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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Eur 2.5 bn OT 16/10/17, uma emissão global

Constituiu um êxito o regresso de Portugal ao mercado da dívida pública, com a emissão de 2,5 mil milhões de euros de Obrigações do Tesouro a 5 anos. A operação teve uma ampla adesão dos investidores, com reflexos na taxa de juro, cujo valor ampliou a forte baixa dos yields que os títulos de similar maturidade estão a ter no mercado secundário.
A procura foi muito diversificada, quer por tipo de investidores, quer por áreas geográficas. E, neste aspecto, constitui também um bom sinal que 60% da emissão tenha ficado nas mãos de Gestoras de Activos e 4% tenham sido tomados por Seguradoras e Fundos de Pensões, normalmente com perspectivas de médio prazo. Os Bancos tomaram 10%, enquanto os hedge fundsficaram com 24% e outros investidores não discriminados com 2%.
Por áreas geográficas, os Estados Unidos, com 33% e o Reino Unido, com 29%, foram os maiores investidores, enquanto a Europa ficou com 27% da emissão ( dos quais 7% em Portugal e 9% no conjunto Alemanha, Áustria e Suíça). A Ásia ficou com 9% e outras áreas geográficas com 2%.
Ficou também assim comprovado que a emissão não foi sustentada nem por Bancos portugueses, nem pelo Banco Central Europeu, como alguns se apressaram a insinuar. 
Esta e outras críticas à operação apenas comprovam a mesquinhez de pensamento que grassa por aí, vindas de pensadores vesgos ou a soldo e da oposição política. Creio que só perdem com isso. Quando forem capazes de reconhecer o que inegavelmente corre bem, ganharão em credibilidade nas críticas que justamente fazem. Mas numa política de terra queimada tudo vale, até dar tiros no próprio pé.
Nota: Os valores referentes à colocação foram retirados do gráfico a cores constante da informação oficial do IGCP. Creio que da minha parte não houve engano na identificação da correspondência entre a cor e o investidor. Mas fica o link para comprovar.

16 comentários:

JM Ferreira de Almeida disse...

Sublinho a confiança dos investidores do Reino Unido, parecendo que o ceticismo que reina por aquelas paragens sobre a zona euro e sobre a própria UE, é fenómeno que emerge mais da política do que da economia e finança.

Manuel Silva disse...

Sr. Dr. Pinho Cardão:
Entre pedir emprestado aos mercados ou ser tutelado pela Troika, só um tolo acha melhor a segunda hipótese.
Eu sei que não se altera o padrão da economia de um país em meses ou num ano e meio, mas as nuvens no horizonte são ainda tão negras que não percebo tanta euforia por uma operação que só correu bem por representar o 1.º passo de uma estratégia - o regresso aos mercados – e não um sucesso em si, pois os juros são superiores aos da dívida substituída e muito superiores aos conseguidos há dias pela Irlanda (4,891% contra 3%).
Pedir emprestado é ter de pagar juros, portanto, é não se produzir o suficiente para se ser auto-suficiente, muito menos para se ter excedentes.
E se não crescermos não só não pagaremos a dívida (neste momento já impagável, há 18 meses era 164 mil milhões e hoje é quase 200 mil milhões) como continuaremos a fazer crescer o endividamento ainda mais.
Quanto às nuvens no firmamento, deixo-lhe a lista que me ocorre agora:
1 - O défice foi conseguido à custa de 2 receitas extraordinárias, 800 milhões da venda da ANA (não garantida ainda a sua contabilização pelo Eurostat) e 400 milhões do Fundo de Pensões da Banca;
2 - A receita fiscal baixou 6,1%;
3 - A receita da SS baixou 7,1%;
4 - A Despesa do Estado só baixou 2,1% (há ainda muita gordura para cortar, mas o governo optou por cortar o músculo de quem trabalha e apresta-se agora a cortar o osso);
5 - Em 2014 e 2015 é necessário pôr no mercado 50 mil milhões em dívida que vencem nessa altura.
6 – As previsões de crescimento não são famosas.
Portanto, satisfação sim, euforia não.
Só mais uns dados que não justificam essa euforia: A Itália, a Espanha, a Grécia desde há algum tempo que têm vendido dívida a juros cada vez mais baixos e a Irlanda acabou de vender há dias a 3%. Nós conseguimos a 4,891%, um valor superior aos juros que essa dívida (que vencia apenas em Setembro) estava a pagar.

Bartolomeu disse...

