se os eventuais honestos, que aparentam o aspeto da maior respeitabilidade, o serão na realidade.
Cá para mim aposto mais na hipótese de que Pompeia Julia deverá ter mesmo posto os cornos ao grande César.
É a vida Júlio, é a vida. A tua frase não me convenceu. Hum! Nem um pouco.

Retórica orçamental: a folga e o paradigma

Hoje a grande discussão do Orçamento centrou-se em duas palavras: o a folga e o paradigma. Nem sei qual das duas foi mais dominante na retórica orçamental.
A folga esteve omnipresente. Para os socialistas, a folga é a maior evidência do orçamento e foi ela que conduziu ao aperto; para o governo, a maior evidência é o aperto, devido à falta de folga.
E se o governo reivindicou para si um novo paradigma de governação, as oposições, cada qual de per si, e também ao molho, exigiram também um paradigma novo. Mas um novo, que não era igual ao novo do governo, mas um novo similar ao velho socialista que nos conduziu ao novo que o governo quer.
No paradigma socialista de cigarra cantante, a folga é festa e o inverno vem sempre longe; no austero paradigma governamental, a festa acabou, e há que trabalhar para resistir ao rude e frio inverno que por aí se vai apresentando.
Para o governo, a folga não faz parte do novo paradigma; para a oposição, era o novo paradigma que devia ficar de folga.
E nesta folga do paradigma e neste paradigma da folga se esvaiu um dia de retórica parlamentar.
Os Deputados saíram satisfeitos. Não deram qualquer folga ao paradigma habitual!

É demais!

Começou o julgamento do processo “Face Oculta”. Uma oportunidade para mais um julgamento mediático. As televisões instalaram arraiais em Aveiro, com repórteres e equipamentos com fartura para não perderem pitada.
Vamos ter reportagens diárias nas televisões, directos, de dia e de noite, faça chuva ou faça sol, em hora prime de preferência, tudo a bem da informação da opinião pública que quer saber quem recebeu robalos a troco de alheiras.
Hoje tivemos uma amostra - acho que foi na TVI - com arguidos e advogados a serem literalmente perseguidos e apanhados - talvez estivessem à espera - para serem confrontados a explicarem às televisões o que disseram ou não disseram, lá dentro na sala de audiências, questionados porque não disseram o que se esperava que dissessem ou porque disseram o que não se esperava que dissessem. Uma grande confusão. Tudo misturado com insinuações e afirmações dos jornalistas a ver se alguém se contradiz e faz a notícia de um dia de grande azáfama mediática. E pelo caminho sempre haverá quem se preste a uma conversa mais longa, para aproveitar tempo de antena. Tudo a bem do sensacionalismo, se há confusão ou desinformação, paciência, nem tudo pode ser perfeito. Será que as pessoas ainda têm paciência para aguentar este género de “big brother”? É demais!

A "guerra" das "almofadas" orçamentais - apetência pelo abismo?

1.A discussão da proposta de 0E para 2012 parece ter entrado agora numa nova fase, que alguns “media” resolveram apelidar de “guerra de almofadas”, com alguns ilustres políticos e analistas sustentando a existência de "almofadas" no horizonte orçamental e outros, mais prudentes, avisando que tais almofadas podem não passar de uma miragem...
2.A ideia das "almofadas" horizontais foi lançada pelo PS, compreendendo-se como operação política com objectivos relativamente simples: ao mesmo tempo que mostra colaboração e responsabilidade, disponibilizando-se “ab initio” e incondicionalmente (parece, pelo menos) para se abster nas votações da proposta orçamental, colocam na mesa uma proposta de alteração muito arriscada mas tb muito simpática, que consiste em prescindir da suspensão de um dos dois subsídios (férias+Natal) que o Governo pretende congelar.
3.Não é difícil imaginar o que poderia acontecer caso esta proposta aparentemente simples fosse acolhida: o PS colheria os louros, junto da imensa legião dos beneficiários da medida, aparecendo de novo (renovado) como amigo dos funcionários públicos...
4....e o Governo ficava com um enorme risco entre mãos, sujeitando-se, lá para meados de 2012, a ter de apresentar um OE-R repondo a suspensão do subsídio, no meio de um imenso clamor de protestos e em fase de adiantado desgaste político decorrente da aplicação das restantes medidas de austeridade...
5.E então a "almofada" orçamental em 2012, ela existe ou não?
6.A "almofada orçamental" em causa deverá ser muito semelhante às almofadas que existiam nos horizontes de 2009, 2010 e 2011...no início almofadas confortáveis, que por alturas de Abril já mostravam um elevado grau de esvaziamento, à entrada do Verão se apresentavam totalmente vazias e que no Outono adiantado revelavam um imenso buraco!
7.É um exercício absolutamente prematuro, direi mesmo quase delirante, para quem está habituado a acompanhar o ciclo orçamental, num cenário económico e financeiro de tão grande incerteza como aquele que agora se coloca para 2012 (a Comissão Europeia acaba de apresentar uma perspectiva de contracção da economia portuguesa de -3%, mais acentuada do que as anteriores), avançar a hipótese de uma "almofada" orçamental e sobre essa quimera tomar decisões de altíssimo risco...
8.Que o PS o proponha compreende-se: (i) em função de um jogo político em que não lhe cabe qq dose de responsabilidade, em que todo o RISCO é assumido pela outra parte, ou seja pelo Governo, e também (ii) por um passado muito recente de altíssima irresponsabilidade financeira que atirou o País para a beira de um abismo em que estes jogos se mostram de risco quase fatal!
9.Mas que “opinion makers” ilustrados ou, ainda pior, pessoas que têm responsabilidade de decisão entrem nesse jogo é que já se afigura muito estranho...parece que não se deram ainda conta que estamos mesmo no limite do abismo e que qualquer passo em falso será já parte da queda no precipício...

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Miguel Frasquilho

O Miguel Frasquilho não precisa de advogados.
Fiquei muito surpreendido pelo ataque que lhe foi feito e, por este motivo, tive de transcrever neste blogue o seu comunicado que acabei de ler no Facebook. É o mínimo que posso fazer. Trata-se de uma pessoa totalmente transparente, íntegra e respeitadora, ao contrário de muitos que andam por aí.
Este país há muito que anda doente. Se continuar neste registo é muito provável que claudique. E quando um país claudica abre a porta a outras soluções.


Encontrando-me fora de Portugal (numa reunião de um grupo de trabalho do PPE em Bruxelas, em representação do PSD), vi hoje o meu nome envolto em suspeição, tendo sido colocada em causa a minha integridade, bem como a (in)compatibilidade das funções que exerço enquanto Deputado e as funções que desempenho desde 1998 – muito antes de exercer funções políticas – numa instituição financeira privada. Uma notícia que nada tem de novo, muito pelo contrário.

