Número total de visualizações de páginas

quarta-feira, 14 de setembro de 2005

Base de dados genéticos

A importância da genética para fins de investigação é muito importante, quer sob o ponto de vista criminal, quer sob o ponto de vista civil. No primeiro caso, é possível “controlar, identificar e vigiar” criminosos ou suspeitos através de análises de ADN. No segundo, em caso de catástrofe ou de situações em que se procura a identificação das vítimas é de uma grande utilidade. Um terceiro ponto tem a ver com a investigação científica.
Relativamente à investigação criminal, utilizando as técnicas mais adequadas e de uma forma perfeitamente controlável, nada haverá a opor. Mas quanto à existência de bases de dados genéticos, que possam ser utilizados para outros fins, o perigo é real se não forem devidamente utilizados.
Nos próximos tempos vai haver muita discussão e debates sobre esta matéria. O que é certo é que com o tempo acabarão por se constituírem as tais bases. As razões assentam na necessidade de controlar a criminalidade e na evolução da investigação científica que pode e deve ser utilizada para controlar aquela. O pior é que os criminosos também sabem utilizar os resultados da investigação científica para baralhar o esquema. Senão vejamos: a divulgação dos avanços científicos, nomeadamente da polícia forense, através de séries televisivas, tais como CSI (Crime Scene Investigation), levam os criminosos, por exemplo, assaltantes de carros, a deixarem beatas de cigarros apanhadas em vários locais, no interior dos veículos roubados, para confundir a polícia. Pode acontecer que um assaltante ou um assassino leve algum produto biológico de um vizinho para colocar no local do assalto ou no corpo da vítima.
A parada de complexidade vai subir. A ciência não é boa nem é má, mas é usada tanto pelos “bons” como pelos “maus”. Sendo assim, a constituição de bases de dados genéticos não vai ser pacífica nem resolver tudo. Resolverá, sem dúvida, muitos problemas, mas não deixará de originar outros, porventura muito graves.
A problemática da utilização dos dados genéticos para fins pouco ortodoxos e a sua fácil aplicação é uma realidade. No Reino Unido, os agentes de tráfico, que são, frequentemente, vítimas de humilhação e abusos, contam agora com uma nova técnica para combater os condutores mais irascíveis: o”kit detector de cuspo”. Assim, no caso de um polícia ser alvo de um condutor-cuspidor, o agente utiliza o material biológico para provar a identidade do autor de tamanha façanha.
Imagino o que poderia acontecer se fossem utilizados kits detectores de escarros, de urina, de fezes e outras coisas, por essas cidades e vilas fora. Cruzavam-se os resultados com uma base de dados genéticos e procedia-se à respectiva contra-ordenação dos prevaricadores. Volta e não volta o cidadão receberia um aviso para pagar uma coima por ter sido detectado no dia tal, no local x a presença de …

Cortar o mal pela raiz

Nos últimos posts abordaram-se algumas das implicações da recente proposta governamental de nomeação do presidente do Tribunal de Contas.
Compreendo e não me custa subscrever a perspectiva dos que vieram defender que a indigitação não pode ser alheada da circunstância política em que foi feita.
Volto a questionar, porém, se os partidos não têm na mão o instrumento para cortar o mal pela raiz.
O que para mim não faz sentido é que a indigitação seja feita pelo Governo, afinal, a principal entidade objecto dos poderes jurisdicionais e não jurisdicionais do Tribunal de Contas.
A solução parece-me simples e corresponderia melhor ao enredo constitucional. Bastaria deslocar esse poder para a Assembleia da República, a quem nos termos da Lei Fundamental cabe a fiscalização do órgão superior da Administração Pública, impondo-se que a designação se fizesse por maioria qualificada de modo a impedir que a mesma derivasse da vontade das circunstanciais maiorias governamentais.

terça-feira, 13 de setembro de 2005

O Último Reduto

Concordo plenamente com o que o Ferreira d'Almeida diz aqi no blog sobre o nomeação de Guilherme Oliveira Martins para o cargo de Presidente do Tribunal de Contas. Também o conheço há muitos anos e tenho enorme consideração e estima pelo que ele é como pessoa, como técnico e como político. Merece, sem reservas, o meu respeito e a confiança de que exercerá o cargo com isenção e competência.
Só que o problema não está na pessoa em si, longe disso, nem creio que seja isso que provoca polémica. O facto de ter sido Guilherme OM o escolhido só pode atenuar as críticas, mas não é suficiente, a meu ver, para iludir a questão essencial.
E a questão é que o Partido Socialista tem politizado assumidamente os cargos dirigentes da Administração Pública, das Administrações das empresas e das instituições em que o Governo tem uma palavra a dizer. Tivesse sido outra a orientação do PS e do Governo, tivesse sido, como tanto proclamou antes de ganhar as eleições, a via da credibilidade e da competência a orientar as escolhas, e nada haveria agora a apontar.
Mas não foi. Todas as escolhas têm sido políticas, no sentido da fidelidade a um partido e da garantia de que, desse modo, se terá uma actuação solidária - ou cúmplice.
A isenção não tem sido reabilitada, como tanto era necessário, para o exercício das mais altas funções públicas. Então, porque o seria agora? O Tribunal de Contas era uma espécie de último reduto, uma instituição que é reconhecida pela sua intervenção rigorosa na fiscalização das contas públicas e, não raras vezes, bastante incómoda nos reparos ou na oportunidade das suas intervenções.
Critiquei bastante o facto de Sousa Franco ter aceite ser Ministro das Finanças do Governo PS saido directamente do cargo de Presidente do TC, exactamente porque punha em causa as motivações da sua conduta no período final que antecedeu as eleições.
Há regras que não têm que ser escritas, é uma questão de bom senso, e um cargo que exige isenção e imparcialidade não devia ser preenchido por alguém que está na política activa. Não tem que ver com ser ou não militante de um Partido ou de ser livre de fazer as suas escolhas, mas com o facto de ser parte, de ser interessado, de estar, agora, por força das suas funções actuais, objectivamente comprometido. É uma circunstância, se fosse outra a situação e outra a filosofia quanto à natureza dos cargos, só teríamos que nos regozijar com a escolha de GOM.
Mas não é uma questão de penhor pessoal. É uma questão de princípio.

A sabedoria chega sempre tarde!...

Velho sábio


Estive há dias em Ferreira do Alentejo num casamento na bonita igreja do século XVI dedicada a Nossa Senhora da Conceição, cuja imagem terá acompanhado Vasco da Gama até à Índia.
O livrinho de acompanhamento da cerimónia religiosa incluía um excerto de Gabriel Garcia Marquez, para mim inesperado em tal circunstância, mesmo que alusivo ao casamento.
Dizia o autor:
“…Outra coisa bem diferente teria sido a vida para eles, se tivessem sabido a tempo que era mais fácil ultrapassar as grandes catástrofes matrimoniais que as misérias maiúsculas do dia a dia. Mas se alguma coisa tinham aprendido juntos era que a sabedoria só nos chega quando não serve para nada…!”
Não tenho o dom de gostar de Garcia Marquez, mas o pensamento, inesperadamente servido numa cerimónia da Igreja Católica, é bem bonito e muito verdadeiro!...

Sobre a indigitação de Guilherme d´Oliveira Martins para a presidência do Tribunal de Contas

Ouço os ruidosos protestos da oposição pela anunciada indigitação do Dr. Guilherme d´Oliveira Martins para presidente do Tribunal de Contas. Parecem-me injustos para o indigitado. E alguns dos argumentos que se avançam parecem-me absolutamente tontos.
Não aceito que digam sem mais que alguém não é isento para o exercício de uma função desta natureza, pelo facto de ser alinhado com determinado partido e ter exercido cargos de nomeação política, designadamente governamentais, pela mão desse partido. Começa a assumir foros de doença social este anátema permanente que se lança sobre a verticalidade das pessoas, quando não sobre a sua honorabilidade, só pelo facto de militarem ou colaborarem com partidos políticos. Parece que quem é sério e capaz deixa de o ser no exacto nomento em que, no pleno uso da sua liberdade, resolve aderir a um partido ou com ele colaborar mesmo que mantenha formalmente a sua independência, com julgo ser o caso de Oliveira Martins...
Não deixa de ser, aliás, patológico que sejam os próprios partidos políticos a fazer esta crítica, que equivale a afirmar que nas suas fileiras não existem afinal mulheres e homens capazes de exercer, com imparcialidade e seriedade, funções públicas que exijam um especial respeito por estes valores.
Conheço há muitos anos o Dr. Oliveira Martins. Se há coisa que lhe reconheço, para além de uma inteligência e cultura fora do que é comum, é uma honestidade e rectidão comprovadas, um enorme sentido de Estado e uma sólida formação, qualidades necessárias ao desempenho daquelas funções no respeito pelos princípios que o acusam de não ter condições para respeitar.
Acresce que o Dr. Guilherme d´Oliveira Martins é um estudioso e um conhecedor, como poucos, das finanças públicas portuguesas, o que particularmente o habilita para presidir à mais alta instância do controlo financeiro do Estado e das demais entidades públicas.
Agora o que me parece caricato é que se venha dizer que para o tribunal não deve ser nomeado um político mas um juiz!
Nem o combate político explica ou justifica que se ignore o carácter específico deste concreto tribunal, que, claro está, não exclui juizes, mas não obriga nem tão pouco aconselha que a sua presidência seja exercida por magistrado.
Admira-me que esta demagogia fácil - que descredibiliza sobretudo quem a faz, não quem visa descredibilizar - hipnotize ao ponto de não fazer perceber a quem dela faz uso, que para este cargo fundamental para o funcionamento saudável do Estado na medida em que o Tribunal de Contas não julga só da legalidade mas igualmente da economicidade, da eficácia e da eficiência da despesa pública, é mil vezes preferível um político honesto, capaz e competente, do que um juiz cinzento e impreparado.
Finalmente espanta-me esta súbita preocupação veiculada pelos partidos da oposição. São eles que há muitos anos detêm o poder de afastar definitivamente estas suspeições, fazendo com que a lei confira exclusivamente à Assembleia da República, através de uma maioria qualificada, a nomeação do Presidente do Tribunal de Contas.
Vale a pena perguntar porque nunca terão feito uso desse poder?

