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segunda-feira, 19 de maio de 2014

A crise descrita por Zapatero - um testemunho impressionante

"As medidas poderão adoptar, segundo as situações nacionais, a forma de um aumento da despesa pública, de reduções prudentes da pressão fiscal, de uma diminuição das cargas sociais e de apoio a determinadas categorias de empresas e de ajudas directas às famílias, em particular as mais vulneráveis." - Plano Europeu de Recuperação Económica,Dezembro 2008 (in EL Dilema, pág. 162)

Tenho estado a ler, interessadíssima, o livro El Dilema, de Jose Luis Zapatero, um emocionante - e muitas vezes emocionado - relato dos anos quentes da crise, desde 2008 a 2011. Aí se conta, na 1ª pessoa, é certo, mas de forma muito documentada, todo um processo político que começou com a aparência de uma serenidade firme, todos unidos a governar esta região europeia que se auto proclamava líder do futuro, depois o modo como foram recebendo e reagindo com pouca preocupação ao descalabro financeiro do EUA, mesmo a Grécia, já a apresentar pedidos de socorro alarmantes, a merecer apenas um apagado lugar na lista da prioridades, depois a aceleração, a confusão, as entrelinhas, o pânico e a mudança brutal de discurso, mas não só de discurso, as baterias apontadas para novos "culpados", as taxas de juro enlouquecidas, os números que antes eram tão elogiados e agora recebidos de cenho cerrado, enfim, uma agonia aquelas reuniões europeias sucessivas, com declarações ambíguas e mortíferas, um garrote a apertar-se cada vez mais. É assim o livro, deixa-nos sem fólego, aí a meio já somos nós, os leitores, a angustiarmo-nos antes de cada reunião, a desesperar com aquela conversa, a não perceber nada a não ser que tudo pode acontecer sem que se perceba bem porquê ou como evitá-lo.
Haverá certamente muitas coisas que Zapatero embrulha na sua própria visão das coisas mas há muitas outras, talvez as principais, em que nos deixa campo largo para a nossa própria avaliação. É um livro de suspense apesar de já sabermos o fim daquele episódio temporal, até 2011, sabemos até muito depois disso incluindo que a Espanha conseguiu à justa evitar o resgate que ele nunca imaginou possível, mas que cada dia era mais evidente. Conta até como houve três insistências diferentes para que formalizasse o pedido, sempre em alturas em que ele suspirara de alívio pensando que tinha esconjurado o perigo. Conta também que os testes de stress aos bancos espanhóis, efectuados a todo o sistema quando outros países, como a Alemanha e a França, se recusaram a aceitar tal amplitude, deram em Julho de 2011 que apenas seriam precisos 1564 milhões de euros para acorrer a cinco bancos, que o próprio Banco de Espanha considerou que nem isso seria necessário, que essas auditorias foram confirmadas e reconfirmadas mas que, em Maio de 2012, veio a determinar-se que afinal eram necessários 60 mil milhões para acudir ao sistema financeiro. Diz Zapatero que esse é um dos grandes mistérios, entre muitas outras perplexidades, de todo este processo e, ao longo do livro, somos nós que confirmamos tais espantos, com a certeza de que muito se dirá mas pouco se saberá como, de facto, foi possível este terramoto e se a reação a ele foi um remendo mal amanhado ou se chegará a lançar as bases de uma sociedade mais justa e equilibrada, como temos o direito de ambicionar.

4 comentários:

Pinho Cardão disse...

Cara Suzana:
Não li o livro e, embora já tenha lido menções e vários excertos, não estou em condições de opinar muito sobre ele.
Deixo apenas duas notas:
a) comparar o dito "descalabro financeiro" dos EUA com o da Grécia é um absurdo que só a ideologia pode explicar.
b) o apoio aos Bancos espanhóis foi basicamente o apoio às Cajas e a alguns pequenos bancos regionais, já que não houve apoio nenhum aos grandes bancos. Por outro lado, o apoio foi calculado em função de rácios determinados administrativamente e essa fixação foi evoluindo no tempo, tornando-se cada vez mais rígida. Por mero exemplo, se um rácio de solvabilidade for fixado em 8%, o Banco precisa de determinados capitais próprios ou equiparados; mas se for fixado em 12%, necessita de muito mais. Claro que tanto funciona com um rácio de 8% como com um rácio de 12%.
Donde, o apoio aos Bancos não teve apenas a ver com crédito mal parado ou perdido ou irrecuperável, mas com rácuios administrativamente fixados.

Suzana Toscano disse...

Caro Pinho Cardão, ele não compara, provavelmente fui eu que me exprimi mal no post, o que Zapatero diz, e demonstra com documentos, é que só muito tarde é que a Europa reagiu à gravidade da situação na Grécia, ninguém foi capaz de detectar o perigo. Quanto aos bancos espanhóis, também refere que terá havido alteração de critérios, mas não se percebe tantas exigências suplementares em tão pouco espaço de tempo e sem abranger todo os bancos europeus.

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

Suzana
Não conheço o livro, mas pelo seu relato vou comprar e ler.
A Europa enfrentou a crise amarrada a um modelo institucional sem capacidade de resposta. O ataque à crise foi se fazendo com muito experimentalismo, sem os instrumentos adequados, atrasadamente com sinais contraditórios e com receitas de austeridade nunca testadas. Mas o experimentalismo não acabou. Não sabemos no que vai dar a imensa liquidez que está a fluir nos mercados financeiros, que nada tem que ver com a realidade económica. Os tempos são de preocupação.

Suzana Toscano disse...

Margarida, vale mesmo a pena ler! Talvez a grande lição disto tudo seja mesmo a de nos ter lembrado que nunca está nada garantido e o que se sabe é apenas o que já passou, a grande surpresa foi termos pensado que a Europa era inexpugnável e que tudo estava previsto. Nunca está, nem estará, é sempre tentativo, e em momentos difíceis cada um luta por si o melhor que pode e sabe.