Tratou-se de mais uma lamentável ofensiva do Dr. Paulo Morais que, nos últimos anos, depois da sua passagem pela Câmara do Porto, tem sido pródigo em lançar atoardas e ataques deste tipo, para denegrir a imagem e o bom nome de determinadas pessoas sem qualquer tipo de fundamento e com o único objectivo de ganhar notoriedade. Calhou-me a mim, agora. Muitos outros foram já vítimas deste tipo de iniciativas no passado.

Não pretendo contribuir para a agenda pessoal de notoriedade do Dr. Paulo Morais.

Sobre este assunto, apenas tenho a referir que sempre cumpri todas as minhas obrigações e deveres legais e éticos para com a Assembleia da República, nomeadamente através da Comissão Parlamentar de Ética, e o meu registo de interesses é absolutamente claro e transparente, dele constando todas as actividades que desempenho.

Foi, aliás, devido à total transparência que sempre conduziu a minha vida, nesta como noutras matérias, que o Dr. Paulo Morais pôde, agora, lançar esta suspeição sobre a minha pessoa.

Nada tenho, nem nunca tive, a esconder, e sempre exerci com total independência e lealdade para com quem me elegeu – os eleitores Portugueses – as minhas actividades parlamentares e as matérias e assuntos que são objecto da minha atenção e análise, desprendido de quaisquer outros interesses.

É lamentável que a integridade, a seriedade e a indepedência de uma pessoa sejam colocadas em causa da forma como hoje me aconteceu – e que tanta atenção seja concedida a este tipo de manobras.

Bruxelas, Novembro 07, 2011

Miguel Frasquilho


Um abraço


"Arte de Passau"

Após ter entrado, a conversa descambou imediatamente, como é habitual, para a política e para os acontecimentos que andam a marcar o quotidiano, crise, mais crise e um conjunto de figurões que passam pela vida impunemente, como se tivessem feito um qualquer pacto com o diabo ou, então, conseguiram uma "proteção" especial capaz de os tornar invulneráveis à ação da justiça.
- Curioso, nunca tinha reparado que tinha uma cicatriz no pescoço, mesmo em cima das carótidas.
Olhou-me, com o seu tradicional sorriso de quem sabe estar bem com a vida e disse-me:
- Quer que lhe conte como a arranjei?
- Claro que quero.
- Quando rebentou a guerra em Angola eu era paraquedista, como o senhor doutor sabe, fomos os primeiros a intervir. Foi muito complicado, os gajos já tinham armas automáticas e atiravam-se a nós como loucos. Nunca vi tanto doido; disparávamos e eles continuavam a correr, até vi um a segurar os intestinos com as mãos, só paravam se lhes atirássemos à cabeça. Caíam que nem uns tordos. Estavam convencidos de que não morriam e se morressem regressavam à vida noutro sítio. Davam-lhes umas mistelas para ficarem imunes às balas.
Depois de uma breve pausa, como se fosse obrigado a reviver aqueles momentos de uma forma quase religiosa, prosseguiu a sua narrativa.
- A primeira vez que fui ferido foi com uma seta, veja lá, foi nas costas, e eu fiquei atrapalhado com medo de que poderia ter veneno. Da outra vez estávamos cercados, e muito atrapalhados, à espera de reforços, eles atiraram-se com tamanha violência que estivemos horas em contínuo tiroteio. Só consegui descansar um pouco quando os nossos camaradas apareceram. Nessa altura passei a mão pela barriga e vi que estava cheia de sangue. Fiquei aterrorizado. Comecei a procurar donde é que ele vinha e foi então que descobri a lesão no pescoço.
- Uma bala de raspão?
- Com certeza, foi.
- Mais uns milímetros e a carótida ia à vida.
- Não tinha que morrer na altura. Disse, libertando um sorriso suave, que, apesar das dramáticas vivências de guerra, não revelava qualquer sinal de stress pós traumático.
A conversa continuou em redor da invulnerabilidade aos efeitos das balas que, na altura, estava amplamente disseminada entre os africanos.
A partir daqui foi um pequeno salto para dois tipos de reflexões a respeito da invulnerabilidade.
Na sequência da guerra dos trinta anos foi criado o mito de invulnerabilidade que se propagou pela Europa, sobretudo entre os soberanos e os poderosos, conhecido pelo "Passuer Kunst" que poderemos traduzir pela "Arte de Passau". Em Passau fabricava-se espadas onde se inscrevia um lobo, dando origem ao conceito de que quem usasse as lâminas com o lobo ficavam imunes na luta. A partir de então, começou-se a usar amuletos e enfeites com o objetivo de tornar invulnerável um indivíduo. Este fenómeno propagou-se de forma epidémica por tudo o que era sítio. Os talismãs conferiam a quem os utilizassem a invencibilidade sobre as lâminas e as balas. Este tipo de comportamento é muito antigo, provavelmente teve origem no paleolítico, e tinha a ver com práticas mágicas.
Atendendo à forma como muitos concidadãos se comportam face à justiça, só posso concluir que estes possuem um talismã qualquer que lhes confere invulnerabilidade ao abuso dos inimigos, tribunais. Afinal, aquilo que os poderosos e soberanos do século XVII pretendiam, invencibilidade, acabou por se concretizar, pelo menos em Portugal. Não me admiraria nada que um dia destes substituíssem a "Arte de Passau" por "Arte de Portugal".
Artistas já temos, invencíveis, invulneráveis a tudo e a todos...

As angústias do voto por essa Europa fora...




terça-feira, 8 de novembro de 2011

Qual equidade?

Até parece que a questão da equidade se resume à discussão da repartição dos sacrifícios do 13º e 14º meses entre sector público e sector privado. Os desempregados não entram nesta divisão, muitos deles já não recebem qualquer subsídio. Estão à margem desta equidade. São crescentes as notícias que nos dão conta das graves dificuldades por que estão a passar milhares de famílias, sem condições para satisfazer necessidades básicas, como é a alimentação. Há muitas cantinas sociais que não estão a conseguir responder ao número crescente de pedidos de refeições. As escolas confrontam-se com crianças com fome, mas não dispõem dos apoios sociais necessários para dar uma resposta satisfatória. Para muitas crianças a única refeição diária que têm é aquela que é fornecida pela escola que frequentam. São avisos muito sérios que deveriam estar presentes na discussão da equidade...

