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domingo, 11 de maio de 2014

"A política é a arte de simular e dissimular"

Guião da conquista do poder: “Fala sempre com um ar de sinceridade. Faz crer que cada frase saída da tua boca vem directamente do coração e que a tua única preocupação é o bem comum”, a ler de Celso Filipe, publicado no Jornal de Negócios. 
Estamos como estamos, o divórcio entre o eleitorado e o poder político é cada vez maior, é fácil de perceber porquê. Desmantelar o “porquê” é a parte difícil.

Quer compreender o que significa a saída limpa do programa de ajustamento económico e financeiro que Pedro Passos Coelho anunciou no domingo? E como foi possível ao primeiro ministro metamorfosear o aumento de impostos constante no DEO Documento de Estratégia Orçamental numa redistribuição de sacrifícios?
A resposta está numa reportagem publicada na última edição da revista Sábado sobre o dia a dia de Paulo Portas. O jornalista Vítor Matos relata o encontro que teve com o vice primeiro ministro no dia 18 de Abril no Hotel da Lapa. Em cima da mesa Paulo Portas tem um livro “Les Procès Fouquet” sobre o processo que levou à prisão perpétua de Nicolas Fouquet um fidalgo francês que foi protegido do cardeal Giullio Mazzarino e que lhe sucedeu na gestão das Finanças do rei Luís XIV. Portas conta que pertence a Mazzarino um dos seus aforismos preferidos “A política é a arte de simular e dissimular”. O pensamento de Mazzarino que faz as delícias de Paulo Portas descodifica o essencial do que se passou na última semana.
Pedro Passos Coelho simulou uma redistribuição de sacrifícios para dissimular um aumento de impostos. O primeiro ministro simulou a saída limpa como uma decisão certa resultante do facto de o País ter recuperado a sua credibilidade mas dissimulou o facto de Portugal continuar sob vigilância dos credores até pagar o essencial das dívidas.
António José Seguro simula que desconhecia que os compromissos de Portugal coma troika se estendiam além do programa de ajuda, já a pensar no dia em que poderá ser primeiro ministro. ”O PS sempre desejou que Portugal regressasse a mercados sem necessidade de ajuda financeira mas é bom lembrar que a taxa de juro não está garantida, é necessário prudência e não entrar em triunfalismos” Uma simulação do líder do PS que dissimula a sua dificuldade em encontrar argumentos para criticar esta saída limpa.
O Presidente da República confrontado com o anúncio da saída limpa simula ironia. “O que mais me vem à memória no dia de hoje são as afirmações peremptórias de agentes políticos comentadores e analistas nacionais e estrangeiros ainda há menos de seis meses, de que Portugal não conseguiria evitar um segundo resgate. O que dizem agora’” questiona Aníbal Cavaco Silva num texto publicado na sua página oficial do Facebook.  O chefe do Estado dissimula, assim, o que escreveu em Março deste ano no Roteiros VIII. “Em termos gerais, para um país que conclua com sucesso um programa de assistência financeira é possível que um programa cautelar seja preferível a uma saída dita à “irlandesa”, até porque uma saída limpa deixaria o País inteiramente à mercê da volatilidade e das contingências típicas dos mercados”.
Paulo Portas, que a “Sábado” classifica como mestre destas astúcias, claro que não podia desperdiçar esta sua destreza. Comentando o final da 12ª avaliação da troika, o vice primeiro ministro simulou uma recuperação da soberania. “ Fecha-se uma página, que tenho definido como protectorado. Significa ainda que Portugal fez o caminho muito importante para a recuperação da sua autonomia financeira e dá sentido útil aos sacrifícios que a sociedade portuguesa como um todo tem feito para tratar de um bem comum maior: Portugal enquanto Estado e como nação”. Pelo caminho, Paulo Portas dissimulou o aumento de impostos, caminho político do qual sempre discordou.
A simulação de um Portugal novo começou agora e dissimula o que realmente está em jogo. Fazer parecer real a saída limpa ou apostar em sujar esta limpeza, consoante a posição em que se está disfarça aquilo que realmente importa: as eleições legislativas de 2015. Não é por acaso que Pedro Passos Coelho diz que “o dia 17 de Maio ficará na história como um dia de homenagem a todos os portugueses” e que António José Seguro avisa que o programa acaba mas os sacrifícios continuam.
Afinal, cada um deles e todos os outros não fazem mais do que seguir o sábio conselho de Mazzarino: “Fala sempre com um ar de sinceridade. Faz crer que cada frase saída da tua boca vem directamente do coração e que a tua única preocupação é o bem comum”. O poder conquista-se assim.

