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segunda-feira, 16 de maio de 2005

A suspeição

Leio os jornais e vem-me à memória uma história contada por Gabriel Garcia Marquez no seu livro “Viver para contá-la”.
Conta ele que numa pequena aldeia pacífica começaram a aparecer cartas anónimas denunciando a vida de uns e de outros. O dia seguinte, portador de novas cartas, era temido, e a pouco e pouco todos começaram a desconfiar de todos. Qualquer gesto, qualquer frase, era considerada uma ameaça e deixou de haver amigos, vizinhos ou irmãos. Todos eram inimigos de todos, de lado algum podia vir o bem ou um gesto amigo, tudo era colocado sob suspeita. As ruas começaram a ficar desertas, as janelas fechavam-se aos olhares indiscretos, a vida tornou-se uma pesadelo. Todos eram vigilantes de todos, todos eram vítimas de todos.
A voracidade com que é tratada qualquer situação “suspeita” e o imediato turbilhão de comentários, dúvidas, ligações, começa a tornar-se uma espécie de psicose nacional que é em si francamente preocupante.
O objectivo é suspeitar, tirar a credibilidade, lançar a mancha sobre quem age ou decide, raramente é esclarecer ou contribuir para que os erros não se repitam – é o escândalo que interessa e, de preferência, que ninguém no futuro se atreva a decidir seja contra quem for. Adie, levante dúvidas, peça pareceres, vá empatando até que as coisas se decidam sozinhas. Geralmente, por desistência dos interessados. O pior é se nesse caso também se levanta a dúvida sobre tão longa demora - se o assunto era para recusar então porque é que não se pôs termo à questão em devido tempo?
Não sei se o caso que tem feito correr tanta tinta nos últimos dias tem ou não qualquer fundamento, nem nada do que li me leva a qualquer conclusão que me habilite a falar sobre ele.
Fica-me, no entanto, a ideia geral de que, no limite, todos os actos praticados por um Governo (pelo menos os de gestão) devem ser especialmente sindicados sobre as suas eventuais motivações ocultas e que todos os dias vão aparecer mais duas ou três situações que alimentem esta espécie de desporto nacional. Como o “caso” descrito numa coluna inteira do “Público” de 6ª feira, sob o título “Reestruturação retirou processo da Portucale das mãos de técnica” que deixa a desejável aura de mistério sobre o facto de “uma técnica que há mais de dez anos dava sucessivos pareceres negativos sobre o abate dos sobreiros” e que deixou de ter competência nessa matéria na sequência da nova lei orgânica do Ministério da Agricultura...Eu sei que se fazem leis orgânicas com demasiada frequência, mas uma nova lei orgânica de um Ministério para afastar técnicos dos processos que se arrastam anos e anos é no mínimo um exagero!

domingo, 15 de maio de 2005

Bento de Núrsia II (continuação)

Como consequência do lema “um mosteiro sem biblioteca é como um castelo sem armas”, nos mosteiros beneditinos foram-se acumulando, Idade Média fora, enormes bibliotecas; foi aliás deste saber assim preservado que, mais tarde, surgiram as Universidades ligadas às Escolas das Catedrais ou de Mosteiros.
Por isso, S. Bento é considerado o Santo Protector da Europa.
Bento de Núrsia também era pela descentralização: ao contrário de outras Ordens Religiosas, não havia uma autoridade central ou um superior geral, pelo que cada mosteiro era autónomo.
Há muitos aspectos curiosos da Regra Beneditina. Foi ela que proporcionou o mais antigo documento de planeamento urbano do Ocidente (ano 820), em que os edifícios comunitários são concebidos de uma forma integrada, com enfermaria, hospedaria, cozinhas, padaria, latrinas, oficinas, habitação, estábulos e até cemitério…
Mas, pelo que averiguei, nos mosteiros nem tudo era um mar de rosas, pois havia sérias proibições: nos mosteiros eram severamente proibidos os mexericos e as anedotas!...
Segundo os biógrafos,a vida de Bento paasou por momentos difíceis, sendo alvo de muitas tentações. Não resisto a reproduzir uma delas:” o espírito maligno fez-lhe trazer à ideia uma mulher linda que um dia tinha conhecido e, sem dar por isso, começou a ficar preso pelas emoções de tal imagem…Quase vencido na luta, estava a ponto de abandonar o seu isolamento, quando, de repente, com a ajuda de Deus, voltou a si. Para vencer a tentação, despiu-se e atirou-se para cima de uma moita de silvas e urtigas e nela se rebolou até ficar com o corpo todo dorido e coberto de sangue. Uma vez vencido o prazer pelo sofrimento, a sua pele dilacerada e sangrenta serviu para expelir do corpo o veneno da tentação”. Dizem os seus biógrafos que nunca mais teve semelhante tentação!...
Pudera, digo eu!...
Têm os meus amigos a receita para aconselhar a algumas pessoas que bem conhecem!...

Agir de acordo com a consciência

Na sequência da morte do Papa João Paulo II foram tecidas muitas opiniões, construídas interessantes entrevistas, divulgados calorosos pensamentos e efectuados posicionamentos estratégicos. A fé é algo de muito íntimo e dificilmente susceptível de discussão. O mesmo não se passa com os argumentos através dos quais se pretende saber o que é o melhor ou o pior para as comunidades. A este propósito, o ilustre professor de medicina Walter Oswald, numa entrevista ao Notícias Médicas, sobre a realização do referendo que pode abrir as portas à despenalização do aborto, deixa o seguinte conselho “Independentemente de qualquer lei, as pessoas devem agir de acordo com a sua consciência. Há leis más, iníquas. Aquilo que aconteceu na Alemanha nazi não foi ilegal”.
Estou de acordo com a primeira parte – as pessoas devem agir de acordo com a sua consciência. A tentativa de demonstrar a iniquidade das leis com o exemplo nazi, parece-me absurdo e até perigoso. Do mesmo modo, considerar as experiências, em determinadas circunstâncias, das células embrionárias ao Holocausto é igualmente desproporcionado. Será que no futuro as leis de estados soberanos terão de ser submetidas à apreciação dos responsáveis máximos da Igreja Católica a fim de saber se estão de acordo com a vontade de Deus e só depois é que poderão ser promulgadas? Pressinto qualquer coisa no ar que se assemelha a teocracia…

Áreas Protegidas - VI - Parque Natural da Ria Formosa



Ao sul, no coração do Algarve, são 18.400 ha de uma área protegida que abrange partes dos concelhos de Faro, Loulé, Olhão, Tavira e Vila Real de Santo António. Constitui uma das zonas mais importante dos ponto de vista da guarda de património genético, uma zona húmida de importância internacional como tal inscrita como sítio da Convenção de Ramsar, Zona de Protecção Especial para aves selvagens e sitio de Rede Natura 2000.
Vulnerável a muitas pressões, designadamente urbanística em áreas de enorme sensibilidade mas também instabilidade, não tem logrado obter, designadamente dos autarcas, a atenção que merece como aqui já uma vez assinalei.
O Parque Natural é mutifacetado, um verdadeiro mosaico de habitats: mar, ria, sapais, dunas, áreas de pinhal, zonas agrícolas (em acelerada decadência...).
A ria, eventualmente o elemento mais importante, existirá enquanto se mantiver o frágil cordão de areia das ilhas barreira, sujeitas desde há muito à predação e ao esbulho inacreditavel e irresponsavelmente tolerados pelos poderes públicos.
O Parque Natural da Ria Formosa partilha com o Parque Natural de Doñana, ali ao lado, em Espanha, o papel de servir de sítio de arribação e habitat de espécies prioritárias da avifauna, com especial destaque para o caimão ou galinha-sultana, mascote do Parque, cujo stock foi possível recuperar da ameaça de desaparecimento no nosso País. Relevam outras espécies faunísticas, sendo relevante a investigação que ali se faz sobre alguns exemplares da ictiofauna característica.
O grande desafio que se põe à Formosa é hoje saber se é possível conjugar sustentavelmente as preocupações da defesa diversidade biológica que ali encontra singular abrigo, com actividades e práticas humanas de enorme intensidade, como é o caso de (algum) turismo.

Bento de Núrsia I

A escolha por parte do Cardeal Ratzinger do nome Bento XVI, suscitou-me a curiosidade de saber um pouco mais sobre S. Bento.
S. Bento e a Ordem Beneditina, que fundou, são apontados por muitos historiadores como sendo dos principais pilares do que hoje designamos por cultura e civilização ocidental.
Com efeito, foi graças aos mosteiros beneditinos que subsistiram e se preservaram as grandes obras bibliogáficas da antiguidade, nomeadamente grega e romana, berços da nossa cultura.
Sem os Beneditinos tal legado estaria para sempre perdido.
Nascido na Úmbria, a nordeste de Roma, no ano 480, de uma família muito rica, Bento de Núrsia foi estudar para Roma. Sentindo repulsa pelo esbanjamento e pela decadência a que assistiu, abandonou os estudos, a casa dos Pais e as propriedades e fez-se monge, fundando depois a Ordem Beneditina.
Para reger a sua Congregação, criou a denominada Regra Beneditina.
Nela está inscrita uma primeira ideia, a da tolerância e da luta contra a opressão, ao referir: “ vamos abrir uma escola para o serviço de Deus, em que esperamos que nada de agreste ou de opressor seja ensinado”.
Uma segunda ideia é a do respeito pelo homem: ao contrário do que era uso na época entre os monges, Bento de Núrsia não aprovava a autoflagelação, dado que “neste mundo, as penas existem em quantidade suficiente”.
Por isso, o ascetismo de Bento era muito moderado: até previa oito horas de sono ininterrupto, com “colchão, lençol, cobertor e travesseiro, bem como ”… dotação de calçado e roupa apropriada, em função do clima”.
Esta moderação foi uma revolução, à época, em que se experimentavam comportamentos algo exóticos para conquistar o céu. Nessa época, e por exemplo, S. Simeão viveu 39 anos em cima de estrado, em que só podia estar de pé ou sentado,ao sol e à chuva, ao frio e ao calor, colocado sobre uma coluna que chegou a atingir os 15 metros de altura, para melhor se entregar à meditação…e também para fugir dos seus veneradores…
Uma terceira ideia á a educação: o dia de um monge previa 4 horas de leitura, pelo que todos tinham que saber ler ou aprender.
Bento tinha mesmo um lema que dizia que “um mosteiro sem biblioteca é como um castelo sem armas”.
A continuar…

Critérios editoriais ou o perigo de ler só os títulos

Na última edição do caderno de economia do Expresso fui alertado para uma pequena notícia inserida na secção “Últimas” da primeira página: “Exportações crescem”. Imaginem a reacção optimista: “isto começa a recuperar!”. Só depois da leitura completa me inteirei da situação: exportações para países extra-comunitários crescem 6,6%, mas as respectivas importações cresceram 21,3%, agravando o deficit da balança comercial. Para chegar aos detalhes fui à página do INE, esforço que acabou por ser recompensado com duas constatações: o título é o mesmo, mas o agravamento do deficit comercial (-44,3%) foi omitido.
Dá para imaginar quais teriam sido os títulos possíveis há um ano atrás: “Deficit comercial afunda-se”, ou “Importações disparam”. Enfim, critérios editoriais.

sábado, 14 de maio de 2005

Ao que isto chegou...