Prémios Darwin

Em tempos adquiri um livro com um título interessante: “Prémios Darwin”. Mas, o subtítulo era ainda mais curioso: “Prémios à estupidez humana”. Trata-se de uma colectânea de histórias cujos protagonistas acabam por sucumbir devido a erros e comportamentos lamentáveis. Wendy Northcutt explica o sentido dos Prémios Darwin (também há menções honrosas!) numa base evolucionista. Deste modo, segundo a autora, os “Prémios Darwin homenageiam aqueles que asseguram a sobrevivência a longo prazo da nossa espécie, retirando-se eles próprios, de uma forma totalmente idiota, do fundo genético da nossa espécie. Contribuem, assim, para o aperfeiçoamento da espécie humana". Histórias mirabolantes que vão desde o larápio que tenta roubar os fios eléctricos sem desligar a corrente, passando pelo homem que acende o isqueiro para espreitar dentro de um recipiente com gasolina, ou do terrorista distraído que abre a carta armadilhada que lhe foi devolvida por insuficiência de selos, ou ainda de um outro morto pela queda da máquina de bebidas quando tentava tirar uma embalagem de água sem pagar. Enfim, casos que podem provocar alguns sorrisos, não fosse o facto de se materializarem em mortes ou situações de invalidez. No fundo, o que podemos afirmar é que a estupidez reina nos diferentes casos.Estas observações têm a ver com vários tipos de situações que ocorrem no nosso país, as quais continuam a originar muitas mortes que podiam e deveriam ser evitadas. Os relatos de mortes por afogamento, associados às mortes por muitos acidentes de viação e por acidentes de trabalho, revelam que, num grande número de casos, são a expressão de condutas impróprias, por vezes mesmo estúpidas, tradutoras de uma falta de cultura. Não acredito que haja, em Portugal, algum gene da loucura, que possa explicar esta tendência para a autodestruição. Afinal, todos os esforços de informação e educação em matéria de prevenção destas situações, altamente prevalentes entre nós, não têm dado resultados. Talvez, devido à repetição e monotonia das causas subjacentes à maioria dos tipos de óbito considerados, os portugueses não sejam alvo de atribuição dos Prémios Darwin. Mas, mesmo assim, não deixam de revelar uma infinita estupidez.
Segundo Einstein, a estupidez humana e o Universo são as duas únicas coisas infinitas, e, no tocante ao Universo, não tinha a certeza absoluta.
Uma fracção respeitável de portugueses, com os seus bizarros comportamentos, acaba por reforçar a afirmação do célebre cientista...

Controllers

Uma das medidas de grande inovação anunciadas para o Orçamento de Estado é a criação da figura do "Controller" para "acompanhar a execução financeira de cada Ministério em tempo real", conforme terá dito o Ministro das Finanças. O que o mesmo Ministro não disse foi para que servem então as Delegações da Direcção Geral do Orçamento, que funcionam precisamente junto de cada Ministério e que acompanham e verificam os pedidos de libertação de créditos.
Quererá esta inovação dizer que se vai fazer ums reforma profunda ao nível da intervenção dessa Direcção Geral? Ou que se vai criar mais um "corpo especial" de funcionários que vai juntar-se à multidão de inspecções sectoriais e à inspecção geral de Finanças para fiscalizar os que executam as despesas?
O problema da execução orçamental e das derrapagens não resulta de falta de informação ou de deficiências dos serviços mas da direcção política de cada ministério e de capacidade dos respectivos dirigentes. Mas é muito mais fácil inventar mais "controlers" do que qualificar os técnicos, dar orientações concretas e fazer a gestão política das despesas, definindo as prioridades e mantendo a linha de rumo. Os controlers vão controlar quem?
Este tema, que vem à baila volta-não-volta, lembra-me sempre a anedota do barco com um remador e 9 controladores e chefes. O resultado não pode ser mais eficácia.

Ainda os dados do INE do 2º trimestre

Aquando da publicação do texto "Que tal umas lições de economia?..." fui - penso que injustamente - acusado de falta de rigor na (curta) análise e nas conclusões que extraí. Ora, quando escrevo textos ou efectuo análises procuro sempre quantificar e sustentar aquilo que afirmo. Aliás, quem tem a maçada de ler a minha habitual coluna quinzenal na imprensa escrita far-me-á a justiça de concordar com isto. E por isso, no fim de semana revi todos os dados disponibilizados pelo INE, tendo chegado à conclusão de que não retiro uma vírgula àquilo que escrevi no texto anterior. No entanto, só para que conste, e sem vos querer maçar muito com uma questão mais técnica, sempre posso completar a análise que então desenvolvi com a seguinte informação: quer façamos a análise a preços correntes, quer a preços constantes de 2000, em ambos os casos a taxa de cobertura das importações pelas exportações desce em termos homólogos - isto é, do segundo trimestre de 2004 para o segundo trimestre deste ano: de 80% para 77.6% a preços correntes; de 78% para 77.1% a preços constantes. E como toda a análise que então apresentei foi em termos homólogos...
É verdade: do primeiro para o segundo trimestre deste ano há uma melhoria (76.2% para 77.6% e de 75.5% para 77.1%). Só que isso é muito pouco para se poder dizer que a situação melhorou mesmo. Uma coisa é ver a variação de um ano para o outro; outra é no espaço de um trimestre...
Mas penso que esta não é a informação relevante que devemos retirar dos dados do INE sobre o PIB e as suas componentes, no que diz respeito à "parte externa" da nossa economia (exportações e importações). O que aqui deve ser realçado é que:
1. As exportações, reflectindo a continuada falta de competitividade do nosso tecido produtivo, continuaram a cair em termos homólogos (-0.1%). Certo, menos do que os -0.9% do trimestre anterior - mas não deixa de ser nefasto.
2. O abrandamento do crescimento das importações (de 3.5% para 1.2%) até podia ter sido positivo se se tivesse devido a um abrandamento do consumo privado. O problema é que não foi assim: na verdade, as importações só abrandaram porque o investimento caiu a pique (-4.5%), ao passo que o consumo privado, esse... até acelerou! Dito de outra forma: até teria sido preferível ter registado uma evolução mais dinâmica das importações se ela tivesse sido proporcionada por uma evolução bem mais positiva do investimento - e aí sim, teria havido confiança na nossa economia por parte dos empresários o que, manifestamente, na realidade, não aconteceu. É que, nessa situação hipotética, estar-se-ia a lançar raízes para que no futuro a criação de riqueza pudesse ser maior e mais sustentável. Mas assim... não, assim, definitivamente, e por mais que procure, não consigo ver mesmo como é que estes dados do INE foram positivos. E escusado será dizer que quanto mais penso no assunto, mais estupefacto fico com a reacção que o PM teve. Ele há ocasiões em que se fica mesmo mal na fotografia...

O fim do milénio, por Castells

Por entre as leituras de preparação das aulas de um novo ano lectivo, saltou-me à vista um pequeno trecho do "Fim do Milénio" a propósito dos contributos da teoria social e da ideologia na interpretação do fenómeno político, trecho que, por oportuno face a alguns sucessos da actualidade, não resisto a partilhar (recordando a quem já conhece). Escreve Manuel Castells:
"Basta de metapolítica, basta de "maitres à penser" e basta de intelectuais com esse anseio. A libertação política mais fundamental é aquela em que as pessoas se livram da adesão a-crítica a esquemas ou ideologias para construírem a sua prática com base na própria experiência, utilizando quaisquer informações ou análises disponíveis, a partir de várias fontes. No século XX. os filósofos tentaram mudar o mundo. No século XXI, é tempo de o interpretarem de uma forma diferente"
(Vol. III, ed. da FCG, 2003, p.486)


segunda-feira, 12 de setembro de 2005

Stuart Mill e Flausino Torres

Image hosted by Photobucket.com

O que há de comum entre um dos principais fundadores do pensamento liberal, John Stuart Mill (1806-1873) e um dos mais interessantes intelectuais e resistentes comunistas portugueses? A tradução e o prefácio à edição portuguesa da obra Autobiography, publicada entre nós muito provavelmente na década de 40.

A parte interessante da associação dos dois autores não será propriamente o facto de um intelectual comunista se dedicar a traduzir um pensador liberal (não esquecer a particular conjuntura da II Guerra Mundial), mas é o facto de se aproveitar um simples prefácio para debater e discutir o liberalismo numa perspectiva marxista.

Dois ou três excertos bem sintomáticos. Um sobre a classe operária inglesa:

“Conhecendo o extraordinário desenvolvimento da técnica, no seu tempo, e sabendo, como vemos pela autobiografia, da existência duma numerosíssima classe operária, [Stuart Mill] passa, no entanto, ao lado dos verdadeiros problemas sociais do seu tempo e das soluções mais adequadas, sem se dar conta deles.”

“Na verdade, a criação duma numerosa classe operária não podia deixar de saltar aos olhos de quem quer que fosse.”

Um outro em que refere Marx sem escrever o seu nome:

“John Stuart Mill já não pôde ver aonde conduziria o seu regime preferido, porque morreu em 1873. No entanto alguns pensadores, nos quais deve ter ouvido falar, começaram ainda durante a sua vida, a chamar a atenção para soluções mais arrojadas e mais eficazes [de chegar à “organização científica da produção e do consumo].

Por último, Flausino Torres não deixa de mostrar alguma complacência com Stuart Mill: “Esta incapacidade para compreender os problemas sociais deve-se não a má vontade mas à educação [“aristocrática”] que lhe foi ministrada”.

Alguns anos mais tarde, Flausino Torres exilou-se em Praga e foi testemunha da invasão soviética da Checoslováquia. Foi ele que redigiu uma declaração apelando à paz e criticando o imperialismo soviético. Esse acto marcou o seu afastamento do PCP.

Possivelmente, ter-se-á lembrado dos escritos de Stuart Mill e do que representa o valor da liberdade.

Divisão absurda

Contribuinte português

O Diário de Notícias de hoje titula ao fundo da 1ª página: “Economistas divididos sobre benefícios fiscais”.
Explicita-se que essa divisão é sobre a reposição dos benefícios fiscais.
Parece-me absurda essa “divisão”.
Neste momento, em Portugal, tudo o que seja diminuir impostos é bom.
Mesmo que seja através da reposição de benefícios fiscais ou de outras medidas, mais ou menos demagógicas.
É que é urgente diminuir a despesa pública.
O lema de, primeiro, diminuir a despesa para, depois, diminuir impostos não leva a nada, como a experiência demonstra.
Primeiro, há que diminuir impostos, para obrigar à diminuição da despesa pública.
Para deixar nas mãos das empresas e dos cidadãos os meios financeiros que permitirão maior e mais racional investimento e consumo.
Oxalá assim aconteça!...

Sócrates na Escola

Abertura do ano lectivo e oportunidade para aplaudir o Primeiro-ministro por ter dado a cara pelo reordenamento das escolas do 1.º ciclo e a promoção dos centros escolares integrados. O exemplo de Paredes de Coura foi bem escolhido e o apelo ao encerramento das pequenas escolas espero que seja ouvido pelos autarcas. Só falta um pequeno pormenor: quanto é que o Governo vai disponibilizar para esse plano de reordenamento. Convém não esquecer que os municípios que apresentam problemas mais graves neste domínio são precisamente aqueles que se debatem com maiores problemas financeiros. Já agora: que destino foi dado aos financiamento comunitários que foram afectados a este fim em 2004? Faço votos que não se tenham desviado para qualquer outro destino.

Autarquias: uma agenda para o debate político – 4

Uma dos problemas básicos do que poderemos designar de sistema de governação local em Portugal é o do financiamento. Mais básico e elementar do que este só a divisão administrativa que o condiciona. Na verdade, há que reconhecer que existe um número significativo de concelhos que não têm viabilidade para existirem enquanto tal. Desde finais do século XIX que não se extingue qualquer concelho. Em contrapartida, durante o século XX criaram-se um número significativo de novos municípios. A profunda alteração na distribuição demográfica, na configuração da paisagem e no aumento do potencial de mobilidade que se verificaram no século XX não tiveram qualquer efeito na reconfiguração da divisão administrativa.

