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sexta-feira, 9 de maio de 2014

"Primavera"...

Primavera é o título de um belo quadro que adquiri há muitos anos. Mais tarde ofereci-o a uma filha. Hoje, chamaram-me a atenção. - É muito belo! - O quê? Respondi. - Aquele quadro. - Pois é. Muito belo, mesmo. Tem uma história.
Há muitos anos, na altura do Natal, pedi a uma senhora, que costumava fazer limpezas, se não se importava de ir a um pinhal meu cortar um pequeno pinheiro, jeitoso, para fazer a árvore do Natal. Ela sabia o local, não era muito longe. Respondeu-me que sim. Passados dois ou três dias apareceu com um delicado e harmonioso exemplar. Felicitei-a pelo gosto, o que me surpreendeu sobremaneira, dado a sua falta de jeito e alguma brusquidão. O pinheiro foi alvo de atenções e enfeitado à maneira. O pessoal ficou satisfeito e orgulhoso da árvore de Natal, talvez a mais bela que alguma vez entrou em casa. 
O Natal passou e o novo ano nasceu normalmente, sem grandes dores. Passadas algumas semanas, já o sol aquecia com volúpia os corpos e as mentes dos mais carenciados, a senhora surgiu-me em casa, muito nervosa, dizendo que tinha sido notificada para ir à GNR. Estranho. - O que é que aconteceu? Não foi difícil saber a causa de tão inusitada convocatória. Nas terras pequenas sabe-se tudo, mesmo antes do seu tempo. Foi acusada de ter furtado o pinheiro. Afinal, talvez para não se deslocar ao meu pinhal, optou por arranjar um nas proximidades da sua casa. Viram-na e denunciaram-na ao dono, o qual, por sua vez, foi à GNR participar o ocorrido. Fiquei incomodado pelo facto, mas como o pedido de indemnização poderia ser avultado para as suas posses, senti que tinha a responsabilidade de arcar com as consequências. Se não tivesse feito o pedido, a taralhoca não teria feito o que fez. No dia aprazado, sem estar notificado, também compareci no posto, onde já se encontrava o queixoso, com tiques de demandante, a taralhoca responsável pelo situação e o militar que, num fastidioso interrogatório, ia batendo as teclas da velha máquina de escrever, mas apenas com o indicador da mão direita. Pelo andar do matraquilhar as coisas iriam levar muito tempo. Quando chegou à matéria de prejuízos, virou-se para o proprietário e perguntou-lhe o valor. O demandante disse uma cifra avultada, atribuindo ao pequeno pinheiro qualidades e uma raridade botânica perfeitamente ridículas. O militar, que tinha o dedo indicador no ar, ficou de cara à banda. Repetiu a pergunta duas ou três vezes para ter a certeza que tinha ouvido bem, mas o dono, cara sisuda, confirmou. 
Há certas situações e comportamentos que não consigo compreender. Face ao pedido, algo desmesurado para o pinheiro em causa, reagi da melhor maneira. Saquei de um cheque e comecei a preenchê-lo com a cifra indicada, pronto para o entregar ao proprietário em nome da acusada. Ficaram todos surpreendidos com o facto de ter aceitado sem discussão o dinheiro solicitado. A taralhoca ficou de boca aberta, até me pareceu que abriu as pernas como a querer equilibrar-se, e o militar parecia que tinha sofrido uma espécie de paralisia e gaguez, sempre com o indicador da mão direita no ar. Pobre dedo, não sabia qual a tecla a martelar. O queixoso de maus fígados avermelhou-se e encolheu-se perante a minha reação. - Aqui tem o cheque e peço desculpa pelo incómodo provocado pela senhora. Olhou-me, gaguejou, disse qualquer coisa, não foi muito preciso, mas desistiu da queixa. O militar suspirou de alívio e o indicador da mão direita finalmente acabou por descansar. Já merecia. A senhora, a taralhoca, suspirou. Eu recolhi o cheque, dei os bons dias e fui-me embora. Ao final da tarde, de regresso a Coimbra, passei por uma galeria de arte, onde estavam alguns quadros do Monsenhor Nunes Pereira. Olhei para a "primavera", tão bela. Preço? O mesmo que o dono do tal abeto raro e "extraordinariamente valioso" queria. Tirei o cheque do bolso e adquiri a bela obra de arte. 
Se não fosse este episódio não teria a oportunidade de saborear a arte de um artista excecional. A árvore do Natal foi a mãe da "Primavera". Acabei por o ofertar à primavera de uma vida...

2 comentários:

Diogo disse...

Continuo convencido de que o demandante foi «comido». O pinheiro era a 3D e o quadro era a 2D (uma dimensão a menos). Não o sabia tão espertalhaço, Doutor Massano…

Abraço

Salvador Massano Cardoso disse...

:):)