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terça-feira, 15 de novembro de 2011

Democracia e mesa farta?

Em tempo de guerra não se limpam armas, diz o povo, e confirma-se. Também diz, e reconhece, que quem paga, manda, apesar dos calafrios escandalizados que essa frase causou quando proferida no Parlamento, há uma eternidade de pouco mais de um ano.

Leio nos jornais que as pessoas celebram nas ruas a saída de Berlusconi e vejo os jornais a aplaudir a nomeação do sucessor, dispensando-se as eleições antecipadas para não se “criar um vazio” que a urgência da situação financeira desaconselha em absoluto. De entre as inúmeras qualidades do agora nomeado, o Presidente da República italiana entendeu por bem incluir a de nunca ter andado metido nas confusões da política partidária. Na Grécia, o novo Primeiro Ministro intercalar beneficia de grande popularidade nas sondagens e o espectro das eleições está remetido lá para o ano que vem, se tudo correr como previsto. Por cá, ainda há poucos meses atrás, muitos criticaram e temeram a ousadia de convocação de eleições e dos riscos enormes de “desagradar” aos mercados com tanta demora, e não foram poucos os ralhetes que levámos fora de fronteiras. Os mercados, ou seja lá quem for, têm pressa, os exercícios democráticos são um luxo de perda de tempo e, por enquanto, ainda vai havendo personalidades corajosas e dispostas a pôr os seus talentos e o seu prestígio ao serviço do estado desesperado da urgência dos seus países para manterem acesso ao crédito. Quanto tempo resistirão sem a legitimidade de um voto nas urnas? A quanta mais austeridade sobreviverá a unidade nacional decretada? Podemos facilmente adivinhar que essa é uma questão que se vai tornar cada vez mais insignificante. Se, como se deseja, os novos responsáveis se saírem bem da sua árdua missão, fica provado que devem continuar. Se não, então ainda será pior convocar eleições, se ainda servirem para alguma coisa nesse contexto. O que é curioso é lembrarmo-nos do discurso de Barroso a propósito das Primaveras árabes, dos seus votos de rápida instalação da democracia, das esperanças ardentes na Líbia finalmente no bom caminho da livre expressão do povo e, já agora, das múltiplas missões de “observadores” europeus às eleições ditas livres em países africanos que são tudo menos prósperos e organizados.
Mas isso era no tempo em que democracia era sinónimo de via única para o desenvolvimento. Será que a democracia europeia e os seus sistemas partidários só resistem quando sentados à mesa farta do crescimento económico?

7 comentários:

Anónimo disse...

Cara Suzana, dependendo do contexto (não universalizo dado parecer-me que depende da cultura específica) subscrevo pela afirmativa a interrogação constante do seu último parágrafo. Sim, acho que em muitos países e sociedades a democracia apenas é possivel quando há crescimento económico... E por corolário, quando em crise severa torna-se indispensavel um período sem ela para retomar o rumo do progresso.

Anónimo disse...

Quem diria que elementares momentos da democracia iriam sucumbir à economia. E logo na Europa.

AF disse...

Nem todos os políticos são maus, nem todos os economistas são bons.
Parece-me haver uma coincidência muito grande nestas recentes "nomeações"; se calhar não é coincidência.
- Eurozone Crisis: The Hidden Hand of Goldman Sachs

Peço desculpa se pareço demasiado "conspirativo". Não é essa a intenção, e por isso mesmo seleccionei esse artigo, que me pareceu ser "insuspeito" e pouco ligado a essas coisas. Havia toneladas de outros links que poderia ter colocado! Aliás, reparem que já nem é preciso apelar prás teorias da conspiração: as teorias saem à rua de pin ao peito!
- Europe’s hit squad

Anónimo disse...

Caro Ferreira de Almeida, ser na Europa que a democracia é posta em causa não é nada de extraordinário. A história é cíclica, caro Amigo.

Pelo contrário, o que digo é que os iluminados (sarcasmo ao máximo) que criaram esta União Europeia, esta integração europeia contra-natura e esta moeda única aberrante, sabem muito pouco de história. Para não dizer nada, enfim.

JotaC disse...

Há sempre o perigo do provisório passar a definitivo...

Quando passamos grande parte das nossas vidas a justificar a pobreza económica e social dos países pela falta de democracia, não deixa de ser estranho agora que a conseguimos, aceitarmos como "normal" suspendê-la para nos desenvolvermos...

Pinho Cardão disse...

Caro AF:
Nem todos os economistas são bons, diz o meu amigo. Frase muito optimista. Sobretudo em Portugal, em que grande parte dos "grandes economistas", aqueles professores que são conhecidos, mediáticos e todos os dias botam opinião, são mesmo muito maus. Foram eles que, ao longo dos tempos, sempre foram dando suporte académico às desastradas políticas governamentais dos colossais défices, da colossal despesa pública, da colossal carga fiscal e do colossal endividamento.
E continuam a ser professores doutores. Economista eu sou, micro e da micro, que sustentou todas as asneiras da macro. Até não mais poder, como está a acontecer.

Suzana Toscano disse...

Caro Zuricher, compreende-se facilmente que em tempos de abundância, ou de perspectivas de crescimento, seja relativamente fácil discutir as várias formas de distribuir a riqueza. Já em tempos de empobrecimento, o processo inverso de dividir os males pelas aldeias é muito mais exigente. mas, precisamente, deveria ser essa a situação em que a capacidade de decidir deveria ser partilhada por todos de forma exigente, a democracia seria então ainda mais importante para garantia que arbitrariedades e injustiças se confrontariam com o crivo da posição da maioria livremente expressa. O que se vê hoje é, por isso, uma grande desilusão para os que, como eu, acreditavam que era possível responder a essa exigência mantendo os princípios de acção.
Caro Ferreira de Almeida, é isso mesmo, quem diria que esta construção que arrogantemente quisemos recomendar fortemente a outros afinal era tão descartável.
Caro jotac, esse é o grande perigo, considerarmos que a democracia já não é pressuposto de coisa nenhuma mas apenas um atavio de quem se pode dar a esses luxos e apenas enquanto pode.
Caro AF, os economistas bem merecem as críticas que lhes fazem, como bem diz aqui o Pinho Cardão.Armaram-se em aprendizes de feiticeiros, consideraram muitos deles que saber economia (?) dispensava outros saberes, mas tiveram, muitos deles, até os mais influentes, o cuidado de deixar os espinhos para os políticos, continuando agora muito inocentemente a dar sentenças como se não tivessem nunca dito e insistido no contrário do que agora recomendam.