Num quadro de profundas disparidades espaciais, o problema de financiamento tende a ser mais complexo e gerador de desigualdades e irracionalidades permanentes.

Há uma tendência detectável na evolução do poder local, durante os últimos trinta anos. Os municípios dispõem de um leque de competências cada vez mais alargado e de uma diversificação e reforço das fontes de financiamento. Porém, enquanto as competências tendem a ser distribuídas de forma idêntica, as fontes de financiamento tendem a concentrar-se num número restrito de municípios, beneficiários do dinamismo demográfico e económico das grandes áreas metropolitanas e mais algumas zonas privilegiadas do litoral. O aumento de receitas próprias verificado nas últimas três décadas revela bem o aprofundamento dessa desigualdade.

Uma das condicionantes decisivas neste processo de diferenciação na capacidade de gerar receitas tem sido os diversos planos de ordenamento territorial e ambiental. A preocupação em preservar complexos ecológicos de elevado valor ambiental tem estrangulado o desenvolvimento de alguns concelhos. Dado que essa preservação é decisiva para a sustentabilidade do país, é da mais elementar justiça que aqueles que beneficiam desses complexos paguem aos que lhe proporcionam tão valorizado bem.

Neste quadro, seria interessante criar uma bolsa de CO2 a nível interno em que os municípios que maiores emissões produzem (e que saem beneficiados pela receita proveniente do imposto automóvel) paguem para os que mais contribuem para a qualidade ambiental. Outra alternativa é a de reduzir significativamente as transferências do Governo central para os 30 maiores municípios e com esse montante distribui-lo pelos concelhos mais pobres.

Uma coisa é certa, com a actual lei de financiamento apenas potenciamos o já profundo fosso existente entre as diferentes regiões.

"O amor não acaba nunca!..."

Por razões várias…e dos óbvios convites, estive presente numa série de casamentos (não meus…claro…,que já o fiz uma vez e não me queixo…), nos últimos tempos.
Gostei, em geral, da liturgia. E gostei muito de alguns textos constantes do livrinho para acompanhar a cerimónia e que incluíam, para além de alusivas passagens da Bíblia, textos de bons escritores modernos, entre os quais, pasme-se, Gabriel Garcia Marquez.
No casamento de ontem, constava do livrinho e foi lido um excerto de uma carta de S. Paulo aos cristãos de Corinto sobre o amor.
Apesar de ser um texto clássico e conhecido, não hesito em reproduzi-lo, dada a sua substância e beleza literária.

“…Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, sou como o bronze que ressoa ou o tímbalo que retine…
Ainda que eu tenha o dom da profecia e conheça todos os mistérios e toda a ciência, ainda que eu possua a virtude da fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver amor, nada sou...
E ainda que eu reparta todos os meus haveres e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, de nada me aproveita...

O amor é paciente, o amor é benigno; não é invejoso, não é altivo, nem orgulhoso, não é inconveniente, não procura o próprio interesse; não se irrita nem guarda ressentimento; não se alegra com a injustiça, mas alegra-se com a verdade.
Tudo desculpa, tudo espera, tudo suporta.
O amor não acaba nunca!...”

domingo, 11 de setembro de 2005

Tamiflu e vacina contra a meningite C

A problemática de uma pandemia de gripe, excepcionalmente virulenta, está a preocupar as autoridades de saúde e os governos de vários países. A razão não é para menos.
Portugal adoptou um plano de contingência que será aplicado assim que o vírus da gripe H5N1 for detectado em aves ou em seres humanos. O senhor ministro da Saúde também encomendou dois milhões e meio de doses de um medicamento antiviral (tamiflu), no valor de 22 milhões de euros, a fim de assegurar protecção a 25% da população nacional. Foi afirmado que as doses seriam recebidas até final deste ano. Parece que, afinal, a empresa que produz o medicamento não sabe quando é que pode satisfazer o nosso pedido. E agora? Se ocorrer uma epidemia como é que vai ser? Porque razão é que não foi assegurada a compra em tempo oportuno? A sorte, sim, porque isto de epidemias e pandemias, também depende de muitos factores que não estão nas nossas mãos, pode bater-nos à porta e não ocorrer nenhuma calamidade. Deste modo não iremos sofrer as consequências da doença e, talvez, nem venha a ocorrer, nos tempos mais próximos, qualquer epidemia. Sendo assim, quem sabe se o senhor ministro não poderá, ainda, vir a cancelar a compra do antiviral e poupar 22 milhões de euros que tanta falta nos faz! Não esquecer que é um especialista de gabarito em termos de economia da saúde.
Já agora, gostava de saber a opinião relativamente à doação efectuada pelo laboratório Roche à OMS de 3 milhões de doses (tratamento de cinco dias). Será que o nosso ministro da Saúde considera que estamos perante interesses económicos da empresa suíça? Há alguns anos ocorreu uma séria polémica quando uma associação quis oferecer 200.000 doses de uma vacina contra a meningite. A Direcção-geral de Saúde recusou a oferta. A situação foi denunciada como uma forma pouco clara, que escondia interesses económicos, quer de alguns profissionais quer do próprio laboratório, além do apelo a um dramatismo mediático inusitado. A este propósito transcrevo parte de um editorial publicado na altura e que reflecte a opinião dos responsáveis: “Quando um traficante de droga quer introduzir no vício novos clientes, começa por lhes oferecer, de forma gratuita, o «produto». Ao recusar a «generosa» oferta, de um laboratório farmacêutico, de um lote de uns milhares de vacinas contra a meningite, o ministro da Saúde, Correia de Campos, deu um pequeno sinal de como se deve lutar contra a dependência. Contra a dependência do Estado relativamente a determinados lobbies. Contra a dependência dos cidadãos relativamente a determinados estilos de alinhar telejornais. Contra a dependência do boato, da desinformação e do alarmismo…”
Passados três anos, o senhor Professor Doutor Correia de Campos, investido novamente nas altas funções de ministro da Saúde, acaba de introduzir a vacina contra a meningite C no Plano Nacional de Vacinação, que entra em vigor em Janeiro de 2006, e que vai salvar muitas crianças e poupar muito dinheiro ao Estado.
Notável evolução é de felicitar. Agora já há evidências científicas, deverá ser a sua resposta.

As confissões de Van Zeller

Tive vontade de escrevinhar aqui algo sobre a questão da intenção de venda de uma posição dominante na TVI à espanhola PRISA quando li, não sem alguma surpresa, o desassombrado artigo publicado no Expresso em que João van Zeller explica as razões do seu afastamento.
A coisa não provocou muita agitação ao contrário do que estava à espera.
Uma proclamação pouco audível do lider da oposição e o esperado assobiar para os passarinhos por parte do governo e do PS.
Veio de novo o ex-administrador da Media Capital falar. Agora ao
DN.
Insiste em pontos de vista, alguns juízos e afirmações que não podem deixar de fazer pensar, tendo sobretudo em memória o episódio do pretenso afastamento do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa da TVI, "facto" que segundo muitos dos omnicientes comentadores e analistas cá da praça fez estremecer perigosamente a independência da comunicação social e quiça a própria democracia. Recordo-me também do alarido então feito pela oposição, em especial aquela que é hoje poder.
Parentêsis: achei, na altura, que tais reacções constituiram um enorme elogio às capacidades do então ministro Rui Gomes da Silva, até áquele momento desconhecidas de muitos dos que com ele alguma vez privaram...
Mas neste concreto caso, o ex-administrador de um dos principais grupos da comunicação social, diz nem mais nem menos do que isto: "Esta operação insere-se num movimento que historicamente se tem vindo a verificar, que é a iberização de Espanha, ou seja, segundo um artigo recente do general Loureiro dos Santos, citando o La Vanguardia, é intenção de Espanha "completar a península inacabada", não hesitando em dizer também esta coisa espantosa: "Saí devido ao desacordo em relação a dois riscos que não posso subscrever, mas que resultam numa operação com vários aspectos positivos. Um risco ligado à vulnerabilidade da independência editorial e outro à vulnerabilidade da nossa identidade nacional. Isto porque, sendo a área da comunicação social estratégica em Portugal, existe a necessidade de afirmação e permanente defesa dos seus valores essenciais".
Perante isto e o demais que se lê no artigo e na entrevista - e nas entrelinhas - é de esperar que se levantem contra esta ameaça, de imediato e em força, os habituais combatentes pelas liberdades, ciclamente ameaçadas por forças estranhas de misteriosas origens. Os sempre prestimosos guardiões da República. Os ciosos defensores dos centros de decisão nacional. Os inimigos declarados da globalização. Os opositores das deslocalizações ou qualquer outra forma de retirada do controlo interno daquilo que é legitimamente português.
Tal mobilização é um imperativo destas privilegiadas consciências, até porque a ameaça está bem identificada e as cumplicidades políticas claramente denunciadas.
Bem sei que o ministro das comunicações já desmentiu qualquer envolvimento do governo e do partido que o sustenta, no assalto à TVI.
Mas é já de si muito preocupante este afirmado alheamento do assunto por parte do governo perante depoimentos de alguém que necessariamente participou no processo de alienação do controlo da TVI e que nos diz que a operação tem uma motivação política mais do que uma razão financeira. Circunstância que não passará despercebida a tais patriotas, estou certo...

- Cínico, eu?!

O texto de Cavaco Silva no Expresso

Escrito em Setembro de 2003, no âmbito da sua participação no Clube de Madrid, o texto publicado na última edição do Expresso, tem um propósito que me parece muito claro: afastar, desde já, o fantasma de uma candidatura pró-presidencialista do seu autor. Cavaco Silva parece dizer a alguns analistas da esquerda algo de muito simples: escusam de me demonizar com a deriva autoritária e com o risco de uma usurpação de competências executivas que essa não é a minha orientação. Ou seja, Cavaco Silva responde agora, para não ter que responder depois … da apresentação da sua candidatura.

Mas há mais no texto de Cavaco Silva.

Trata-se de um claro compromisso (quase uma profissão de fé) com o modelo semi-presidencialista que sustenta o actual regime político. A alterar alguma coisa, só a lei eleitoral o justifica, através da viabilização de maiorias a partir de uma expressão eleitoral inferior aos actuais 44%, com alteração dos actuais círculos eleitorais. A forma como alude à ideia é, mesmo assim, equívoca: “Há quem defenda…”

Um outro aspecto a reter desse texto é a expressão social democrata: “distribuição do rendimento socialmente justa”, “o desenvolvimento equitativo exige que os Governos assegurem uma adequada provisão de bens e serviços sociais”, “políticas que impeçam o agravamento das desigualdades no rendimento e no consumo das famílias”. O recado (ainda que expresso em 2003) parece ser uma resposta à tentativa dos estrategos da esquerda de encostar a sua candidatura à direita.

