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domingo, 1 de junho de 2014

Mimi...

Hoje, tive a oportunidade de participar num almoço típico daquelas bandas, juntar à volta de uma mesa, iluminada por bom vinho e enfeitada com entradas deliciosas como a antever o desbravar de pratos fortes e reconfortantes, culminando numa explosão de doces variados e ofensivos a quem não os pode comer, os que nasceram no mesmo ano. Muitos faltaram, como é habitual, mas os mentores desta prática, que se arrasta há muitos anos, confiam nas suas vontades exprimindo o desejo de recordar o passado e afugentar o sorriso amarelo de um futuro nada simpático. O que interessa é viver o presente e recordar os passados individuais e coletivo. Conversas, histórias, e lembranças esquecidas retomaram o seu lugar, permitindo a expressão de sentimentos, de dores, de alegrias e de tudo aquilo que determinou o crescimento e a vida de qualquer um. As dores esqueciam-se sob o fulgor e o calor do vinho, enquanto as mais agradáveis não conseguiam competir com os sabores dos pitéus que nos agrediam constantemente. Até há listas, para que nenhum fosse esquecido, uma lista para homens e outra para mulheres. Vi a dos homens, a maioria estava viva, mas já há algumas baixas e, segundo ouvi, mais irão ocorrer brevemente. Quanto à das raparigas as coisas estavam mais complicadas. A lista englobava todas as que nasceram naquele ano no concelho e o que está deliberado são apenas os que nasceram na freguesia. Já há alguns intrusos, mas, enfim, têm direitos adquiridos. Ainda bem. Uma das responsáveis pelo evento do próximo ano tentava saber quem eram as que pertenciam à freguesia e que tinham andado na mesma escola. Ouvi-a a dizer: - Esta morreu em pequenina, era filha de sicrana. Esta também morreu era filha de.... Quando ouvi de quem era filha pulei. - Essa menina era a minha companheira de criança! A "mordoma" avançou: - Devia ter sete ou oito anos quando morreu. - Não. Respondi. - Tinha cinco anos e chamava-se Mimi. Recordei de imediato um conjunto de imagens, de sons, de alegrias, de choro e de um pequeno cadáver a quem dei a mão e toquei na cara. Lembrei-me da sua boneca, cujos olhos abriam e fechavam. Fui buscá-la e coloquei-a na cama onde estava a dormir um estranho sono de onde nunca mais acordou. Tenho a sua imagem gravada no meu coração, e sinto, ainda hoje, muitas saudades. Acompanhei-a ao cemitério atrás da velha carreta negra e prateada da misericórdia. Ouço, constantemente, o barulho doloroso da matraca a abrir o cortejo fúnebre. Recordo os momentos em que a baixaram à terra. Tinha cinco anos. - Desculpa. Como era o seu nome? É que a conheci sempre como Mimi. Olharam surpreendidos para mim. Foi então que soube, cinquenta e oito anos depois, o nome da Mimi, Maria Emília. Fiquei em silêncio, com lágrimas estranhas a correr dentro de mim...
Mimi era uma criança e hoje recordei-a e soube o seu nome no dia mundial da criança. Uma criança que espera por mim...

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