É a Polícia que esclarece que o chefe do Governo não tem que se preocupar com as suspeitas propaladas pela comunicação social. Os casos não são, afinal, iguais!
Alguma coisa vai muito mal no reino.
Decorre uma investigação daquelas que, como se tornou hábito, está em segredo cuja quebra se continua a dizer que é crime. Envolve figuras da vida politica e partidária e fornece, com a regularidade calculada para render por muitas edições, pormenores, suspeitas, alvitres, pretensos factos, interpretações desses factos supostamente feitas por "fontes ligadas ao processo" ou por "fontes próximas da investigação". Para além de favorecimento ilegítimo de entidade privada, com o omnipresente betão, abates de sobreiros e suspeitas de financiamento partidário pelo meio, eis que surge o que também já quase todos esperavam. O contrabalanço. Ou seja, uma notícia envolvendo agora personalidades do outro lado.
A notícia picante do dia foi assim que o actual Primeiro-Ministro e um dos ministros deste Governo também estavam a ser sindicados pela polícia por terem eles autorizado o abate de sobreiros, desta feita em Setubal, quando ambos eram membros do último dos governos do Engº Guterres. Também em vésperas do fim do mandato. Também por despacho. Também por acharem que outros valores mais altos se alevantavam. E também, vejam lá!, por denuncia da Quercus - essa organização redentora, tão omnipresente quanto o betão e a PJ. Subliminarmente, dada a similitude das circunstâncias de facto e de tempo, fez-se obviamente passar a ideia que se queria fazer passar: que tal como no caso que envolve Nobre Guedes e companhia, também este caso, antigo mas activo, teria que ver com tráfico de influências e financiamento partidário.
Mas enfim, lá veio o senhor Director Nacional da PJ negar em comunicado o que o órgão de comunicação noticiara, pondo em descanso o nosso Primeiro e em relativo sossego as hostes socialistas (que apesar de tudo se devem lembrar do categórico desmentido do senhor PGR de que Carlos Cruz não era suspeito no processo Casa Pia ou que o então secretário-geral do PS não tinha, nem ao de leve, sido nele envolvido...)
Impressiona-me como podem acontecer estas coisas, a frequência com que acontecem e o facto de ninguém pensar que estes lamentáveis episódios de manipulação constante da opinião pública corróem a credibilidade de todos os poderes, incluindo a credibilidade do próprio poder mediático.
A democracia, que tem de se sustentar de doses equivalentes de liberdade e de responsabilidade, pode sobreviver incólume à impressionante regularidade com que, de forma sempre impune, são difundidas notícias que colocam sobre suspeita, lançam inquietudes, geram desconfiança e instabilidade e põem em causa a honorabilidade dos mais altos dirigentes do Estado, sem que nada aconteça quando se revela que são falsas?
Lembro-me de há uns tempos nem o Cardeal Patriarca ter escapado no enojante enredo mediático em que foram transformadas as investigações do chamado Casa Pia. Nem ele, nem o Presidente da República.
Neste caso, de duas, uma: ou alguém se serviu do órgão de comunicação social que divulgou estar o PM sob investigação, e então devem os seus responsáveis denunciar sem hesitações a ignominiosa fonte que não merece qualquer protecção (sob pena se beneficiar o infractor e esconder um criminoso). Ou então a notícia é pura invenção e não há liberdade de imprensa que resista por muito tempo a tamanha tolerância perante a irresponsabilidade e a mentira vendida a preço de jornal.
Uma nota mais.
Posso estar enganado, mas estou em crer que ao PM deve bastar o desmentido do senhor Director Nacional da PJ. Tal como no passado outros não sentiram necessidade de se afirmarem filhos de boa gente, não se condoendo e achando suficiente uma explicação policial, mais ou menos do género.
Exigir a denúncia de fontes mentirosas que se servem e manipulam jornalistas sedentos de escândalo, em nome de interesses obscuros? Credo!
Censurar os media e condenar firmemente a falsidade? Abrenúncio!
É que as represálias dos media podem doer muito. E reagir com coragem à dor das agressões mediáticas não é para todos. Vale mais suportá-la e desejar que venha distante a próxima pedrada...

Ainda os Doutores de valor normalizado

No contexto do que tenho vindo a referir, nada melhor e mais oportuno do que o excelente o artigo do Prof. Dr. João Duque, Catedrático do ISEG, na página 12 do Caderno de Economia do Expresso de hoje, dia 14 de Maio.
Na impossibilidade de o transcrever todo, aqui vai uma parte.
“…Parece-me que vamos ter as propinas dos mestrados tabeladas e idênticas às das actuais licenciaturas…É óptimo, porque os alunos perdem o poder reivindicativo, uma vez que as propinas do curso deixam de ter valor significativo. Por seu turno, os Professores preocupar-se-ão menos com a qualidade da formação prestada. Ao contrário do que se passa hoje nos mestrados, em que quem paga exige cursos sem faltas, pontualidade dos docentes, actualidade dos programas e interesse das matérias, cultivar-se-á a política do perdão fácil às ineficiências e imperfeições e os alunos não sentem remorso pela não utilização dos recursos que lhes oferecemos…É óptimo, porque, sendo o benefício da formação individual recolhido através de melhores vencimentos pelos que dela beneficiaram, este vai ser financiado através dos impostos gerais e indiscriminados. Deliciosa democracia: uns ganham, pagam todos…”
Concordo obviamente com tudo,na sequência, aliás, dos meus "posts" anteriores, mas posso estar a ver mal…Por isso, muito gostava da opinião dos ilustres amigos Professores Massano Cardoso e David Justino, eméritos Professores de mestrados e doutoramentos, sobre esta matéria. As minhas desculpas pela provocação!...

sexta-feira, 13 de maio de 2005

“Moralizadores”…

"Um homem que moraliza é geralmente um hipócrita" (Óscar Wilde)

Os debates políticos são muito interessantes e essenciais para a prossecução das adequadas medidas políticas Ressalta, de imediato, as diferentes opiniões suportadas pelos mais diversos argumentos. Nada a apontar, até porque as divergências são salutares, traduzindo posturas ideológicas credíveis e respeitáveis. Podemos encontrar um equivalente a esta postura na diversidade biológica que caracteriza as diferentes espécies. Quanto maior for a diversidade biológica, maior é a garantia da perpetuação da mesma. Quanto maior for a diversidade política, maior é a garantia da perpetuação da democracia. Uma das vantagens dos debates, argumentos, contra-argumentos, é lançar a dúvida no adversário. Óptimo. Assim como algumas das nossas posições poderão sofrer algum abalo, muitas vezes não o suficiente para as abandonar, também os nossos argumentos não deixarão de semear alguma dúvida nos adversários, mesmo que não confessem. As pequenas ou grandes interrogações que ambos semeiam nos diferentes campos são muito importantes para o progresso e desenvolvimento da sociedade. Quando as coisas decorrem desta maneira podemos congratular-nos porque traduz maioridade e civilidade. No entanto, observamos, por vezes, que há um conjunto de indivíduos que em vez de exporem as suas opiniões de uma forma eloquente e veemente, como é seu direito, vão muito mais longe querendo que os outros se submetam às mesmas. São os moralistas da política. Têm um perfil fácil de identificar: insensibilidade, falta de amabilidade, intolerância, arrogância, insuficiência de imaginação, ou imaginação doentia, incapacidade de compreender a realidade das situações, enfim, julgam-se donos e convictos de que a sua forma de ver é a única aceitável. Óscar Wilde, afirmou que "um homem que moraliza é geralmente um hipócrita". Como o nosso sistema político não é imune aos moralizadores, estes passam a constituir uma verdadeira ameaça, criando instabilidade, irritação e inflamação social além da ansiedade e mal-estar na vida das pessoas…

Loucura ou Lucidez II

As palavras do Dr. Jorge Coelho no programa Quadratura do Círculo, a propósito do processo da Herdade da Vargem Fresca, dizendo ”… não acreditar que algum ministro… corra o risco de decidir contra o parecer dos serviços técnicos que prepararam o suporte à decisão” e que “só um louco o faria” traduz a real situação do poder político em Portugal. O seu poder é nulo!...
Mas as palavras do Dr. Jorge Coelho levantam uma outra questão, a da confusão que existe entre decisão política, que compete ao Ministro, e suporte técnico, que compete aos Serviços.
Se o Ministro abdica da sua competência política, é mais um tecnocrata na cadeia da decisão e nega-se enquanto Ministro.
Mas, mais grave ainda, se o Ministro abdica da sua competência política, está a dá-la aos Serviços.
Ora os Serviços, por mais prestigiados que sejam, não tendo sido eleitos, não podem arvorar-se em árbitros ou decisores políticos.
Assim sendo, é ao Ministro que compete decidir, contra ou a favor do que é recomendado.
Compreende-se a dificuldade.
Se decide contra, logo a Comunicação Social refere em letras gordas: decidiu contra o parecer dos Serviços!...
E vem logo a suspeita de corrupção do Ministro!...
Porque, está bem de ver, os Serviços não são nunca nem corrompíveis, nem corrompidos!...
Cá por mim, apesar de tudo, acredito mais num Ministro que coloca o seu nome numa decisão difícil do que numa burocracia ou numa tecnocracia naturalmente escondida atrás do Serviço.
Como acredito mais num Ministro que mantém a equipa dirigente anterior, desde que profissional, do que noutro, que muda toda a hierarquia.
O Ministro é para decidir; a tecnocracia, para estudar.
Não pode é a tecnocracia decidir e o poder político ter o único papel de concordar.
Mas é isto que acontece, como diz o Dr. Jorge Coelho. Essa é a nossa tragédia: votamos nuns, para outros decidirem!...

Lisboa, Carmona, Carrilho e Mendes

Dois colegas de Universidade candidatam-se à Câmara de Lisboa: Carmona Rodrigues e Manuel Maria Carrilho. A estima e amizade que tenho pelos dois, não me embaraça a escolha: Carmona Rodrigues, decididamente. Não só por ser do PSD - o que é importante! -, mas, acima de tudo, pelo perfil de competência e conhecimento que tem dos enormes problemas da capital.
Um reparo: quando é apresentado o candidato à mais importante autarquia do país, não se justifica a presença do Presidente do PSD, Dr. Marques Mendes?

quinta-feira, 12 de maio de 2005

Crueldade e sofrimento, por Morin

"A crueldade entre homens, indivíduos, grupos, etnias, religiões, raças é aterradora. O ser humano contém em si um ruído de monstros que liberta em todas as ocasiões favoráveis. O ódio desencadeia-se por um pequeno nada, por um esquecimento, pela sorte de outrem, por um favor que se julga perdido. O ódio abstracto por uma ideia ou uma religião transforma-se em ódio concreto por um indivíduo ou um grupo; o ódio demente desencadeia-se por um erro de percepção ou de interpretação. O egoísmo, o desprezo, a indiferença, a desatenção agravam por todo o lado e sem tréguas a crueldade do mundo humano. E no subsolo das sociedades civilizadas torturam-se animais para o matadouro ou a experimentação. Por saturação, o excesso de crueldade alimenta a indiferença e a desatenção, e de resto ninguém poderia suportar a vida se não conservasse em si um calo de indiferença".

Edgar Morin, in 'Os Meus Demónios'

Nos tempos que correm, textos destes chamam-me a atenção.
Sinal de quê?