Ainda que escrito em 2003 este texto mantém uma actualidade impressionante. Por isso se justifica a sua publicação num jornal como o Expresso, de forma a chegar ao maior número e a marcar posição numa pré-campanha já iniciada por Mário Soares.

Em termos políticos e em resumo, só tenho um comentário simples a fazer: brilhante pelo conteúdo e pela oportunidade!

sábado, 10 de setembro de 2005

Momento...

Foto de Murat Aydýnlýlar

... de cor

Pôr água na fervura-Ainda a evolução do PIB

A 4R ferveu a propósito da evolução do PIB. Foi bom, mas há que acalmar!…
Para isso não há como “back to the basics”.
O PIB, que mede o nível da actividade económica, é uma soma de várias parcelas: consumo privado, consumo público, investimento e exportações.
Como uma parte destas grandezas é obtida à custa de importações, estas têm que ser deduzidas para calcular a riqueza do país.
O PIB integra ainda uma outra parcela, residual, mas por vezes importante, que é a variação dos stocks.
As duas parcelas mais interessantes para medir a evolução económica são as exportações e o investimento.
As exportações, porque reflectem a competitividade das empresas: empresas competitivas exportam mais.
O investimento, porque reflecte a apreciação que os empresários fazem da evolução do mercado: as empresas investem, caso as expectativas sejam favoráveis.
O aumento do consumo privado, após um ciclo baixo, comporta em si também uma forma saudável de crescimento do produto.
Já o consumo público, para além de determinados limites, constitui um entrave ao crescimento, já que apenas substitui as aplicações que as empresas e os cidadãos fariam, se não fossem desapossados de meios financeiros que o Estado lhes retira através dos impostos.
Neste contexto, o comentário do Vírus tem toda a pertinência.
Como vimos, o PIB cresceu no 2º trimestre de 2005, relativamente ao mesmo trimestre do ano anterior, cerca de 0,5%.
Em termos absolutos, é um resultado positivo. É sempre melhor crescer do que decrescer.
Mas, numa análise mais fina, o resultado não é bom, como refere M. Frasquilho. E aqui o José, se não vir as coisas de forma superficial, concordará que não tem razão.
Não é bom, porque se deu apenas à custa do aumento de 3% no consumo das famílias, o maior desde 2001, e do Estado (+0,9%), tendo diminuído os restantes componentes!...
A acrescer, também não é bom, porque esse aumento de consumo se verificou graças a um aumento do endividamento das famílias, que já atinge um grau muito crítico, equivalente a 120% dos seus rendimentos. O crescimento exclusivo por esta via é, assim, insustentável.
Por outro lado, o investimento diminuiu 4,5%, significando que os agentes económicos não vêm que o crescimento do consumo seja duradouro.
Contrariamente ao que se induz do comentário do José.
Com efeito, esse crescimento terá estado muito ligado à aquisição de bens, antecipando a subida do IVA.
Por outro lado, as exportações diminuíram 0,1%, o que significa uma economia menos competitiva.
Porque isto é assim, o Banco de Portugal, que tinha previsto no início do ano que a economia podia crescer 1,6%, estima agora esse crescimento em 0,5%.
Por isso, parece-me que o Dr. Frasquilho não falou como político, como foi “acusado” nalguns comentários ao seu post, mas como economista, que surpreendeu bem o que estava atrás dos números. Talvez fosse um pouco brusco na forma em que o referiu, apresentando, porventura, as conclusões antes da explicação.
Também me levantam reservas algumas frases do comentário da Marga: na minha opinião, José Sócrates comportou-se como um político, no mau sentido, e não como um estadista, comportamento de que, infelizmente, não tem o exclusivo.
Admite-se que tire algum proveito das circunstâncias e dos números, mas tem o dever de compreender a realidade e de a explicar aos portugueses e não caminhar por um triunfalismo sem base que só pode lhe pode (e a nós…) trazer desgraças.
Por último, concordo com o José, quando diz que o cozinheiro é importante: olá se é!…
Veja-se o que aconteceu de positivo ao país com Cavaco Silva!...
E lamento discordar do Tonibler, quando descrê tanto das estatísticas nacionais!...
Terá elementos que nós não temos?
Em síntese: como a situação não continua boa, mais obrigação temos de, individual e colectivamente, lutar para que melhore.
As Presidenciais são uma boa ocasião!...

sexta-feira, 9 de setembro de 2005

Potência rodoviária

Duas notícias publicadas hoje obrigam-me a reflectir sobre o excesso de velocidade.
Recordo-me perfeitamente do dislate do presidente da Associação Portuguesa de Escolas de Condução (APEC) quando foi entrevistado pelo facto de ter sido apanhado a mais de 200Km/hora numa auto-estrada há alguns anos. O senhor justificou-se com o facto de, na altura, não haver quase nenhum tráfico, e a sua máquina voadora (topo de gama) ser suficientemente segura para atingir aquelas velocidades.
Hoje, perplexo, acabo por ler no jornal que acabou por não ser multado nem ficou sem a carta, após as tradicionais peripécias tão características do sistema judicial português. Parece que quem esteve em maus lençóis foram o próprio Director e alguns técnicos da Direcção-geral de Viação acusados de abuso de poder pelo presidente da APEC relativamente a outros assuntos à margem deste!
O senhor presidente chegou mesmo a considerar como perigoso o comportamento dos agentes de autoridade quando o mandaram parar em plena via! Claro! Então os agentes não viam a velocidade a que ele ia. Não viam que podiam ter sido atropelados! Agentes verdadeiramente inconscientes. Não sei se o senhor concorda ou não, mas deveria ser punido qualquer agente de autoridade que mandasse parar um infractor àquela velocidade. Se for a 100, a 80 ou a 60 então, vá lá, mandem parar os infractores, mas tenham cuidado, não se ponham à frente do veículo, porque há pessoas muito distraídas.
A outra notícia, ou melhor, comentário de um leitor indignado, respeita ao que se passou com o Juiz Presidente do Tribunal Constitucional o qual foi apanhado a 200 à hora e que, “naturalmente”, não sofreu quaisquer castigos por não ter respeitado a lei.
É comum ver verdadeiros “loucos”, mas dos bons, os ditos “oficiais”, a andarem na brasa, muitas vezes com a própria polícia a abrir ou então utilizando pirilampos a sinalizar excesso de testosterona rodoviária.
Sempre me fez uma impressão dos diabos, porque é que têm de andar daquela forma. Lembro-me de ter questionado alguém sobre o tema e a resposta surpreendeu-me – É por uma questão de segurança. – Segurança?! - Sim, por causa dos atentados! – Ah! Eu pensava que era por andarem sempre atrasados ou então serem mesmo atrasados, para não falar de snobismo rodoviário ou uma qualquer manifestação psicanalítica de âmbito sexual…
Todas as autoridades que fossem apanhadas a cometer infracções por excesso de velocidade e que não quisessem sujeitar-se às respectivas sanções, deveriam, em alternativa, serem obrigadas a deitarem-se num divã, de preferência confortável, até ao final dos seus mandatos.

Mário Soares-Globalista contra a Globalização II


Escrevi, há dois ou três dias, que não compreendia que o Dr. Mário Soares fosse contra a globalização, quando se revelou e confirmou um verdadeiro “globetrotter” na colocação mundial, isto é, na globalização do produto socialismo, aquando da sua passagem pela Internacional Socialista ou na colocação da sua própria imagem, da marca Portugal ou de produtos portugueses, através das voltas ao mundo que fez como Presidente da República.
Uma das características da globalização é o curto período de tempo que medeia entre a criação de um produto e a sua colocação em qualquer parte do mundo. Para isso, as empresas globalizantes têm que possuir um elevado grau de flexibilidade e de adaptação à mudança: mudança de produtos, de processos de fabrico, de técnicas de comercialização, de posturas no mercado.
Ora Mário Soares também é um mestre nesta matéria da flexibilidade.
Mário Soares apoiou o Partido Comunista, logo a seguir ao 25 de Abril, e sabia bem o que ele representava. Demarcou-se, quando começou a ver as barbas de molho, no momento em que, destruídas as sedes dos partidos mais à direita, como as do Partido Progressista ou do Partido Liberal e de outros, e começando os ataques às sedes do CDS e do PPD, verificou que o PS seria o próximo alvo.
Todavia, nas manifestações de então, contra o totalitarismo do PC, o PS não tolerava qualquer manifestação conjunta, reclamando "PS, só PS".
Mas veio a flexibilizar a posição na manifestação da Alameda, quando as coisas se tornaram dramaticamente feias.
Para formar Governo, fez, depois, uma aliança com o CDS de Freitas do Amaral.
Anos mais tarde, no fim da disputa eleitoral para a Presidência da República, viria mimosear esse seu aliado com os piores epítetos.
Mário Soares, antes de ser Primeiro-Ministro, apelou ao fim dos grandes grupos económicos, acusando os seus accionistas e gestores de sabotadores da economia, sendo também responsável indirecto pela fuga de muitos para o estrangeiro.
Quando foi Primeiro-Ministro, convidou muitos deles a regressar, para reconstruir a economia.
Adaptou-se às circunstâncias durante o 1º e o 2º Governo de Cavaco Silva, mas, depois, novamente eleito, tornou-se a principal força de oposição ao Governo.
A flexibilidade de que sempre deu mostras para colocar internacionalmente o seu produto, isto é, a sua imagem, evidenciou-se mais uma vez quando, depois de ter sido Presidente da República, aceitou (Mário Soares é um perito a aceitar…) candidatar-se ao Parlamento Europeu, assim uma espécie de Assembleia Geral da maior entidade económica do mundo, a União Europeia.
Mário Soares sempre se transmudou para oferecer o produto mais vendável e sempre forcejou para o colocar no mercado, através de contínuas viagens “worlwide”.
Não percebo, então, por que é contra a globalização.
Mas pensando bem, é essa uma das suas características: a contínua “flexibilidade”, que lhe permite ser e não ser ao mesmo tempo.
Até quando?

