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quarta-feira, 8 de julho de 2015

"Sacrificar a economia em prol do défice..."


  1. Retirei o título deste Post de notícia hoje divulgada por um conhecido jornal on-line, a propósito da conclusão de uma legislatura política profundamente marcada pelo cumprimento (+ ou - suficiente) do Programa de Ajustamento Económico e Financeiro.
  2. Uma vez que tem sido reconhecido pela generalidade dos observadores independentes (FMI, OCDE, CE, BdeP) que a economia portuguesa se encontra, presentemente, numa situação incomparavelmente mais saudável do que há 4/5 anos, exibindo condições para um crescimento sustentado que não devem ser desperdiçadas…
  3. …interrogo-me sobre o sentido da expressão “sacrificar a economia” – o que pretendem significar, verdadeiramente, os autores desta frase? O que é que foi sacrificado, quando passamos de uma economia em profundo e insustentável desequilíbrio, muito próxima da bancarrota, para uma economia que começou a crescer em 2014 (+0,9%) e cujo ritmo de crescimento deverá acelerar para um nível próximo de 2% no corrente ano, com contas externas equilibradas?
  4. Temos certamente o problema de um nível de desemprego quase obsceno, resultante da cessação de muitas actividades que estavam estreitamente dependentes de uma procura interna cuja manutenção não era sustentável   - mas existem agora condições, caso não se repitam erros do passado, para  continuar a baixar o nível de desemprego, gradualmente  (lembro que a redução rápida do desemprego constitui arte exclusiva do Siryza, como estamos a observar, não está ao alcance de outros governos).
  5. Mas mais estranha é a ideia de que a economia foi sacrificada “em prol do défice”…
  6. “Em prol do défice”? E o que teria sucedido se o défice não tivesse sido atacado? Será que teríamos uma economia em melhor situação, hoje, após viver uma saudável experiência de bancarrota? Não teria a economia do País caído numa situação de devastação, como se encontra já, hoje, lamentavelmente, a economia grega?
  7. É muitíssimo surpreendente que, após uma experiência difícil e com tantos sacrifícios para tanta gente – sobretudo no sector privado, cumpre sempre lembrar – se volte a esta tecla gasta e desacreditada de colocar o interesse da economia e a disciplina das finanças públicas como valores opostos…

8 comentários:

Carlos Sério disse...

Vejamos então o “milagre económico do Governo”, comparando a situação económica e social do país de 2010 com a de 2014.

1. Em 2010 tínhamos uma dívida pública da ordem dos 93,5% do PIB, em 2014 essa dívida subiu para 130,2% do PIB, qualquer coisa como um endividamento nestes quatro anos de cerca de 80.000 milhões de euros, uma média de mais ou menos 20.000 milhões de euros ao ano.
2. Em 2010 a riqueza nacional, o Produto Interno Bruto (PIB) ascendia a 179.445milhões de euros, em 2014 ficava-se pelos 173.053 milhões de euros (Pordata). Tivemos portanto uma destruição de riqueza de 6.392 milhões de euros
3. Redução da riqueza nacional com as privatizações ao desbarato (auditoria do TC) do património público, CTT, EDP, REN, Galp, etc
4. A taxa de desemprego passou de 10,8% em 2010 para 14,1% em Fevereiro de 2015 (taxa oficial que não conta com os efeitos da emigração, empregos em programas ocupacionais de emprego e desempregados desencorajados, em realidade contando com estes factores o desemprego actual deverá ser superior aos 20% segundo dados do FMI).
5. De 2010 para 2014 destruíram-se mais de 469.000 empregos, passámos de 4.898 mil empregos para 4.429 mil em 2013.
6. Emigração em massa de cerca de 500.000 jovens qualificados nestes últimos quatro anos.
7. Regrediu igualmente o Investimento (FBCF), passou de 36.938 milhões de euros em 2010 para 25.900 milhões de euros em 2013.
8. A dívida externa líquida aumentou de 82,7% do PIB em 2010 para 104,5% do PIB em 2014.
9. O crédito concedido pelo sector financeiro quer às empresas quer às famílias, vem diminuindo consecutivamente. Em 2012 caiu 6,8 e 4,3, em 2013 caiu 5,5 e 4,0 e em 2014 caiu mais 4,9 e 3,3 respectivamente para as empresas e famílias (taxa de variação homóloga em percentagem).
10. A taxa de risco de pobreza era em 2005 de 19% caindo para 18% em 2010 e subindo para 18,7% em 2012.
11. A taxa de risco de pobreza para as famílias com crianças dependentes subiu para 22,2%, contra os 20,5% de 2011.
12. Em 2013 (últimos dados), 25,5% dos residentes em Portugal viviam em privação material, mais 3,7 pontos percentuais do que em 2012 (21,8%), enquanto 10,9% da população estava em privação material severa.
13. Redução e deterioração dos cuidados de Saúde, da Educação e da Protecção Social nestes quatro anos de governação Coelho/Portas.
14. Redução de salários e pensões e aumento “colossal” de impostos sobre o trabalho.
15. O crédito malparado das famílias e das empresas voltou a subir em Maio, totalizando 18.850 milhões de euros e representando cerca de 9% do total dos empréstimos concedidos. Desde fevereiro do ano passado que o crédito malparado para as empresas ultrapassou os 10% do total concedido, e durante um ano alcançou novos máximos, ultrapassando em fevereiro os 15% do total de créditos concedidos.(BdP 07.07.2015).
16. Um relatório do banco suíço UBS conclui que, em Portugal, há mais 85 milionários – indivíduos com fortunas superiores a 30 milhões de dólares do que em 2012, aumentando o valor das suas fortunas em cerca de 11,1%.
17. Redução e deterioração dos cuidados de Saúde, da Educação e da Protecção Social nestes quatro anos de governação Coelho/Portas.
18. Redução de salários e pensões e aumento “colossal” de impostos sobre o trabalho.