“Flautistas”…


Pied Piper
Ilustração de Olivia Reyner


O flautista de Hamelin constitui uma das mais belas histórias do imaginário germânico. As crianças aprendem desde cedo a versão infantil e os adultos também não deixam de se divertir e aprender algumas lições.
Foi em 1284 que na cidade de Hamelin uma praga de ratos e ratazanas atormentou os habitantes a ponto de provocar a miséria e o desespero. Entretanto, surgiu na cidade, Pied Piper, homem estranho, vestido de forma peculiar e que prometeu libertar a cidade da ratazada desde que lhe pagassem uma determinada quantia. Os governantes aceitaram a proposta. Imediatamente Pied Piper rapou da sua flauta, tocou uma melodia, a qual seduziu os ratos e dirigiu-se para o rio Weser sempre seguido pelos animais. Entrou no rio e os animais acabaram por morrer afogados. Voltou à cidade para receber o pagamento, mas os cidadãos não cumpriram com a promessa. Saiu da cidade e mais tarde regressou disfarçado de caçador. Tocou, novamente, a flauta, só que desta vez foram as crianças com mais de quatro anos que seguiram o encantador, as quais, atravessando a montanha através de uma caverna, acabaram por desaparecer para sempre, provocando desespero e tristeza nos cidadãos de Hamelin. Três crianças ficaram para trás, uma porque se esqueceu do casaco, os outros dois, um por ser cego e um por ser mudo, não puderam mostrar o caminho ou contar nada.
A sociedade portuguesa está cheia de ratos e ratazanas muito especiais e resistentes que põem em perigo o bem-estar das pessoas. É preciso encontrar soluções para proceder a uma verdadeira e eficaz desratização. Como esta tarda, é natural que surjam flautistas. Resta saber se as melodias que prometem tocar conseguirão arrastá-los para as profundezas de um qualquer rio e afogá-los. O pior é se em vez da ratazada ainda acabam por seduzir os jovens afogando-os! Ah! Estes flautistas não precisam de regressar para receberem os pagamentos...…


Posted by Hello

Loucura ou Lucidez?

No último programa Quadratura do Círculo, o Dr. Jorge Coelho, a propósito do processo da Herdade da Vargem Fresca, referiu o seguinte: ”…quando os assuntos chegam a despacho do ministro, o processo já vai enformado pelo trabalho de vários serviços e não acredito que algum ministro, com consciência plena do lugar que está a exercer, corra o risco de decidir contra o parecer dos serviços técnicos que prepararam o suporte à decisão. Só um louco o faria.”
Retiro as seguintes conclusões e juro que não são mentira nenhuma:
1ª Só um Ministro louco contraria o parecer dos serviços.
2ª Um Ministro lúcido concorda sempre com o parecer dos serviços.
3ª Mesmo se o parecer dos Serviços é louco, a concordância do Ministro é um sinal de lucidez.
4ª Se o Ministro é lúcido, para que serve o Ministro? Bastam os Serviços.
5ª Se o Ministro é louco, para que servem os Serviços? Basta o Ministro.
6ª Um Ministro lúcido não faz nem serve para nada. É um mero custo.
7ª Um Ministro louco faz tudo e substitui os Serviços. É um activo inestimável.

CONCLUSÃO FINAL: Neste país de loucos, a solução é um Governo à medida, isto é: cheio de ministros loucos!...
Ou sou eu que estou a ficar louco? Ajuuuuuuudem…...-me!....

“Processo de Bolonha” e a Lei de Bases

Está hoje em discussão na Assembleia da República as propostas de alteração da Lei de Bases do Sistema Educativo visando adequar a organização do ensino superior aos princípios acordados entre os países europeus relativamente à reforma do ensino superior. À excepção do PSD, todos os partidos da oposição e o Governo apresentam propostas de alteração limitadas aos artigos e secções respeitantes ao ensino superior.
O PSD entendeu – na minha opinião, bem! – apresentar uma proposta de revisão geral da Lei de Bases colocando na agenda não só a reforma do ensino superior, mas a reforma global do sistema educativo.
Assinale-se, antes de mais, a coerência da posição do PSD, retomando a Lei de Bases da Educação que acabou vetada pelo Presidente da República.
Assinale-se igualmente a posição dos restantes partidos ao dar prioridade ao ensino superior e ao esquecer as reformas necessárias nos restantes graus de ensino. Quer queiramos, quer não, o único sinal que se retira desta posição é a da subalternização do ensino básico e secundário. É o sinal de que à urgência da reforma do superior se contrapõe a não urgência de reforma do básico e secundário. Este ficará para os “pequenos passos”.
Um último registo: o CDS-PP que havia subscrito a Lei de Bases da Educação, contenta-se agora em reformar o ensino superior.
À semelhança da posição do Sr. Presidente da República também estes partidos perdem autoridade moral para denunciar o “estado da educação em Portugal”.
Fica-nos a esperança de que em Bolonha ou qualquer outra cidade europeia emblemática se engendre um qualquer “processo” que nos faça avançar com as reformas necessárias.

Portugal e a competitividade

Foi recentemente publicado o World Competitiveness Yearbook 2005 que analisa e compara 314 indicadores de 51 países e 9 regiões relativos à sua capacidade competitiva. Esses indicadores distribuem-se por quatro grandes agregados: desempenho económico, eficiência governativa, eficiência empresarial e infra-estruturas. É interessante analisar o posicionamento de Portugal em função dos melhores ou piores indicadores:

Em que indicadores somos melhores?

- Rácio de alunos por professor no ensino secundário (1.º lugar)
- Investimento em telecomunicações em % do PIB (4.º)
- Despesa Pública na educação em % do PIB (8.º)
- Despesa total na saúde em % do PIB (12.º)

Em que indicadores somos piores?

- Adaptabilidade das empresas à evolução dos mercados (60.º lugar, último)
- Cooperação tecnológica entre empresas (60.º)
- Formação contínua de mão-de-obra (59.º)
- Resistência às flutuações dos ciclos económicos (59.º)

Conclusão: somos os melhores a gastar e os piores a organizar e a gerir os recursos.

quarta-feira, 11 de maio de 2005

Modelos esgotados

Somos um país muito curioso – ou não temos nada feito, ou o que fazemos já não serve porque é preciso inventar “novos modelos”, de preferência tão complexos ou tão caros que nos sirvam de desculpa para continuarmos a adiar o que realmente deveria ser feito. Isto acontece quase sistematicamente quando se aponta uma deficiência ou se detecta uma grave ausência de boas práticas para melhorar um sector.
Vem este comentário a propósito da avaliação das universidades e do coro de aplausos e de justificações que suscitou o alerta que o Presidente da República lançou, invocando a absoluta necessidade de se avaliarem as instituições universitárias como única forma credível de garantir uma melhoria no seu desempenho.
Foi muito aplaudida a intervenção e a ideia parecia pacífica. Acontece, como explicaram depois vários Reitores e o Presidente do Conselho de Reitores, que essa avaliação existe mas que não parece ser suficiente porque não é uma avaliação externa. Ouvido o Presidente do Conselho Nacional de Avaliação do Ensino Superior, Professor Adriano Moreira, ficámos a saber que o sistema de avaliação não só existe, como os diagnósticos são regularmente publicados, mas que o tema acaba aí. Ou seja, cumpre-se o ritual, faz-se o trabalho, mas nada acontece porque falta regulamentar as consequências dessa avaliação!
Com todo o respeito que me merecem todos os intervenientes nesta polémica, não posso deixar de manifestar o meu absoluto espanto por tamanho absurdo assim tão cristalinamente exposto – há a recolha de dados, há a análise dos elementos, há conclusões e estas são publicadas. Há, portanto, imenso trabalho feito que serviria como fundamento mais que suficiente para se corrigirem erros e exigir melhores resultados.
Mas, pelos vistos, a lei que criou todo este sistema e as pessoas que nele se empenham não identificam a sua razão de ser e eis que um sistema fundamental para a qualidade do ensino superior é reduzido a uma prática burocrática, a um formalismo inútil porque…não há regulamentação quanto às suas consequências. Não é eficaz. Daí a concluir-se que o modelo “está esgotado” e que deve ser todo revisto foi um passo.
Fico assim sem perceber o que se passa. Se é esta avaliação que não pode dar resultados, nomeadamente porque não contém avaliação externa, peritos estrangeiros e mais uma série de requisitos que certamente nunca serão preenchidos totalmente, ou se falta apenas aquele pequeno passo corajoso que é tirar pura e simplesmente as necessárias consequências do que se analisou, estudou e classificou como bom ou mau?
Já agora também podíamos perguntar como foi possível conviver este tempo todo com um sistema completamente inútil ou inadequado sem que nada se tivesse corrigido?
Lá se esgotou mais um modelo de avaliação. Pode ser que o próximo inclua um capítulo com os efeitos práticos…

António Ramos Rosa



Nascimento último

Como se não tivesse substância e de membros apagados.
Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.
E germinar no sono,germinar na árvore.
Tudo acabaria na noite, lentamente, sob uma chuva densa.
Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.
No encontro e no abandono, na última nudez,
respiraria ao ritmo do vento, na relação mais viva.
Seria de novo o gérmen que fui, o rosto indivisível.
E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila
e o repouso do ser no ser,os seus obscuros terraços.
Entre rumores e rios a morte perder-se-ia.

No Calcanhar do Vento (1987)

De Akhenaton, faraó egípcio, a Zhang Chunquiau

Hino a Aton

Refulges em toda a beleza
Áton vivo
Senhor de eternidade
Origem da vida
Resplandesces, brilhante e forte
O teu amor é grande e poderoso…
…És o Aton vivo, a tua imagem é eterna
Estás só e, no entanto,
Estão em ti milhões de vidas
É como um sopro de vida
Quando se contemplam os teus raios!...

Sou economista, mas considero que a história e a filosofia, para além do português e da matemática (e do inglês, por outras razões), deveriam ser disciplinas nucleares de qualquer sistema de ensino digno desse nome.
A história é uma disciplina viva: recria-se todos os
dias.
Morreu Zhang Chunquiau, um dos do Bando dos Quatro.
Segundo os jornais, foi uma surpresa, pois a própria Enciclopédia da República Popular da China afirma que Chunquiau tinha morrido em 1991!...
Julgo ser uma originalidade uma Enciclopédia declarar morto alguém indesejável, mas ainda vivo.
Muitos dos notáveis do regime soviético foram riscados das enciclopédias, mas creio que nenhum foi declarado morto, estando vivo.
Ao longo da história, muitas personalidades foram riscadas das enciclopédias e a sua obra destruída, para que delas não restasse memória.
Uma das mais antigas que conheço refere-se ao Faraó Amenófis IV, também conhecido por Akhenaton.
Este faraó governou o Egipto por alturas do ano 1350 anos a.C.
Com sua mulher Nefertiti, introduziu no Egipto a crença num deus único, o deus Aton, o qual se lhe revelou no deserto, na forma de uma luz pura, que flui por todo o universo.
Interessante de notar a forma da revelação (luz) e o local (ermo, deserto), comum, antes e depois daquela data, a muitas religiões e aparições.
Os egípcios e, designadamente, os sacerdotes, que defendiam o politeísmo, consideraram a medida como uma afronta que não poderia permanecer.
Assim, após a morte do faraó, templos, construções e quase tudo o que recordava a sua existência foi destruído.
As religiões, no entanto, são inspiradoras da arte.
Ficaram como testemunho algumas das mais belas poesias do Egipto antigo, como a que iniciou o presente texto.

terça-feira, 10 de maio de 2005

"Lord of the Flies"...


Um dos livros que mais me marcou, até hoje, foi, precisamente, o "Deus das Moscas" de William Golding.
Na sua magistral obra podemos observar até que ponto os seres humanos podem regredir.
No decurso de uma conferência sobre obesidade infantil utilizei esta imagem como paradigma de uma outra epidemia: a fome infantil.
O "Deus das Moscas" manifesta-se de muitas formas...

