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terça-feira, 10 de junho de 2014

Os caprichosos meninos ricos

A Federação Portuguesa de Futebol irá pagar 400.000 euros a cada jogador, num total de mais de 9 milhões de euros, caso a selecção ganhe o Campeonato do Mundo de Futebol. Trata-se de um dos prémios mais elevados pagos pelas selecções participantes (o 3º maior prémio dos países europeus e o quinto no cômputo global). A título de comparação, países ricos como a França, a Alemanha e a Itália pagam bem menos, na ordem dos 300.000 euros a cada atleta.
O prémio previsto por Portugal, nove milhões de euros, é equivalente ao orçamento conjunto de 5 ou 6 clubes da nossa Primeira Liga de Futebol, Liga que se arrasta com salários em atraso e incumprimentos contratuais. 
Mas isso não invalida que uma Comissão Sindical presidida pelos senhores Cristiano Ronaldo, Bruno Alves, e Raúl Meireles tenham exigido tal contrapartida como condição da sua augusta presença. E que a Federação tenha acedido a aceder à sua divina vontade. 
Claro que a fixação do nível de salários dos melhores desportistas se insere num mercado dos mais perfeitos, onde a concorrência é efectiva, a lei da oferta e da procura atinge a plena validade e o mérito é soberano. Mas, no caso de uma selecção, um atleta não está no mercado, pois só pode actuar pela sua selecção, sendo-lhe vedado aceder a ofertas de outra. Por isso, face à situação do país e à situação económica dos clubes de futebol, um prémio de 400.000 euros é injustificável e assume a natureza de condenável pornografia pura e dura.  
Admirável é que quem tanto se rebela contra salários ditos milionários de 5.000 euros sujeitos a descontos de mais de 40% ou contra salários de banqueiros que não atingem, num ano, os 400.000 euros por um mês de trabalho na selecção, não tenha uma palavra sobre esta matéria. De partidos políticos, a organizações sindicais e a jornalistas que tanto invectivam quem possa ganhar acima da média. Nem um murmúrio, mesmo sabendo que o Estado continua a subsidiar a Federação entre dois a três milhões de euros anuais. Reles hipocrisia, sempre pronta a fazer o jogo dos caprichosos meninos ricos.

23 comentários:

Bartolomeu disse...

Mas olhe que deve ser uma quantia merecida, caro Dr. Pinho Cardão... a avaliar pelo "apadrinhamento" e atenções [com direito a selfie e tudo (este "tudo" refere-se às infantilidades a que os meninos se permitiram durante a permanência no palácio)mas pronto, são estrelas e a malta; desde um qualquer borrabotas até um qualquer presidente seja do que for, baba-se perante as estrelas, sobretudo quando se acham em constelação] que o "nosso" Presidente da República dedicou aos mágicos da bola. Vai ver que este, vai ser um daqueles investimentos com retorno... e dos grandes!!!

Bartolomeu disse...

PS: Estranho que no Quartarepública não seja feita qualquer menção ao grande dia que hoje se comemora... "na Guarda". Ou será que devemos dizer: Portugueses, em guarda!!!
Mas pronto, um esquecimento qualquer um pode ter.
Eu sei que não me compete, não sou co-autor do blog, mas mesmo assim, deixo aqui um aponto musical para assinalar o dia... melhor; para assinalar os tiques que dão um colorido pitoresco às comemorações do dia:
https://www.youtube.com/watch?v=gBIDc4tVn7E
«Quem és tu, de onde vens, conta-me lá os teus feitos. Eu nunca vi pátria assim, pequena e com tantos peitos.»

Carlos disse...

Atenção que o prémio dado pela FIFA ao campeão são cerca de 27 milhões de euros (http://globoesporte.globo.com/futebol/copa-do-mundo/noticia/2013/12/campeao-mundial-vai-receber-premio-de-r-83-milhoes-da-fifa.html). Ainda sobram 2/3 disso depois de pagar aos jogadores por esse feito, o qual, já agora tem uma probabilidade de 1 em 100 de acontecer.
Como o futebol a mim não me diz muito, nem sequer o futebol "patrioteiro", fico satisfeito por saber que como País "encaixamos" 18 milhões de euros caso ganhemos.

Bartolomeu disse...