“É proibido sorrir!”…


Smile


Os britânicos estão proibidos de sorrir quando forem tirar fotos para os passaportes. Original medida! A explicação tem a ver com o facto de os novos equipamentos de segurança exigirem cidadãos sérios. Parece que ao mínimo sinal de humanidade, as máquinas deixam de reconhecer as pessoas com consequências graves, sobretudo, alertas injustificados.
O riso tem sido alvo de inúmeros ensaios e reflexões. Aristóteles e Platão eram contra, ao passo que para os orientais a risada abre o caminho da paz interior.
Há risos e risos. Através do riso é possível auscultar o pensamento do autor. A essência do riso foi sublimemente analisada na obra com o mesmo título por Charles Baudelaire.
É reconhecido o efeito antistressante e até “curador” das gargalhadas, a ponto de se terem constituído clubes de riso aos milhares por esse mundo fora. Arranjam pretextos e descobrem técnicas para que os associados tenham a sua dose diária de riso. Claro que também ocorrem situações caricatas, verdadeiras epidemias de riso, manifestações de doença psicogénica de massas, como aquela que ocorreu em Janeiro de 1962, numa aldeia perto do lago Vitória. Três alunas da escola local tiveram um acesso de riso inexplicável e incontrolável. Pior do que a epidemia de Ébola, os ataques de gargalhadas alastrou-se aos outros alunos, depois aos habitantes da aldeia e praticamente a toda a população da região. Só desapareceu ao fim de dois anos. Até hoje não foram encontradas explicações satisfatórias.
Em Portugal, se fizermos fé nos dados recentemente publicados, o riso não abunda. Não sei se é por andarmos tristes ou se foram os fotógrafos que enviesaram a selecção de fotografias ao privilegiarem os mais sisudos e pondo de parte os mais risonhos.
Segundo Dostoievski, o riso é o melhor indicador da alma, mas não deixava de considerar que, na maioria dos casos, quando uma pessoa se ri torna-se nojento olharmos para ela. Claro que este célebre autor não teve acesso às revistas mundanas, senão ainda irritar-se-ia mais. Também duvido que partilhasse dos clubes de gargalhadas ou do dia internacional do riso (18 de Janeiro). Às tantas, o máximo que lhe podia acontecer era apresentar um ligeiro sorriso sarcástico.
Seja como for e apesar de só as crianças saberem rir com perfeição, convém cultivar sorrisos simpáticos, o que é difícil neste momento, em que tantas peripécias e anedotas fazem com que muitos não deixem de publicitar sorrisos parvos na esperança de cativar incautos que já não se lembram de emitir uma boa e saudável gargalhada. De facto, os tempos que correm não estão para risadas…

quinta-feira, 8 de setembro de 2005

Que tal umas lições de economia?!

O contentamento do Primeiro Ministro (PM) relativo aos números de hoje divulgados pelo INE, a propósito do crescimento económico português no segundo trimestre deste ano é inacreditável.
Primeiro: um crescimento homólogo do PIB de 0.5%, seja por que prisma for, é quase inexistente - e, como tal , expressar contentamento parece pouco adequado e revela pouca ambição. Aqui ao lado, a Espanha vai crescer mais de 3% este ano, e a Zona Euro cerca de 1.5%. Chega?...
Segundo: Mas ainda por cima, neste crescimento económico, o suporte foi o consumo das famílias (que subiu 3% em termos homólogos), o que só aconteceu porque, devido à subida do IVA de 19% para 21% em Julho, levou a que muitas decisões de consumo das famílias portuguesas tivessem sido antecipadas para Junho (isto é, o fim do segundo trimestre). Foi o que aconteceu, como se sabe, com as compras de automóveis, por exemplo. E, obviamente, os dados do terceiro trimestre, em consonância com a confiança, que tem vindo a cair a pique, deverão ser bem negros. Ora, o problema é que o crescimento económico suportado pelo consumo não é sustentável, como ainda num passado recente se viu, porque boa parte do que se consome é importado e, portanto, a receita gerada sai do país.
Terceiro: Motivo de contentamento teria sido uma evolução positiva do investimento e das exportações, esses sim os pilares em que o crescimento económico deveria ser sustentado - pois permitem gerar riqueza que fica no país. Porém, em termos homólogos, o investimento caiu 4.5% e as exportações desceram 0.1%, revelando que o nosso país continua longe de ser atractivo para os investidores e se mantém pouco competitivo internacionalmente.
Quarto: Não se percebe, pois, de que falava o Sr. PM quando referia que o crescimento do PIB de 0.5% revelava a confiança que os empresários depositam na nossa economia. Mas, pergunto eu, não são os empresários que investem? E, o investimento não desceu 4.5%? Confiança?! Qual confiança?!...
Quinto: Quem tinha razão, afinal, era o Ministro das Finanças, que ainda há uns dias dizia que a nossa economia estava estagnada: de facto, no ano acabado no segundo trimestre, o crescimento do PIB foi de 0.1%. E infelizmente, o aumento dos impostos decidido pelo governo (que ajudou a minar a confiança na economia) e as adversas condições da economia internacional fazem com que, a meu ver, estejamos a caminho de uma recessão...

Moral da história: O Sr. PM anda mesmo a precisar de umas lições de economia. Que, como vimos, o próprio Ministro das Finanças (do seu governo...) lhe pode dar...

Jogo do gato e rato


Gato e rato
A expressão “jogo do gato e do rato” é muito comum, encerrando o conceito de não solução, ou a impossibilidade de resolução dos problemas. De facto, estes dois inimigos figadais merecem alguma atenção. Em primeiro lugar, é duvidoso atribuir ao gato, inteligência superior ao do rato; não podemos esquecer que é habitual dizer-se: “esperto que nem um rato” e não esperto que um gato! Para fugir ao predador, são necessárias algumas características. E o rato possui-as, mas, por vezes, é apanhado pelos elegantes e misteriosos felinos, os quais fazem as delícias de muitas pessoas. O gato é animal de companhia e o rato fonte de desprezo. O primeiro caça e o segundo é caçado. Mas será que tal atributo de caçar ratos é da total competência do gato? Parece que não! Existe um parasita, chamado toxoplasma, que se multiplica sexualmente apenas nos gatos. Este parasita pode contaminar muitos animais, entre os quais o homem, além, naturalmente, dos ratos. No homem, cerca de 30 a 60% já foram infectados, e, embora não seja habitualmente fonte de perigo para a saúde, é particularmente perigoso para as grávidas, as quais correm riscos acrescidos de aborto e de crianças com malformações. Por estes motivos, é desaconselhado às grávidas contactarem com gatos. Este parasita provoca, nos ratos, retardamento das suas reacções, face ao seu eterno inimigo, o gato, provavelmente impedindo-o de “cheirar” o seu odor típico. Claro que esta reacção pode ser-lhe fatal, possibilitando ao toxoplasma regressar ao seu hospedeiro para a sua reprodução sexuada. Estratégia notável! Afinal, os troféus de caça dos gatos servem o interesse de um parasita. O pior, é que se levanta a hipótese de o parasita provocar nos seres humanos demora das suas reacções, arriscando-se a ser vítima, não dos gatos, mas de situações perigosas, em que a resposta tem de ser rápida. E, já agora, nos diferentes tipos de jogos do gato e do rato, é preciso ter atenção para a existência de eventuais “parasitas” capazes de manipularem o jogo a seu favor. O triunfo nem sempre é do gato…

Ainda, uma boa notícia?

Image hosted by Photobucket.com

Sem prejuízo de uma leitura atenta do Destaque do INE, atente-se no contributo da Procura Interna para o crescimento do PIB (1%), da Procura Externa Líquida (-0,5%), da queda do investimento (-4,5%) e no papel do consumo duradouro no crescimento do consumo privado (antecipação de decisões de consumo face ao anúncio de aumento do IVA).
Ainda acham que é uma boa notícia?
Boa notícia poderá ser a reavaliação em alta do crescimento de 2004, apresentando-se agora um crescimento de 1,2% quando a anterior estimativa se cifrava em 1%. É claro que para o Eng.º Sócrates essa é a pior notícia que ele escondeu. Não convinha.

Uma boa notícia?

Os números relativos ao desempenho da economia portuguesa no 2.º trimestre de 2005 constituem motivo de festim para o Sr. Primeiro-ministro. Diz ele que é uma boa notícia para a economia portuguesa dado que a variação de 0,5% contraria as previsões mais pessimistas dos economistas. Por baixo dos escombros da Torralta, implodidos numa agenda meticulosamente preparada, escondem-se, entretanto, outros números que confirmam a estagnação e a manutenção dos riscos de recessão.
É preocupante quando um Primeiro-ministro se contenta com os 0,5% de crescimento do PIB, que mais não são do que 0,1% anualizados. O propósito do alarido é muito evidente: a próxima discussão do Orçamento Geral do Estado. As previsões relativas ao 3.º trimestre só serão publicadas após a sua aprovação. Isto de gerir a agenda é uma coisa muito interessante.
Sobre este tema leiam-se os posts de Manuel na GLQL.
Voltaremos ao tema.

Ética republicana


república

O Presidente da República voltou a invocar, ontem, na inauguração de uma creche, a ética republicana.
Coitadas das crianças, sujeitas a tal tratamento!...
Creio que ética republicana é um conjunto de palavras a que não corresponde qualquer conceito e, portanto, nada diz, nem algo significa.
Ou, pior, significa o contrário do que devia.
Agir com ética, desde Aristóteles, significa ter um comportamento virtuoso.
Entre as grandes virtudes morais, Aristóteles colocou a justiça.
Ora o comportamento da República, em matéria de justiça, tem sido tudo, menos virtuoso.
Como não apresenta qualquer virtude na relação com as empresas, a quem não paga atempadamente o que deve e com os cidadãos, normalmente mal atendidos nos serviços públicos.
Como não apresenta qualquer virtude na gestão dos seus colaboradores, tratados por igual em matéria de salários e de promoções, qualquer que seja o seu mérito.
Como não apresenta qualquer virtude, quando escolhe para os lugares mais importantes não a competência, mas a fidelidade partidária.
Como não apresenta qualquer virtude, quando, por mesquinhas razões ideológicas, não permite que outros façam o que a República não é capaz de fazer ou que faz manifestamente mal, prejudicando os cidadãos.
Um comportamento virtuoso continuado define um padrão de actuação, que é uma ética.
O que se verifica na República é um comportamento vicioso continuado.
E é esse comportamento que o Presidente erige em ética, quando fala em ética republicana.
Porque uma conduta reprovável não é a que devia ser, mas a que é.
E uma conduta continuadamente reprovável, como é a da República, forma um costume, uma ”ética”, a republicana, que o Presidente tanto acarinha.
E que começa a pregar às crianças!...

A identidade

Uma das coisas que mais me impressionou nas reportagens sobre a tragédia de Nova Orleães foi a terrível angústia das pessoas a dizerem às câmaras que as filmavam na sua desgraça - "Nós não vivíamos assim", "Nós não tínhamos este aspecto" "Nós precisamos de tomar um banho, não vivemos assim sujos", como se não pudessem encarar a perda de identidade. Sem as suas coisas, fora dos seus bairros, sem ninguém para saber "como eram dantes", as pessoas sentem uma anulação insuportável, passam a ser "refugiados" ou "acolhidos no superdome" ou outro grande grupo em que cada um se perdeu de tudo o que era, muitas vezes sem saber se voltará a sê-lo.
Virgílo Ferreira, em "Em nome da terra", descreve assim este sentimento, através de um homem que vive num lar os seus últimos anos de vida:
"E havia a estranheza do mundo e eu não ter nele significação. É o mais terrível, Mónica, a gente é que não pensa. Ter a nossa significação garantida nos outros, nas coisas. (...) De repente foi assim. Perdi a validade como uma nota que já não tem circulação. Então desesperadamente quis ter o meu lugar no mundo. Não o tinha mesmo em mim porque não o tinha no mundo. E achei-me desprezível(...) Ser é ser reconhecido."

quarta-feira, 7 de setembro de 2005

Alguém pode explicar?