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Dito

"Quando, na selva, um animal ataca o outro só porque é mais forte, chama isso de lei da cidade" - Millôr Fernandes

Doutores de valor normalizado

O Governo erigiu, e bem, a competitividade como uma das suas preocupações prioritárias.
O objectivo último do “choque tecnológico” seria a substituição do modelo económico baseado na mão de obra barata e no baixo valor acrescentado por um modelo baseado na competitividade e em produtos de grande valor acrescentado, cujo desenvolvimento seria possibilitado pela utilização do conhecimento e das novas tecnologias.
Ao Ministro Mariano Gago, que tutela as Universidades, a Investigação e a Ciência, foi cometida grande responsabilidade nesta matéria, porquanto lhe compete criar uma massa crítica de cientistas e investigadores de elite, que trabalhem com objectivos e no meio empresarial, se interessem pela investigação aplicada e considerem que o desenvolvimento de novos produtos, até à comercialização, e o aperfeiçoamento dos existentes é a melhor forma de realização profissional e de serviço prestado ao país.
Creio que começou muito mal.
Pelo que li na comunicação social, e com vista a apoiar o choque tecnológico, possibilitando a preparação de mais mestres e doutores, anunciou que as propinas a pagar pelos alunos de mestrados e doutoramentos serão niveladas e mais baixas.
Esta decisão é, em si, um verdadeiro atentado à competitividade
Nada mais falso, demagógico e revelador da nossa tacanha mediocridade.
Em vez de se fomentar a competição entre as Universidades públicas, pelo menos naqueles segmentos de ensino, lá vem mais uma vez o tabelamento, a uniformização, a ideologia da igualização.
Os professores contratados, no país ou no estrangeiro, tenderão a ser piores, as exigências diminuirão, cairá o nível dos formandos e tenderá a tornar-se indiferente a escolha de uma ou de outra Escola.
A tímida avaliação das Escolas pela via do mercado fenece de vez, e a competitividade, que traz qualidade, leva mais um rude golpe, e agora da entidade que mais deveria bater-se por ela.
Haverá porventura mais mestres e doutores, mas, certamente, piores mestres e piores doutores, a quem menos foi exigido para obterem o grau e que menos exigiram de si próprios para o obter.
Os Estados Unidos, que deveríamos seguir como exemplo nesta matéria, se os complexos culturais de quem manda nas Universidades e na Investigação o permitissem, tem a maior taxa de registo de patentes por milhão de habitantes.
Essa elevada taxa deve-se, para além da organização dos meios e dos investimentos, à preparação dos investigadores e dos candidatos a investigadores, que consideram como um investimento pessoal e financeiro toda a preparação que fizeram ou estão a fazer para neles se poderem realizar profissionalmente.
Esse facto tornou-os exigentes para consigo próprios e para com as Universidades em que se prepararam.
Em Portugal, o espírito é lamentavelmente ao contrário.
A ideia prevalecente não é a do esforço e do investimento individual, mas a de que o Estado é que tem a obrigação de formar investigadores e estes fazem o favor ao Estado de frequentar as suas Universidades e assim terem direito a um emprego nos organismos públicos, onde a investigação é “à la carte”. Obviamente que o Ministro aumenta a sua corte, torna-se mais considerado, mas presta um péssimo serviço ao país.
Melhor faria o Ministro se, em vez de tabelar preços de propinas, deixasse o mercado dos doutoramentos funcionar e apoiasse financeiramente quem, tendo carências económicas, mas qualidades de inteligência, de vontade e de trabalho, pretendesse formação académica superior.
Teríamos assim doutores de valor acrescentado e não apenas doutores de valor normalizado.
O que o Ministro vai fazer não é mais que os empresários tradicionais do têxtil continuam a fazer: fabricar produtos sem valor acrescentado.
O que é verdadeiramente lamentável.

O ensino superior e a racionalização da oferta

O Ministro Mariano Gago deu um sinal claro quanto à vontade de reformar o ensino superior ao anunciar a supressão progressiva de cursos com um número reduzido de alunos. Invocando o que já está na lei que permite eliminar desde já os cursos que não tenham pelo menos 10 alunos, aponta para no período correspondente à actual legislatura suspender os que não tenham pelos menos 20.

Trata-se de uma posição corajosa que merece aplauso e apoio. É algo que tendo sido previsto na lei de há muito deveria ter sido concretizado. Não o foi por razões estritamente políticas com as quais não me identifico, mesmo que responsabilizem o PSD.

A reacção do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos (CCISP) sendo compreensível não é razoável. O cenário que agora se anuncia de há muito estava delineado e os estabelecimentos de ensino superior que eventualmente venham a ser afectados pelo processo de racionalização da oferta já deveriam ter tomado as medidas adequadas para precaver o que todos esperavam. O argumento de cursos que não obstante serem pouco frequentados deverão manter-se a funcionar é pertinente, mas não pode constituir instrumento de bloqueio a todo o processo.

Fala-se em um terço do total o número de cursos a encerrar. Pelas minhas contas e pensando no médio prazo, julgo que é razoável apontar para cerca de metade.

A sorte das reclamações

O post da Suzana trouxe-me à memória um episódio vivido há uns meses no aeroporto de Lisboa a propósito de uma reclamação contra uma companhia de aviação que se recusava a resolver um problema só a ela imputável.
Pedido o livro de reclamações à funcionária do balcão que se esforçou todo o tempo por sacudir o incómodo, lá informou que não existia qualquer livro, dizendo de resto ter instruções para não assinar quaisquer declarações, mesmo as que reduzissem a escrito a forma como se propunha, em nome da empresa, resolver o problema. O supervisor tinha regressado a casa e já só voltaria no dia seguinte, estando incontactável.
Convencido de que não seria ali que a questão se resolveria, dirigi-me à esquadra da PSP.
Seria ocioso contar todas as peripécias desde o momento que ali entrei até que abandonei. Algumas verdeiramente hilariantes, que contadas depois, contribuiram para desanuviar o ambiente entre o grupo de amigos que viveu a situação. Conto só que às tantas apareceu um graduado da PSP que, brioso, se interessou por saber o que se passava, que fazia eu ali, às tantas da noite, perturbando a serenidade felizmente habitual. Fiz o relato, e como necessitava unicamente que os factos ocorridos fossem registados em auto e as pessoas neles intervenientes identificadas, pedi-lho, explicando que era essa a única forma de poder demonstar a fuga à responsabilidade por parte de quem a tinha.
A solicitude depressa se esvaneceu, considerando não serem os factos qualificáveis como ilicito criminal, o que impedia a polícia de intervir. Mas fez mais, não fosse o cidadão irritado, participar. Ou pior, que lhe passasse pela cabeça pregar dois tabefes na funcionária da companhia de aviação, dando ssim o sugerido motivo para a intervenção policial. Passou-me então para as mãos uma fotocópia de algo que me me pareceu um manual de procedimentos onde, entre outras pérolas, se pode ler o que não resisto a citar:

"Em cumprimento do determinado no Despacho nº 08/98, de 17/01 de S.Exª o MAI, solicito ainda aos Srs. Graduados que não se eximam a receber as participações dos cidadãos, informando-os, contudo, que esta Polícia procederá ao seu arquivo, fazendo disso menção no expediente".

Confesso que na altura, ouvida a explicação dada em tom severo e magistral e lida a fotocópia, estive para sugerir que para além da prestação de tão valiosa informação, a PSP distribuísse logo aí o papel para registar este tipo de participações. Do macio, daquele que é suposto separar-se pelo picotado. Facilitava as coisas e contribuia para a politica de reciclagem...

Confesso também que fiquei, apesar de tudo, satisfeito por saber que a nossa PSP arquiva de preceito (certamente em nome do combate à burocracia e ao excesso de garantias) e mais do que tudo... faz disso menção no expediente. Exultemos, pois.

Falta de reclamações

Estava há uns dias no meio do trânsito do fim de tarde, numa rotunda de Lisboa. Perto de mim, um carro parado no sinal vermelho descaíu muito igeiramente e tocou ao de leve no carro da frente. Muito naturalmente, a condutora limitou-se a acenar um pedido de desculpas ao carro da frente e recuou um pouco. Mas o dono do carro da frente - um carro todo branco, incluindo os pára choques - saíu furioso do carro, gritou fortemente com a senhora e debruçou-se meticulosamente sobre o hipotético risco no pára choques. Entretanto abriu o sinal e formou-se uma fila frenética, todos a buzinar. O senhor continuou a puxar o lustro ao pára choques, tentanto eliminar alguma sombra. Voltou então à janela do carro culpado e dispôs-se a convencer a senhora a sair do carro para decidirem da gravidade dos danos. O ar perplexo da condutora era digno de registo, assustada com a reacção despropositada e ameaçadora. Passei o sinal e ainda lá ficaram ela dentro do carro, ele aos gritos cá fora.
Li no jornal de hoje que os portugueses são os consumidores da UE que menos reclamam como consumidores, suportando como resignação a má prestação de serviços de que são frequentemente vítimas. Não seria melhor orientar as energias para termos uma sociedade melhor, com mais respeito pelos outros e contribuindo para vivermos mais bem dispostos?

segunda-feira, 9 de maio de 2005

The bug and the blue



Foto de Majid Mohammad Akinezhad, achada algures na rede, recordando a policromia do lindissimo jardim de Pinho Cardão, uma tarde de boas conversas, desfrutando dos odores e dos sabores da primavera e de uma paisagem única.

Disseram-me que aqui havia liberdade!...

Original, muito oportuno e bem feito, o artigo do Prof. João César da Neves, na pág. 6 do Diário de Notícias de hoje, dia 9 de Maio.
Título: Disseram-me que aqui havia liberdade.

A paridade é um terço!...

A avaliar pelos jornais, o Bloco de Esquerda discutiu acaloradamente, na sua Convenção Nacional, a questão da paridade.
Houve quem pretendesse retirar a norma consignada nos Estatutos, dizendo: “ …não me choca haver um órgão composto só por mulheres, mas já me choca que haja um órgão composto por 50 homens e 50 mulheres que lá estejam por quotas…”.
Esta afirmação, também segundo os jornais, terá causado enorme perplexidade e a legítima indignação dos presentes!...
Na discussão que se seguiu, foi necessário que a Mesa definisse o que se entendia por paridade, o que significa que, pelos vistos, e até ali, não se soubesse o que se estava a discutir…
Então a Mesa definiu de forma notavelmente brilhante o princípio da paridade: paridade é um terço… (de mulheres ou de homens, poderá subentender-se…)!...
Julgo que o princípio terá consequências relevantes em termos das futuras propostas políticas diferenciantes do Bloco.
Como a paridade no casamento exige um homem e uma mulher (casamento clássico) ou dois homens ou duas mulheres (casamentos modernistas ou modernaços), e como não é crível que haja casamento entre um terço de cônjuge e um cônjuge inteiro, a paridade no casamento far-se-à, segundo o novo princípio, com um homem e duas mulheres, com duas mulheres e um homem( casamentos neo-clássicos) ou entre três homens ou entre três mulheres(casamentos pós modernistas).
A proposta seguirá, certamente, e em breve, para a A.R.

