Número total de visualizações de página

domingo, 13 de novembro de 2011

Doença, violência e democracia


A situação atual é muito preocupante a todos os níveis. Na saúde as coisas complicam-se e vão continuar a piorar, por motivos mais do que evidentes, a saúde é cara, gasta-se muito, por vezes muito mal, as necessidades aumentam, as comparticipações diminuem, dificulta-se o acesso aos cuidados e, por fim, aumentam a prevalência e a incidência de muitas doenças. 
Um país com graves desigualdades socioeconómicas sofre mais doenças. Entre nós começa a ser obsceno o crescendo do fosso que separa os mais ricos dos mais pobres. 
Para lutar contra a estagnação e promover o desenvolvimento são precisas diversas iniciativas e inteligência. Mas, há sempre um mas nestas coisas, os países predispostos a sofrerem mais doenças têm níveis de quociente de inteligência mais baixos como se o "quantum de energia fosse consumido para combater as infeções". 
Nos países mais suscetíveis a doenças parasitárias e a infeções muita da energia nacional é canalizada para as combater em detrimento da "promoção" do cérebro. 
Estamos perante a hipótese "stress-parasita" para explicar a distribuição da inteligência a nível mundial. 
Mas esta hipótese pode estender-se a outras situações e doenças. As doenças apresentam um efeito "stress-parasita" nas sociedades humanas. As pessoas nas regiões mais doentes têm tendência a serem mais xenófobas e preferem associar-se em grupos optando por valores conservadores e governos autocráticos, ao passo que os países com baixas taxas de prevalência de doenças tendem a ser mais individualistas e democráticos. A par destes achados, a própria violência tem a ver com a doença, havendo uma correlação positiva mesmo depois de ajustada em função das desigualdades socioeconómicas, fator per si muito importante. 
Pobreza gera doença, desigualdade gera doença, doença gera violência, doença gera xenofobia, doença gera ultraconservadorismo, doença gera baixos níveis de quociente de inteligência e, para mim, qualquer política de saúde que não combata eficazmente a doença e a previna contribui para a degradação da segurança, da democracia e do desenvolvimento social e económico de um país.
Com base nas notícias e nas dificuldades acrescidas de muitos portugueses, que se queixam do acesso aos cuidados de saúde, aos tratamentos e dos custos crescentes, somados aos efeitos perversos da crise no aparecimento de patologias, então, não é de descurar que o país possa correr riscos em termos de violência e de regime.
Não são só os problemas económicos e ideológicos que estão em causa, é preciso tomar em linha de conta as doenças dos portugueses que, através do efeito "stress-parasita", podem comprometer o sair da crise. E os portugueses estão a ficar muito doentes...

1 comentário:

Suzana Toscano disse...

Levo muito a sério as suas palavras e os seus receios, caro Prof. Massano. As pessoas confiaram que poderiam viver bem, ao menos melhor do que tinham vivido os seus pais, sairam dos campos para a cidade,puseram os filhos a estudar com sacrifíci, compraram casas a crédito, confiadas no progresso que lhes traria mais dinheiro, deixaram de suportar com resignação a doença, os defeitos físicos, as incapacidades que seriam naturais mas podiam ser corrigidas. Descontaram para a reforma epara a segurança social, todos os meses viam esses descontos na factura, e deixaram de poupar porque tinham direito a viver, a reforma seria decente e a velhice protegida. Hoje, como diz, sentem-se desamparadas, desiludidas e,como diz, doentes. Li há muito tempo uma frase de um escritor célebre (não me lembro qual) que dizia que "o pior na desgraça é já ter sido feliz". Talvez porque a esperança é negativa, as pessoas já só lutam por não perder tanto, em vez de lutarem por ter mais, como foram incentivadas durante décadas e décadas.