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quinta-feira, 26 de junho de 2014

Duas velhas

Fui de metro até perto do hospital. Durante alguns momentos andei a pé. O sol convidava mas o dia assustava. Não era motivo para isso, assustava porque não me sentia bem. Nada que tivesse comido ou punhalada que tivesse sofrido. Sentia-me cansado e até um pouco farto destas andanças. Os meios grandes provocam-me tristeza e empurram-me para as bandas da indiferença. Com uma pachorra difícil de descrever fui andando. Vi muita gente, a maioria amarelecida e desprovida de alegria. Havia qualquer coisa nos seus olhares. Não sei se era dor, se era falta de amor ou uma solidão fria a correr em veias esgotadas de vida. Duas velhas vinham na minha direção. Uma era mais velha do que a outra. A velha mais nova, obesa, descuidada, deslavada e com um cigarro na mão, dava o seu braço direito à mais velha, cuidada, com aspeto fino, cabelo penteado e ar distante. Trazia na mão esquerda uma mala, pequena, castanha. A mais nova, de ar deslavado e olhar empertigado, depois de ter aspirado uma nuvem de tabaco enegrecido, atestou-lhe com uma voz rouca de vida de fumo: - Já te disse mais do que uma vez. Pega lá na mala como deve ser! O tom. Sim, o tom, imperativo, frio a contrastar com o calor do cigarro, chamou-me a atenção. Uma dureza difícil de descrever. Assustei-me. Não havia chama de amor naquela chamada de atenção. Tentei tatear alguns restos. Mas como encontrá-los naquela voz dura, rouca e implacável? Olhei para a senhora mais velha, penteada e cuidada. Abrandou o passo e tremeu um pouco. Sem dizer nada colocou a mala no braço direito. As feições eram semelhantes. Mãe e filha. Pensei. O olhar da mãe dava sinais de querer começar a perder o sentido e o significado da vida. Cuidada e bem penteada, longe da deslavada da filha, que empunhava um cigarro, não sei se para queimar o passado da vida que levava a seu lado, causou-me muito pena. Ao dobrar as pernas, na atrapalhação da mudança de mão da mala para o braço direito, a filha sacudiu-a com brusquidão, e em silêncio desapareceram na esquina, enquanto eu passei o portão.

3 comentários:

Suzana Toscano disse...

A eterna tentação da tirania, exercer o seu imperiozinho sobre quem depende de nós. Nem sempre é por mal, a mãe educou-a mal, ou a vida deseducou-a, mas talvez essa brusquidão seja a forma que ela tem de mostrar que lhe tem amor e se preocupa. Quem sabe.

Salvador Massano Cardoso disse...

Quem sabe, quem sabe. Eu ainda procurei "restos" mas não os encontrei...

Bartolomeu disse...

https://www.youtube.com/watch?v=_N0uaA8IsrQ