Aniversário

No dia 6 de Maio o PSD festejou 31 anos e gostaria de aproveitar esta nossa forma de comunicação para felicitar todos os que ao longo destes anos trabalharam activamente para que o PSD se tornasse uma referência de grande dimensão na vida nacional.
Ao novo líder, Dr. Marques Mendes, desejo, em especial, os maiores êxitos na sua imensa tarefa de reafirmar o PSD como o maior partido nacional, capaz de mobilizar energias em torno de um projecto político renovado.
A pretexto desta data creio que será interessante reflectirmos um pouco no que é o exercício de uma actividade política e o que pode, nos dias que correm, levar as pessoas a participarem na vida política, seja através dos partidos ou como independentes.
Acredito que é através da participação política que os cidadãos podem, privilegiadamente, contribuir para melhorar o país e lutar por uma vida melhor para nós e para os nossos filhos. Essa participação permite-nos afirmar os nossos ideais e são esses que nos devem estimular a deixar o nosso comodismo, a nossa indiferença ou a rotina que nos consome os dias e as horas sem deixar tempo para olharmos à nossa volta. É fácil criticar quem faz ou desdenhar de quem tenta e não tem sucesso. O difícil é ousar, afastar o medo de tomar uma decisão, sujeitar-se ao fracasso ou orgulhar-se dos êxitos alcançados. A política trata da vida de todos nós e por isso custa-me sempre ver quando as pessoas se alheiam ou desconsideram os que tentam dar o seu melhor.
O debate e a polémica são parte integrante da actividade política, é no confronto de ideias e de estratégias que se vai desenhando o caminho para se ir mais longe no progresso e no bem estar.

Momento


Red Point

domingo, 8 de maio de 2005

"Hygeia. Deusa da vida, da beleza e da saúde"...


Gustav Klimt, Hygeia Detail from "Medicine", 1907
Oil on canvas - 430 x 300 cm
Destroyed by fire at Immendorf Palace, 1945


ACORDA-ME, FALA-ME

« - Por que me escreves? Que inspiração alheia
te suja os dedos de versos, se os teu lábios
não pronunciaram nunca as palavras que esperei,
quando, em tardes de vento, te olhava em
silêncio? Por que interrompes a estrofe no meu nome,
a flor obscura de uma primavera que não
chegou? Deixa-me!, entre
as copas geométricas de um ritmo vegetal,
respirando na efémera duração de vozes que não ouço;
e sob um breve bater de folhas nos arbustos
perenes que o fumo da madrugada escurece: sombra
separada da própria sombra, e eco já vago
de um canto de pássaro morto! E não deixes que
a minha queixa se dissipe num rumor de águas
estagnadas - charcos da chuva sedentária do outono,
lagoas baças de um choro matinal...» Desperdícios
de vida num fundo amargo de memória.

Nuno Júdice in «Poesia Reunida» 1967-2000, prefácio de Teresa Almeida, D. Quixote


O quadro de Klimt simboliza a deusa Hygeia uma das filhas de Esculápio. Encerra em si, a beleza, a vida e a saúde. Curioso o casamento entre a deusa da higiene e o poema de Nuno Júdice “Acorda-me, fala-me”. Que Hygeia nos acorde e se possível que fale, fale, fale…

Posted by Hello

Mais uma!

"O Governo vai criar uma comissão para elaborar um relatório sobre o impacto do Código de Trabalho, que só será revisto em 2006". Sic
E vão quantos, entre grupos de trabalho e comissões?

Quando a vila precisa, pague-se ao alcaide, ao concelho e ao palácio



"Das vendas que forem para a vossa vila de pão e de vinho de carne e de peixe, de frutas, quando a vila estiver minguada, ninguem compre sem ordem do alcalde e se comprarem, paguem 50 soldos ao alcalde e ao concelho e a setima será para o palacio" - Do foral de Salvaterra de 1229, outorgado por D. Sancho.

Vitória Trabalhista


Política, disse ele

Finalmente ouvi um argumento inteligente para o caso dos autarcas vetados por Marques Mendes: confiança política. Na sucessão de estratégias, critérios, princípios e convicções que foram invocados pelo líder do PSD sempre ia raciocinando: o argumento X não se aplica ao candidato A, o candidato B não cai na situação Y, de acordo com a estratégia aprovada em Congresso o candidato C poderia ser indigitado e por aí adiante. O líder do PSD tem todo o direito de vetar candidatos autárquicos e para o efeito deveria utilizar a expressão: “No caso de serem presentes à Comissão Política Nacional do PSD os candidatos A, B, C, D, eu não homologarei os seus nomes dado que não se adequam ao perfil que eu entendo adequado”. Dava, assim, um sinal às estruturas do PSD que têm a competência estatutária de propor, aprovar e homologar a lista de candidatos.
Nestas situações o que me parece incompreensível é o sinal de discricionariedade e prepotência que as diferentes explicações revelaram. Pensando bem até não é tão incompreensível. Estamos perante uma reedição da obsessiva “transparência” de Fernando Nogueira em cuja herança política muitos dos actuais responsáveis do PSD se revêem. Cada novo líder precisa de dar sinais de uma ruptura com o passado (“mudar de vida”) e de demonstrar a sua “autoridade” perante os seus pares e a opinião pública – “este é que os vai pôr na ordem!”, “isto precisa de uma varredela!”, “há que moralizar”, “precisamos de gente credível” e outras tantas frases do género.
Estamos perante um ritual de afirmação de autoridade pretensamente regeneradora. Seleccionam-se os alvos mais fragilizados na opinião pública, convocam-se alguns comentaristas para bater palmas (a edição de hoje do 1.º Caderno do Expresso está feita à medida) e remata-se com uma frase emblemática: “Decidi. Está decidido”. Este ritual de afirmação de autoridade é tanto mais necessário quanto mais frágil for a liderança. Lideranças fortes não precisam deste tipo de rituais. Afirmam-se pela supremacia dos seus valores, pela capacidade mobilizadora das suas ideias, das suas propostas e da sua estratégia. É isto que, por enquanto, falta ao PSD. Enquanto o PSD for notícia por este tipo de práticas, o Governo e a restante esquerda rejubila, deixando escapar, de quando em vez, um indisfarçável esgar de escárnio como que atestando a sua superioridade moral.

sábado, 7 de maio de 2005

“O NICE não é nada simpático”…

Se alguém ouvir um dia destes que foi recusado tratamento a uma pessoa por causa da idade não se admire. O National Institute for Clinical Excellence (NICE) do Reino Unido admite que podem ser recusados tratamentos, na base da idade, quando os benefícios forem baixos ou os riscos forem elevados. Os responsáveis argumentam de diversas maneiras e chegam a apresentar alguns exemplos, tais como: é aceitável oferecer três ciclos de tratamento, no âmbito da fertilização in vitro, às mulheres com idades entre os 23 e os 39 anos, mas a partir desta idade não, porque o sucesso diminui. Quanto à vacina da gripe deve ser ministrada prioritariamente a partir dos 65 anos. Nos jovens só em casos excepcionais. De facto, ninguém aceitaria que fossem aplicadas técnicas de fertilização in vitro a mulheres idosas, e, no tocante à vacinação contra o vírus de gripe, as normas apontam para os doentes crónicos e pessoas de idade. O pior, é que logo a seguir vem o parágrafo segundo o qual também deverão ser negadas as terapêuticas nas “doenças auto-infligidas”, resultantes de estilos de vida não saudáveis. A subtileza de agrupar as doenças num novo grupo “auto-infligidas” é mesmo perversa. Tudo isto tem como base a eminência de um colapso financeiro em termos de prestação de cuidados de saúde.
Pois é! Se as coisas continuarem neste pé, não tarda muito que um dia destes os súbditos de Sua Majestade se confrontem com situações do género:
- Olhe, o senhor já tem uma certa idadezita e este medicamento já não lhe vai ser muito mais útil, portanto, a partir deste momento não pode tomá-lo!
Ou então: - Vacina contra a gripe? Oh homem! (senhor de uns 50 anos) cresça e apareça, então não vê que é ainda uma criança para ser vacinado.
- Como? A Senhora quer fazer fertilização in vitro? – Desculpe. Não pode. A senhora já passou o prazo de validade (apesar de uns simpáticos e saudáveis 40 anos).
- O senhor não tem direito a tratamento, porque o seu problema está enquadrado dentro do grupo de “doenças auto-infligidas”. Bom dia!
O conceito de discriminação na base da idade é patético, porque nem sempre existe uma correspondência linear entre a idade cronológica e a idade biológica, além da dificuldade em estabelecer pontos de corte. Por outro lado, cada caso é um caso e só perante o mesmo é que se pode tomar a decisão mais aconselhada. Mas no que toca às “doenças auto-infligidas” a situação é mais do que arrepiante, é, no mínimo, uma perfeita obscenidade.
Os motivos subjacentes a estas opiniões – ponto de partida para as decisões – são os problemas económicos.
A opinião pública tem de se acautelar com estas tentativas de discriminação na área da saúde. As ameaças estão aí. A autoridade britânica, cujo acrónimo é NICE, não morre, pelos vistos, de simpatia pelos cidadãos britânicos. Convém não esquecer que o Reino Unido não fica muito longe…

Ocasos acidentais

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Foto: Leigh Perry
é tarde meu amor
estou longe de ti com o tempo, diluíste-te nas veias das marés, na saliva de meu corpo sofrido
agora, tuas máquinas trituram-me, cospem-me, interrompem o sono
habito longe, no coração vivo das areias, no cuspo límpido dos corais… e no ventre impossível das cidades nocturnas
a solidão tem dias mais cruéis

tentei ser teu, amar-te e amar o falso outro… quis ser grande e morrer contigo
enfeitar-me com as tuas luas brancas, pratear a voz em tuas águas de seda… cantar-te os gestos com ternura
mas não

águas, águas inquinadas pulsando dentro de meu corpo, como um peixe ferido, louco
em mim a lama… e o visco inocente dos teus náufragos sem nome-de-rua, nem estátua-de-jardim-público
aceito o desafio do teu desdém

na boca ficou-me um gosto a salmoura e destruição
apenas possuo o corpo magoado destas poucas palavras tristes que te cantam

Al Berto, O Medo, Assírio&Alvim, 2.ª edição, 2000, p. 158.
As imagens e as palavras ganham outro sentido quando regressamos aos textos de autores imerecidamente esquecidos.

sexta-feira, 6 de maio de 2005

"Oh Senhor doutor, foram os seis anos mais felizes da minha vida”…

A vida de um médico está cheia de dramas entremeados com alguns momentos de felicidade. Ao fim de muitos anos de prática pensamos que já vimos tudo, toda a miséria e sofrimento. Mas não, há momentos que nos tocam de uma forma ímpar, obrigando-nos a reflectir sobre tanta coisa. Hoje, numa consulta de rotina no âmbito da medicina do trabalho, confrontei-me com uma trabalhadora que, por força da lei, tem de se submeter a exames periódicos. À pergunta sacramental, se andava bem de saúde ou se tinha algum problema, respondeu-me que não, que não tinha qualquer problema de saúde. Mas a forma como disse, aliada à experiência de muitos anos que nos permite perscrutar a alma, senti que havia qualquer coisa naquela afirmação, dita com um sorriso triste, mesmo triste. Cuidadosamente, abordei-a no sentido de saber o que tinha acontecido e, naturalmente, explicou-me que lhe tinha falecido uma filha há seis meses, com cerca de sete anos, vítima de tumor cerebral. Fiquei com uma sensação de secura na boca e um mal-estar que me pôs tonto. Possibilitei-lhe a continuação do relato, evitando quaisquer comentários que pudessem ferir uma alma tão atormentada e aparentemente tão calma. Só tinha aquela filha. O sufoco agravou-se, e, para a ter teve de se submeter a exames e a tratamentos durante mais de cinco anos, até que conseguiu alcançar o desejo da satisfação da maternidade. Perante esta descrição, e, talvez, antecipando quaisquer pensamentos do género: se a natureza tivesse sido respeitada, não teria tido a criança e, consequentemente, não sofreria com o seu prematuro desaparecimento, avançou logo com a frase: - Oh Senhor doutor foram os seis anos mais felizes da minha vida.
Esta mulher recorreu às novas tecnologias médicas. Fez sacrifícios. Teve a felicidade de ter uma filha. Teve a infelicidade de a perder. Hoje, esta mulher fez-me recordar que não damos atenção aos inúmeros pequenos momentos de alegria que diariamente passam entre as mãos. Nem sabemos saboreá-los. Cheguei a casa e brinquei com a minha neta de uma forma muito diferente, pensando sempre no drama daquela mulher. Não sei se os blogs servem para relatar estas coisas ou não, mas que tenho necessidade de partilhar esta vivência, ai isso tenho…

