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quarta-feira, 1 de junho de 2016

Não, a crise que vivemos não é essencialmente material.

Os assuntos da economia e das finanças dominam este como outros espaços de opinião. Mas não é aqui nova a perspetiva de a  nossa crise não ser uma crise de escassez ou de perda de condições materiais de vida. Tendemos, é certo, a sacrificar quase tudo à materialidade, esquecendo que a felicidade deve muito a valores que não estão no mercado. Não se vendem, não se compram, cultivam-se, adotam-se, fazem ou não parte da humanidade em função das vontades coletivas em cada momento da História.
Porque tenho consciência que poucos valores fundamentais são intemporais, tenho procurado fazer um esforço para fugir ao tremendismo tão na moda. E por isso sinto um certo desconforto ao reler-me quando não resisto a exprimir o meu pessimismo sobre o tempo de crise profunda de valores que vivemos, de acordo com uma visão naturalmente forjada pela educação que recebi. Visão parcial e subjetiva de uma crise que a meus olhos atinge em especial as elites, aquelas que influenciam as decisões de largo espetro, as que se refletem intensamente na vida das pessoas e que têm, na sociedade fortemente mediatizada que vivemos, um efeitos arrastador.
Correndo o risco de me chegar cada vez mais perto da figura do Velho do Restelo, não me coibo, porém, de partilhar a opinião sobre um tema que me inquieta muito. Aqueles palcos onde todos aplaudem o que não resiste a uma sereno juízo feito pela razão e não pela emoção, aí onde medra o politica e o socialmente correto, vem sendo colocada a questão do deficite de proteção devida aos animais. Por cá, o ordenamento jurídico vai acolhendo a ideologia que professa que animais e pessoas devem ser sujeitos de Direito, igualando no gozo de direitos todos os seres sencientes, esquecendo que não se pode impor aos animais deveres de conduta que correspondam a correlativos dos direitos reconhecidos. Vou-me, perante os exageros, confortando com a ideia de que existem leis que não são produto da vontade de parlamentares e governantes. As leis da natureza, essas, não cedem à irracionalidade dos homens e vão, elas sim, comandando contra a vontade irrealista do legislador...
Mas é também notório que se vai perdendo a noção da hierarquia dos valores. Um último exemplo disso é a reação  ao episódio passado no Cincinnati Zoo. Um gorila foi abatido depois de uma criança de 4 anos ter caído ao fosso e ter sido arrastada pelo animal. Ergueu-se uma onda de indignação e censura contra o responsável do zoo que tomou a decisão de trocar a vida do animal pela vida ameaçada de uma criança, naquela circunstância absolutamente indefesa. Dizem uns que a situação permitia usar de meios que evitassem a morte do animal. Os mais brandos nos protestos opinam que a situação era dilemática, deixando no ar a suspeita de a decisão de eliminar o gorila ter sido precipitada por não haver certeza que o instinto não fosse protetor em vez de assassino. Fico arrepiado perante a quantidade de gente que não percebe que a certeza poderia custar a morte de uma criança! As censuras dirigidas por alguns lideres de opinião ao responsável pelo zoo provam, pois, como andam desgraçadamente baralhadas as mentes desta novel inteletualidade. O princípio da precaução, se tem aplicação sem limites, é exatamente na situação em que possa estar em risco a vida humana. E naquele caso seria criminoso, por mais dócil que julgasse ser o animal, não afastar a hipótese de a criança ser gravemente molestada ou mesmo morta. A hesitação perante a hierarquia dos valores em presença, essa sim, poderia ser caso de negligência criminosa, sem perdão nem arrependimento.
  

6 comentários:

Zuricher disse...

Caro Ferreira de Almeida, já não é a primeira vez que uma criança acaba no meio de gorilas. É a primeira vez que há uma morte, neste caso do gorila. Todas as restantes situações em que sucedeu foram resolvidas sem qualquer problema. O instinto natural do gorila poderá ser de curiosidade mas, mormente perante uma criança, é essencialmente de protecção. Nada faz pensar que o gorila iria matar o miúdo - algo que, querendo, poderia fazer numa fracção de segundo - e, realmente, quando sucedeu noutros casos nunca os gorilas causaram qualquer mal a quem se viu subitamente no meio deles. Bem pelo contrário, aliás.