A informação, produto tóxico

Irritante e intolerável é ouvir o serviço público de informação, RDP, a dar informações falsas aos ouvintes. De mais a mais, quando essa informação vem dos seus comentadores especializados. Hoje de manhã, o especialista em economia da RDP referiu que o plano recapitalização dos bancos iria permitir a reabertura do financiamento às empresas, completamente bloqueado.
É falso; não vai!
Não vai, porque os Bancos estão obrigados pelos Reguladores europeus a baixarem o rácio Crédito concedido em relação aos Depósitos de cerca de 150% para 120%, em dois anos.
Mesmo que os principais Bancos portugueses estivessem super capitalizados e sentados em almofadas de dinheiro, não estariam em condições de dar um cêntimo à economia, por força da obrigatoriedade do cumprimento daquele rácio. É um paradoxo tecnocrático, mas é assim. Compete ao Governo removê-lo, em conversações com a Troyka.
O especialista económico da RDP devia saber isto. Tinha essa obrigação estrita. Assim, engana os ouvintes e anda a espalhar falsas expectativas. Falar do que não se sabe é mais um produto estruturado, mas bem tóxico, do serviço público.

A RTP e a RDP andam cá numa fona!...

A RTP está em todas: no Brasil, com enviada especial, em sobreposição aos dois correspondentes locais, para nos falar de Duarte Lima, assunto importantíssimo para os portugueses; na Grécia, para repetir o que as Agências internacionais nos dizem sobre a crise e nos dar de viva voz o clima da rua, em entrevistas a preceito.

Agora mesmo, acabei de ouvir o enviado especial da RDP a relatar da Bósnia o péssimo estado da relva do estádio de Zenica, onde Portugal vai disputar o play-off de acesso ao Campeonato da Europa. Três dias antes do prélio, para acompanhar ao vivo, on-line e em tempo real o estado do relvado que, segundo o enviado especial, é pelado.

Mas pelado de dinheiro é que não está o serviço público de rádio e televisão. Os jornalistas andam numa fona! Viva a festa!...

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Cortes de salários para todos? Discordo em absoluto, tenho muita pena!

1.Chegam-me ecos de declarações do Dr. Rui Rio - autarca muito distinto e daqueles que não foram atrás da moda do endividamento, realizando o seu trabalho com sobriedade e eficiência – no sentido de que os cortes de salários deverão abranger todos os trabalhadores e não afectar apenas os do sector público...
2.Esta mesma ideia terá sido já alvitrada pelo Presidente da República e por mais algumas notáveis personalidades, estando ainda na base da argumentação, sustentada por diversos quadrantes, quanto à suposta inconstitucionalidade da medida de suspensão do pagamento dos subsídios de férias e de Natal, por ferirem o princípio da universalidade da imposição fiscal...
3.Impressionam-me estas proclamações, que ignoram alguns factos de enorme relevância para a apreciação do princípio da equidade, que deixo enunciados em forma interrogativa:
(i)Quantos desempregados, dos mais de 13% da população activa segundo os dados oficiais, são desempregados que tinham vínculo laboral efectivo no sector público, central, regional ou autárquico?
(ii)Em contraponto aos milhares de insolvências de empresas registados nos últimos anos, que induziram centenas de milhares de desempregados, quantos serviços públicos ou empresas públicas estatais, regionais ou municipais encerraram as portas lançando seus trabalhadores no desemprego?
(iii)Como comparar a segurança do emprego no sector privado e no sector público - será que a situação é idêntica e que os trabalhadores das empresas privadas em geral sentem a segurança do emprego da mesma forma que os do sector público?
4.Não me parece que estas questões possam ser ignoradas quando se discute a questão da igualdade de tratamento entre os trabalhadores do sector público e do sector privado.
5.E também não me parece adequado que, tendo o Estado que resolver um problema financeiro que alimentou por culpa própria, dos seus gestores ao mais alto nível, no momento em que se vê forçado a tomar medidas de contenção indispensáveis para repor um mínimo de equilíbrio nas contas públicas, nas suas contas, venham altos responsáveis do Estado clamar pela solidariedade dos trabalhadores do privado...
6....Será que o Estado se lembrou dessa solidariedade, sempre que ao longo dos últimos anos foram sucessivamente noticiados, a ritmo ensurdecedor, encerramentos de empresas privadas, normalmente do sector da industria transformadora, lançando no desemprego ou atirando para a emigração milhares de trabalhadores?
7.E será que nos processos de insolvência de milhares de empresas privadas, o Estado credor – fisco e segurança social - tem assumido atitudes de solidariedade, facilitando as recuperações de empresas...
8....Ou, ao contrário e não raro, assume papel de grande dureza na cobrança dos seus créditos, mandando mesmo congelar contas bancárias a esmo, pondo em risco a subsistência de postos de trabalho em muitas empresas, algumas delas até viáveis economicamente, forçando iniquamente o seu encerramento?
9.Por todas estas razões e algumas mais que seria fastidioso aqui enunciar, afirmo a minha frontal oposição a esta ideia, considerando-a até, ao invés do que os seus proponentes sugerem, abertamente contrária aos mais elementares princípios da equidade!

Problema da Grécia, de Portugal e da Europa é, afinal, político...ufa, que alívio!

1.São cada vez mais os comentadores nacionais, sempre bem informados, esclarecidos e opinando com bastante segurança, revelando que este tremor em que a zona Euro tem estado e continua mergulhada faz cada vez menos sentido, que deve ser resolvido rapidamente pois se trata de um problema essencialmente político...
2.Ainda ao abrigo dessa análise, a responsabilidade por esta situação não é apenas nem principalmente dos países mais incumpridores da disciplina financeira e económica, é fundamentalmente dos líderes europeus que se têm mostrado incapazes de encontrar fórmulas globais e adequadas, de carácter político obviamente, para colocar um ponto final nesta inaceitável crise...
3.A esta mesma luz, a Grécia e Portugal em especial (da Irlanda não é conveniente falar) são agora vistos como os “bons da fita”, as vítimas inocentes da incompetência dos líderes europeus, prontos para serem imolados no altar dos egoísmos de Bruxelas, sujeitos a um tratamento quase desumano e intolerável...
4.Há assim que repensar todo o esquema estrangulador das economias do sul da Europa, sujeitas a um programa de saneamento que é mais um espartilho do que uma ajuda, que acabará por liquidar o paciente em vez de lhe restituir a saúde económica e financeira...
5.Aguardam-se pois sugestões quanto às soluções alternativas para os programas em vigor – soluções políticas, globais e adequadas, convém reiterar – que trarão de volta o bem-estar destas populações seriamente ameaçado por programas financeiros mal concebidos e ainda pior executados, que ameaçam a nossa sobrevivência económica...
6.Pela minha parte, acrescentarei apenas “ufa, que alívio!”, pois estava até agora convencido (i) que teríamos que pagar as dívidas que durante anos a fio fomos acumulando de uma forma quase demencial, (ii) que teríamos de “apertar o cinto” para reduzir o insustentável desequilíbrio externo da economia, (iii) que precisávamos de corrigir seria e urgentemente o brutal excesso de despesa pública que nos obriga a pagar impostos cada vez mais elevados e na minha errada análise tem contribuído para asfixiar a economia, etc, etc...
7.Finalmente e felizmente vem aí uma solução política (global e adequada) que nos vai aliviar desta enorme pressão em que temos vivido, encontrando fórmulas mágicas de pagar as nossas dívidas, restaurar a competitividade perdida, aumentar as exportações e reduzir as importações sem termos de contrair a despesa e o consumo em especial...quiçà mesmo permitir retomar o programa de grandes obras públicas, para "dinamizar a economia".
8.Só espero que comecem também rapidamente a reduzir as taxas dos impostos, pois não acredito que nessa bem-vinda solução política não haja lugar para impostos muito mais baixos do que aqueles que hoje temos de suportar...
9.Ufa, que alívio!

