Quinta-feira, 1 de Setembro de 2005
A ler ...
O post de "adkalendas" sobre o desemprego dos professores que não obtiveram colocação. Acrescentaria, para além das razões expostas, que esta situação decorre do laxismo com que se aprovaram, um pouco por todo o lado, cursos superiores de formação de professores, quando já se antevia a regressão da população escolar. Um outro problema: a mim ninguém me diz que os milhares de professores que estão agora no desemprego não são melhores profissionais do que alguns que conseguiram colocação. Falta completar o sistema de concursos com um novo modelo de recrutamento e profissionalização dos docentes que permita aferir do mérito e qualidade de quem entra na carreira.
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13 comentários:
Não percebo exactamente em que é que o desemprego de professores é negativo. Já bem basta andar este país todo refém dos médicos. Esses sim, são formados à medida e dá naquilo que temos.
O que realmente não se compreende é a forma de colocação e, pior, o duplo pagamento que é exigido ao contribuinte. Se pago a formação de professores a mais, devo recuperar esse dinheiro com um salário mais condizente com a oferta. E com uma oferta destas salário mínimo dava e sobrava.
Considero esta sua entrada perturbadora. Quem ocupou o cargo de Ministro da Educação, como foi o seu caso, deveria ser mais cauteloso nas opiniões que expressa sob pena de ser considerado um hipócrita. Recordo-lhe que tinha ao seu dispor um mecanismo de regulação da oferta da formação de professores que são os estágios em estabelecimentos de ensino público. Tanto quanto seja do meu conhecimento nunca usou este mecanismo. Continou a pagar-lhes um salário como professores estagiários, prolongando uma longa tradição de esbanjamento de dinheiros públicos nesta área que só recentemente terminou, embora não da melhor maneira.
Mas quanto à formação de professores o seu pecado capital, Dr. David Justino, foi a extinção do Instituto Nacional de Acreditação da Formação Inicial de Professores (INAFOP). Portugal não precisa somente de formar menos professores mas, essencialmente, de formar melhores professores. E o INAFOP, à semelhança de organizões estrangeiras congéneres, propunha-se construir um sistema de acreditação da formação inicial de professores que colocasse alguma ordem na anarquia que desde há muito se vive no nosso país. Terá afirmado posteriormente que os serviços centrais do ME iriam assumir esta responsabilidade. Foi o que se viu...A formação de professores necessitava e necessita de grandes mudanças e, de forma tímida e perante o afrontamento de inúmeros poderes e forças, o INAFOP estava a realizar o seu caminho. O seu desaparecimento tem a sua assinatura, Dr. Justino. Quando pensar na formação de professores pense nisso.
P.S. Nunca tive nenhuma ligação ao INAFOP, pelo que esta minha opinião não envolve nenhum interesse pessoal que tivesse sido colocado em jogo.
Meu caro PJ, lamento tê-lo perturbado com o meu limitado comentário. Espero não o perturbar ainda mais com os esclarecimentos seguintes.
1. Os estágios remunerados em estabelecimentos de ensino público tinham o seu fim anunciado. Este ano seria o último dado que o financiamento cessaria com o novo quadro comunitário.
2. De que vale suprimir um determinado modelo, sem ter um modelo alternativo que o substitua? Qual é o modelo de profissionalização que actualmente se propõe? Conhece? Eu não.
3. A iniciativa de extinção do INAFOP não foi minha porque não era minha a tutela ( era tutelado pelo Ensino Superior). Mas mesmo que fosse não enjeitaria a medida. O modelo de acreditação de cursos teve como resultado o que todos estão a ver, com excesso de oferta e incapacidade de controlo da qualidade da formação de professores.
4. A opção tomada pressuporia a substituição por um modelo de certificação dos candidatos a professores, pela regulamentação do chamado período probatório, previsto no Estatuto da Carreira Docente. Se tal não foi feito, deve-se à conhecida saída do cargo que ocupava.
5. O princípio da certificação pressupõe a avaliação "à entrada" para a carreira, como sugiro no meu post, não tendo no presente qualquer razão para mudar de ideias.
Espero que estes esclarecimentos possam ajudar o PJ a ficar menos perturbado e mais esclarecido. Reconhecendo a sua isenção relativamente ao INAFOP, não quero deixar de manifestar que a suaextinção não obedeceu a problemas pessoais ou partidários. Pelo contrário, há que reconhecer que em aspectos fulcrais foi desenvolvido um trabalho reconhecidamente competente. A opção foi estritamente política decorrente de opções conscientemente assumidas.
Com os melhores cumprimentos, não deixando de agradecer o comentário feito.