O provérbio popular aconselha a não contarmos com o ovo, enquanto ele permanecer no cu da galinha...
Um outro provérbio, também ele popular adverte: boas contas faz o preto, se não lhe saírem furadas...
Isto a bem dizer, e para que os ovos não se partissem e as contas não se furassem, o que era bem feito, era a seleção nacional ser constituída só com jogadores do Cascalheira Futebol Clube e os estágios realizarem-se na aldeia da Picha - Freguesia de Pedrógão Grande. Assim, se a coisa não funcionasse, desatava tudo à pedrada e não haveria prejuízos... só cabeças partidas. Mas entre cabeças partidas e cabeças perdidas, a diferença não deve ser significativa...

António Barreto disse...

Em cheio, caro Pinho Cardão.

SLGS disse...

O Dr. António Barreto, diz : "Em cheio..."
Não concordo. Para ser "em cheio" falta no apontamento do Dr. Pinho Cardão, que subscrevo totalmente, ficarmos a saber quanto pilim vão buscar os "meninos" se nada ganharem, que é o mais expectável.
Suponho eu que se ficarão só pelas "sopinhas" ou não?

Carlos disse...

Bartolomeu,

Quem é que está a contar com ovo ainda no cu da galinha?

SE, e spenas SE, Portugal ganhar, acontecimento MUITO, mas mesmo muito improvável, será necessário pagar 9 milhões aos jogadores.
Só que nessa eventualidade Portugal (ou a FPF, sei lá eu) recebe 27 milhões.

Capiche?

Rui Fonseca disse...

Cem por cento de acordo, caro António.

Bem observado SLGS.

E quanto e onde pagam de impostos estes novos deuses?

Abç

Pinho Cardão disse...

Caro Bartolomeu:
Todas as selecções apuradas foram recebidas pelo Presidente ou pelo governo, antes de partirem para o Brasil. A nossa, também. O facto nada tem a ver com prémios, maiores ou menores. Nada de misturas.

Caro Carlos:
O dinheiro deve afectra-se tendo em conta uma ordem de prioridades. Não me parece que o prémio aos jogadores seja a primeira prioridade, quando grande parte dos nossos clubes está com dívidas aos atletas, tem orçamentos reduzidíssimos (o prémio equivale ao orçamento de meia dúzia...)e os campos, no inverno, são lamaçal.

Caros António Barreto e Rui Fonseca:
Muito obrigado pela vossa prestigiada anuência...

Caro SLGS:
Boa pergunta!...

António Barreto disse...

Desculpem desapontá-los, mas tomaram-me pelo meu homónimo sociólogo, pessoa por quem, aliás, tenho muito apreço.

João Pires da Cruz disse...

Caro Pinho Cardão,
Aqui gosto da máxima tao pouco usada de "a terra a quem a trabalha" . Se há dinheiro a ser ganho, que seja ganho por quem o faz. É muito? Desligar a televisão à hora do jogo ajuda a reduzir.

Bartolomeu disse...

Aquilo que escrevi, pode ter-lhe dado a sensação de estar a relacionar o sentido da receção com almoço oferecido pelo Presidente às "estrelas" e o lucro que os mesmos possam gerar à Federação, mas não. Nem isso faria qualquer sentido... para fazer, teríamos de estar a falar de milhares de almoços, caro Dr. Pinho Cardão e estou cá desconfiado que o orçamento da PR não suportaria tão elevado... investimento.
Agora, a iniciativa que eu gostava de ver o nosso Presidente tomar, era a de convidar - nem que fosse um só dia por mês - o mesmo número de pessoas para almoçar no palácio mas, sem-abrigo, ou desempregados de longa duração a sobreviver com um subsídiozeco, com filhos e por vezes pais idosos ao seu encargo.
Mas isso daria assunto para escrever no face e para sacar umas selfie? Hmmm... duvido.

Carlos disse...

De facto a pergunta do SLGS é a pergunta certa.

Para termos alguma hipótese, remota que seja, de ganhar o campeonato, o preço a pagar a alguns dos melhores jogadores do mundo é esse, os 9 milhões. Sem eles, a probabilidade de ganhar é praticamente nula (mesmo com eles, pouco mais que um sonho é). Deviamos dizer que não a eles, é isso? Ir ao campeonato com uma equipe B?

Quero crer que o valor foi negociado mas não me parece que seja um mau negócio: ganhar 18 (27-9) ou ganhar 0 e gastar 0. Todas essas coisas bonitas que o Pinho Cardão quer fazer poderá fazê-las com os 18 milhões que restam, caso ESTES jogadores consigam ganhar aquilo. Mas o mais certo é nada acontecer.

Repito, muito pouco, quase nada, me atrai no futebol, mas este vosso consenso aqui parece-me pura e simples demagogia, pouco habitual no 4R, diga-se.

Carlos disse...