Carlos Sério disse...

Uma coisa importante diferencia contudo a situação de 2011 com a de 2014. Em 2011, fruto da crise internacional os juros da dívida pública portuguesa foram alvo da especulação, tal como aconteceu na Irlanda, na Grécia, na Espanha, na Itália ou mesmo na França. Os juros da Espanha bateram nos 7% mas logo recuaram o que não aconteceu com os juros da Irlanda, Grécia e Portugal com valores de juros insuportáveis. Daí o empréstimos da Troika e os Memorandos. Com a mudança de governador do BCE e com a mudança de suas políticas e também da sua frase “farei tudo para não deixar cair o euro” ao mesmo tempo que iniciou a compra da dívida pública aos países do euro (o BCE está a comprar uma média de 2.000 milhões de euros por mês a Portugal) com excepção da Grécia, os juros começaram a cair atingindo hoje baixos valores. Há quem atribua mérito ao governo por este facto. Uma vez que a descida foi simultânea em todos os países (com excepção da Grécia) não creio que o governo tenha grande responsabilidade nisso. Se fosse a situação económica, social e financeira do país que contasse, bem, seguramente que estamos hoje muito pior do estávamos em 2011 como facilmente se comprova pelos dados anteriormente apresentados (atente-se aos pontos 1, 4, 7 e 8).

Diogo disse...

Por Juan Torres López [Professor catedrático do Departamento de Teoria Económica na Universidade de Sevilha.]

Qualquer pessoa que tenha precisado de devolver um empréstimo sabe o que significam os juros na hora de pagá-lo. Um empréstimo recebido, por exemplo, a 7% ao ano implica ter de devolver quase o dobro do capital recebido ao fim de dez anos.

Tanto é o peso dos juros acarretados pelos empréstimos que durante muito tempo considerou-se que cobrá-los acima de determinados níveis mais ou menos razoáveis era considerado não só um delito de usura como também uma acção imoral, ou inclusive um pecado grave que condenaria para sempre quem o cometesse.

Hoje em dia, contudo, quase todos os governos eliminaram essa figura criminosa e parece a toda gente natural que se cobrem juros legais de até 30% (isto é o que cobram neste momento os bancos espanhóis aos clientes que ultrapassam a sua linha de crédito) ou que haja países afundados na miséria não exactamente pelo que devem e sim pelo montante dos juros que hão de pagar.

Os países da União Europeia renunciaram a ter um banco central que os financiasse quando precisassem de dinheiro e portanto têm que recorrer à banca privada. Em consequência, ao invés de se financiarem a 0%, ou a um juro mínimo que simplesmente cobrisse os gastos da administração da política monetária, têm de fazê-lo e 4%, 5%, 6% ou inclusive a 15% em certas ocasiões. E isso faz com todos os anos os bancos privados recebam entre 300 mil milhões e 400 mil milhões de euros em forma de juros (será, ainda, preciso explicar quem esteve e porque por trás da decisão de que o Banco Central Europeu (BES) não financiasse os governos?).

Os economistas franceses Jacques Holbecq e Philippe Derudder demonstraram que a França teve de pagar 1,1 mil milhões de euros em juros desde 1980 (quando o banco central deixou de financiar o governo) até 2006 para fazer frente à dívida de 229 mil milhões existente nesse primeiro ano (Jacques Holbecq e Philippe Derudder, La dette publique, une affaire rentable: A qui profite le système?, Ed. Yves Michel, París, 2009). Ou seja, se a França tivesse sido financiada por um banco central sem pagar juros teria poupado 914 mil milhões de euros e a sua dívida pública seria hoje insignificante.

Em Espanha verificou-se uma coisa semelhante. Nós já pagámos, por conta dos juros (227 mil milhões no total desde então), três vezes a dívida que tínhamos em 2000 e apesar disso ainda continuamos a dever o dobro do que devíamos nesses anos (Yves Julien e Jérôme Duval, España: Quantas vezes teremos de pagar uma dívida que não é nossa? ). Eduardo Garzón calculou que se um banco central tivesse os défices da Espanha desde 1989 até 2011 a 1%, a dívida agora seria também insignificante, de 14% do PIB e não de quase 90% (Situação do cofres públicos se o estado espanhol não pagasse juros de dívida pública) .

