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domingo, 5 de julho de 2015

A tragédia dos gregos IV

Por consulta em referendo, os gregos disseram não à austeridade e sr. Tsipras apareceu freco e risonho como nunca.
Pudera!... Em três ou quatro apressados dias, transferiu para o povo a responsabilidade da decisão. Mas não contou aos gregos como lhes vai pagar os ordenados, aprovisionar as farmácias e as mercearias. 
Não há medicamentos nem géneros? Para além do inimigo externo, a culpa passa também a ser do povo.
E neste século XXI, na Europa culta e social, ainda aparecem uns syrizas que sustentam a liderança na miséria dos mais desfavorecidos, que dizem combater e tudo fazem para a acentuar.
Os gregos votaram maioritariamente não. Fizeram felizes Tsipras e Varoufakis. 
Mas não creio que amanhã o povo esteja feliz, com a maior abundância de pobreza que estes senhores se preparam para lhes servir. 

9 comentários:

Luis Alves Ferreira disse...

O PM Tsipras perante decisões complicadas deu o corpo ao manifesto através duma "moção de confiança" algo peculiar... Ganhou. Há que lhe tirar o chapéu.
Mesmo quando estamos em desacordo com alguém devemos reconhecer quando este dá provas de inteligência, iniciativa e coragem.

Vasco Ja foste disse...

A inteligência de lenine era um facto
A inteligência de chaves era um facto
A inteligência de fidel era um facto

Mas com estas inteligências vieram a miséria.

Há uns inteligentes que para o bem da humanidade nunca deveriam chegar ao poder.

Carlos Sério disse...

Foi por demais evidente nos dias que antecederam o referendo grego que o modelo social do pensamento único, o modelo social neoliberal que hoje comanda os países do euro, na santa aliança entre conservadores e “sociais-democratas”, não comporta nos seus objectivos e interesses governos contrários a essa visão da “economia que mata” como lhe chamou o Papa Francisco. Tudo fizeram para golpear o governo grego. O FMI e o BCE foram as armas apontadas mais usadas. O FMI por à última hora inviabilizar um acordo e o BCE por retirar a indispensável liquidez aos bancos gregos. De notar que já em Fevereiro, logo após o governo do Syrisa ser eleito, o BCE deixou de aceitar dos bancos gregos a divida grega como garantia para empréstimos. Começou desde aí o cerco ao governo grego.

As directivas do BCE obrigam-no a zelar pela estabilidade da moeda euro, razão pela qual existe o mecanismo da “injecção de liquidez de emergência” usado sempre que num qualquer país do euro ocorra algo que ameace a estabilidade da moeda. O corte inesperado e injustificável de liquidez aos bancos gregos logo após a marcação do referendo que ocasionou as filas nas caixas de multibanco teve um único propósito: provocar através do medo a derrota do governo grego no referendo. O BCE colocou acima do dever de manter a estabilidade da moeda a opção por uma intervenção declaradamente política que está fora das suas competências. Actuou em sentido inverso à missão que lhe é atribuída. Varoufaquis chamou à actuação do BCE “terrorismo financeiro” e não estará muito longe da verdade. Os discursos dos mais altos responsáveis do euro propagandeados esta semana, associados à acção do BCE evidência o descarado propósito de golpear o governo do senhor Tsipras para o substituir por qualquer coisa tecnocrática.

Considero que o europgrupo manterá a sua intransigência para com a Grécia. Porque o que verdadeiramente está em causa para os líderes do euro, irmanados no cego modelo único que se esforçam por concretizar por toda a europa, não é a estabilidade do euro e a harmonia social europeia, mas os interesses e objectivos do capital financeiro, na criação de uma europa em que a esmagadora maioria da população transfira parte dos seus parcos rendimentos para os mais ricos. O modelo social do neoliberalismo que nos querem impor visa isto mesmo – maior desigualdade social com transferências de rendimentos que torne os muito ricos mais ricos ainda, os remediados em pobres e os pobres em miseráveis. A prova está em que relatórios internacionais nos dizem hoje que os milionários europeus desde 2008 até 2014 aumentaram as suas fortunas em cerca de 40%.

Rui Fonseca disse...


Caríssimo António,

A tua previsão de que a Grécia vai atravessar dias de grande calamidade, a juntar aqueles que já experimentou, tem alta probabilidade de acontecer.

Contudo, permito-me discordar bastante dos teus argumentos.
Desde logo porque afirmas que Tsipras "Em três ou quatro apressados dias, transferiu para o povo a responsabilidade da decisão. Mas não contou aos gregos como lhes vai pagar os ordenados, aprovisionar as farmácias e as mercearias."