6 comentários:

António Barreto disse...

Apenas perante imaturo eleitorado, que assim gosta de ser tratado. Aqui reside a questão primordial e não nos portas deste Portugal.

Bmonteiro disse...

Um imaturo eleitorado, enganado por imaturos políticos. Os que levaram o país à bancarrota.
Imaturidade travada, enquanto houver credores à porta.
Perante a Escola existente e o domínio cultural das TV pública ou privada, que maturidade esperar da plebe e elites de origem jota?

Bartolomeu disse...

Não considero o "eleitorado" imaturo. Considero a maioria do eleitorado, demasiado crédulo, face a uma classe política demasiado fingidora. Pessoa, considerava o poeta um perfeito fingidor; se pudermos atribuir alguma poesia à arte de simular e de dissimular de que se serve uma boa parte (se não a maioria) dos atuais políticos...
Mas a credulidade do eleitorado, não é visível somente no que diz respeito aos programas eleitorais que cado político defende da forma mais credível de que é capaz. Não. A credulidade do eleitorado; do povo português na sua generalidade, é coisa que lhe vem do início dos tempos e se tem materializado nos inúmeros milagres de que a nossa História é rica. Faz isso com que se acredite mais no impossível, que nas capacidades de lutar e de alcançar o possível. Assim, o português opta pela solução mais fácil: esperar pela divina providência e acreditar, acreditar, acreditar, até que a "casa" caia na ruina; depois de a casa ruir, o português chora e lamenta a sua pouca sorte. Portanto, e seguindo a tradição; lá vamos indo, acreditando e lamentando sucessivamente, enquanto os alicerces da casa vão abrindo brechas, o telhado vai abatendo, as janelas vão descaindo e as ervas vão crescendo no quintal.´
Conta a lenda que certo homem, todos os dias ajoelhava em frente ao santo da sua devoção e pedia-lhe o milagre de fazer com que lhe saísse a lotaria. Um dia o santo, já cansado de tanta pedinchice, adquirindo a forma humana, desceu do seu altar e sacudindo os ombros do seu devoto, gritou-lhe: AO MENOS, COMPRA UM BILHETE!!!

JM Ferreira de Almeida disse...

Pois é, Margarida. Na política portuguesa já não mandam os barões, mandam os cardeais e alguns bispos com pretensões. Mazzarino está, por isso, muito bem escolhido por Paulo Portas. Suspeito, porém, que se o cardeal fosse vivo teria algo a aprender o nosso VPM e talvez se pusesse a rever parte da sua cínica doutrina. Revisão em alta, claro...

Bartolomeu disse...

Os dois maiores déspotas de que há memória e que governaram este nosso país, tiveram ao seu lado dois clérigos de alta craveira. Foram eles: Sebastião José de Carvalho e Melo, que teve ao seu lado o irmão, Paulo e António de Oliveira Salazar que teve ao seu lado Cerejeira com quem cursou em Coimbra e a quem considerava como irmão. Paradoxalmente (ou não)estes dois estadistas são provavelmente os mais lembrados pelos portugueses e aqueles que "pegaram" num país em "frangalhos" e com mão de ferro e uma justiça muito relativa, o reergueram.

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

Caros Comentadores
Todos percebemos que os mezzarinos que povoam a nossa classe política têm o sistema bem controlado. Não têm qualquer intenção de alterar seja o que for.
O desinteresse da população pela política e o descrédito dos nossos políticos só nos podem levar por mau caminho.