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segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Os Miseráveis


A poderosa história de Os Miseráveis está aí em nova versão fílmica: um retrato da tremenda miséria humana, da lei injusta e atroz, da justiça cruel, dos trabalhos forçados, da desumanidade indigna. Calhou ter acabado de ler ainda há bem pouco outro livro notável, Os Pilares da Terra, romance histórico cuja acção é passada no século XII inglês. Também um tremendo retrato da sociedade e da opressão. De gente sem direitos à mercê de quem se arrogava tê-los por inteiro. O homem lobo do homem, em toda a sua rudeza e bestialidade.  
Mas, num caso e noutro, também a revelação da generosidade, do combate pela liberdade, da compaixão pelo semelhante.

Dura e trágica foi a vida das classes pobres através dos tempos. Sujeitas à fome, à incompreensão, desprotegidas face à prepotência e até às própria leis que as penalizava, indefesas às calamidades, à fome e à doença, pese, nas sociedades ocidentais, alguma guarida dos conventos, ou nas misericórdias portuguesas, ou na assistência familiar, ou na caridade de uns poucos, que iam mitigando dores, mas abrangiam uma ínfima parte dos necessitados. Gente, pessoas como nós, cuja vida era tortura e a morte era alívio. Até que a protecção social tenha começado a ser uma das preocupações do Estado.

A entrada da protecção social nas funções do Estado foi uma das grandes conquistas da civilização e tudo deve ser feito para que dure e perdure. E só pode perdurar se o Estado Social for sustentável. O que quer dizer que tem que escolher prioridades. Querer ir a tudo e tudo abranger é o caminho da derrocada. E a via mais rápida de provocar novos miseráveis.  
Os Miseráveis, um livro que li em miúdo, que me emocionou e que procuro recordar em todos os filmes ou musicais que posso. Uma obra monumental do espírito humano.

3 comentários:

Roberto Rensenbrink disse...

Fazer uma análise adequada de 'Os Miseráveis' é impossível neste espaço, pela dimensão e potencialidades da obra.

Note-se, contudo, a semelhança entre o sujeito que é condenado às galés por ter roubado um pão e a arraia-miúda que tem de ir a tribunal, hoje, por furtos semelhantes. Enquanto isso, os ladrões da banca e da política andam por aí soltos como passarinhos (exceto o Oliveira).

Depois alguém que reflita sobre a brutal descrição da cloaca parisiense e que a compare, metaforicamente como o Vitor, o Hugo, assim pretendeu, com a nossa enorme cloaca que vegeta, essencialmente, na capital deste reino fedorento.

jotaC disse...

Completamente de acordo, caro Drº Pinho Cardão.

Suzana Toscano disse...

Sem dúvida, caro Pinho Cardão, a sustentabilidade do que nos proporciona uma vida de algum bem estar e tranquilidade social é obrigação de todos os que nos governam. Por isso mesmo é indispensável saber em que medida é que o "nosso" estado social contribuiu e contribui para a derrocada financeira com que nos debatemos, por mim duvido muito que tenha sido a causa, embora umas das consequências tenha provavelmente que ser o enfraquecimento das prestações sociais que deviam ser asseguradas.Acontece que não há mais onde ir buscar, ou não há onde seja tão rápido ir buscar, mas que isso não significa que seja essa a origem dos males que nos afligem, acho que não é.