Tsipras chegou ao poder prometendo muito que não poderia vir a cumprir. Nisso não se distingue da generalidade dos políticos, exemplos desses abundam também por cá. E, é sabido, as promessas são tanto mais atraentes quanto mais os crentes estão aflitos. Ora os gregos tinham sido apanhados na ratoeira de uma dívida externa que os esmagava e continua a esmagar. E esta é uma afirmação que o último relatório do FMI atesta.

A história já foi contada vezes incontáveis: os bancos, ou investidores através deles, emprestaram aos bancos fundos em volumes completamente desproporcionados com as capacidades de pagamento da economia grega. São os gregos vítimas inocentes desta armadilha sinistra? Não todos: há muitos coniventes, activos ou passivos, geralmente gente bem instalada na vida.

Apesar da ténue recuperação da economia observada em 2014, os gregos rejeitaram nas eleições de alguns meses atrás a continuidade da liderança política daqueles que os tinham metido num beco sem saída.
E, em desespero de causa, atiraram-se para os braços do vendedor de promessas. Acontece fequentemente, é assim que as democracias sossobram e os demagogos são idolatrados.

Tendo Tsipras prometido o que não pôde conseguir nas negociações em
Bruxelas e etc., não tinha mais alternativas senão voltar a Atenas e perguntar ao povo que o tinha elegido o que queria o povo, ou demitir-se. Escolheu a primeira e o povo disse que não, que não aceita as condições impostas pelas instituições e pelo FMI.

Votaram os gregos na ignorância do que acontece a partir de hoje? De modo algum. Se há conhecimento adquirido pelos gregos, por todos, ao longo destes últimos anos, o mais intenso será certamente o das consequências da ruptura social, económica e financeira. Eles votaram à vista de filas de gente em frente às máquinas ATM e os bancos encerrados há dias.

E, agora?
Agora não sei, quem sabe?, o que irá acontecer.
Mas suponho que a União Europeia irá mudar radicalmente a partir de hoje.
Repito-me: A União Europeia é insustentável sem uma moeda comum. E uma moeda comum é insustentável sem uma federação política dos seus membros. Soberania e democracia são destrutivamente conflituantes se não se reunirem no mesmo espaço.

Se a Europa apreender e aproveitar de vez o resultado de ontem em Atenas, o contributo de Tsipras não deve ser tão vilipendiado.

Carlos Sério disse...

O nível de contradição do epicentro ideológico e económico europeu é tanto que não é arriscado dizer que a Alemanha precisa da miséria de outros países para seguir mantendo seu estado de bem-estar social-democrata. François Hollande se agacha. Pedro Sánchez (presidenciável do PSOE) sorri.

JM Ferreira de Almeida disse...

Aqui vai uma citação. De Péricles, considerado o pai da democracia europeia. Num dos seus discursos aos atenienses, procurando demove-los da guerra (do Peloponeso), pregou sem sucesso: "Deveis enfrentar vossos inimigos ao mesmo tempo confiantes em vós mesmos e com desprezo por eles, pois até um covarde, se sua irresponsabilidade é acompanhada pela boa sorte, pode vangloriar-se; o desprezo, todavia, condiz apenas com o homem convencido por sua razão de que é superior aos seus adversários, como em nosso caso. Onde a sorte é imparcial, o resultado deste sentimento de desprezo é tornar a coragem mais efetiva através da inteligência, que não confia tanto na esperança, mais forte na perplexidade, quanto na razão fundada nos fatos, que dá um discernimento mais claro do futuro". Sobre o que aconteceu à modelar democracia ateniense depois da guerra, conhecem seguramente todos.

Zuricher disse...

Do meu ponto de vista, muito sinceramente o resultado do referendo foi muito melhor do que alguma vez esperei. Basta agora o BCE ficar quieto - não precisa fazer nada, nem acabar com o programa de liquidez de emergência nem aumentar a taxa de desconto das garantias - para o assunto Grécia resolver-se rapidamente e a UE poder seguir em frente com vários assuntos prementes que tem entre mãos e com esta segarrega não têm sido atendidos com as energias necessárias.

Se o BCE ficar quieto a situação irá apodrecer muito rapidamente e resolver-se-á por si mesma.

Oscar Maximo disse...

Continua a ouvir-se que a culpa também é de quem empresta, também neste blog supostamente de direita. Será que quem afirma isso, não repara que também está a dar justificação para não emprestar mais?

JM Ferreira de Almeida disse...

Com o devido respeito, meu caro Oscar Maximo, não me parece que da pluralidade de opiniões expressas neste blogue ´supostamente de direita´, possa retirar tal conclusão. Não vejo que as opiniões aqui expressas no sentido de considerar que a Grécia é uma criatura de uma Europa desconcertada e de uma UEM criada temerariamente, sirvam de justificação para não emprestar mais. Pelo menos na parte que me toca, penso que servem para que não se empreste mais sem justificação racional. Não é um trocadilho. É toda a diferença.