Olhem, leiam isto para verem a vossa demagogia:
http://bleacherreport.com/articles/2086985-world-cup-2014-prize-money-spains-potential-payout-reportedly-revealed

Espanha: 720000€, UK: 433000€, Nigéria: 100000€, mas vale a pena ler o resto e perceber que nada desta negociação tem a ver com paises ricos ou paises pobres, tem a ver com mercado, puro e duro.

Luis Moreira disse...

Só há muito dinheiro no futebol porque desempregados, FP e pensionistas ainda têm demasisado dinheiro. Demagogia? Sem dúvida mas eu comprei uma gamebox por 1 500 euros no tempo em que ganhava bem e que agora não uso por não poder pagar o bilhete.

Carlos disse...

Não, Luis, há muito dinheiro no futebol porque é o desporto mais mobilizador no mundo. Repito, Mundo. Repito, Mundo.

Fernando Tavares disse...

Caro Pinho Cardão
Concordo com o seu ponto de vista sobre a pornográfica maquia destinada aos meninos da Selecção, no entanto, fico bem mais indignado saber que Mário Soares recebe por ano "500 mil euros" fora as mordomias da Fundação e alcavalas, que o erário publico lhe patrocina, inclusive fazer-se circular numa viatura da Direção-Geral do Tesouro e das Finanças. Haverá alguém que saiba o porquê da Direcção das Finanças ter emprestado a viatura a Mário Soares?

Bartolomeu disse...

A questão que o caro Fernando Tavares aborda, é realmente ambígua e insensata. Mas não é menos absurdo que o erário público esteja obrigado a manter gabinete, carro, segurança, pessoal de apoio, etc, a todos os ex-Presidentes da República. Só por terem assento no Conselho de Estado? Parece-me imensamente pouco para tanta despesa.

Pinho Cardão disse...

Caro João Cruz:
"A terra a quem a trabalha" não me parece lá muito aplicável. Até porque o prémio e a mais-valia ficavam na cooperativa ou na unidade colectiva e o trabalhador tinha que se contentar com o mínimo vital...
Ainda se fosse "a relva a quem a come"...

Caro Carlos:
Creio que o post não é demagógico. Chama a atenção para uma questões que me parecem pertinentes: por um lado, a rudeza e intolerância e violência com que se tratam os salários ditos milionários acima de 5.000 euros, e sujeitos a descontos superiores a 40%, e a tolerância e bonomia com que se tratam prémios de 400.000 euros, para além dos salários; por outro, o facto de a FPF assim proceder, mas simultaneamente receber subsídios do estado, para mais quando é uma entidade rica, com cerca de 20 milhões em depósitos e aplicações similares.
A questão são as prioridades na afectação dos recursos, caríssimo Carlos. É que há sempre uma maneira certa de fazer as coisas. E veja-se que Federações e países ricos, como França, Alemanha, Itália e, aliás, todos os países menos cinco, atribuírem prémios menores do que Portugal. Nós é que não vamos com o passo certo. Penso eu de que...

Caro Fernando Tavares:
Mário Soares tem regalias como ex-Presidente, e aí acho bem. A Fundação Mário Soares foram dadas outras, e isso parece-me absolutamente reprovável.
Mas ninguém critica. Direitos adquiridos, porventura...

Carlos disse...

Caro Pinho Cardão,

Se eu falo em demagogia é porque grande parte da argumentação do post e da discussão aqui anda à volta do valor absoluto dos prémios de jogo. Ora esse ponto em concreto não pode ser desligado do contexto. E esse contexto é que temos, efectivamente, alguns dos melhores jogadores do mundo. Os valores para os contratar são esses, não outros. Ao contrário do que diz no post a mim parece-me que a negociação dos prémios de jogo faz parte do mercado.
Quanto ao resto, financiamento da FPF, gestão dos recursos públicos e muito em particular a questão dos salários ou pensões milionárias e respectiva tributação estamos perfeitamote de acordo.

Pinho Cardão disse...

Caro Carlos:
Ora ainda bem!
Na divergência também pode haver entendimento!...

esse.antonio disse...

Por uma questão de justiça, deveria dizer-se que o Sr General Ramalho Eanes, também ex-Presidente, renunciou às mordomias do carro, etc-ext. ., etc.,...

Pinho Cardão disse...

É verdade. Mas poucos enaltecem o facto. E, ao contrário, muitos enaltecem o Dr. Mário Soares, que não prescindiu de nada, e tem uma Fundação que vamos alimentando com subsídios e outras dádivas públicas.