A multidão de Torquemadas

De repente Portugal explodiu em moralismos.
Não há quem não dê a sua opinião sobre comportamentos públicos. Sobre ética política, profissional. Mas também sobre moralidade individual.
Cresce de dia para dia o conjunto de modernos censores, pequenos e quase sempre anónimos Torquemadas que analisam comportamentos, vidas, carreiras, supõem e imaginam as maiores maldades feitas pelos outros à moral pública e aos bons costumes.
A globalização tem destas coisas. Há umas décadas o hábito da maledicência confinava-se às relações de vizinhança. Hoje somos vizinhos de todos, mesmo dos que não conhecemos de parte alguma mas que estão ao alcance de uma censura arremessada com força através de um dos muitos suportes que a podem largamente difundir.
Percorram-se todos, mas todos os jornais, ouçam-se em particular os chamados fóruns dos programas radiofónicos, atente-se no conteúdo dos telejornais, mas faça-se também uma pequena viagem pela blogosfera e perceba-se a dimensão do fenómeno, expressa pelo apetite, pela avidez, pela voracidade de julgar e condenar de preceito.
Foi disto e da oficialização um padrão de moralidade em nome do bem geral que se fizeram a obscuridade e o horror da Inquisição. Que se fez o fascismo.
Confesso que me surpreende ver no meu País tanto desprezo pela liberdade e pelos direitos individuais. E tamanho gozo de tantos pela chacina pública ou pela condenação da diferença de comportamentos ou de opiniões. Confesso que 31 anos depois do fim de um regime que a todos pretendeu “normalizar”, se me afigura estranho como em tão pouco tempo se reintroduziu – modernizada – uma mentalidade persecutória que só se distingue da que sustentou pretéritos períodos de obscurantismo porque existe hoje não uma moral, mas um pluralismo de morais. Porém, todas oficiais…

...Mais uma vez a Comunicação Social!...

O Diário de Notícias de hoje, dia 6 de Maio, em notícia de 7 linhas, na última coluna da página 26, refere o seguinte: “ Passou quase despercebido, mas Coimbra foi a localidade escolhida para receber o Comité Nobel que efectua a pré-selecção dos candidatos ao prémio com aquele nome, reunindo alguns dos maiores cientistas mundiais da área”.
Verdadeiramente notável esta notícia!...
Pelo tom da mesma, até parece que a comunicação social atribui culpas a outrem que não a si própria: como aos portugueses ”passou despercebido”… não informámos!...
Os responsáveis por tal facto passar despercebido não são os chamados critérios editoriais, que seleccionam o que se publica ou o que não se publica?
Se vieram a Coimbra ”alguns dos maiores cientistas mundiais”, não seria critério editorial falar do assunto, entrevistar alguns, divulgar as suas obras, comparar com o que se faz em Portugal?
A desresponsabilização evidenciada fez-me lembrar aquela do sujeito que estava a ser julgado por matar o pai e a mãe e invocou ao juiz, como atenuante para a pena, o facto de ser órfão!...

Obscura clarificação

Depois de algumas peripécias aqui estou a tentar estar à altura do simpático convite do David Justino e do Ferreira de Almeida para integrar este grupo 4R - Quarta República. Ao blog e aos seus já inúmeros leitores desejo o maior êxito.
É claro que este meu primeiro contributo não podia deixar de ser sobre a Administração Pública, tema que nem sempre merece a atenção devida, apesar de ter tanta influência na vida de cada um de nós e do país.
Tenho assistido com grande perplexidade às iniciativas do novo Governo nessa matéria e, se possível, com ainda maior espanto pela quase total falta de reacção ao que se tem passado.
De facto, o Governo começou por apresentar como prioridade absoluta a chamada “clarificação” da natureza política de alguns altos cargos de direcção. O que veio a público foi, nem mais nem menos, a proposta de que todos os cargos de direcção superior passariam a “cair” automaticamente com a mudança do Governo! Como “clarificação” não se podia pedir nada de mais claro – a Administração Pública totalmente politizada e os seus dirigentes transformados em mandatários políticos. Para disfarçar tão escandalosa pretensão, completamente contrária ao que sempre se disse e criticou sobre a instrumentalização política das nomeações, o Governo propõe-se compensar esta liberalidade com uma fórmula absurda para os concursos para os cargos intermédios (directores de serviço e chefes de divisão). Inventa um júri impossível de reunir, métodos de selecção pesados e burocráticos que levarão anos a terminar, enfim, troca a eficiência pela formalidade, troca o interesse público pela conveniência política.
Este é um projecto que deve merecer a nossa profunda preocupação, pelo que representa sobre a visão da Administração Pública e pelo mal irreparável que vai causar se for por diante.
Em coerência com o seu pensamento, o Governo não perdeu tempo a criar equipas de missão e estruturas ad hoc para os mais diversos temas, sobrepondo competências ou ignorando os serviços que deixam de ter esses assuntos e as razões por que não conseguem tratar deles. É mais gente, mais dinheiro, mais regimes de excepção. É menos responsabilidade, menos organização, menos profissionalismo.
Voltaremos certamente a este tema.


Suzana Toscano

quinta-feira, 5 de maio de 2005

“A reunião não é em Braga. É em Praga.”…

É do conhecimento geral a polémica ocorrida ao redor das relações entre a indústria farmacêutica e os médicos. Situações complexas, sendo que muitas delas não abonam boas condutas de parte a parte, constituindo focos de atenção por parte da comunicação social, da justiça e naturalmente da Ordem dos Médicos. Novas regras e condutas foram estabelecidas para legitimar as relações que, quando são transparentes e de acordo com a ética, são perfeitamente aceitáveis e até desejáveis de molde a proporcionar vantagens e mais valias, sobretudo na preparação técnica e científica dos profissionais. A necessidade permanente de actualização é uma constante na classe médica e deve ser encarada como uma obrigação moral por parte de cada um. Face aos elevados custos em adquirir formação pós graduada todo e qualquer apoio é bem-vindo desde que se respeitem as normas. Mas na prática, e ao contrário do que seria de prever, continuamos a observar que alguns médicos “fazem” formação pós graduada em autênticos paraísos turísticos ou em condições de perfeito ócio pseudo-laboral. A informação recente de congressos efectuados na Índia e na Turquia, os quais se juntam a muitos outros realizados no México, no Pacífico ou em bizantinos cruzeiros nas Caraíbas ou no Mediterrâneo, são um sinal de preocupação que merece ser discutido. Qualquer um tem o direito de calcorrear as sete partidas do mundo e até faz bem conhecer e conviver com outras culturas e civilizações. Fazê-lo num contexto profissional, aproveitando a oportunidade dos tempos livres de congressos credíveis e certificados que se realizam pelo mundo fora, é perfeitamente normal. Mas fazer congressos, jornadas ou quaisquer outros tipos de reuniões com conferencistas, muitos dos quais nacionais, a milhares de quilómetros de distância parece-nos bastante abstruso.
Recordo que um dia uma importante figura nacional me convidou para efectuar uma conferência numas jornadas médicas. Ao convite respondi naturalmente que sim. Comecei a tratar das datas e local. O tema estava já aprazado, a data não levantava qualquer problema, os destinatários estavam referenciados e quanto ao local, a princípio também não fiz qualquer objecção. Foi quando o proponente me informou que iria tratar da viagem e do avião. - Avião! Disse eu. Não é preciso. De Coimbra a Braga faço numa hora e meia a duas. Além disso Coimbra tem apenas um pequeno aeródromo e não há carreiras para Braga. Foi quando me disseram: - mas a reunião não é em Braga. É em Praga. – Praga?!. Escusado será dizer que até hoje ainda não conheço Praga…

Limitação de mandatos, de novo

A propósito do debate parlamentar sobre a limitação dos mandatos dos detentores de cargos políticos, A Capital retoma o debate recorrendo à opinião de Manuel Villaverde Cabral (MVC) sintetizada na frase: «É a capacidade executiva que permite prolongar os mandatos de forma clientelar». Essa “capacidade executiva”, por outras palavras, é que confere poder para contratar com os pequenos, médios e grandes interesses a afectação de bens públicos sobre a forma de benefícios indevidos no todo ou em parte. MVC centra sobre a relação com os “interesses” o que, sem o dizer, prefigura o risco de corrupção, de forma mais suave identificada com “compadrio” ou “facilitismo”. Porém esquece a lógica do próprio clientelismo. O clientelismo afirma-se pelo poder de distribuir, delegar ou retirar uma parte desse mesmo poder de usufruir de bens públicos, traduzido na ocupação de cargos públicos. Este é o clientelismo institucionalizado, legalmente reconhecido e defendido pelos partidos políticos. Ao mesmo tempo, é o mais poderoso dos clientelismos porque permite reproduzir e sustentar essa posição de poder. Nas autarquias através dos lugares em empresas municipais ou participadas, no governo central, através das nomeações para empresas participadas, institutos públicos e na própria administração pública.

Comparar os fundamentos do clientelismo com a exclusiva “gestão” (ilegal ou de legalidade duvidosa) dos interesses privados é esconder a verdadeira natureza do clientelismo. Se tanto se fala dos autarcas, porque se esquecem os vereadores enquanto cargos executivos, também eles sujeitos a uma lógica e desejada limitação de mandatos? Porquê só os presidentes? E porque é que se esquecem dos que “indigitam” os autarcas, dos muitos “aparelhos” que põem e dispõem dos que aparentemente detêm o poder executivo? Esses onde é que estão? Possivelmente em cargos públicos não executivos, mas que nem por isso estão isentos do poder de distribuir poder e dele beneficiar.

A corrupção é uma expressão mínima dos efeitos perversos do clientelismo. Tão só porque está mais sujeita ao escrutínio democrático e institucional. Tudo o resto é ingenuamente legal.

quarta-feira, 4 de maio de 2005

Expectatitva?

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"O Governo já começou a governar?"