A propósito das movimentações de editoras espanholas (lá está a Santillana, do grupo PRISA) no mercado português do livro escolar, vale a pena questionar alguns comentários que tenho lido e ouvido.
Quando o governo espanhol apoia a internacionalização dos seus grupos económicos ou defende com "unhas e dentes" o seu mercado interno, ficamos embevecidos e temerosos e só nos sai uma exclamação: "é estratégia!"
Quando o governo português tenta fazer o mesmo ( geralmente de forma atabalhoada e voluntarista) só há uma exclamação: "é negociata!"
Compreendo muito bem que alguns empresários portugueses gostariam muito de trabalhar com o governo espanhol.

terça-feira, 6 de setembro de 2005

“Estava escrito”…



Não gosto de funerais. Confesso, também, que nunca ouvi ninguém dizer o contrário, a não ser os profissionais do ramo.
Com a idade, a probabilidade de participarmos nestes rituais aumenta exponencialmente de tal modo que só termina com o nosso.
Muitas vezes somos confrontados com expressões curiosas, sobretudo quando estamos perante doentes de idade avançada. Acabamos por os confortar dizendo: - Ora, está muito bem. Sim senhor! Ainda vai enterrar muita gente! É um pouco macabro, mas as pessoas aceitam-na com uma expressão feliz. Claro que o nosso objectivo é tentar que as pessoas vivam mais e com qualidade. Afinal, o que fazemos não é mais do que “endrominar” ou melhor, “rasurar” o que está escrito no livro da vida e da morte.
Desde pequeno que ouço dizer que está tudo escrito num livro, sobretudo o momento da morte de cada um. Imaginava-o de muitas formas e tamanhos a ser manuseado por um barbudo carrancudo a mando de Deus. Como só conseguia vê-lo de baixo para cima, limitava-me a contemplar a lombada e as capas. Por mais esforços que fizesse não conseguia ter “acesso” ao conteúdo. E, ainda bem! Memórias da infância, despertadas, a propósito do comportamento das pessoas, no último velório de um familiar que, ainda novo, foi vítima de morte súbita. Um par de senhoras, mãe e filha, aproximaram-se da viúva e descarregaram sem dó nem piedade: - Tinha que ser filha, estava escrito. Tinha o dia e a hora marcada. Arrepiei-me todo! Ambas, frequentadoras assíduas dos rituais católicos mostravam claramente que estavam impregnadas de arcaicos conceitos mitológicos, mesmo desconhecendo os nomes ou os atributos dos velhos deuses.
Estava escrito! Estava escrito o quê? Apeteceu-me dizer, e, ao mesmo tempo, recordei-me da leitura recente de um colunista em que fazia a apologia do cristianismo na morte do paganismo, no surgimento de novos valores e na libertação da mulher. Quanto ao surgimento de novos valores é óbvio que sim, quanto ao papel da “libertação e respeito pela mulher” já não estou tão certo, pelo menos durante muitos séculos. A morte do paganismo mitológico pelo cristianismo não é lá muito evidente, pelos vistos, porque há alguém que se entretém a escrever quando devemos nascer, adoecer e morrer. Que raio de entretenimento! Cá em baixo andamos a lutar contra esse livro misterioso que impregna a mente de muitas e muitas pessoas. As afirmações que fazem nesse sentido não são circunstanciais, são mesmas sentidas. Era bom que lhes explicassem que lá em “cima” não há livros de mercearia ou “tarados” que se divertem com a miséria dos seres humanos. Afinal, 2000 anos de cristianismo não conseguiram ainda, e nem sei se irão alguma vez conseguir, eliminar a função de deuses criados à semelhança dos homens e das mulheres.

Fugir o pé para o chinelo


comunicação de chinelo
As grandes empresas gostam de ver associado o seu nome a eventos de prestígio, como patrocínios de concertos de grandes orquestras, de temporadas de ópera ou de bailado, ou de recuperação de património, de que dão particular exemplo as cervejeiras dinamarquesas.
E põem sempre muito cuidado na publicitação normal da sua actividade, de modo a projectarem uma imagem de excelência.
Por isso, mais chocante se torna que uma empresa portuguesa de referência tenha permitido que o seu nome venha associado, num anúncio televisivo, às mais rasteiras superstições.
Nesse anúncio de 40 segundos, em que é divulgado o patrocínio dos 3 maiores clubes portugueses de futebol, não é o valor ou a qualidade, mas a superstição que aparece como factor de sucesso.
Nesses 40 segundos, é possível ver o guarda-redes em atitudes do género de dar marradinhas na baliza, antes do jogo, para afastar o mau olhado ou a má sorte, ou do género de um jogador a benzer-se ou de outro a beijar uma medalha, ambos desconfiados dos dotes da sua equipa e confiados mais na protecção divina, ou de outro a exibir um amuleto qualquer por várias vezes, ou de um técnico a retirar do bolso e a tocar um estranho objecto, para atrair a boa fortuna!...
Em vez de se associar ao que de belo há no desporto, a PT aprovou um anúncio em que se explora o que de mais deprimente existe no espírito humano.
Se os antigos procuravam no desporto uma “mens sana in corpore sano”, uma mente sã num corpo são, a PT mais não faz do que se associar a mentes doentes, exibindo-as, de uma forma popularucha, aviltante e “pimba”.
Não creio que seja uma associação proveitosa.
E admira-me que um Conselho de Administração tão institucional e com representantes mais ou menos explícitos do Estado consinta em tal dislate.
A menos que se identifique com ele!...
Seria uma esclarecedora demonstração do nivelamento por baixo de uma empresa de elite!...

Manuais escolares

Permitam-me um desabafo, mais do que justificado depois de andar há mais de uma semana atento às notícias sobre manuais escolares. Nesta altura do ano não há jornal ou televisão que não faça a sua reportagem sobre as despesas das famílias com o material e os manuais escolares. A cena já é tão repetitiva que só os de fraca memória esquecem o que foi feito no ano anterior. Lança-se a jornalista no supermercado, passa-se o microfone pela frente dos compradores de material escolar, ouvem-se os desabafos de quem vai abrir a bolsa a mais uma despesa e conclui-se sempre pela carestia e pelo "escândalo" que é o "negócio dos manuais escolares". Outros fazem "jornalismo de investigação": tiram os preços, fazem umas médias, comparam com o ano anterior e aí está: um escândalo!
Eu só me pergunto porque não têm a mesma preocupação com o aumento dos preços dos bilhetes de futebol, do cinema ou porque não fazem contas ao consumo de revistas cor-de-rosa, aos livros cabalísticos, ao consumo de DVD's pornográficos ou ao que cada português gasta em média nas suas férias. Por favor, calculem quanto é que cada português gasta em tabaco, em whisky, ou em gasolina para acelerar nas auto-estradas. Aí não há escândalo.
Só há escândalo com o que os portugueses gastam em manuais escolares.
Mas se há alguém que vem demonstrar que os preços estão praticamente congelados desde 2003 (vá-se lá saber quem foi o doido que determinou tal aleivosia) ainda há quem responda: não me interessa, continua a ser um escândalo!
É assim que se eleva o valor social da educação.
Desabafei!

segunda-feira, 5 de setembro de 2005

A NATUREZA NÃO É CRUEL, É INDIFERENTE.

A tragédia que se abateu sobre Nova Orleães abala qualquer um. Tudo o que nos cerca é frágil e passível de destruição pelas forças da natureza. No entanto, não podemos afirmar que a natureza seja cruel, mas sim indiferente à presença e aos valores humanos. Colocando de parte os factores humanos responsáveis pela catástrofe, quer a nível local, quer a nível global, assim como as deficiências graves no auxílio às populações atingidas, considero de uma crueldade sem limites as posições de alguns fundamentalistas que vêem a mão de Deus em todo este processo.
Activistas contra o aborto chegaram a “ver” a imagem de um feto de oito semanas no mapa de satélite do furacão Katrina. Muitos norte-americanos comungam da ideia de castigo divino e afirmam que se não houver mudanças maior castigo irá abater-se sobre aquele povo. Estamos a falar de cristãos que pretendem arregimentar soldados, ou melhor, mercenários para os seus exércitos. Mas, o Deus dos muçulmanos parece, aos olhos de muitos, também como responsável pela calamidade. A ponto de o furacão ser considerado como: “O terrorista Katrina é um soldado de Alá”.
A raiva e o ódio de muitos fundamentalistas muçulmanos revelam satisfação e regozijo pelo acontecimento. Mas, a intolerância de certos movimentos religiosos cristãos que procuram “explicar” certos fenómenos com os quais não se identificam, através da espada de um deus raivoso e vingativo, não é diferente. A intolerância religiosa-política é grave não augurando nada de bom para as nossas sociedades.
Todos estes movimentos exploram comportamentos primários disseminados pela grande maioria da população deste planeta. Estes trágicos acontecimentos são utilizados para recrutar mais adeptos ou para cimentar aqueles comportamentos. Nestas alturas, seria conveniente que os responsáveis saudáveis pelas diversas correntes religiosas – e são muitos, felizmente – viessem a terreiro para desmontar, criticar e repudiar o comportamento dos radicais religiosos e apelar à tolerância de todos, face às tragédias naturais. A natureza não é cruel, é indiferente. O homem consegue ser cruel e não é indiferente, mas a indiferença de muitos não deixa de alimentar a crueldade de outros.

Mário Soares-globalista contra a globalização!...


globalização

Para além de ser contra a guerra do Iraque, o Dr. Mário Soares também é contra a globalização.
E se posso entender a sua posição no primeiro caso, já não a compreendo no segundo, face à prática da sua vida.
A globalização esbate fronteiras, de modo a colocar os produtos, produzidos onde quer que seja, em todo o lado.
E qual tem sido a postura do Dr. Mário Soares?
Começou por ser um “globalista”, lutando contra o “isolacionismo” português: percorreu mundo a "vender" a oposição democrática".
Depois, como Presidente da Internacional Socialista, procurou “vender” o produto socialismo por todo o globo, apresentando-o na matiz (socialismo alemão, social democracia sueca, terceira via…) mais adequada ao mercado objectivo, isto é, ao país em causa.
Como qualquer executivo de uma multinacional, deu várias voltas ao mundo para colocar o produto, procurando internacionalizar a marca.
Sendo então um entusiasta da globalização do produto socialismo, mal se compreende que combata a globalização de outros produtos, tão legítimos ou tão legais como esse produto ideológico.
Como Presidente da República, certamente com o objectivo de colocar a marca Portugal ou a de produtos portugueses, também viajou pelo universo, com empresários, artistas, intelectuais e muitos jornalistas.
Chegou mesmo a dirigir acções que um qualquer Director de Marketing de uma Multinacional não desdenharia, promovendo impressivas sessões publicitárias em mercados difíceis para Portugal, por exemplo nas Seychelles, através da exibição da técnica de montar tartarugas….
Dirão algumas más-línguas que o Dr. Mário Soares não pretendeu, nas suas viagens de circum-navegação, colocar outros produtos que não fosse a si próprio.
Parece-me excessivo concordar com tal afirmação. Mas, mesmo que assim fosse, tratar-se-ia sempre de uma operação de colocação globalizada de um produto, que seria a sua própria imagem.
Assim, não compreendo por que razão o Dr. Mário Soares, comportando-se como um globalista, é contra a globalização.
A continuar!...