domingo, 6 de novembro de 2011

O direito (natural) a compreender o mundo em que vivemos

Sandra Fisher-Martins: The right to understand | Video on TED.com

Para além do que a oradora transmite (em linguagem bem simples e apelativa) muito haveria a dizer sobre o acesso à informação, em especial no capítulo da responsabilidade individual. Independentemente do nível de literacia em que cada um de nós se inclui, (quase) todos têm a liberdade de escolher aceder a fontes de conhecimento que estão à disposição. Optar por um reality show ordinário ou ficar horas a fio assistindo a uma telenovela pífia em vez de gozar de um bom filme, de uma peça de teatro, ler um livro, participar numa tertúlia, numa conferência ou num simples discussão entre amigos, é uma escolha individual. Essa é a outra face da moeda do direito natural a compreender o mundo em que vivemos. Há, de fato, um dever que vincula quem transmite informações de interesse geral: utilizar linguagem que todos entendam. Mas existe também um irrenunciável dever de cada um se valorizar para atingir novos patamares de compreensão. Foi sobretudo isso que os suecos, com os quais a oradora nos compara, há muito entenderam. As bulas dos medicamentos e os contratos que circulam pela Suécia não dizem mais nem menos, nem dizem diferente, que em Portugal.

"Loucura"

A experiência da vida permite-me ter uma ideia muito pouco positiva, em termos globais, acerca do valor dos seres humanos, graças a muitos dos seus atos e comportamentos que, bem vistas as coisas, se mantêm perfeitamente inalteráveis desde que tomou conta deste planeta, ou mesmo antes, já que deve ter sido responsável pela extinção de outros homínineos.
Viver em pleno século XXI, no tempo de Alexandre o Grande, no notável período da renascença ou no exotismo maia, não é muito diferente em termos de ser, embora haja algumas nuanças, ditas civilizacionais, que impedem os grelhados da inquisição, a execução arbitrária ou a escravidão institucionalizada.
O cérebro humano é capaz de coisas brilhantes, belas, divinas, despertando sentimentos únicos, como o amor. Olhamos em redor do tempo e do espaço e verificamos que só mentes "loucas" poderiam ter produzido tanta beleza e tanta inovação. Esta loucura, que deveria ser rotulada de "dissidência", é devido a alterações constitucionais que estão na base de muitas problemas dos nossos dias, autismo, esquizofrenia, transtornos bipolares, depressões, entre outros. Se não fossem estes problemas provavelmente não estaríamos aqui. Tudo aponta para que a criatividade, a inovação e o sentimento artístico tenham sido consequências de situações hoje catalogadas como doenças. Nos primórdios, o despertar da compaixão entre os humanos permitiu desenvolver a tolerância para estes casos que, por sua vez, determinaram o progresso civilizacional. Afinal, a loucura é a mãe da beleza e da criatividade, e talvez seja por este motivo que alguns artistas procurem mais "loucura", além daquela que já têm, bebendo, drogando-se, optando por estilos de vida alucinantes, com o objetivo de alcançar o expoente do belo em todas as áreas criativas.
Não há limites que permitem separar o normal do louco, embora nos dias que correm haja a tentativa de transformar os normais em loucos, quando o que deveríamos fazer era precisamente o contrário, ou seja, transformar os "loucos" em normais, aproveitando e estimulando a sua criatividade inteletual, técnica e artística. Mas não, andam a embrutecer os sentidos com drogas e mais drogas alegando que são "loucos", o que é uma verdadeira loucura, porque muitos destes seres são os únicos que dão sentido à vida, através de um poema, de um romance, de uma escultura, de uma pintura, da representação ou da criação musical, contrariando a faceta de muitos outros, em que a maldade e a corrupção são determinantes para o domínio social, político e económico. Não deixa se ser curioso a afirmação de que qualquer ser humano é dotado da capacidade em se corromper e corromper desde que obtenha mais valias. Ou seja, em termos evolutivos, os seres humanos são dotados de meios que tanto lhes permitem pintar a capela Sistina, criar obras perfeitas como o Messias, ir à Lua, ou escrever um poema desconhecido capaz de por a chorar de felicidade um vulgar ser, ou serem capazes das coisas mais torpes e cruéis. O que não deixa de ser curioso é que há, também, razões do mesmo tipo, evolutivas, para explicar a corrupção e aquilo a que alguns chamam de "miopia moral" que está na base de ascensão social, económica e política.
Não pretendo fazer nenhum tipo de balanço, mas, ante as evidências resultantes de uma vivência de algumas décadas, somadas à reflexão, à leitura de muitas obras e à própria história, tenho de concluir que não há solução para os males da humanidade que se entretém a renovar os quadros de vida continuamente dominados pelos mesmos princípios. Resta-me a esperança de que não exterminem a "loucura", a única capaz de dar sentido à vida, pelo menos para alguns, porque aqueles a quem chamam de loucos, os tipos da política, da economia e similares, não são loucos, nem de perto nem de longe, são "normais", perigosamente normais, e que gostariam um dia evitar que nascessem os tais dissidentes, catalogados erradamente como doentes mentais, porque estão muito longe de situações a exigirem cuidados especializados. No fundo os "loucos" são o garante do prazer e da beleza...

sábado, 5 de novembro de 2011

"Bruxo de Fafe" e aprendizes de enfermagem.