Dor de cabeça para o Primeiro-Ministro. E logo provocada pelo Ministro da Saúde…

A notícia de reacção de indignação de autarcas e responsáveis algarvios, face à decisão por parte do "Governo" da não construção do novo Hospital, contrasta com as declarações do Senhor Primeiro-Ministro que, na altura da campanha eleitoral, garantiu a sua efectivação. Penso que o Senhor PM vai cumprir a promessa, como é óbvio. As razões para a construção são, por demais, evidentes.
Existe, de facto, um problema. Prende-se com a atitude do Senhor Ministro da Saúde que, volta e não volta, fala e anuncia decisões de forma verdadeiramente intempestiva.
Palpita-me que o PM vai ter muitas dores de cabeça e não há analgésico capaz de a tratar, sobretudo, enquanto o Ministro da Saúde não tomar um ansiolítico (pode ser dos mais ligeiros, para não provocar habituação) …

Desculpas

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Não é muito normal o aparecimento de pedidos de desculpas públicas por palavras proferidas, em jeito de suspeição ou acusação, nos media. Este caso peculiar - ou então ando mesmo muito distraído - poderia expressar apenas o reconhecimento do erro. Foi assim que o entendi na primeira leitura cruzada do texto. Só mais tarde li com mais atenção, especialmente a primeira frase:"No seguimento de procedimento judicial...". Reparei também que a data do acto de delito foi concretizado em 1998, um processo com quase sete anos. Quantos mais casos como este inundarão os tribunais portugueses? E que recursos públicos envolvem estes processos? E a responsabilidade é da Justiça? Porque é que este tipo de casos não se resolvem fora dos tribunais, com recurso aos mais elementares princípios de civilidade? Porque será que é tão solto o verbo perante uma câmara de televisão ou o microfone dos jornalistas? A facilidade com que se lança a suspeição, se julga, acusa e condena nos media portugueses é impressionante. Parece que anda tudo a soldo de todos.

A coerência da mitologia

O Prof. Massano Cardoso, num trabalho de grande fôlego, conseguiu reconstituir a imagem autêntica de Gaia, a deusa da terra, e decidiu revelá-la no nosso blog.
A imagem motivou-me para difundir um poema de Hesíodo referente à criação do mundo, segundo a tradição grega, onde primeiro era o Caos, tendo Gaia surgido do mesmo.
A seguir, o Prof. Massano serviu-nos a biografia de Gaia.
Estamos, assim, no âmago da mitologia.
Durante alguns anos a mitologia grega não passou, para mim, de histórias de deuses e de super-homens de que realmente gostava, mas não apresentavam qualquer significado especial.
Mas tal juízo alterou-se, depois de uma visita demorada à Grécia e a várias ilhas gregas, onde encontrei um guia espantoso, com conhecimentos profundos de arqueologia e de história (para além de economia…o que é notável), o qual nos deu verdadeiras lições de história, para mais no próprio local onde os factos ou as lendas se tinham passado, e enquadrou a mitologia no seu verdadeiro significado, à luz das últimas investigações.
Segundo elas, as histórias dos deuses constituíam uma forma de compreensão das mentes humanas e do mundo e uma forma pedagógica de veicular conceitos morais, como o mal e o bem, boas ou más acções. As histórias e as lendas eram uma forma de educação. Para tal, a mitologia tinha que ser, e era, uma realidade muito coerente.
Aplicando estes princípios à biografia de Gaia, verifica-se, de facto, coerência.
Gaia (a Terra) nasceu do Caos e personificou a primeira mulher.
Ao contrário da Bíblia, primeiro existiu a mulher e da mulher surgiu o homem, personificado em Urano ( o Céu). Gaia foi assim a mãe de Urano.
Urano era o único homem e Gaia a única mulher e era necessário povoar o mundo nascente.
A união entre mãe e filho tornou-se óbvia.
Ambos dotados das forças iniciais do universo, sem doenças, constrangimentos ou tabus morais dedicaram-se às tarefas da procriação.
Tiveram uma multitude de filhos, dos quais os mais famosos foram os Titans, as Fúrias, os Ciclopes e Kronos.
Urano era pai e, ao mesmo tempo, irmão dos Titans, das Fúrias e dos Cíclopes.
No mundo primevo, em que a natureza mantinha intacta a sua força, os filhos só poderiam ser grandes e violentos e os Titans constituíram uma raça de deuses gigantes.
Mas a genética por vezes tem falhas e fez também nascer outros deuses menos perfeitos, os Cíclopes gigantes, com um só olho.
Eram violentos e combatiam todos entre si.
Mas nasceram também as três Fúrias, Alecto, Megaera e Tisifhone, que vingavam os crimes não punidos pela justiça dos homens.
Nasceu enfim Kronos, o filho mais novo.
Personificou o tempo, que os deuses começaram a necessitar de avaliar.
O tempo passou também para Gaia, que começou a cansar-se das investidas de Urano.
E foi Kronos, o tempo, que terminou com a exarcebada masculinidade de Urano.
Acontece que a violência entre irmãos tinha que ser punida.
O justiceiro veio a ser Zeus, filho de Kronos e de sua irmã Rhea, o primeiro deus do Olimpo e de uma nova era da Grécia.
Aprisionou o pai e os tios no Tártaro (inferno em religiões posteriores), mundo abaixo do mundo subterrâneo, onde reinava Hades, irmão de Zeus, senhor do mundo subterrâneo e da morte.
Brilhante também a forma como é explicada a fertilização da terra: através do sangue espremido por Kronos dos testículos do pai, Urano veio a originar uma outra forma de vida, a vida vegetal.
Recorde-se que a história tem dez mil anos!...
Tem ou não coerência a mitologia?
E pode o homem moderno viver sem mitos?

terça-feira, 3 de maio de 2005

Bioconspiração

Seis profissionais de saúde, cinco búlgaros e um palestiniano foram condenados à morte por terem, segundo as autoridades líbias, infectado deliberadamente 428 crianças no hospital de Benghazi, Tripoli, com o vírus da Sida. Não de uma forma acidental, mas propositada. Ou seja, na perspectiva líbia, um verdadeiro acto de bioterrorismo, um acto de bioconspiração encomendado pelos serviços secretos dos E.U.A ou de Israel. Deste modo estariam criadas condições para desencadear o caos na Líbia!
As reacções a esta bárbara decisão têm decorrido na estrita esfera diplomática, nalguma comunicação social e, agora, em revistas científicas. Há como uma corrente, embora muito débil, de solidariedade com os profissionais em causa, contrastando com muitas outras iniciativas que são acompanhadas de verdadeiras esquadrilhas de ataque nos órgãos de comunicação, despertando a atenção para a injustiça criada. Os profissionais, numa primeira fase, confessaram a autoria dos factos no seguimento de várias torturas, espancamentos e violações. Posteriormente negaram os eventos alegando que foram maltratados e profanados os mais elementares direitos humanos, facto que não deverá ter abalado por aí além a consciência dos torcionários líbios e muito menos a de Kadaphi se é que a possui.
Face a uma situação verdadeiramente insólita, profissionais de saúde que se disponibilizaram para darem o seu contributo a um país carenciado numa base de verdadeiro altruísmo, vários cientistas lavraram os seus protestos, permitindo que uma equipa liderada por duas eminentes autoridades, das quais se destaca Luc Montagnier – o descobridor do vírus da Sida – fossem a Benghazi estudar a epidemia. As conclusões apontaram para a inocência dos médicos. A epidemia foi uma consequência de más práticas hospitalares (datando de há muitos anos) e das condições de higiene. O trabalho sério dos investigadores contrasta com as posições dos líbios, mas as suas opiniões foram recusadas. O tribunal líbio sentenciou-os à morte por fuzilamento. Kadaphi já se pronunciou mais do que uma vez sobre a culpabilidade dos mesmos.
Não deixa de ser curioso o facto do governo líbio reconsiderar a situação no caso de receber 5,7 mil milhões de dólares e se for libertado o acusado de ter feito explodir um avião em 1989. Deve ser para pagar as indemnizações do atentado de Lockerbie. Assim se comporta o verdadeiro e genuíno terrorista, Kadaphi.
Os profissionais de saúde são, por definição, generosos e altruístas, mas casos como este devem fazer pensar duas vezes antes de se lançarem em terras governadas por terroristas…

Gaia e a criação do mundo, segundo Hesíodo

A excelente imagem de Gaia ou Gaea, deusa da Terra, servida apetitosamente ao Blog pelas mãos do Prof. Massano, fez-me reler o relato da criação do mundo, feito nos versos de Hesíodo, cerca de oito mil anos antes de Cristo e mantido na tradição e mitologia gregas.
Nesse relato, lá está Gaia, a segunda criatura a ser criada, nascida do Caos.
O poema é notável.
Se compararmos com o relato da Bíblia, 4000 anos posterior e também um poema admirável, vemos semelhanças que são de assinalar.
Aí vai o poema.

Primeiro que tudo surgiu o Caos
E depois Gaia, de amplo peito
Para sempre firme alicerce de todas as coisas
E o brumoso Tártaro num recesso da Terra de largos caminhos
E Eros, o mais belo de entre os deuses imortais
Que amolece os membros
E, no peito de todos os deuses e de todos os homens, domina o espírito e a vontade ponderada.
Do Caos nasceu o Érebro e a negra Noite
Da noite, por sua vez, nasceu o Éter e o Dia
Que ela concebeu e deu à luz, depois da sua ligação amorosa com Érebro.
E Gaia gerou primeiro Urano (o céu) constelado, igual a ela própria
Para cobrir em toda a volta
E para ser eternamente a morada segura dos deuses bem-aventurados
Deu à luz, em seguida, as altas montanhas
Retiros aprazíveis das ninfas divinas
Que habitam as montanhas arborizadas
Também deu à luz o mar estéril
Que agita com as suas vagas, o Ponto, seu deleitoso amor.
E seguidamente, tendo partilhado o leito com Urano,
Gerou o oceano dos redemoinhos profundos,
E Coio e Crio e Hipérion e Jápeto…

Gostava de notar a poderosa descrição de Eros, “…o mais belo dos deuses que…, no peito de todos os homens, domina o espírito e a vontade ponderada!...”
Simplesmente notável!...
E isto, 8000 anos antes de Cristo, mais de 7000 anos antes da filosofia grega!...
O homem pouco aprendeu, desde então!...

Matar a mensagem ou assassinar o mensageiro

Um blogista de nome Manuel, que escreve na “Grande Loja do Queijo Limiano”, decidiu brindar-me com algumas considerações de carácter pessoal que não vou qualificar.
Não sei quem é o Manuel, mas gostaria de o conhecer. Conhecer a cara, o nome, o que faz na vida, as suas escolhas ideológicas e até partidárias.
Ele conhece as minhas. Não me escondo atrás de um pseudónimo.
Aliás, neste blog só escrevem pessoas que têm cara, têm nome e não precisam do anonimato para dizerem o que pensam.
Meu caro Manuel da Grande Loja
Gostaria de ser um aparatchick da JSD. Por uma única razão. Para pertencer à JSD eu deveria ter menos de 30 anos. Assim, estaria bem longe do meus actuais 46 anos. Teria mais algum tempo para gozar a vida. Obrigado pelo tentativa de rejuvenescimento.
Mas não gostaria de ser um aparatchick profissional da JSD. Também por uma única razão. Ao que sei eles pagam mal e pouco. Mesmo muito pouco. Obrigado pela ajuda remuneratória, mas como arquitecto que sou, comprenderá que ganho razoavelmente.
Já agora deve saber que tenho uma profissão. Uma profissão que não tem qualquer relação com a política nem com Oeiras e menos ainda com a Câmara Municipal de Oeiras.
Vivo em Lisboa, voto em Lisboa e tenho um grande defeito. Aprecio a obra do Dr. Isaltino Morais e admiro o homem.
Aceite um conselho. Da próxima vez procure matar a mensagem em vez de tentar assassinar o mensageiro.

segunda-feira, 2 de maio de 2005

Tiro-lhe o meu chapéu, senhor Presidente...

