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quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Lenda do vinho



O período de férias é muito agradável porque permite um convívio mais íntimo com os netos. Não há pressas, fala-se mais facilmente, atende-se a pormenores, que de outra forma seriam soberanamente ignorados, e leva-nos a divagar e a criar histórias para o futuro. A neta mais velha, subitamente, durante o almoço, interpelou-me: - Vovô, sabes como é que apareceu o vinho? Olhei para a miúda e lembrei-me de uma velha lenda. Comecei a contá-la. Permanecendo em silêncio, enquanto comia a sopa, disse-lhe que o lendário rei persa, Jamshheed, gostava de comer uvas todo o ano. Para o efeito eram armazenadas em jarras, potes ou tonéis, enfim, num qualquer contentor da época. Um dia, as uvas retiradas de um desses potes estavam amargas, além da presença de um líquido com estranho aroma, que foi considerado como veneno. A jovem esposa, dada à tristeza e à depressão, resolveu aproveitar o tal líquido, classificado como veneno, para por fim à vida. E se assim pensou, melhor o fez. Ao consumir o líquido começou a sentir-se feliz e bem-disposta, não obstante ter bebido tamanha quantidade, já que acabou por “adormecer”. Ao amanhecer sentiu-se diferente e comunicou ao rei os poderes de cura de tão milagroso líquido. O rei, surpreendido, experimentou e gostou, dando a beber aos seus súbditos, acabando por proclamar o líquido como “medicamento real”. 
- Medicamento, avô? - Sim. É esta a história que querias contar? - Não, a minha é diferente. - Ah! Queres contá-la? - Está bem. "Era uma vez um senhor que vivia na Grécia. Um dia teve que voltar para a sua terra natal, Itália. Decidiu levar uma planta chamada videira porque não havia na sua terra. Transportou-a num osso de galo, mas passados uns dias a videira cresceu e teve que a mudar para um osso de leão, passados mais alguns dias cresceu ainda mais e teve que a mudar para um osso de burro. Quando chegou a Itália, plantou-a e daí cresceram muitas mais videiras. É por isso que ainda hoje se diz que quem bebe pouco vinho fica alegre como um galo, quem bebe mais vinho fica resmungão como um leão e quem bebe muito vinho fica teimoso que nem um burro".
Olhei para a catraia e disse-lhe: - Gosto mais da tua lenda do que da minha. 
De facto, quem bebe pouco sente o efeito antidepressivo do álcool, um pouco à semelhança do que terá acontecido à jovem esposa do rei persa, que às tantas deverá ter cantado alegremente como um galo, mas se beber um pouco mais começa-se a resmungar e, até, a tornar-se agressivo como se fosse um leão, e daí a manifestar a teimosia própria de um burro é um pequeno passo. 
- Onde é que aprendeste esta história sobre o nascimento do vinho? 
- Li num livro que tenho em casa. 
Bom, resumindo, não há nada melhor do que aprender uma bela lenda com a neta, que acabou de fazer nove anos.

3 comentários:

Roberto Rensenbrink disse...

1.º) Segundo diz o prof. de Português do meu filho mais velho, ler desde tenra idade é o melhor prof. de português (escrita, oralidade e leitura) que se pode ter. Logo, parabéns à sua neta.

2.º) Férias? Depreendo que esteja a falar da quadra natalícia. Eu e os meus funcionários tivemos a tarde de 24, o dia 25 e dia 1. Há gente com sorte (ainda bem!).

3.º) Estive à esperas que o ministro Relvas se deixasse de lamechices e quisesse trabalhar, nesta quadra, aqui na empresa, mas o magano parece que preferiu o verão do Rio de Janeiro.

4.º) E o burro sou eu? Claro!

5.º) Bom 2013 para si, mas, especialmente, para todos aqueles que têm férias forçadas, não só Natal e Ano Novo, mas durante todo o ano, bem como para todos os que labutam diariamente à espera das migalhas no fim do mês (e incluo os tão odiados funcionários públicos, meus concidadãos).

jotaC disse...

Muito bonito, acho que os dois contos se complementam e atingem o mesmo objetivo didático...

MM disse...

A leitura dos posts do Prof Massano, eh, nos tempos que correm, uma bencao! obrigada!