Muito obrigado pelos seus esclarecimentos Dr. Justino. Todavia, realçaria duas questões. A primeira para assinalar o facto de mesmo no caso de o INAFOP não pertencer à tutela do ministério do qual foi responsável, o Ministério da Educação (ME) continuava e continua a ser o principal empregador dos professores formados. Neste contexto, seria de todo recomendável que se tivesse verificado uma articulação entre o ME e o do ensino superior. Verifico, todavia, que parece ter visto com bons olhos a extinção do INAFOP, ao afirmar que não enjeitaria a medida. Não direi já que estou perturbado mas confesso-me perplexo perante esta sua opinião. E mais perplexo fico quando afirma que “o modelo de acreditação de cursos teve como resultado o que todos estão a ver, com excesso de oferta e incapacidade de controlo da qualidade da formação de professores.” Actualmente não existe nenhum processo de acreditação da formação inicial de professores. Era exactamente isto que o INAFOP se propunha concretizar: regular e controlar a qualidade da formação inicial de educadores e professores. Como sabe presentemente qualquer instituição de formação de professores ao nível do ensino superior politécnico e universitário não presta contas a ninguém. Haverá as que são excelentes e as que são medíocres, mas não existe nenhum processo que possibilite separar umas e outras. Mais: o ME baseia-se unicamente nas notas dos candidatos para proceder à sua seriação nos concursos. A escalada das notas constitui um escândalo nacional.
Sustenta ainda que a regulamentação do período probatório poderia avaliar a qualidade dos candidatos à entrada do sistema. Não coloco em causa a necessidade de investir nesta área, mas confiar neste sistema para avaliar a qualidade dos professores já profissionalizados não resolve o problema da qualidade da formação inicial que, infelizmente, por via da extinção do INAFOP, continua sem rei nem roque.
Meu caro PJ mais uma vez agradeço a sua réplica que revela não estarmos tão longe quanto possa parecer.
O INAFOP acreditava cursos de formação inicial de proofessores, não tinha qualquer responsabilidade na avaliação dos seus alunos. E é aqui que reside o problema!
O modelo que eu defendia e defendo é o da certificação profissional de cada candidato a professor, realizada já dentro do sistema escolar.
Isto pressupõe que devem ser os professores a avaliar os candidatos a professores, em exercício no período probatório.
Esta é uma das soluções para aferir da competência dos candidatos. Tal como está, e como escreve muito bem, o único critério de selecção é a classificação final obtida no final do curso acreditado. É este promenor que está a fazer inflacionar as classificações de alguns estabelecimentos. Resultado: os candidatos a professores graduados por estabelecimentos de ensino superior que se orientem por critérios de maior exigência exigência ficam claramente prejudicados por algumas "chafaricas" que garantem melhores notas.
Ainda que este fenómeno não seja muito antigo, a sua expressão é cada vez maior. Quando em funções governativas já me tinha apercebido dessas movimentações o que reforçou a opção (não concretizada) de rever a fundo o estatuto da carreira docente e o modelo de profissionalização.
Cumprimentos
Mau...Desculpem lá a intromissão no vosso diálogo, mas isso não é a inversão completa do sistema?
O que faz o professor ser bom ou mau é se o alunos atingem um bom ou mau nível de educação de acordo com aquilo que nós, cidadãos e contribuintes, entendemos. Não são os professores que decidem quem é bom ou mau, são os alunos quando mostram o nível de educação atingido.
Pareceu-me, na altura em que o Dr. Justino teve responsabilidades de governo, que entendia seguir o caminho de avaliar quem é bom de facto em vez de estabelecer quem é bom no papel.
Pelos vistos, pareceu-me mal...
Meu caro Tonibler, não lhe pareceu nada mal. Está a fazer confusão entre avaliar "à entrada" da carreira os candidatos a professores e avaliar ao longo da carreira os professores. Neste último aspecto não mudei a opinião: não chega avaliar intenções e boas vontades, há que avaliar resultados.
Meu caro djustino, não me expliquei bem. Para os efeitos práticos, é irrelevante se é à entrada, à saída ou nos 'entrementes'. Nada disso me parece desculpa para um 'aluno mal educado'.
Embora o estado actual das coisas faça misturar as questões, o facto é que um professor 'à entrada' é um 'aluno à saída'. Para o estado, enquanto garante da educação, isto deveria ter uma separação clara e não tem(teve), como o seu diálogo com o PJ revela. É importante que o estado, como produtor de educação, gere boa educação de professores, como é importante que encontre os melhores professores para produzir educação. Que se una uma coisa à outra, é uma inversão do sistema, porque se assume o sucesso da primeira e, logo, desresponsabiliza a juzante.
Como em qualquer actividade, 'a entrada' é feita porque alguém assume a responsabilidade dessa entrada e, como em qualquer actividade, maturidade profissional não serve de desculpa para o exterior. E o problema sempre esteve por não haver quem assuma a responsabilidade da entrada, porque alguém já definiu o que essa entrada deve ser. Pior, aquilo que chego à conclusão é que haja o que houver, faça-se o que se fizer, a culpa é invariavelmente minha (cidadão, pai, aluno, contribuinte). Porque é que as escolas não contratam quem bem entendem e a gestão responde pelos resultados? Não entendo...
Por isso, confesso que este seu diálogo com PJ me desiludiu...