E o curioso é que estes juros que os bancos cobram às pessoas, às empresas ou aos governos e que travam continuamente a sua capacidade de criar riqueza não têm justificação nenhuma.

Poder-se-ia entender que alguém cobrasse um determinado juro quando concedesse um empréstimo a outro sujeito se, ao fazê-lo, renunciasse a algo. Se eu empresto a Pepe 300 euros e isso me impede, por exemplo, de passar um fim-de-semana de férias com a minha família poderia talvez justificar-se que eu lhe cobrasse um juro pela renúncia que faço das minhas férias. Mas não é isso o que acontece quando um banco empresta.

O que a maioria das pessoas não sabe, porque os banqueiros encarregam-se de dissimular e de que não se fale disso, é que quando os bancos emprestam não estão a renunciar a nada porque, como dizia o Prémio Nobel da Economia Maurice Allais, o dinheiro que emprestam não existe previamente e, na verdade, é criado ex nihilo, ou seja, do nada.

Antonio Cristovao disse...

Falar do desemprego sem introduzir a automatização acelerada nas sociedades mais avançadas e retirar os demagogos(sindicatos,partidos, analistas e tudologos) e chamar os que criam emprego a dizerem de sua justiça parece-me um erro.
Para compensar as opiniões deformadas pelo posicionamento partidário vale o pouco valor que a maioria da população dá a estes escribas.

Tavares Moreira disse...

Comentário sensato, caro António Cristóvão, embora correndo o risco de se tratar uma voz que clama no deserto...Um absoluto deserto de ideias, onde as enxurradas estatísticas são como o pó que o sol queima e o vento empurra sem rumo certo...

DC C disse...

Caro Carlos Sério,

Não vou responder a tudo, embora a maior parte do que diz possa ser facimente rebatível, contudo os dois primeiros pontos são absolutamente flagrantes. São ditos diversas vezes como se isto fosse "culpa do resgate", mas não é por dizer uma coisa vinte mil vezes que ela se torna verdade...
Assim, no ponto 1, a subida do endividamente teve que ver com questões de perímetro orçamental (dívida que estava escondida, nas empresas, ppp´s, municípios, etc...) e que teve de ser assumida + o aumento da tx de juros que o mercado cobrou até que existisse um resgate + as necessidades de financiamento de um economia cronicamente desiquilibrada. Dito de outra forma, a dívida já existia, estava implícita - não estava era contabilizada nas estatísticas oficiais...
Quanto ao ponto nº 2, também vai rumo à asneira, porque há diversas forma de calcular o PIB que apresentam por definição valores idênticos: uma delas é o cálculo do valor do produto pela óptica da despesa
Se analisarmos a produção pela forma como os indivíduos gastam os seus
rendimentos, isto é, como se reparte a produção nacional pelos diferentes fins a que se destina, obtemos a Despesa. Assim, uma vez que na perspectiva da despesa se observa o funcionamento de uma economia tendo em conta a utilização ou o destino dado aos bens e serviços produzidos, o cálculo da despesa exige que conheçamos:
− O consumo privado dos residentes, isto é, todas as despesas efectuadas pelos
particulares em bens e serviços que se destinem à satisfação das suas
necessidades;
−O consumo público que inclui as despesas correntes da Administração Pública,ou seja, as despesas efectuadas com a aquisição de bens e serviços, necessários
ao correcto funcionamento da Administração Pública e à satisfação das
necessidades colectivas da população.
Ora estas duas parcelas estavam inflacionadas pelos endividamente que se tornou insustentável, pelo que o PIB calculado também não era sustentável no médio longo prazo....

Tavares Moreira disse...

Caro DC C,

Ainda bem que interveio neste debate, clarificando pontos que são essenciais para a caracterização e compreensão do desempenho da economia portuguesa...
Todavia, e como já terá entendido, trata-se de pregar no deserto, uma vez para muitos protagonistas as convicções ideológicas sobrepõem-se sempre á realidade...se esta não está conforme à sua visão, então é a realidade que está errada e, como tal, tem de mudar.

Alberto Sampaio disse...

Está clarificado (pelo caro DC C), o que já era claro. Sintetizando o caro Tavares Moreira diria "só vê quem quer ver." Parece ser mais fácil viver segundo os estereótipos: em que a verdade é distorcida para que certas correntes ideológicas tenham e continuem a ter viabilidade; e em que se tenta aproximar qualquer ideia dita "mais liberal" (como reduzir o estado e consequentemente os impostos excessivos que sugam a economia, das empresas e de quem nelas trabalha) ao pré 25 de Abril. Assim se consegue fugir ao debate sério evitando ir ao fundo das questões. Isto com a conivência de orgãos de informação e comentadores profissionais ou disfarçados, por exemplo de jornalistas ou gente da "cultura", e nos lugares mais insuspeitos. Os comentários de Carlos Sério mostram como se cai facilmente nas patranhas que nos são propagandeadas diariamente.