Ontem, coloquei ao nosso estimado Amigo, Dr. Tavares Moreira, a pergunta, se conhecia as identidades dos valorosos investidores que adquiriram os 2 mil milhões e meio da dívida portuguesa.
A minha questão não mereceu obter resposta. No entanto, não a coloquei com o propósito de critica, mas sim, porque assisti às manifestações de incontida satisfação do Senhor Ricardo Salgado e porque detenho algumas aplicações no banco dele, assustei-me, confesso, pelo que decidi apressar-me a encontrar uma forma segura de as reaplicar... talvez no BANIF, ainda não sei bem.
Quero ainda prestar-lhe, caro Dr. Pinho Cardão, a minha sincera homenagem e admiração, pelo estoicismo que mantem, em defesa das políticas financeiras -Gasparianas.
Em homenagem (mais uma vez) a essa indefectível "garra" que o caro Amigo demonstra possuir, dedico-lhe este poema de Sophia de Mello Breyner Andersen, intitulado, Procelária:

É vista quando há vento e grande vaga
Ela faz o ninho no rolar da fúria
E voa firme e certa como bala

As suas asas empresta
à tempestade
Quando os leões do mar rugem nas grutas
Sobre os abismos passa e vai em frente

Ela não busca a rocha o cabo o cais
Mas faz da insegurança a sua força
E do risco de morrer seu alimento

Por isso me parece imagem justa
Para quem vive e canta no mau tempo

Cumprimentos, caro Amigo.

Pinho Cardão disse...

É verdade, caro Ferreira de Almeida, esse cepticismo parece que emerge mais da política do que da economia e das finanças. E, se emerge destas, será mais por causa da excessiva regulamentação que Bruxelas se compraz em produzir. Um processo de auto-sustentação da burocracia que por lá impera.

Caro Manuel Silva:

Eu numca disse que a operação traduzia a resolução dos problemas da nossa economia, ou que a política económica do governo tinha resultado em pleno. Eu apenas me referi á operação concreta. E essa operação resultou em êxito absoluto e relativo, dada a nossa situação. Porque revelou que renasceu a confiança dos investidores e porque atingiu os objectivos pretendidos: regresso aos mercados e baixa da taxa de juro. É justo reconhecê-lo.
Diferente, trágico, mesmo, seria que isso não acontecesse.

Caro Bartolomeu:

Os seus comentários são sempre bem aparecidos e as críticas que faz aparecem como naturais. Não as recusamos, podemos é não concordar.
De qualquer forma, a dúvida que levantou creio que ficou esclarecida.
Quanto ao resto, afianço-lhe que não não tenho muita admiração pelos estoicos, nem defendo com estoicismo as medidas que chama gasparianas ou as do governo. Defendo as que acho que são de defender, critico outras. Por exemplo, não concordo ou tenho criticado a política fiscal, o pouco ímpeto na negociação das rendas excessivas, a brandura no tratamento das Fundações e dos Observatórios,a adiada reestruturação dos municípios, etc, etc.
O que não me impede de salientar as coisas boas que se vão fazendo. Esta operação é uma delas, pelo que vale em si e pelo que sugere para o futuro. Referir-me-ei a isso em próximo post.
Quanto ao poema da Sofia, uma maravilha.
Não se aplica a mim, mas a quem, com coragem, com vontade, com sentido do dever, errando por vezes, vai arrostando com as tempestades da crítica permanente, as vagas hostis da comunicação social, que nunca se cansam de tudo derrotar e, apesar de tudo, "ainda vive e canta no mau tempo".
Felizmente que há gente dessa, caro Bartolomeu.

Paulo Pereira disse...

caro Pinho Cardão, não consigo entender como pagar 4,9% é melhor que pagar 2,7% à Troika.

Estes 4,9% são inviáveis para uma economia que não cresce e que até decresce.

Deveriamos antes negociar um novo empréstimo com a Troika com tempo.

Pinho Cardão disse...

Caro Paulo Pereira:
Claro que pagar 2,7% à Troyca é melhor que pagar 4,9% no mercado.
Simplesmente:
a) Em 2013, Portugal precisa de muito mais dinheiro para reembolsos e cobertura do défice do que aquele que ainda tem a receber da Troyca. Condicionado ainda este por relatórios positivos do que foi acordado.
b) Como tal, tem que encontrar dinheiro noutro lado. Foi o que fez. Estava previsto para Setembro. Conseguiu antes. Foi uma questão de oportunidade e é agora uma questão de gestão da dívida.