Compreendo, em todo o caso, o seu ponto e onde pretende chegar.

Suzana Toscano disse...

Caro Zé Mário, concordo consigo, há mão leve para escrever leis e decretar deveres e comportamentos esquecendo que muitas vezes a civilização não se desenha a régua e esquadro, dividindo a sociedade arrogantemente, como se os "bons"se impacientassem perante os instintos de tantos "maus". Campanhas de divulgação e de sensibilização que divulgassem bons princípios e boas atitudes perante os animais fariam muito mais pela educação dos cidadãos e, sobretudo, pela aprendizagem dos mais novos, do que uma lei cheia de regras e penalizações. Quanto ao drama da criança no zoo, posso lamentar que o gorila estivesse ali no momento errado mas, se fosse eu a ter que decidir naquele momento, não hesitaria um momento a avaliar as intenções do animal. Ainda bem que as vozes se levantam a chorar pelo gorila, seria imperdoável se tivessem que chorar pela criança.

Bartolomeu disse...

Temos então, neste post,(exemplarmente bem redigido) três pontos de vista sobre, a meu ver, duas questões essenciais: poupar a vida do gorila ou eliminar a margem de risco e mata-lo. Mas há uma terceira questão que todos se esqueceram de analisar e que considero comum tanto á cena do zoo, como ao estado da economia e das finanças portuguesas; a criança de 4 anos não saltou por sua livre iniciativa para dentro do fosso do gorila.

IsabelPS disse...

Sobre a questão do gorila, assino por baixo, e com aplauso, a frase acima da Suzana Toscano: "Ainda bem que as vozes se levantam a chorar pelo gorila, seria imperdoável se tivessem que chorar pela criança."

Quanto à questão mais genérica expressa na sua frase "não se pode impor aos animais deveres de conduta que correspondam a correlativos dos direitos reconhecidos", acho que não colhe. As crianças também gozam, e bem, de direitos de protecção sobejamente reconhecidos sem que se lhes exija quaisquer deveres de conduta.

Mas estou perfeitamente de acordo consigo quando diz "que poucos valores fundamentais são intemporais". Nesta questão da atitude em relação aos animais vem-me frequentemente à ideia a atitude perante os escravos, e mesmo perante as crianças, há não tanto tempo assim...

JM Ferreira de Almeida disse...

Agradeço a gentileza dos comentários.

Meu caro Zuricher, a frase de Suzana Toscano resume a mensagem que, no meio de alguma divagação ao correr das teclas, pretendia deixar. É bom que haja quem lamente a morte do gorila. É muito bom sinal de alteração de mentalidades. Mas perante o risco de poder ser este, a acreditar no que deixou anotado, o primeiro caso de instinto assassino de um gorila perante uma criança, ao contrário do meu Amigo eu também não hesitaria. Não seria, para mim, sequer um dilema.

Saúdo este regresso da Suzana. Sente-se a falta da sua assertividade e clareza. Espera-se o pleno da sua escrita.
De facto, banalizou-se a lei como instrumento de regulação da vida, e esse fenómeno é responsável pela degradação da efetividade do Direito. Muito mais eficazes, estou de acordo, são inteligentes campanhas de sensibilização que persuadam em vez de comandar em domínios onde deve prevalecer a autorresponsabilização.

Meu caro Bartolomeu, bons olhos o leiam!
Tem o meu Amigo razão quando chama a atenção para a atração pelos fossos por parte de gente alegadamente adulta. Começo a desconfiar que se trata de qualquer genes social avariado que nos identifica como tribo. Confiemos, porém, que para além da queda nos fossos da nossa desgraça, sejamos poupados a instintos assassinos ou a ajuda de bombeiros pirómanos...

Prezada IsabelPS, entendo o alcance do reparo que faz sobre a ausência de "contrapartida" em deveres na atribuição de direitos. Faço notar, no entanto, que me referia à criação de novos sujeitos de Direito. Não querendo alongar-me numa discussão impossível de tratar aqui, digo só que a criança não é uma criatura do Direito, é, enquanto pessoa, a razão primeira da existência do Direito.

Suzana Toscano disse...

Obrigada Zé Mário, também tenho imensas saudades de escrever aqui em tão boa companhia!