Não me apetece mais do que poesia

Soneto da Separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Vinicius de Moraes

Leituras à esquerda...

A reflexão de Rui Branco sobre a forma de apelo "A todos os Socialistas".

O Post de Rui Pena Pires sobre Manuel Maria Carrilho (Não há skip que limpe esta nódoa!) só abona a favor da boa política.

A entrevista de Valter Lemos (Secretário de Estado da Educação) ao Público, em especial a prioridade dada ao reordenamento das escolas do 1.º ciclo (Não será exagero prometer o encerramento das escolas do 1.º ciclo com menos de vinte alunos até ao final da legislatura? Se conseguir encerrar uma boa parte das que têm menos de 10 alunos já será muito bom).

Medeiros Ferreira anuncia-se (com alguma água benta) no programa de logo à noita da RTP1 (Prós e Contras). Como cartão de visita, traça um rasgado elogia à Fátima Campos Ferreira. Tese surpreendente: "A cidadania passa hoje muito pela televisão".

Vital Moreira aproveita a tragédia de Nova Orleães para dissertar contra o "Estado mínimo". Paulo Pedroso segue as mesmas pisadas (Quanto custa o subfinanciamento do Estado?).

domingo, 4 de setembro de 2005

Palavras Cruzadas

É curioso que quando ouvi o discurso do Primeiro Ministro também me lembrei do cuco, tal como refere o post do David Justino... De facto, em política conta-se demais com o facto de a memória ser curta ou então espera-se que, com o barulho dos comícios, as coisas vão passando sem se dar muito por elas.
É verdade que era preciso mostrar obra feita e deixar para segundo plano a incrível reviravolta que a acção do Governo representa em relação ao programa eleitoral que tinha levado àquela mesma praça os entusiásticos militantes. Mas logo escolheu três factos que em nada se devem aos seus méritos e da sua equipa: "resolvemos o problema da colocação dos professores!!" é falso, porque quem concluiu essa tarefa com muito êxito foi a anterior ministra da Educação Carmo Seabra, este Governo limitou-se a colher os louros; "tivémos um êxito nunca visto no combate à evasão fiscal" como se fosse possível, em apenas 5 meses, melhorar a máquina fiscal de modo a ter resultados espectaculares! Claro que há resultados muito bons, mas tal deve-se ao trabalho intenso anteriormente desenvolvido e à eficácia do Director Geral, que foi praticamente demolido quando a então Ministra das Finanças decidiu muito corajosamente nomeá-lo! "acabámos com a iniquidade das aposentações antecipadas na função pública, era inadmissível as pessoas poderem sair com 49 anos" pena é que não tenha dito isso quando era oposição e o Governo de Barroso revogou a lei que permitia antecipar as aposentações... O que não houve!, sobre o ataque aos direitos adquiridos, as inconstitucionalidades, a agressão aos funcionários, o erro de se impedir com isso a entrada de gente nova! Caíu o Carmo e a Trindade, o PS votou contra todas as leis que introduziram reformas na Administração Pública, incluindo a aposentação antecipada e a Lei da Mobilidade, de que agora são grandes defensores.
Enfim, mais vale tarde do que nunca, mas que as medidas não são da sua autoria, isso não são.
Também achei notável apresentar Mário Soares como o garante da estabilidade e factor de união de todos os portugueses porque "a Presidência da República não é para fazer oposição"... Pois não. Por isso é que Soares fez Presidências Abertas quando achava que Guterres não fazia o seu papel devidamente, por isso é que convocou o Portugal que Futuro, por isso é foi "fixe" quando apoiou a "guerra" à barragem de Foz Côa porque as gravuras não sabiam nadar... Também deve ser por isso que Soares já foi dizendo que não é preciso saber economia e o Primeiro Ministro não se cansou de falar no combate ao défice e na importância da redução da despesa.
Os militantes do Partido Socialistas devem estar um pouco confusos...

A força das convicções

Mário Soares foi um dos fundadores do Partido Socialista.
Quando teve oportunidade institucional de por em prática as suas doutrinas socialistas, optou por colocar o socialismo numa gaveta mais ou menos entreaberta ou mais ou menos fechada, porventura por reconhecer que não resolvia os nossos problemas.
No entanto, é, e continua para muitos, o ex-libris do socialismo português.
Mário Soares, antes de ser Primeiro-Ministro, apelou ao fim dos grandes grupos económicos, que também denominava de monopólios, sendo responsável indirecto pelo desmantelar de muitas das nossas melhores empresas e pela fuga dos seus principais accionistas.
Quando foi Primeiro-Ministro, convidou muitos empresários e gestores a regressar, para reconstruir a economia.
Mário Soares combateu, e bem, o isolacionismo português.
Teve nesse isolacionismo um bom argumento para viajar pelo mundo inteiro, assinando protocolos de cooperação, económicos, culturais e muitos mais, dos quais se destacará o assinado com as Seychelles, verdadeiramente estrutural para o nosso país.
Muitos dos que combatia na véspera eram os seus convidados especiais para essas viagens.
Mário Soares foi agredido na Marinha Grande, numa campanha eleitoral e, justamente, protestou por não ter protecção policial; quando Presidente, competindo-lhe também assegurar a lei e a ordem pública, não se coibiu de dizer, numa Presidência Aberta, que não precisamos, cá, de polícias!...
Há pouco tempo, jurou que não seria candidato a Presidente da República; há menos tempo ainda, "aceitou" apresentar a sua candidatura!...
Homem de uma só fé e de um só querer!...

O Cuco e a política

Image hosted by Photobucket.com


Dois ou três factos políticos recentes fizeram-me recordar uma imagem utilizada há cerca de sete anos por José Pacheco Pereira para criticar a então política de inaugurações de António Guterres. Chamava-lhe JPP a “política do cuco” dada a irresistível tentação de se fazer festim com obra alheia. O cuco é conhecido precisamente por colocar os ovos no ninho de outras aves, aproveitando a sua ausência momentânea.
Entre as muitas espécies de cucos, destaque-se o "cuco canoro":

Depois de 12 ou 13 dias de incubação, algumas vezes um pouco antes dos outros filhotes nascerem, nasce o cuco, que antes de 10 horas de vida começa a jogar para fora do ninho seus "irmãos" ou os ovos, até ficar só e ter só p/ ele a atenção da fêmea que, em pouco tempo, fica muito menor que seu "filho".

Muito semelhante no seu comportamento é o "cuco rabilongo":

O cuco-rabilongo, ou cuco-real, é parasita dos corvídeos e das pegas-rabudas, de tal maneira que existem poucos casos de cucos-rabilongos em ninhos de outras aves. A fêmea do rabilongo, aproveitando a ausência das pegas, põe o ovo no seu ninho – às vezes dois – e depois abandona a região. O pequeno cuco-rabilongo, ao contrário do cuco-canoro, convive com seus meio-irmãos no ninho, ao invés de eliminá-los. Mas, mesmo assim, tem um processo muito mais sutil e refinado para exceder as pegas que compartilham o ninho com ele. Durante a alimentação dos filhos, as mães se sentem estimuladas a introduzir alimentos nas fauces destes devido à cor rosada e reluzente no interior das mesmas. Uma força irresistível atrai as aves para o ninho habitado pelas criaturas extremamente atraentes que apresentam cores fortes no interior de seus bicos.

Depois de ver alguns cartazes eleitorais e de ouvir o Primeiro-ministro no seu discurso de “rentrée” sou levado a concluir que este governo e alguns autarcas estão a transformar-se numa família de cucos, onde à falta de “ninho” novo se põem os ovos no ninho dos outros. Refiro-me a autarcas que em menos de um ano conseguiram erradicar as barracas do seu concelho, ou de Sócrates que parece ter inventado uma solução milagrosa para facilitar a fixação dos docentes nas escolas.
Confesso que neste exercício só não gosto de fazer o papel de pega-rabuda.


sábado, 3 de setembro de 2005

sexta-feira, 2 de setembro de 2005

As televisões fala-barato

Uma estação de televisão portuguesa, no seu programa de hoje, dia 2 de Setembro, género forum, de recolha de comentários dos telespectadores, resolveu inquiri-los sobre as inundações de Nova Orleães.
As perguntas propostas eram do género:
Acha que as medidas preventivas tomadas pelo Governo americano foram suficientes?
Acha que as medidas foram tomadas em tempo oportuno?
Acha que os apoios estão a ser os adequados?

As perguntas eram dirigidas aos telespectadores de Portugal, não dos EUA!...
Pergunto:
Com que conhecimento dos factos os telespectadores podem dar a sua opinião?
E qual o valor dessa opinião?
E que objectivos se propõe a Estação com tais perguntas?
Parece-me que este programa, a par de tantos outros, é profundamente chocante e deseducativo, por pôr as pessoas a falar do que não sabem.
Assim vai o mundo dos media, em Portugal.
E não é uma estação qualquer, é uma estação cujo principal accionista já foi Primeiro- Ministro de Portugal!...

E a estação púbica, que hoje passou os primeiros trinta minutos do seu noticiário mais importante, o das 20 horas, a falar de N. Orleães? Trinta minutos que chegam, nas televisões civilizadas, para cobrir o que de mais importante se deu no país e no mundo!...

A cama está feita!

Partilho da mesma opinião expressa por Paulo Gorjão relativa às notícias sobre a futura saída de Paulo Macedo, o "luxuoso" Director-geral da Administração Fiscal. Este país não se dá bem com a competência, em especial se for bem paga. Se, por acaso, essa competência se revela no exercício de um cargo poderoso e apetecido, como é a administração fiscal, então a mistura torna-se insuportável para os medíocres ambiciosos (são os piores!). Para mim esta novela tem o desenlace traçado. As únicas dúvidas centram-se sobre o quando e o como, embora possam ser parcialmente dissipadas lendo o último parágrafo da referida notícia. A cama está feita, ... a coberto da lei!
A opção é simples: ou nos entretemos a criticar o subsídio de residência do Ministro Teixeira dos Santos (absolutamente legal!) ou defendemos o princípio de que a competência paga-se bem, como é o caso de Paulo Macedo, com resultados mais do que visíveis (mas, agora, de legalidade obtusa).
Ah! um pequeno pormenor: um é "político" o outro um conceituado "técnico", facto que não é tão despiciendo quanto se possa pensar.

quinta-feira, 1 de setembro de 2005

O Sorriso

"Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso."