Diz ainda que deveríamos negociar outro empréstimo com a Troyca, com tempo.
Deixo-lhe vantagens e inconvenientes
a) Vantagem: poderia sair mais barato.
b) Inconvenientes: um novo Memorando, continuaríamos a ter a Troyca a fiscalizar, maior subordinação do estado a entidades estranhas

Paulo Pereira disse...

Pois, mas pagar 4,9% vai acabar com as poucas hipoteses que tinhamos de recuperação económica.

Se a questão é necessidades adicionais, mais valia manter as emissões de 18 meses e pagar 1,9%.

Ainda não entendi qual é o mal de termos uma fiscalização da Troika, quando ela já existe de qualquer maneira pela CE e pelo BCE.

Pinho Cardão disse...

Caro Paulo Pereira:
As finanças, das empresas ou do Estado,não se gerem apenas com empréstimos de curto prazo, mas também com instrumentos de longo ou de muito longo prazo, adaptados às diversas situações.
O que é mais barato de momento pode sair o mais caro no futuro.

Carlos Sério disse...

Poder-se-á concluir tratar-se mais de uma operação de marketing político do que de uma efectiva ida aos mercados. O país ficou a perder com juros de 4,95% quando poderia esperar e obter juros mais baixos ou mesmo fazer emissões de 18 meses com juros inferiores a 1,9%. Mas, que importância tem isso perante desespero de sobrevivência de um governo ferido de morte? O governo necessitava desesperadamente desta operação de propaganda, que lhe permita ganhar mais algum tempo antes dos estertores finais da sua agonia.

Tonibler disse...

Portugal é um país fantástico povoado por um povo de merda. (foi uma asneira das pequenas porque não há outro qualificador). Temos centenas de desportistas brilhantes, todos uma porcaria porque não são um Cristiano Ronaldo. Todos os outros que não são reconhecidos pelos outros como os melhores do mundo existem milhares de boas razoes para que, afinal, não sejam tão bons como isso. Isto é valido para tudo, gente que nunca fé nada de relevante com o seu esforço tem tanto para dizer sobre o sucesso alheio e sobre as razoes pela qual afinal não é sucesso nenhum...
Mil vezes a troika.

Tonibler disse...

(continuando) acho que o Passos Coelho deveria passar a sugestão para a emigração para um pedido encarecido...

Tonibler disse...

(e continuando) parabéns ao ministro das finanças e aos técnicos do tesouro. Eu, nas mesmas circunstancias já teria mandado o Cavaco ir buscar o cheque há muito tempo pelo que, quanto mãos não seja por isso, o Gaspar tem todo o meu respeito e admiração.

Pinho Cardão disse...

Caro Carlos Sério:
Bom, quando a ideologia se mete, a conversa torna-se paralela e pode chegar ao infinito, sem nunca se tocar ou até aproximar. E ninguém convence ninguém. O que não impede que a conversa prossiga, num jogo em que todos pensam ter rematado com êxito à baliza, mas em que o adversário nunca reconhece golo. Num mundo de especulação pura, até pode dar algum prazer intelectual.
Posto isto, nem o meu amigo me convence, nem eu serei alguma vez capaz de o convencer.
Mas, neste jogo do 4R, sempre foi meu propósito retirar algum prazer. Do que escrevo e do que os ilustres visitantes vão comentando, concordando ou discordando.
É o caso do meu amigo. Discorda praticamente de tudo o que escrevo e eu discordo na quase totalidade do que diz. Como coloca geralmente a discussão no campo dos princípios e não entra em ataques pessoais, gosto de o ler.
Assim nos vamos entretendo.
E quando alguma vez concordar comigo, fica convidado para um almoço que, julgo, aceitará. Que será grátis, tenha a certeza.

Pinho Cardão disse...

Caro Tonibler:
De facto, lamentável é que nunca se queira reconhecer, mesmo que em nível infinitamente pequeno, uma pontinha de mérito, quando objectivamente ele existe.

Paulo Pereira disse...

Caro Pinho Cardão,

O demérito desta emissão foi reduzir a nossa capacidade moral para pressionar a Troika para nos emprestar mais dinheiro e baixar os juros dos empréstimos.

Eles agora estão descansados .

Ilustre Mandatário do Réu disse...

Agradeço o serviço público. Sobretudo a explicação da necessidade acrescida de financiamento para "rolar a dívida".