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domingo, 20 de janeiro de 2013

Quando morre um amigo...


Foi um fim de semana devastador, chuva, vento, tempestade, destruição, falta de luz, alteração dos hábitos, regresso a um passado não lembrado, uma sensação diferente, um esboço de anormalidade que nos faz despertar para a realidade da fragilidade humana, dependente de tudo e de todos. Uma lição de humildade que em breve será esquecida. Nem os resquícios de árvores tombadas, nem o rugir dos cursos de água, nem as pedras roladas das encostas são capazes de mudar o que quer que seja. O mundo gira a uma velocidade louca em que o esquecimento é rei e senhor. O tempo, meio escalavrado, serve para isso mesmo, para nos relembrar a nossa frágil e fatal perenidade. Assusta, e muito, mas ao mesmo tempo recoloca-nos num estado de letargia, à espera de alcançar um qualquer utópico nirvana, como se tivéssemos direito à felicidade. E não temos? Não sei, nem me interessa, o que importa é viver na ilusão de que sim. Foi tudo alterado. Ainda bem, assim, a rotina patológica do fim de semana foi lancetada e expurgada de um pus doloroso.
O fim de semana obriga-nos a regressar à base e repor as condições para mais uma semana. Uma rotina que é quebrada apenas por uma ou outra notícia, quase sempre dolorosa e triste, porque as agradáveis são consideradas como um direito, prontas a serem esquecidas no próprio momento.
Abro os jornais e verifico que um velho amigo meu morreu. Não é que tenha ficado muito admirado, porque há vinte anos tinha-me comunicado o seu estado. Um estado que augurava apenas alguns meses de vida, mas que foi negado através do tempo de uma forma que nunca consegui compreender, mas também nunca fiz qualquer esforço nesse sentido, era o que mais faltava. Vive e deixa viver. Já não o ouvia há algum tempo. Era sempre ele que me telefonava. Telefonava-me para me convidar para alguma reunião, conferência, para voltar a ocupar algum cargo social, enfim, um homem que se empenhava nas suas tarefas de uma forma ímpar, talvez para justificar e prolongar a vida. Prolongou até que desapareceu.
Quando me telefonava, começava sempre pelas mesmas palavras e frases, mas sempre a rir, como que a desculpar-se do que iria dizer e pedir. Pedia sempre e eu recusava quase sempre. Não se importava, e agradecia por cima. Agora, nunca mais me vai pedir nada, e eu, também, não lhe vou recusar o que quer que seja. Fico apenas com a sensação de que conseguiu sobreviver muitos anos graças ao seu empenho e dedicação à sua causa. Há coisas que nos escapam, mas nós não conseguimos escapar a certas coisas, e a morte é uma delas.

1 comentário:

Saranico Sarapico disse...

Talvez se achem mais perto da verdade, aqueles que defendem o princípio de que a nossa estada na Terra, tem como finalidade o aperfeiçoamento espiritual.
Assim sendo, conclui-se que somos seres começados mas, mal-acabados, que buscam no alheio ( outros igualmente mal-acabados) o exemplo que os conduza à excelência da perfeição...