Não fico surpreendido com certos comportamentos, mas começa a ser demais. Não sei qual o interesse e os objetivos dos promotores, mas não creio que tenha sido por razões sociológicas, técnicas ou científicas que os aprendizes de enfermagem convidaram o "Bruxo de Fafe", mas sim fruto da emergência da new age que aproveita tudo e todos para se instalar em meios credíveis, numa desejada promiscuidade que favorece os seus cultivadores. Aliás, o bruxo contesta esta designação, não tarda e aparece como "técnico superior de mediunismo de incorporação", qual bacharel ou licenciado reconhecido pela respetiva ordem.
O senhor é especialista na "capacidade de encorpar espíritos que andam no mundo a "desassossegar os vivos", e expulsá-los "para o lugar deles, no outro mundo". Se for verdade esta sua capacidade, o melhor é investir quanto antes na produção em série de clones do "bruxo de Fafe" e fazer com que muitos compatriotas e cidadãos, que não passam de perfeitos sacanas e que andam a desassossegar-nos de forma permanente, sejam expulsos para qualquer sítio, menos este em que vivemos. Quanto aos futuros enfermeiros, atendendo a que muitos não irão ter lugar para poderem exercer a sua nobre atividade, sempre podem ganhar algum através das práticas "mediunismo de incorporação".

Nem sempre a História se escreve na secretaria





Papandreu ganhou a moção de confiança. Papandreu afastou o enorme risco de eleições antecipadas que a oposição reclamava. Papandreu conseguiu a preparação de um governo de coligação. Tudo de uma penada. Seria impossível discutir, um a um, cada um destes temas, no quadro de há poucos dias atrás, e chegar a uma solução rápida sem lançar o País num absoluto caos, por isso Papandreu usou a “bomba atómica”. Anunciou de surpresa a sua determinação de avançar para um referendo, o qual obrigaria todos, oposição e população, a ir a jogo, decidindo se sim se não podia continuar com o que o programa da troika impõe. Chama-se a isto destrunfar, obrigar os adversários a pôr o jogo na mesa. Sem o anúncio bombástico, seria impossível conseguir esta decisão notável na moção de confiança.
O que é mais interessante é pensarmos que, se Papandreu fosse na conversa dos colegas europeus, se se tivesse comportado com “lealdade”, como ouvi alguns dizer, teria sido absolutamente impedido de fazer a política à sua maneira, e teria sido vencido. E, com ele, a Grécia, que entraria em convulsão total.
Por aqui se vê a visão política dos “europeus” e o pouco que se ralam com o modo como as coisas andam nos países em ajuda. A mal ou a bem, avancem. Papandreu conhece o seu povo e sabe que a mal, pior. Jogou e ganhou. Fez política a sério e ainda bem, ninguém se salva se não se salvar a si próprio. Para já, a Grécia vai acalmar, a Europa vai desejavelmente deixá-lo fazer as coisas à sua maneira e, com sorte, tudo vai correr melhor. Por mim, que sempre achei impossível que Papandreu não soubesse o que estava a fazer, experiente e preparado como é, gostei de ver este lance de grande risco e de grande rasgo. Nem sempre a História se escreve na secretaria. Ou com as opiniões dos jornais.
Boa sorte Grécia!

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Em crise acelerada...

"Todo lo que podamos hacer para garantizar la credibilidad de los esfuerzos de todos nuestros Estados miembros es importante, no sólo para la eurozona sino para la estabilidad mundial", ha resaltado Barroso. Por su parte, la directora gerente del FMI, Christine Lagarde, ha advertido de que el problema de Italia y lo que ha agravado su situación frente al resto de periféricos no rescatados, es su "falta de credibilidad".
Quem poderia prever mais este avanço da crise? O FMI e a Comissão Europeia vão vigiar as reformas que a Itália se comprometeu implementar. A Itália vai a partir de agora prestar contas a mais esta “Troika” sobre o que anda a fazer. Será apenas uma questão de falta de credibilidade ou haverá a suspeita de existência de buracos financeiros?
Mas é a credibilidade do projecto Europeu que está em causa. É a Europa das proclamações e da política mediatizada que está em crise. Chegou a hora da política dura e crua porque o problema da Europa é político.

Um sino muito popular...





Um sino nas mãos do povo! É assim que o Presidente da Câmara entende que o problema das badaladas do sino do alto da torre da Câmara Municipal de Benavente deve ser resolvido. Há momentos em que a sabedoria popular é boa conselheira, o povo decidirá pelo melhor...

Reunião muito satisfatória? - II

Em Cannes, terra de apresentação de fitas e de exibição de fiteiros, os líderes do G20 declaram que foi um "encontro histórico" e que se deram "muitos passos em frente". Declarações como estas começam a ser risíveis.

Reunião muito satisfatória? Acautelem-se...

1.O Presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP) mostrou-se ontem muito satisfeito com os resultados de uma reunião realizada com o Governo para discutir questões financeiras dos Municípios, nomeadamente a questão do limite legal ao seu endividamento.
2.Pela parte que me toca, interpreto essa satisfação como um (muito) mau sinal, pois tenho a noção de que existe uma correlação fortemente negativa entre o grau de satisfação dessas entidades e os interesses dos contribuintes indefesos entre os quais me incluo...
3.Quanto ao endividamento dos Municípios e das suas queridíssimas empresas municipais, quanto mais depressa for reduzido melhor...mas creio que nesse capítulo receio que tenha havido um recuo em relação aos (louváveis) propósitos do Governo em reduzir drasticamente esse limite, dos actuais 125% para 62,5% do somatório de um conjunto de receitas anuais arrecadadas pelos ou transferidas para os municípios...
4.Não percebi bem as declarações produzidas pelo responsável governamental do pelouro, segundo o qual terá sido negociada uma espécie de compromisso, com recuo no método de aplicação da redução do limite legal mas sem recuo quanto ao objectivo da redução - convenhamos que isto é demasiadamente complexo para o cidadão comum interpretar...
5.Se essa solução compromissória consistir por hipótese num regime transitório em que o limite legal é reduzido desde já mas é dado às autarquias, que o excedam neste momento, um período para se ajustarem às novas regras, “ainda vá que não vá”...
6.Mas se essa solução compromissória significar que tudo fica na mesma, então o contribuinte indefeso que assina este Post começa a ter renovadas razões para se sentir preocupado...acautelem-se...

"Filão"?

