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sábado, 16 de abril de 2016

Coisas destas vão sendo raras...

Estas coisas vão sendo raras. Desloquei-me hoje a uma casa de ferragens. Já existem poucas em Lisboa. Fecharam quase todas, sobrevivem umas poucas. Agora para comprar uns puxadores para umas portas é preciso fazer quilómetros e perder horas numa grande superfície de bricolage.
Fui atendida atenciosamente. O dono da casa de ferragens mostrou-me tudo o que tinha em stock e em catálogo, auxiliou-me na escolha, explicando os pormenores técnicos que já estamos habituados a dispensar. São informações, a bem dizer, preciosas para sabermos o que estamos a comprar, evitam-se erros e perdas de tempo.
Senti naquele homem uma preocupação de agradar ao cliente, colocando à sua disposição todo um saber. Um conhecimento e uma experiência acumulada de uma vida de trabalho muito bem adaptados aos tempos modernos. Percebi que o fazia com satisfação.
Depois da encomenda feita veio, naturalmente, a pergunta óbvia sobre o montante necessário para a sinalizar. E a resposta do dono da casa de ferragens foi realmente inesperada: ainda temos que confiar em alguém! Não é necessário qualquer sinal.
Mas tem a certeza? Insisti. Sim, minha senhora, é a minha filosofia de vida, é assim que estou habituado a fazer e não me tenho dado mal!
Coisas destas já são raras. É difícil aos pequenos comerciantes resistirem às "globalizações", mas no fundo são as pessoas que contam, quem vende e quem compra, são elas que fazem a diferença. Haverá sempre quem goste de ter um atendimento personalizado e dê o devido valor à confiança…

6 comentários:

António Barreto disse...

Economia dos baixos salários. É para destruir...sem dó nem piedade.
Este episódio recorda-me o contraste entre as grandes superfícies e os Mercados Municipais. Estes, profundamente humanizados; o vendedor ajuda o ciente a escolher o melhor produto, pergunta-lhe pela família, oferece uma laranja a uma criança...ou a um adulto que, necessitado, por ali vai passando. O cliente conhece os comerciantes, encontra vizinhos ou simplesmente conhecidos, conversa com eles. As economias locais desenvolvem-se as aldeias povoam-se os impactos ambientais atenuam-se. A vida palpita, nos Mercados Municipais.

É necessário outro modelo de gestão para estas unidades económicas que propicie a modernização e diversificação da oferta. Infelizmente, as Câmaras Municipais, asfixiadas, na sua maioria, em défices crónicos, e salvo algumas exceções, não têm capacidade nem vocação para tal empreitada.

Bartolomeu disse...

«E a resposta do dono da casa de ferragens foi realmente inesperada:»
Inesperada?!
Cara Drª Margarida, aquele comerciante, fruto da experiência acumulada, percebeu imediatamente estar perante uma cliente séria e confiável... coisa que nos tempos que correm se torna cada vez mais, difícil de encontrar.
Esse comerciante, pela bonomia que aparentemente conserva, é um dos poucos resistente à submersão pelas grandes superfícies e à asfixia do fisco, ajudada pelas inspeções da AT, ASAE, GNR que, como matilha esfomeada, atormenta os pequenos comerciantes, fazendo com que paguem coimas, por faltas que desconheciam estar a cometer, muitas, sem a mínima utilidade para qualquer das partes.

SLGS disse...

Este belíssimo episódio trouxe-me à ideia outro, passado comigo, aquando do casamento do meu filho mais velho (1998).
Contratei uma empresa de “catering” que, embora fosse familiar, tinha uma razoável dimensão e era conhecida pela qualidade do serviço que prestava. Ninguém a recomendou e ninguém me recomendou e não conhecia o empresário. Ajustado, muito cordialmente, o serviço, fiz como a Drª Margarida, a pergunta que se impunha: quanto para sinalizar a encomenda? Obtive a mesma resposta que a Drª: entre gente séria não são necessários sinais, basta a palavra e a comparência de noivos e convivas no dia, hora e local aprazados. Não falhou e não se ficou por aqui.
Terminada a “festa” que, diga-se de passagem, foi muito bem servida, pelas 3 horas da madrugada só restávamos, para além do empresário e empregados, a minha mulher e eu. Era tempo de sair, vamos a contas. Resposta: acha que a esta hora, com o cansaço que tenho, há disponibilidade para isso? Vamos todos descansar e por um dia destes telefone-me para ver se arranjamos um bocado para regularizar o assunto. E assim foi!
Tudo isto me calou muito profundamente, passou-se em Évora e o empresário o Sr. Galhetas, que bem merece ser nomeado.
Para terminar, uma opinião: o comércio tradicional, com este tipo de atendimento personalizado e com base numa relação de confiança mútua, está real e infelizmente em declínio, mas a culpa directa não é dos hipermercados nem da ASAE mas sim do automóvel e da vida cada vez mais preenchida das famílias. As empresas de distribuição não fizeram mais do que saber aproveitar a oportunidade.
É o que penso

Bartolomeu disse...

Não pretendo de forma alguma contrariar a opinião do caro SLGS.
Contudo, devo dizer-lhe que conheço pessoalmente 4 estabelecimentos da área da restauração e um infantário que decidiram encerrar a actividade na sequência de visitas da ASAE, finanças e GNR, num deles as 3 autoridades em conjunto que se deram ao "luxo" de mandar sair todos os clientes e cada um dedicou-se a "farejar" pequenos nadas que foram listando, dando lugar ao pagamento de várias coimas. Um deles, um restaurante, após 3 ou 4 visitas durante dois meses, notificaram-no que deveria mudar o termometro do expositor das sobremesas. O empresário, atónito, perguntou porquê, dado que o mesmo estava a marcar a temperatura. O fiscal respondeu-lhe que aquele modelo já não se encontrava homologado, dando-lhe o prazo de 15 dias para fazer a troca. Resultado, em menos de 15 dias o empresário que já levava várias décadas de trabalho, encerrou a atividade.
Mas a responsabilidade da preferência pelas grandes superfícies, não se deve somente à posse de automóvel, muitos clientes também se deslocam nos transportes públicos. O sucesso das grandes superfícies tem muito a ver com características próprias dos humanos e elas são todas muto bem exploradas nesses locais e obdecem a estudos psicológicos já largamente testados e colocados em prática. Ou seja, a grosso modo a "técnica" é semelhante à do pescador; engoda para atrair o peixe e o poder fisgar fácilmente. Ora, se for um pescador experiente, utiliza o isco que sabe ser da preferência dos peixes que pretende pescar.

asam disse...

Acrescentava uma outra razão. Certo comércio tradicional dá muito trabalho.

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

Caro António Barreto
Sou cliente semanal do mercado municipal da minha freguesia. Gosto imenso, justamente porque é um sítio que fica à mão, conheço os comerciantes e eles conhecem-me, há uma proximidade física, mas há também uma proximidade "afectiva" que valorizo bastante.
Há um potencial grande de dimamização dos mercados municipais, mas o "modelo de negócio" teria que ser alterado.

Caro Bartolomeu
A confiança respira-se e inspira-se!
Sou muito favorável ao comércio de bairro, o quadro regulatório existente não favorece o seu desenvolvimento, pelo contrário asfixia-o como muito bem assinalou.

Caro SLGS
Gostei de ler a sua história. Fantástico!
Ainda vamos tendo senhores "galhetas"...

Caro asam
E envolve demasiados riscos. Os custos do contexto são desproporcionais.