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domingo, 20 de janeiro de 2013

Chapéus-de-chuva


Fim de tarde, chuvosa, irritante, deprimente, fria de sentimentos e despovoada de gente. Saio pela porta principal e sou aspergido por gotas amaldiçoadas de um tempo de homens sem tempo, de um povo descoroçoado, de almas sem esperança. O avolumar das notícias e dos acontecimentos são verdadeiras e destruidoras tempestades para quem quer viver e não sabe como, seres que nasceram na esperança de um futuro melhor, um futuro que se transformou no presente repleto de ouro da angústia e de prata do desespero, seres que sofrem na carne e na alma fomes sem sentido. É desesperante chegar a um ponto da existência sem que se consiga descortinar caminhos ou vielas para a vida.
Ei-los nas faculdades. Ei-los a prepararem-se para o futuro, mas qual futuro? O desemprego decerto, antes de tudo, e, depois, uma ou outra ocupação temporária, quase sempre sujeitos a regras que envergonham os tempos idos da escravatura. Sempre ganham em estudar, dizem. Sim, ganham conhecimentos que nem sempre servem para as suas atividades, mas que apenas lhes reforçam a dor da existência. Sim, mas têm mais probabilidades de sucesso. De sucesso? Teoricamente sim, teriam, se as oportunidades fossem criadas em função das necessidades e do respeito que qualquer um merece, mas a prática diz-me que não. Sempre podem emigrar. Pois podem, talvez possam ir para alguma terra de oportunidades enriquecer os seus donos e serem recompensados por isso. Podem, mas quem pagou a formação fomos nós, e os outros é que vão tirar o proveito. Mas a vida é assim, foi sempre assim, que é que se há de fazer? O que é que se há de fazer? Ficarmos com eles, já que investimos na sua preparação, eles deviam é permanecer aqui, produzir riqueza e bem-estar para todos, e para eles, naturalmente. O que é que ouço? Um encolher de ombros, próprio de quem não acredita em si, nem nos outros. Foi sempre assim, ouço. Se foi é porque há razões para isso, que nem são difíceis de descortinar, razões filhas de gente canalha, de gente sem escrúpulos que sempre souberam viver à custa da incredulidade de uma maioria confiante nas suas palavras e atitudes. Gente de bem que morre às mãos de ambiciosos desmesurados, gente de bem que, de tempos a tempos, acaba sempre por perder as estribeiras ou tomar consciência da situação, acabando com a maldição dos que provocam a desgraça de quem quer apenas viver com trabalho, alegria e esperança de ser recompensado.
As gotas amaldiçoadas do final de tarde, que se esborrachavam dolorosamente na minha cara, não conseguiram apagar os meus pensamentos de revolta. Olho para a esquina da faculdade e vejo um jovem com um impermeável amarelo, bem-parecido, cuidado mesmo, com vários chapéus-de-chuva nos braços à procura de clientes. As poucas pessoas que passavam levavam os seus guarda-chuvas. Os que não tinham decerto nem se atreviam a sair à rua. O jovem permanecia, impávido e sereno, sob a impiedosa queda de água, com a sua dúzia de chapéus-de-chuva em ambos os braços à espera de clientes. A ideia não é má, pensei, mas o local não era o melhor, às tantas não deverá ter conseguido vender nenhum, mais sorte teria se os vendesse no deserto. O rapaz deveria ser um estudante, quem sabe se não estaria à espera de ganhar algum dinheiro para pagar as propinas ou para se por a mexer daqui para fora. Tenho que confessar que foram as duas únicas hipóteses que teimei em pensar...

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