De louvável equilíbrio e sensatez a mensagem do Sr. Presidente da República dirigida à Assembleia da República na qual comunica a sua decisão de não convocar o referendo sobre a IVG.
O Dr. Jorge Sampaio tem especial razão quando aponta para as fragilidades acumuladas de um instituto de exercício do poder político que, atentas as experiências anteriores de fraca participação, tenderá a descredibilizar-se se for de novo utilizado sem previamente se assegurarem as condições mínimas para uma expressão significativa da vontade popular.
Espera-se que mereça a mesma ponderação a convocação do referendo sobre a constituição europeia. Se for convocado sem garantias de uma ampla e atempada campanha de esclarecimento sobre o significado para o País e para a Europa do documento; mas sobretudo se o for - como se tem proposto - para o momento eleitoral para as autárquicas, até podem atingir-se altos níveis de participação, mas restará sempre a dúvida se os seus resultados decorrem de um participação consciente e esclarecida dos cidadãos. E de uma participação qualificada dos cidadãos depende também a sobrevivência do referendo.

"Gaia. Deusa do Planeta Terra"...


Gaia. Deusa do Planeta Terra...
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O insustentável rigor da comunicação social

O principal título da edição de ontem, dia 1 de Maio, do Diário de Notícias era o seguinte: “Portugal campeão das falências na Europa”.
Depois, em subtítulo, dizia: “Em 2004, Portugal registou 3123 empresas falidas, quase 6 vezes mais que em Espanha”.
O tema era desenvolvido nas páginas interiores, nomeadamente na terceira.
Nesta, o título já era substancialmente diferente: “Portugal é campeão do aumento de falências”.
No artigo, dizia-se:”…apesar do aumento acentuado, Portugal apresenta, em termos absolutos, um número relativamente baixo de falências, quando comparado com outros países de dimensão semelhante. Países como a Bélgica, com 8000 falências, ou a Áustria ou a Holanda, que superaram as 6000 falências, apresentam um desempenho mais negativo…”
Mais adiante, depois de referir que as falências baixaram em Espanha em 2004, o artigo diz: “…Mas em 2002, quando as falências em Portugal cresciam apenas 9%, os espanhóis enfrentaram um agravamento gigantesco de 89%”.
E mais adiante: ”…Já no primeiro trimestre deste ano…os dados indicam que houve menos 140 falências do que no ano anterior…mas foram apresentadas à falência 60 empresas, mais 53 do que no primeiro trimestre do ano anterior...”
Em síntese:
1. Quem lesse só o título da 1ª página entendia que Portugal era o país com mais falências na Europa.
2. Quem lesse só o título da terceira página, entendia que Portugal era o país onde as falências mais aumentaram em 2004.
3. Quem lesse só os títulos da primeira e da terceira página entendia que Portugal era o país com mais falências na Europa e o país onde o número de falências mais cresceu.
4. Quem lesse o artigo da 3ª página, concluía que “Portugal apresenta um número relativamente baixo de falências, quando comparado com outros países de dimensão semelhante”, situação que cotraria o título da 1ª página.
5. Quem lesse o título da 1ª página e um subtítulo da 3ª página concluía que em 2004 o número de falências foi quase 6 vezes maior do que em Espanha e ficava alarmado.
6. Quem lesse o artigo da 3ª página concluía também que, em 2002, as falências em Espanha cresceram 9 vezes mais do que em Portugal e ficava descansado.
7. Quem ficasse apalermado com o que leu, apanharia um choque vitamínico, ao ler que no primeiro trimestre de 2004 houve, em Portugal, menos falências do que em idêntico período do ano anterior e ficaria logo recomposto, ao ler que, em 2004, foram apresentadas à falência 60 empresas, mais 53 do que no primeiro trimestre do ano anterior.
O que significa que nesse trimestre se apresentou à falência o número astronómico de… 7 empresas!...
8. Depois de reler os títulos, que nos chamavam de campeões, o leitor interrogava-se se, mais uma vez, não seríamos campeões de coisa nenhuma.
9. Parabéns à Direcção, à Direcção Adjunta, à Subdirecção e à Redacção do Diário de Notícias por prosa tão conseguida, tão criteriosa e rigorosa e tão pouco sensacionalista.

domingo, 1 de maio de 2005

“Time me, gentlemen, time me”

O erro médico, a negligência e as respectivas responsabilidades são alvos de preocupação e de reflexão, quer por parte dos médicos, quer por parte dos juristas e legisladores.
O amplo leque das causas e factores subjacentes ao seu aparecimento começa a ser melhor caracterizado.
A história da medicina está repleta de inúmeros casos paradigmáticos de erros resultantes de vários factores. No século XIX, um notável e distinto cirurgião escocês, Robert Liston, caracterizou-se pela rapidez e eficiência das suas práticas cirúrgicas, nomeadamente amputações dos membros. Na altura, não havia ainda anti-sepsia, nem anestesia, pelo que a rapidez da intervenção cirúrgica era crucial para o doente. Tornou-se no cirurgião mais rápido do mundo ao executar amputações em dois minutos e meio (recorde: dois minutos e vinte e oito segundos). Era muito vaidoso. De tal forma, que solicitava à assistência, muitos dos quais eram estudantes, que o cronometrassem: “time me, gentlemen, time me”!
Claro que a sua rapidez originou alguns problemas, um dos quais foi ter cortado, involuntariamente os testículos a um dos seus doentes e o outro foi ter cortado os dedos do seu ajudante que acabou por morrer de gangrena, assim como o doente, além da morte por susto de um assistente ao sentir o contacto da faca, lançada por acidente pelo cirurgião, na sua região pudenda! Liston deve ter sido o único cirurgião a ter uma taxa de mortalidade de 300% numa única intervenção cirúrgica (morte do amputado, do ajudante e do assistente)! Claro que este “acidente” não afectou o seu prestígio.
Hoje, a velocidade não conta como naquele tempo, por motivos óbvios, mas há outras pressões que podem condicionar o comportamento médico entre as quais se destacam as condições de trabalho e as “exigências” administrativas. Alguns responsáveis defendem que as próprias administrações dos estabelecimentos de saúde deveriam ser responsabilizadas em caso de negligência médica. Sendo assim, os administradores da área da saúde poderiam, também, ser igualmente co-responsáveis pelas “castrações” involuntárias praticadas pelos médicos que trabalham sob a sua direcção (às vezes em que condições!).
Seria interessante, no futuro, ver quem é que desejaria ser administrador. “Castrados”? Nem pensar!

A mulher de César

A história conta-se que terá tido lugar no 1 de Maio do ano 62 a.C., há precisamente 2067 anos.
Nesse dia festejava-se a Bona Dea (“a boa deusa”) em casa de Júlio César, recentemente eleito pontifex maximus (sacerdote supremo). Tradicionalmente, o acesso a estas festas estava reservado às mulheres. Pompeia Sula, segunda mulher de Júlio César, era a jovem e bela anfitriã do que era conhecido como uma orgia báquica reservada ao sexo feminino. Nesse ano as festividades acabaram em escândalo: Publius Clodius, jovem nascido em berço de oiro, mas conhecido pela sua insolência e audácia, estando apaixonado por Pompeia, não resistiu. Disfarçou-se de tocadora de lira e introduziu-se em tão reservada celebração. As coisas correram mal a Publius Clodius que acabou por ser descoberto por Aurélia, mãe de César, sem usufruir da bela Pompeia.
O escândalo correu por Roma o que levou César a divorciar-se de Pompeia. Publius Clodius foi acusado de sacrilégio e julgado em tribunal. O povo estava com Clodius e César, chamado a depor como testemunha, disse que nada tinha, nem nada sabia contra o suposto sacrílego. Foi o espanto geral entre os senadores: “Então porque se divorciou da sua mulher?”. A resposta tornou-se famosa: “A mulher de César deve estar acima de qualquer suspeita”.
A mulher de César ficou eternamente sob suspeita. Publius Clodius beneficiou da demagogia de Júlio César e do receio dos senadores de perderem apoio popular.

Na versão portuguesa actualizada ficou a frase: “ À mulher de César não basta ser, terá que parecer”. Não consta que exista qualquer máxima relativa a Publius Clodius. Para César o que parece é e o que realmente é convém não parecer. Em Portugal, Pompeia dificilmente poderia ser candidata autárquica, Publius Clodius manteria o seu estatuto de nobre respeitado e potencial candidato a Senador. Só porque não parece.

Constituição Europeia

Enquanto por aqui nos vamos entretendo a discutir a data do referendo sobre uma constituição europeia de que alguns falam, quase ninguém conhece e ninguém está preocupado em dar a conhecer, é de aproveitar o dossier especial publicado no Nouvel Obs.

"Sistema ABC e sistema ABS”…

O Vaticano criou, recentemente, uma fundação destinada a financiar as organizações católicas na luta contra a SIDA. A Good Samaritan Foundation dispõe para já uma verba superior a 100.000 dólares e apela à contribuição de todos independentemente de concordarem ou não com a política da Igreja face ao uso do preservativo. O destino das iniciativas centra-se sobretudo nos países mais desfavorecidos. Atitude louvável, sem dúvida, e que está de acordo com os princípios humanistas desta corrente religiosa. O que parece mais difícil de aceitar é a teimosia na proibição do uso do preservativo quer para fins contraceptivos, quer para evitar a propagação do vírus da SIDA. São apontadas, basicamente, duas grandes razões para o não uso do preservativo: trata-se de um meio artificial do controlo da natalidade além de ser favorecedor da “promiscuidade”. Claro que, felizmente, já se levantam vozes cardinalícias contra esta inexplicável ou pouco convincente ortodoxia. Esperemos que o cardeal Alfonso Lopez Trujillo reveja a sua posição. O Cardeal belga Godfried Danneels afirmou recentemente que um indivíduo seropositivo “terá de usar preservativo se tiver relações sexuais. De outra forma estará a cometer um pecado”. Acontece que muitas pessoas são já portadoras do vírus sem saberem, pelo que é imperioso o seu uso a fim de evitar que cometam “pecados”. Alguns oposicionistas à utilização do preservativo pretendem escalonar um conjunto de regras designado pela sigla inglesa ABC, ou seja: abstinência, be faithful (fidelidade) e condom (preservativo). Ninguém põe em dúvida que a castidade levada aos seus limites diminuiria bastante a propagação do vírus. Resta saber se é possível contrariar impulsos desta natureza. Mesmo aqueles que, em princípio, escolheram deliberadamente vidas castas são, com uma frequência muito preocupante, autores de atitudes muito pouco ortodoxas e impróprias do seu estatuto, revelando que a virtude da castidade está mais perto da utopia do que da realidade humana. Quanto à fidelidade é de estimular e acarinhar. Em último lugar fica o preservativo, mas mais como recurso de última linha do que propriamente uma alternativa em pé de igualdade com as restantes e superiores prioridades já enunciadas. Os argumentos a favor do sistema ABC não são suficientes para contrariar a situação vivida neste planeta. Claro que os defensores irão utilizar o argumento ugandês como prova de que até funciona, só que o mundo não se cinge a este pobre país da África Central, zona do globo que não se pauta por exemplaridades de monta. São precisas diferentes estratégias para contrariar a epidemia e o sistema ABC não é sinónimo de um verdadeiro e eficaz sistema ABS capaz de travar um fenómeno tão devastador como é o caso da SIDA…