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sábado, 1 de fevereiro de 2014

Ondas e ondas

"Afiada como a foice é a margem entre a luz e a sombra"
Amor no vale, de G. Meredith

Podemos fazer um montão de leis, por exemplo "é proibido os jovens exporem-se a perigos estúpidos", "é dever de cada jovem recusar alinhar em aventuras imprudentes", "é abolido o hábito nefasto da admiração pelos mais fortes ou mais rebeldes". Já agora, faz falta uma lei que proíba ondas de opinião pública alimentadas por especulações e por conversas cruzadas que induzam a julgamentos precipitados e cruéis para quem os sofre. Lembro-me sempre dos apupos de ódio aos pais da pequena Maddie depois de inflamados palpites sobre a sua culpabilidade no desaparecimento da filha. 
Nunca conseguiremos proteger os nossos filhos de tudo o que lhes pode acontecer, a distinção entre a prudência e a loucura, entre a bravata e a inconsciência, entre o bem e o mal é um permanente exercício de risco, de frustração e de ansiedade para quem quer educar e proteger sem coartar a liberdade. Porque não os avisámos suficientemente, como pudemos deixá-los ir, como foram sem nos  avisar? Perante uma tragédia há sempre um sentimento de culpa, por absurdo que seja, por injusto que seja, manda a caridade, no sentido cristão do termo, que se poupem as pessoas envolvidas a mais sofrimento. Um crime é sempre uma tragédia, mas uma tragédia não resulta sempre de um crime. Pode resultar de uma fatalidade impossível de prever ou evitar, mas em regra vem da imprudência, do desafio, ou do tão juvenil sentido da invencibilidade e do gosto por ir além dos limites impostos.Mas a tragédia pode e deve servir para alertar para o perigo, e assim prevenir que volte a suceder. Se procurarmos crimes onde devíamos ver a tragédia estamos a desviar do essencial e a impedir que se leve a sério o perigo que causou a desgraça. As ondas do mar revolto e bruto não sabem o que fazem, mas a voracidade pública que clama cegamente por um "culpado" não pode ignorar que só aumenta a tragédia dos que a sofreram.

3 comentários:

Antonio Cristovao disse...

sem duvida que se fica deprimido de ver a "menoridade" tão evidente nos comentarios sobre a necessidade de "regular" o que adultos fazem livremente.

Tonibler disse...

...e proibir a entrada de mulheres bonitas na faculdade. Isso foi a causa de todas as minhas parvoeiras...

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

Suzana
A liberdade tem sempre limites. A lei não resolve tudo, a lei inspira-se num código moral, mas não se confunde com ela. As tragédias acontecem muitas vezes porque as pessoas não cumprem as leis, mas acontecem muitas vezes, também, porque a liberdade é desafiada nos limites moralmente aceitáveis ou para além deles. Outras vezes são fruto do acaso.
Esperemos que depois de mais este caso tão trágico e chocante haja uma vontade de prevenir excessos com os quais uma sociedade civilizada não pode compactuar.