Nos últimos dias tem havido uma chuva de notícias sobre a assinatura de contratos de concessão por parte do Estado para a exploração de minério, designadamente ouro, ferro e volfrâmio. A informação é muito difusa com o Ministério da Economia a realizar cerimónias de assinatura de contratos debaixo das câmaras de televisão e a fazer saber que tem mais contratos para assinar e que existem dezenas de pedidos junto da Direcção Geral de Energia e Geologia para a prospecção e pesquisa de minérios metálicos. Às tantas ainda nos convencemos que descobrimos um “filão”.
As reservas de minério nacionais - segundo dados do Laboratório Nacional de Energia e Geologia valem o equivalente a um PIB - passaram a estar na rota de algumas das maiores multinacionais do sector devido ao aumento do consumo e à subida do seu preço a nível mundial, designadamente o ouro que acumula onze anos de ganhos consecutivos e este ano já valorizou 24%.
A criação de condições para a prospecção e exploração destas reservas deve ser inserida numa preocupação mais vasta da exploração dos nossos recursos naturais. Já muito foi dito e redito sobre a importância para a nossa economia de aproveitarmos os recursos naturais de que dispomos, desde os recursos do mar, passando pelos recursos da floresta até aos recursos agrícolas. Seria importante percebermos como pretende o governo colocar os recursos naturais ao serviço de uma estratégia de desenvolvimento e crescimento. Não se trata apenas de assinar e anunciar contratos de concessão “milionários” de exploração - que esperemos defendam os interesses do Estado - mas de saber como pretendemos internamente acrescentar valor a esta actividade. Num momento em que as más notícias se multiplicam ao minuto, as boas notícias por serem raras merecem ser devidamente explicadas e informadas...

Polio

As doenças são, frequentemente, fontes de dramas coletivos e pessoais, mas algumas já não têm justificação para tal, deveriam estar controladas ou mesmo erradicadas. E não estão porquê? Por culpa dos homens que se entretêm com outras coisas, balançando-se entre o lucro e a luxúria, fazendo às vezes belas incursões no desconhecido, provando que são capazes do mais belo e puro em contraste com o quotidiano do burlesco e a afronta aos seus semelhantes.
Em pequeno vivi, ou melhor, senti que muitos pais andavam preocupados por causa da poliomielite que grassava, matava e, num número significativo dos casos, invalidava, transformando belas e ágeis crianças em seres meio paralíticos. Mas já havia vacinas e as campanhas começavam a dar resultados. Um dia mandaram-me à vacina, e fui, desta vez sem receio da maldita "caneta contra a varíola" que provocava lesões na pele nada agradáveis. Sentir a pele a rasgar-se e a fazer sangue seguidos de dias de infeção e de dores não era pêra doce. Fazer a vacina contra a polio era divertido, apenas umas gotas avermelhadas que nos enfiavam na boca acompanhadas de um torrão de açúcar. Adorava os torrões e não me importava de ser vacinado vezes sem conta. Que maravilha, vacinas açucaradas! Só mais tarde é que compreendi o alcance da vacinação e, neste caso concreto, da vacina contra a poliomielite. Ver crianças e adolescentes com armações de ferro nas pernas e terem de as arrastar como se fossem grilhões de prisioneiros era horrível somada à impossibilidade de correr e de brincar.
Um dia, na sequência de um curso de pós graduação, deparo-me, casualmente, estar no preciso local onde Salk criou a primeira vacina contra a polio. Não me tinha apercebido. Confesso que fiquei um pouco emocionado por motivos óbvios, sobretudo pela simplicidade com que o acontecimento estava memorizado. Nesse dia tirei parte da tarde para refletir sobre tão grande descoberta. Soube-me bem.
Na primeira metade do século XX esta doença provocou enormes estragos, sobretudo em crianças, quase sempre nos povos que tinham entrado em franco desenvolvimento, fazendo com que as crianças deixassem de ter, nos primeiros anos de vida, contactos íntimos com a natureza, evitando aquilo a que se pode chamar vacinação natural. Quando entravam em contacto com os vírus da polio, não tinham qualquer imunidade e a infeção tornava-se maligna, por vezes mortal. As epidemias eram uma constante com todas as atribulações de responsabilização a denotar medo, ignorância e preconceitos.
Abro o livro de Philip Roth, Nemésis, e verifico que a narrativa se processa dentro e em redor da poliomielite no final da segunda grande guerra. Não foi há muito tempo, as testemunhas dos eventos paralisantes de então andam por aí, são fáceis de testemunhar. Li-o de fio a pavio. As personagens são do outro lado do oceano, mas bem podiam ser do lado de cá. As preocupações e as dúvidas do senhor Cantor deverão ser as mesmas de qualquer um de nós, protagonista ou não da doença.
Dez anos depois desta narrativa, a notável descoberta de Salk, e em seguida a de Sabin, transformaram o mundo, protegendo e defendendo sobretudo as crianças, impedindo-as de serem sacrificadas por um vírus em nome de algo que muitos de nós não entende.
A partir de então perspectivou-se a sua erradicação à escala planetária à semelhança da varíola, a primeira a ser eliminada da planeta Terra. Infelizmente não se conseguiu, apesar da elevada eficácia da vacina e da própria disseminação do vírus modificado na natureza. Motivos de natureza política e religiosa impediram que as crianças de certos países africanos deixassem de ser vacinadas. O islamismo tem destas coisas, vacinas vindas do ocidente são para desconfiar, o diabo para eles deve viver nesta parte do mundo e pode entrar no corpo através de pequenas gotas avermelhadas. Os factos apontam para situações alarmantes em África, o que é lamentável, para não dizer obsceno.
Leio que um caso poliomielite ocorreu em Angola atingindo um bebé de quatorze meses. Foi decretado o estado de emergência sanitária. Outros casos têm vindo a ocorrer noutros países da África Central nos últimos anos. Julgavam que estava erradicada. Imagino o que poderá acontecer a esta criança se as coisas não correrem bem, provavelmente não irá brincar nem jogar como qualquer outra. Ninguém se vai importar com este caso ou outros semelhantes, mas Salk, Sabin e todos os que com ele lutaram e pugnaram na luta contra esta doença não deverão perdoar aos que mandam neste mundo, eles que nos deram uma das mais belas e preciosas jóias, testemunho do afeto e respeito pela vida dos humanos.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O EURO, esse desconhecido...

