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sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Cinzas da vida


A tirania do tempo é uma constante a que ninguém consegue fugir, quer que o contemos em segundos, em anos, no seio da própria eternidade ou no silêncio da morte. Marcamos tudo e todos em sua função, vivemos, amamos, sofremos e descansamos com ele. Talvez seja por isso que damos tanta importância aos aniversários, quaisquer que sejam, como se terminasse um ciclo e se iniciasse outro. Uma monotonia cíclica que nos permite reviver o passado, dar algum significado ao presente e desejar que tenhamos futuro. 
Fazer anos é uma forma de ajoelhar perante o deus Chronos, mesmo para os que não gostam de prestar culto a quem quer que seja. Eu ajoelho-me e recordo que, pela primeira vez, comemoro um aniversário sem a presença da minha mãe. Esvoaço rapidamente pelo passado e inundo-me de imagens, sons, cheiros, sol, frio, chuva, doenças, sabores, carícias, presentes e muita ternura numa estranha amálgama em que os diferentes momentos se confundem, convergindo todos para o mesmo ponto, a comemoração de ter vindo ao mundo, em que ela esteve sempre presente. Hoje não está. Mesmo recentemente, com muita dificuldade, ia recordando esse momento, à custa de a lembrar que “para a semana vou fazer anos, não te esqueças”, “não, não me esqueço”, claro que se esquecia, como aconteceu uma vez em que a memória, que entretanto se ia encolhendo nas sombras do esquecimento, a traiu de forma dolorosa. Dolorosa, porque passado o dia disse-lhe, “então, não foste capaz de me dares os parabéns pelos meus anos?” Mesmo para quem andava já arredado da realidade foi duro, muito doloroso, porque, muitas vezes, quando me via, pedia desculpa por essa falta. Foi só quando se aproximou o aniversário seguinte é que as coisas começaram a melhorar, ia avisando-a, e, no dia aprazado para comemorar as dores de felicidade, telefonei-lhe para que me desse os parabéns. Assim, a partir daí, nunca mais se "esqueceu", porque gostava de se lembrar, uma mãe gosta de repetir em pensamento o que só ela sabe, mais ninguém, um atributo único, ver e sentir a vida sair dentro de si. 
Hoje não lhe posso recordar esse momento, mas sei que gostaria de se "lembrar" e sei que exultaria a dar-me os parabéns, por isso escrevo com esta mão, mão que foi acariciada, conduzida no desenhar das primeira letras, que sofreu castigos, que foi a sua ajuda, que lhe retribuiu todo o amor, que se entrelaçou com a sua no momento da morte, estas parcas palavras que me saem como lágrimas, lágrimas que sabem a dor, a prazer e a amor. 
Como as almas não leem textos escritos, e desejoso de que possa ler estas palavras, vou queimar o papel libertando as cinzas ao vento. Só o pó das almas pode ler as cinzas da vida.

5 comentários:

jotaC disse...

Sinto um nó na garganta!...
Sei do que fala, caro Professor, nos últimos anos também tenho sentido a falta de uma voz muito especial a dar-me os parabéns. Um grande abraço de parabéns.

Bartolomeu disse...

DE Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

Serão sempre cinzas o que resta daquilo que o fogo consumiu, dando lugar a algo de novo, mantendo o cíclo da renovação intacto?
Esperançados de que assim seja, envio-lhe, estimado Amigo, votos de dias harmoniosos e gratificantemente vividos, até que o seu tempo se complete.



Massano Cardoso disse...

Adorei o po.ema, Bartolomeu e, sobretudo, "até que o seu tempo se complete"...
Um abraço para si e para jotaC.

Suzana Toscano disse...

E a alma leu as cinzas, de certeza. Sei bem do que fala, lamento informá-lo de que essa tristeza ficará para sempre a marcar os dias, espero que muitos mais, do seu aniversário. Mas a saudade pode também ser muito doce, com o tempo aprendemos a trazer a presença deles para junto de nós, suavemente, em segredo, numa nova posse. Podemos vingar-nos dessa ausência. Um abraço, e muitos parabéns pelos anos e pelo texto que nos ofereceu.

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

Caro Professor Massano Cardoso
Que bonita é a saudade sentida. As almas não morrem, são eternas, também lêem e sentem. Parabéns pelo Dia especial.