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quinta-feira, 19 de junho de 2014

Saída limpa


Tenho amigos monárquicos que nunca conseguiram convencer-me das vantagens das monarquias. Compreendo a atração pela estética das velhas aristocracias, que arrasta a atenção de milhões em todo o mundo, o fascínio pelo espetáculo das novas cortes, pela imagética e glamour de príncipes e princesas. Mas continuo a não entender que, nos dias de hoje, existam democracias onde o poder, mesmo que seja meramente simbólico ou de representação, radique no privilégio sucessório. Entre mérito e hereditariedade, nada me diz que deva escolher outro que não o sistema que se baseie no primeiro, ainda que os sistemas partidários vigentes e a cultura do quanto pior melhor, tornem a meritocracia uma quimera.
Dito isto, sei da História recente de Espanha, o suficiente para reconhecer o papel fundamental de Juan Carlos na transição e na consolidação da democracia, no terreno difícil como foi o do pós-franquismo. Mas acentuei a admiração pelo Rei observando a enorme dignidade com que, chegada a hora, cedeu o seu lugar. O corpo, e porventura a mente, apresentam visíveis os sinais do que é a humanidade. Depõem definitivamente contra a divindade da realeza. Mas ao contrário dos exemplos do lado de cá, exemplos de lamentável exploração da decrepitude e a falência humanas de quem teve responsabilidades de chefiar o Estado, Juan Carlos soube ser e parecer, até ao fim e pese embora as fraquezas que lhe apontam, mais do que o Rei, um líder digno. A História reserva-lhe-à um trono de respeito.

10 comentários:

Zuricher disse...

Caro Ferreira de Almeida, não sou monarquico nem republicano. Cada país e cada sociedade têm o seu contexto próprio que leva a ser preferivel uma monarquia ou uma república.

Em Espanha sou decididamente monarquico sem apelo nem agravo. Houve neste país duas repúblicas. A primeira, uma anedota. A segunda um horror sem fim que acabou por ter um fim com horror. Para a realidade da sociedade Espanhola não concebo a república. E, aliás, muito menos nos tempos que correm.

Don Juan Carlos foi efectivamente um lider que sempre trabalhou para o bem e para a grandeza de Espanha. Costuma aludir-se comummente ao seu papel tanto na transição como no fracasso do golpe militar de 23 de Fevereiro de 1981. Mas SM Don Juan Carlos I foi muito mais do que isso. Muito do que é a economia Espanhola a ele se deve. Muitos contratos que tem a industria Espanhola no exterior à sua diplomacia económica têm que agradecer. Uma diplomacia económica que não poderia ser feita pelos canais habituais do ocidente através de meros contactos comerciais entre empresas ou ao nivel de governos. Refiro-me em especial à presença de empresas Espanholas no Médio Oriente onde a relação entre monarcas é mais importante que quaisquer outros considerandos. Um dos expoentes máximos é a Alta Velocidade na Arábia Saudita que foi adjudicada a um consórcio Espanhol em deterimento da reputada Alstom Francesa. Os contactos entre SM Don Juan Carlos e SM Abdullah bin Abdilaziz foram fundamentais. Mas não fica por aqui. Referindo apenas algo dum passado recente, Espanha e todos os que cá vivemos pudemos beneficiar de petróleo a preços módicos devido a um sapo que Don Juan Carlos engoliu. Após o famoso episódio do "Porque no te callas?!", Chavez foi recebido por Don Juan Carlos en Marivent. O Venezuelano procurava atenção de algum peso pesado. Don Juan Carlos deu-lha. O Reino de Espanha beneficiou. Don Juan Carlos soube sempre pôr Espanha primeiro. E conseguiu.

Longa vida e próspero Reinado a Felipe VI! URRAH!!!

JM Ferreira de Almeida disse...

Obrigado, meu caro Zuricher, por este testemunho "de proximidade".
Compreendo bem o papel que nas relações internacionais pode ter o prestígio. Não estou convencido que o prestígio posto ao serviço do Estado não possa ser protagonizado, com os mesmos resultados, por um presidente da República, legitimado direta ou indiretamente pelo voto. Mas entendo bem o papel que, em concreto, o Rei desempenhou no plano político e, pelos vistos, na diplomacia económica. O seu estatuto na História sai reforçado pela forma como abdicou.

Margarida Corrêa de Aguiar disse...

José Mário
Partilho totalmente a sua invocação. Belíssimo texto!

Pinho Cardão disse...

Excelente invocação, caro Ferreira de Almeida, na qual me revejo em muito.

JM Ferreira de Almeida disse...

Obrigado. São os V. olhos de Amigos...

João Pires da Cruz disse...

É claro que um rei, particularmente este, só serve como marioneta para todos os efeitos prácticos. O Cavaco também pode ir falar com o sujeito da Arábia Saudita se for caso disso. Duvido que o Árabe veja grande diferença entre falar com um rei ou com um presidente. E o da Suécia, por exemplo, nem pôde decidir qual da sua descendência vai herdar a coroa, foi o parlamento que lhe impôs a princesa herdeira.

Mas a única situação em que não é uma marioneta é aquela que justifica a monarquia. O facto de ninguém estar acima da nação, coisa que ninguém parece convencer Belém, Que há qualquer coisa que está acima de todos os funcionários e políticos e essa coisa é a nação e o seu povo. O Cavaco não representa a nação, nunca representará. Só representará o estado. Ao contrário do Rei, que é a personificação da nação, não do estado. E, por isso, as monarquias todas da Europa dão lições de democracia às repúblicas.

Suzana Toscano disse...

Subscrevo, caro Ferreira de Almeida, uma homenagem justa e que a História, com a sua distância, deverá guardar. Longa vida ao novo Rei e que, como ele próprio desejou no seu belíssimo discurso, que o povo espanhol possa sempre orgulhar-se dele.

Zuricher disse...

Caro Cruz, fazer negócios naquela parte do mundo é muito diferente de faze-los na Europa ou Estados Unidos. E digo-o por experiência própria.

João Pires da Cruz disse...

Não nego isso, mas há centenas de empresas originárias de repúblicas que lá fazem negócios.

Zuricher disse...

Claro que há. Mas estamos a falar de escalas um bocadinho diferentes. Naquelas paragens o que mova muito dinheiro ou envolva a religião tem que ter de alguma forma a colaboração da familia real.