Meu caro Tonibler, entramos decisivamente na lógica da pescadinha de rabo na boca. Quem forma os candidatos a professores? Os estabelecimentos de ensino superior, na sua maioria públicos. Mas quer os públicos quer os privados não se sujeitam a uma avaliação aferida dos seus resultados, ou seja, da qualidade dos seus alunos. Em primeiro lugar porque são dotados por via constitucional de autonomia pedagógica, científica e supostamente financeira. É essa autonomia que lhes confere o poder de contratarem quem bem quiserem, só que a gestão não responde pelos resultados: porque não os há comparáveis e sistematizados. O facto de haver autonomia de gestão e contratação não os iliba de produziram mal e com isso reproduzirem essa falta de qualidade através do sistema de ensino básico e secundário.
É necessário dizer também que a inflação de notas resulta também da desregulação do ensino superior privado. è uma forma de atarírem alunos e com eles a indispensável receita.
É precisamente por este conjunto de factores que se torna necessário introduzir mecanismos de avaliação e aferição à entrada da carreira.
Compreendo agora melhor a posição do Dr. David Justino e discordo ainda de forma mais profunda das suas opiniões. O sistema de acreditação da formação inicial de professores não se destina a avaliar os alunos, mas sim a qualidade da sua formação. É isso que faz qualquer sistema de acreditação. Se o sistema de acreditação fosse sério e credível, como se esperava que fosse o do INAFOP, era previsível que pelo menos as instituições de formação de professores que não oferecessem garantias de uma formação de qualidade fossem afastadas. Este sistema de acreditação em nada belisca a autonomia das instituições do ensino superior. Aliás, foram estas que se opuseram de forma mais feroz às competências do INAFOP que consideravam uma ingerência no seu funcionamento, mas a desculpa é manifestamente falsa. Actualmente várias ordens profissionais procedem à acreditação de cursos do ensino superior, como sucede com a Ordem dos Engenheiros e a Ordem dos Arquitectos e não se ouve nenhuma reclamação. Esta acreditação também não avalia pessoas mas sim sistemas de formação.
Em vários países a profissionalização definitiva de docentes só é adquirida após alguns anos de prática profissional. Tendo a concordar com este sistema que valoriza o período de indução previsto no estatuto da carreira docente, mas que nunca foi regulamentado. Agora não transformemos o período de indução no único sistema de avaliação da qualidade dos docentes em início de carreira. Até porque estamos a falar de professores que se encontram a trabalhar com crianças e jovens. Deixo apenas uma pergunta irónica no ar: confiariam num sistema de avaliação da qualidade dos cirurgiões que se baseasse na qualidade da prática profissional após a sua formação? Aceita-se que se deixem morrer doentes por causa de cirurgias mal feitas por maus profissionais, sendo esse o preço a pagar pela avaliação do sistema? A acreditação da formação inicial de professores é uma necessidade indiscutível. A regulamentação do período probatório tembém. Uma não substitui a outra.
Caro djustino, a 'suposta' autonomia financeira é um pequeno grande detalhe. Acrescido da segurança absoluta no emprego, temos um ramalhete terrível...
As escolas privadas, tenham fins lucrativos ou não, fazem essa avaliação (dos professores à entrada) todos os dias. E se os resultados produzissem gestores escolares ricos ou no desemprego, a formação de professores não necessitava de avaliação.
Se me está a dizer que esse mecanismo é uma solução num meio em que responsabilidade quer dizer 'lá-se-foi-o-meu-suplemento-de-10-cts.', então acredito perfeitamente. Que isso, a mim, retira qualquer esperança de salvação a um sistema público de produção de ensino, ai isso retira. Porque além do custo financeiro de tudo isto, existe um custo de oportunidade gigantesco que nos é atirado à cara todos os dias que se fala em crise. Se uma solução dessas se enquadra na classe de soluções boas, então feche-se, porque não vale a pena.
Caro PJ (acho que a pergunta irónica também é para mim, se não é ...respondo na mesma),
Numa qualquer empresa que necessite de lucro para sobreviver, as pessoas não entram porque estão certificadas. Aliás, neste país em particular, certificados têm um caracter indicativo, mais nada. Porque uma empresa, como uma escola, vale pelo conjunto das pessoas mais experientes, com as menos experientes. Um conjunto de certificados não produz nada que não seja um conjunto de certificados.
Quando vai para uma cirurgia, não está lá só um cirurgião, está lá uma equipa, alguns dos quais sem qualquer certificação. Mas a qualidade da cirurgia não resulta da menor certificação presente, resulta da capacidade da equipa.
Por isso digo que deveria ser irrelevante a forma como são avaliados os professores à entrada, desde que a equipa tivesse um responsável pela qualidade do que produz. Como? Isso depende das circunstâncias, da forma como cada um trabalha, etc...
Agora, também compreendo que num país em que a equidade é um valor em si mesma, independentemente das injustiças que provoca, isto pode não ser possível.
Há novidades sobre o assunto em http://tsf.sapo.pt/online/vida/interior.asp?id_artigo=TSF163826
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