1.Alexis Carrel escreveu e publicou em 1935 um dos mais famosos ensaios sobre a natureza humana, intitulado “O Homem, esse desconhecido”...deixando a mensagem de que os homens, apesar do avanço da ciência e da tecnologia, mostravam muita dificuldade em conhecerem-se a si próprios...
2.Numa comparação caricatural, elidível certamente, poderá dizer-se que os Europeus criaram o EURO sem muitos deles terem a menor ideia e outros tantos terem uma ideia muito vaga da espécie de criatura que estavam criando...
3.Ainda hoje, volvidos mais de 12 anos sobre a sua paridura, subsiste um notabilíssimo desconhecimento quanto ao papel desta estranha moeda e sobretudo das regras de jogo que a sua utilização exigia fossem cumpridas para que se transformasse um benefício para a generalidade dos utilizadores...
4.Basta atentar na grande maioria dos comentários que são produzidos entre nós acerca da natureza da crise grega e das soluções (?) para a ultrapassar, para se concluir que a ilusão acerca do problema que a Zona Euro deixou criar é muito grande, não menor provavelmente do que a ilusão sobre as virtualidades do EURO na época em que foi criado...
5.Quando se admite que a solução é persistir nas políticas que nos conduziram ao estado de coisas com que estamos defrontados – ainda que sob uma roupagem oratória adaptada aos novos tempos, não deixando de reconhecer a necessidade de medidas correctoras mas rejeitando sempre as que são efectivamente propostas e alvitrando em contrapartida “soluções globais” e favoráveis ao “crescimento” – é evidente que nunca mais será resolvido o problema que tornou impossível a convivência pacífica com o EURO...
6.Ao afirmar-se o primado da política para a solução de um problema que, não deixando de ser político, é na sua génese um problema económico e financeiro – resultante, como afirmei em anterior Post, de opções erradíssimas de política económica acumuladas ao longo de mais de 10 anos, geradoras de desequilíbrios insustentáveis entre economias participantes de uma mesma zona monetária – está-se, consciente ou inconscientemente, a criar o “caldinho” adequado para que a crise se eternize e se transforme num pesadelo de consequências irreparáveis...
7.Pela observação que tenho feito da realidade nacional, quando, muito em síntese:
(i)Ouvi em 2000 um altíssimo responsável da política económica afirmar publicamente a irrelevância da balança externa corrente para uma região de uma união monetária como é actualmente Portugal, comparando-nos, nesse particular, ao Mississipi;
(ii)Ouvi em 2004 um aparte de um destacado deputado da oposição, dizendo que “isto é um um discurso do passado”, em reacção a uma intervenção que produzi na AR chamando a atenção para os altos riscos da persistência dos desequilíbrios da economia e do seu consequente endividamento;
(iii)Ouço agora apelar ao primado da política para resolver, através de soluções globais desconhecidas, rejeitando as soluções concretas que são propostas, um problema que na sua essência é económico e financeiro...
8....Começo mesmo a convencer-me de que o problema que criamos não tem porventura solução e que o EURO continua e continuará a ser, para uma fortíssima maioria dos nossos concidadãos, “esse desconhecido”...

De repente, a imprevisibilidade

É claro que a política é imprevisível, se fosse previsível seria tudo muito fácil e bastaria um grupo de burocratas de carreira bem treinados para gerir os destinos do mundo conforme cartilhas em power points. Também é óbvio que a grande habilidade está em prever, na medida do possível, os factores que poderão interferir no que se planeia como o curso normal dos acontecimentos, de modo a impedir que ocorram ou que, ocorrendo, haja formas inteligentes de os enfrentar, readaptando os planos e as acções. O que parece absurdo é que se abra a boca de espanto perante uma reviravolta da política e se fique muito contrariado quando aos factos novos se seguem as reacções imprevistas. Os desenvolvimentos na Grécia são um bom exemplo de como os habituais comentadores de jornais e até mesmo os principais decisores políticos se tinham esquecido, espantosamente, da imprevisibilidade na política. Ou da política, simplesmente. Andaram meses e meses a ameaçar a Grécia com a saída do euro, a sacudir dos respectivos capotes a “responsabilidade”, imagine-se! da admissão do país no euro. Essa dúvida angustiosa que os grandes europeus deixavam entender com todas as letras – mandamos ou não sair esses estranhos gregos pela porta dos fundos dos maus pagadores? – ocupando-se abundantemente dos problemas “técnicos” que tal implicaria, foi finalmente entendida como um ponto a esclarecer. Querem ou não os gregos ficar no euro desafiando a vontade mal escondida de correr com eles? E esta simples assunção do problema é considerado um escândalo totalmente fora de cogitação. Ou seja, a Europa pode equacionar a expulsão dos gregos, mas ai dos gregos se levam a sério essa ameaça e tratam de pensar, eles próprios, se têm ou não condições para prosseguir. Estão a suicidar-se? Se estão, não se percebe que os ameaçassem de morte. Estão a criar um inesperado problema à Europa, confrontando-a com todas as consequências de uma eventual “saída” do clube sem que o País limpe antes as suas dívidas? Estarão, sem dúvida, mas se a Europa acha um drama a saída dos gregos porque é que antes os ameaçava? O triste espectáculo que a Europa está a dar ao mundo não se resolve com a amputação da Grécia ao conjunto dos dantes-ricos, mesmo que pareça, a curto prazo, que sim. Porque, em política, o que conta é o modo como se reage ao imprevisto, não o modo como se varrem, cobardemente, os problemas para debaixo da mesa. É que essa realidade incómoda chamada “povos”, anónima mas muito real, para o bem e para o mal, existe. E, se a ignorarem, é tudo menos previsível.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Só em Portugal!

A EDP enviou-me uma simpática carta com os pagamentos que terei de efetuar nos próximos dozes meses, por causa do aumento do IVA. Resultado, vou ter de pagar uma razoável fatia, que, ao fim de um ano, não vai ser nada pequena. Ainda tentei ver se havia uma carta dos produtores e fazedores de bebidas alcoólicas a felicitarem-me por poder continuar a desfrutar o IVA a 13%, mas não. E se trocassem as taxas de IVA? Ah, pois é, davam cabo da economia nacional. Um bocado, talvez, mas poupavam nos fígados, nas monas, nos acidentes, na violência doméstica, mas a rapaziada do vinho tem muita força. Lembram-se do tempo do Guterres? Quis baixar o limite da alcoolemia, mas o decreto-lei acabou por ser revogado. Só em Portugal!

O DRA(C)MA da Grécia...