Eugénio de Andrade

De regresso a um ano de trabalho "novinho em folha" demorei-me um pouco a pensar como iria encetar esta folha em branco e assim retomar o agradável convívio no Quarta República. Os temas da política nacional estão já comentados de forma imbatível neste blog e voltarão certamente à baila de mil e uma formas sempre espantosas. As catástrofes que se abateram nos vários continentes obrigam-nos a sair da estreiteza dos nossos dissabores mas não queria começar por aí.
Prefiro começar com um sorriso, essa forma de expressão tão abandonada e no entanto tão forte, tão poderosa, capaz de quebrar barreiras, de dar alento, de transmitir afecto, simpatia, compaixão ou alegria.
Também pode significar troça ou desprezo, mas esses são só esgares, não merecem que se lhes chame sorriso, basta ver como surgem facilmente, sem aquele impulso de alma que torna um sorriso inconfundível e substitui as palavras imperfeitas que quer significar.
Mas já podemos chamar à categoria de sorriso a expressão que vi na cara de uns amigos que vivem há muito fora do nosso país e a quem relatei alguns episódios da nossa política nacional.É aquela expressão entre o divertido e o incrédulo, própria de quem não sabe ao certo se estamos a falar a sério ou a pregar uma partida...
É fácil ir esquecendo de sorrir, do mesmo modo que é fácil ir deixando de reparar nos outros ou de ter coragem para manter a vontade de lutar por dias melhores.
Li há pouco tempo no jornal que foi feito um estudo sobre o sorriso - ou a falta dele - em Portugal e parece que as conclusões tiram o sorriso mais tenaz, sobretudo porque o tal estudo se baseou nas fotografias que os jornais publicam dos políticos e aí, compreende-se! nem sombra dele. Diga-se, em abono da verdade, que é uma questão de critério jornalístico, se calhar conluiados para dar um dispensável contributo para a tão mediática falta de auto estima - recentemente elevada à categoria de fundamento para candidaturas presidenciais. Para não referir as vezes em que lá escapa uma expressãomais alegre e logo é essa que é escolhida para ilustrar a notícia de mais uma medida gravosa. Aí deve ser a categoria farta dos sorrisos cruéis!
Seja como for, mesmo que se comece com um sorriso menos atraente, sempre é melhor do que não saber sorrir de maneira nenhuma, ou achar que já nem vale a pena fazer o esforço.
Um sorriso tem um retorno quase certo, não exige qualificações, não custa nada e é comum a todas as classes sociais. Talvez seja a forma mais simples de começar a combater a depressão nacional que nem as férias conseguiram curar.
O Quarta República tem dado um contributo activo para essa terapia, mas não é demais recordar o tema.
Um bom ano de trabalho e um sorriso de muita simpatia.

Zapoï

Um dos divertimentos que está em crescendo por esse mundo prende-se com a ingestão rápida de fortes bebidas alcoólicas: “Binge drinking”. Já tive oportunidade de o observar e, de facto, acho que estamos perante uma atitude estranha. Emborcar de uma forma rápida para sentir os efeitos agudos do álcool. Ainda não acabaram de beber e já o organismo está a refilar.
Na Rússia também se observa este comportamento. Mas, apresenta uma particularidade que é beber o mais rapidamente possível para atingir o grau de inconsciência e permanecer bêbado durante dias e, nalguns casos, semanas. Designa-se este fenómeno por zapoï. A situação é muito grave, atinge sobretudo os homens na sua fase mais produtiva, está na base de muitas mortes, começa a ter impacto na produtividade, é um sério sinal de alcoolismo, que pode ser um dos factores responsáveis pela redução da esperança de vida que, entre 1989 a 1994, se reduziu em seis anos nos homens e em três nas mulheres, colocando este país na cauda dos países industrializados com valores idênticos aos do Senegal.
É certo que a falta de esperança aliada à tradicional alma russa explique este comportamento.
Recordo-me que há cerca de 13 anos, numa estadia em Moscovo, um colega do Azerbeijão disponibilizou-se para me ajudar a comprar duas garrafas de vodka especial. Após a compra, convidou-me a beber um cálice à boa maneira dos locais. "Em Roma sê romano"e vai daí bebi o cálice de uma só vez. O que senti foi: “acabei de beber a alma do Rasputine”! A mucosa bucal e da língua desapareceram num ápice. O meu olhar devia estar tão transtornado que o azerbaijanês perguntou se eu me sentia bem. Quando me explicou que o vodka especial tinha só 75 graus ia desmaiando.
Escusado será dizer como passei o resto do tempo.
Quem analisar o comportamento político de alguns portugueses poderá concluir que muitos bebem à zapoï embriagando-se o mais rapidamente possível, tentando manter-se inebriados durante o máximo tempo possível. Se a situação continuar ainda nos arriscamos, não propriamente a uma redução da esperança de vida, mas, a uma redução na esperança em viver. É evidente a sensação de tristeza e de desânimo na nossa sociedade, testemunhados por muitos, sobretudo nos mais jovens, facto que poderá explicar algum do seu comportamento, nomeadamente o consumo das bebidas. É preciso evitar o zapoï (alcoólico) dos jovens e, sobretudo, o zapoï (político) de alguns responsáveis do nosso país.

A ler ainda...

O regresso de Francisco José Viegas, agora em A Origem das Espécies. Já começava a fazer falta.

O texto de José Pacheco Pereira sobre "MÁRIO SOARES, JESUS, FINANÇAS E BIBLIOTECAS" no Abrupto.

A reflexão de O Reformista sobre a magistratura presidencial.

Sim, aceito


tragédia grega
Aceitar: receber o que se dá ou oferece; receber com agrado.
Querer: ambicionar; pretender; desejar; apetecer.
Hipocrisia (do grego hypocrisia, forma poética de hypocrisis, desempenho de um papel num teatro); impostura; fingimento; manifestação de virtudes ou de sentimentos que realmente se não tem.

Mário Soares desempenhou bem o seu papel no palco.
Ambiciona e pretende ser Presidente; apetece-lhe sê-lo.
Tratar-se-ia a si próprio com dignidade e trataria com dignidade os Portugueses se o dissesse claramente.

A ler ...

O post de "adkalendas" sobre o desemprego dos professores que não obtiveram colocação. Acrescentaria, para além das razões expostas, que esta situação decorre do laxismo com que se aprovaram, um pouco por todo o lado, cursos superiores de formação de professores, quando já se antevia a regressão da população escolar. Um outro problema: a mim ninguém me diz que os milhares de professores que estão agora no desemprego não são melhores profissionais do que alguns que conseguiram colocação. Falta completar o sistema de concursos com um novo modelo de recrutamento e profissionalização dos docentes que permita aferir do mérito e qualidade de quem entra na carreira.

A minha escola

Não tenho por hábito nem os princípios me autorizam a falar e escrever sobre a minha vida privada e a da minha família. Contudo, a opção que hoje concretizei sai parcialmente da esfera do privado para ganhar uma minúscula expressão pública que me liberta do recato que estas situações aconselham. Como o 4R não é propriamente a Caras, a VIP ou a Maria, nem tem coluna social, julgo que não me levarão a mal a narrativa.

O meu filho João (3 anos) teve o seu primeiro dia de escola. De há mais de um ano que me debatia com o embaraço da escolha, mesmo que orientado para encontrar o melhor que pudesse proporcionar à criança. O desafio não estava só em encontrar uma “boa escola”, impunha-me que optasse por um modelo de escola que correspondesse, ainda que parcialmente, ao que entendo dever ser uma escola, enquanto projecto educativo e modelo organizacional.

A opção recaiu sobre a Associação Escola 31 de Janeiro, localizada na Parede, Concelho de Cascais. Não tive de recolher muita informação, dado que há muito dispunha da mesma, tendo acompanhado de perto a sua evolução nos últimos seis anos. Como o próprio nome sugere, trata-se de uma velha instituição de origem republicana, fundada em 1911, de carácter associativo, sem fins lucrativos e que desenvolve um projecto educativo que consegue conciliar de forma feliz a exigência, o rigor e a inovação pedagógica.

É uma escola sobrevivente. Integra-se num grande movimento que se desenvolveu a partir do último terço do século XIX e que se saldou por uma rede extensa de escolas comunitárias, sedeadas em associações culturais ou “sociedades de instrução”, resultantes da iniciativa dos cidadãos preocupados em “derramar a instrução pública” por todos os estratos da sociedade. Desse grande movimento, poucas conseguiram resistir até aos nossos dias. Desde a década de 50 do século XX que a generalização da “escola pública” levou ao encerramento destes pilares da cidadania, incapazes de concorrer com a gratuitidade e a progressiva cartelização das escolas do Estado.

Mais do que um resquício do passado, esta escola e este modelo é um projecto de futuro. Queiram os cidadãos tomar nas suas mãos a educação dos seus filhos e a organização autonómica das nossas escolas que o resquício se transformará num amplo movimento de reforma da sociedade portuguesa.

A minha opção está feita.

Viva o alho!

No programa “Portugal no Coração” há de tudo.
Acabo de ouvir uma entrevista com um naturopata que faz a apologia do alho. A entrevistadora atacou o senhor com as opiniões da sua avó que já apontava para os benefícios do alho.
O douto naturopata começa a historiar a importância do alho afirmando que na construção das pirâmides foram utilizados mais de 750.000 toneladas. Aqui está, provavelmente, um dos segredos da construção das pirâmides!
As virtudes são imensas, segundo o senhor: hipertensão, doenças cardiovasculares, cancro, sistema imunológico, actua como estimulante das células “natural killer”, antioxidante, colesterol, reumatismos inflamatórios, para quem faz quimio e radioterapia, tuberculose, seropositivos, cancro do fígado… Daqui a pouco deve continuar a enunciar as virtudes.
Ah! Agora, em Setembro e Outubro é bom para começar a comer alho para fazer prevenção.
Está aconselhado em todas as idades. Também afirmou que o melhor é o alho envelhecido. Tem mais propriedades que o puro! Apresentou uma receita caseira que consiste em colocar alhos em aguardente. Depois é só tomar. Não sei se às colheradas ou se às gotinhas…
De acordo com o senhor é um óptimo purificador do sangue.
Enfim, imagino que, hoje, muitos portugueses vão começar a atacar os dentinhos de alho numa tentativa de tirar partido das suas propriedades terapêuticas.
Eu não sei se a entrevistadora fez um intervalo rápido por motivos de programação ou por causa do mau hálito do naturapata.
Também não sei se existe ou não uma confraria do alho para defender as suas virtudes e benefícios. Mas se existir deve ser cá uma ambiente capaz de correr com qualquer iniciado. Recordo-me das queixas que muitos diplomatas teciam a propósito de Generalíssimo Franco. O velho ditador espanhol tinha o hábito de mastigar constantemente alho desde os tempos da Guerra Civil espanhola. Andava sempre com dentes de alho no bolso. Ninguém conseguia permanecer por muito tempo num círculo com alguns metros ao redor de Franco. Aqui está um belo exemplo de cortina contra indesejados.
No meu caso, e tirando o bacalhau assado, não tenho grande simpatia por ele. Quando a minha avó se lembrava de tratar as “bichas” obrigava-me a usar um colar de alhos, enquanto dormia, e às vezes esfregava-me mesmo no peito…
Ah! Já me esquecia. Uma doente minha, que anda sempre actualizada em função da naturopatia, acabou de substituir a estatina que andava a tomar por alho. Ora como os alhos são mais baratos que as estatinas e atendendo que cerca de 50% da população portuguesa sofre de hipercolesterolemia ainda nos arriscamos a que senhor ministro da saúde disponibilize alhos aos nossos concidadãos. Nos supermercados já se vendem. Agora poderiam vendê-los nas farmácias…