1.O Presidente francês declarou na semana passada que a Grécia nunca deveria ter aderido ao Euro, que a adesão foi um erro do próprio País e dos demais países participantes...
2.Convém recordar que a Grécia não fez parte do 1º pelotão do Euro, de Junho de 1999, só entrou um ano mais tarde, pelo facto de na altura da fundação da zona Euro não cumprir integralmente os critérios de admissão (inflação, taxas de juro, taxa de câmbio)...já então havia sinais de que nem tudo estava bem...
3.À luz do que hoje se sabe, a declaração de Sarkozy constitui uma daquelas verdades “lapalissianas” em que os políticos são férteis, pese embora o facto de tal declaração não ser 100% enquadrável no conceito do politicamente correcto...
4.Acrescentarei que o equívoco não foi apenas a adesão foram também e sobretudo as opções de política económica que acompanharam e se seguiram à instituição do Euro, em tudo contrárias ao que seria exigido pela participação numa zona monetária de moeda forte...
5.Essas erradíssimas opções de política, durante uma longa década, foram responsabilidade em 1ª mão dos políticos nacionais que as assumiram e promoveram, mas também são imputáveis aos líderes dos demais países participantes e europeus (Romano Prodi em especial, neste caso), à data da adesão e nos anos subsequentes,os quais fecharam os olhos à situação e fiaram-se na sorte, num domínio onde esse tipo de confiança é absolutamente vedado...
6.Pior ainda, foram aceitando, de forma tranquila e complacente, toda a sorte de informações falsificadas sobre as contas públicas, ignorando os claríssimos sinais que os desequilíbrios externos de economias como a grega e portuguesa transmitiam no sentido de que a situação/evolução económica e financeira desses países era insustentável...
7.Agora estamos como estamos, os gregos não sabem o que hão-de fazer, voltam-se para um referendo como se de uma “varinha mágica” se tratasse, para ver se encontram uma saída política que lhes permita sobreviver na zona monetária em que escolheram participar numa hora de escassíssima inspiração...
8.Afinal, como diz Monsieur Sarkozy, os gregos nunca deveriam ter abandonado o DRACMA, se o tivessem feito não estariam a viver o DRA(C)MA em que estão mergulhados...
9.Entre nós as coisas não se passaram de forma muito diferente, apesar de não termos conseguido errar tanto como os gregos – sem prejuízo de se reconhecer a excepcional boa vontade da generalidade dos governantes do período em análise em nos conduzir para o precipício, nomeadamente nos últimos 6 anos - por isso também estamos a precisar de um bom ESCUDO que nos proteja da crise...

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Ficar grego em Chipre

Os ciclos da vida, ou como se fica grego em Chipre!...

Não é agradável ficar grego. Sobretudo a quem não está habituado!...Ou a quem está mal habituado...

Mas ciclos melhores e mais azuis tornarão a vir.

Entre a espada e a parede, o referendo grego

A Grécia gritou ao mundo que se sente entre a espada e a parede. O 1º Ministro escolheu a espada e com essa arriscada jogada política, de certo modo recolocou o problema no centro da política pura e dura, deslocando-a dos mapas orçamentais e das contabilidades da dívida. Ninguém queria ver o problema politico que engrossava como uma maré cheia. Havia já sinais muito visíveis das enormes dificuldades dos governo grego em continuar a aplicar medidas de austeridade umas atrás das outras, não serve de nada a “Europa” ditar ordens se internamente não há condições para as cumprir, insistindo em fazer leis que as pessoas pura e simplesmente se sentem incapazes de cumprir. Há dias, quando uma troika qualquer se instalou em Atenas para vigiar de perto a execução do “2º pacote”, muitos gregos sentiram-se “ocupados”, foi esta a palavra que usaram, uma ocupação. E isso, para os gregos, é intolerável, o governo ficou desautorizado e acabou a linha. Anunciou um referendo que deixou a Europa à beira de um ataque de nervos, todos pedem “soluções” mas esta é a solução que os gregos encontraram para evitar provavelmente um golpe de estado, aí está também, hoje mesmo, a demissão de todas as chefias militares. O problema económico e financeiro não se resolve à margem da politica, muito menos em democracia, há tempos de adaptação dos povos para, em tempo de paz, responderem ao que sentem ser uma agressão ao modo de vida que acreditaram que podiam ter. Quando, há dias, o Presidente francês e a Chanceler alemã deram um ultimatum público a Berlusconi para acelerar as medidas de austeridade, tiveram uma resposta torta, que a Itália sabia muito bem o que devia fazer. O Presidente francês, vindo da cimeira, fez um discurso aos franceses em que garantiu que os seus direitos estavam assegurados, que não ia beliscar o maravilhosos estado social, etc, etc. Cada um acalma como pode as tensões internas que se prevêem. Papandreu não podia ter feito isto? Mas fez. E talvez tenha impedido um golpe de estado, que seria ainda muito pior. Ele reconhece que já não pode fazer mais nada, que ou o apoiam interna e externamente ou o problema vai ser muito maior. E não será só económico, nem de dívida, o que já era bastante. O problema é profundamente político e provavelmente veremos muito em breve o que é que isso quer dizer. Para o bem ou para o mal.

Por uma boa causa!

Abro o jornal e deixo-me levar imediatamente pela reportagem. Deixei de lado as notícias mais gordas e importantes, como as referentes à crise, à austeridade governamental, à violência, ao desemprego, à deficiência da justiça e outras coisas com que diariamente sou bombardeado, e centrei-me numa indústria de vigarices que tem como objetivo explorar os mais idosos levando-os a comprar o que não querem e o que não necessitam graças a técnicas de vendas muito agressivas. Fazem excursões, para encobrir os propósitos, e acabam num qualquer hotel a serem massacrados, quase sempre em redor da saúde que, como é fácil de compreender, não deve abundar neste grupo etário. Nalguns casos mergulham os pés numa bacia cujo líquido muda de cor ao fim de algum tempo e de acordo com a cor sabem qual é a doença. Depois compram os aparelhos, os colchões e outras coisas empobrecendo o pessoal. As autoridades sabem muito bem o que está acontecer, envolvendo milhares de vítimas, mas não podem fazer nada, só através de queixas. Os gajos, que são perfeitos vigaristas, sabem da poda e continuam nas suas atividades, mudando periodicamente de empresa, quando as chatices começam a incomodar.
A vigarice é de facto uma indústria em crescendo e com substrato legal. A ASAE ou qualquer entidade equivalente só atuam quando recebem as queixas. Entretanto, os crédulos acabam por fazer contratos que os espoliam até dizer chega. Uma vergonha, uma falta de pudor que brada aos céus.
Como dizem para os meus lados, "só à porrada"! Ponho-me a pensar se não será uma boa solução. Um dia destes, os vigaristas que andam por aí, aos magotes, ainda vão saber com quantos paus se faz uma canoa. Eu estou com vontade de dar um pequeno contributo, para o efeito já tenho à mão um velho varapau que serviu de arma de defesa em tempos idos, está cheio de marcas, mas está para as curvas e não se deve importar de ficar com mais algumas, é por uma boa causa!

Nicarágua...

Estamos sempre a aprender e a ver tragédias pelo mundo fora, algumas são incompreensíveis e até anti-humanas, agravadas por terem cobertura legal. Dar cobertura legal a crimes contra os direitos e interesses superiores de um ser humano é uma manifestação diabólica.
Na Nicarágua, uma menina de doze anos foi violada e engravidou. Presentemente está grávida de 36 semanas e mal, segundo dizem, num processo avançado de sepsis. A lei (?) naquele país proíbe o abortamento terapêutico. Como é fácil de compreender as leis em certos países não são a expressão da vontade das populações nem de princípios respeitadores da dignidade humana, mas sim a imposição de vontades e interesses religiosos.
Não posso deixar de manifestar o meu desagrado e repulsa por todos os que contribuíram por atentarem contra a dignidade de uma criança.