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quarta-feira, 25 de junho de 2014

O acto ilocutório rejeitativo

Num dos últimos exames de Português, o texto literário, que se esperava de Camões, Vieira ou outro clássico, foi substituído por uma entrevista de um jornalista a um escritor, naturalmente da esquerda pura e dura.  
E, não sei se no mesmo exame, requeria-se que os alunos classificassem o "acto ilocutório" constante de um texto. Que o IAVE, que faz o exame e propõe as correcções, qualificava como "acto ilocutório compromissivo" e a Associação dos Professores de Linguística considerava como   "acto ilocutório assertivo"
 Trocar clássicos por entrevistas jornalísticas é a prova de que a literatura vai perdendo terreno, explicação para que os alunos nunca ganhem gosto pela leitura e pela escrita, de mais a mais enredados entre actos ilocutórios declarativos ou performativos, directivos ou expressivos e mesmo compromissivos, que o TLEBES (Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário), que antes se chamava Gramática, profusamente estatuíu e derramou no desensino do português.   
E que tem regras tão absurdas e distinções tão capciosas que, perante a controvérsia, levaram o Ministério a aceitar como de ciência certa as duas qualificações acima mencionadas. 
Perante o ensino da língua apresentado de tal forma, claro que os alunos considerarão a disciplina como um acto ilocutório rejeitativo. E, naturalmente, optarão por ilocutoriedades mais assertivas, expressivas ou directivas. E, principalmente, compromissivas com outro tipo de aprendizagens mais performativas. 

10 comentários:

António Barreto disse...

Não seria mais eficaz adoptar em definitivo o inglês?, quem nos acode?

Suzana Toscano disse...

Excelente post, caro Pinho Cardão, quando os seus netos lhe pedirem ajuda para os trabalhos de casa vai ver a dimensão do drama! Mas se calhar somos nós que estamos mesmo ultrapassados.

Diogo disse...

Praticamente, desde que aprendi a ler, devorava (fora da escola) livros que eram próprios para a minha idade (quase todos traduções de obras estrangeiras). Li todos os livros das aventuras dos cinco, dos sete e de outros que já não me lembro. Li também boa banda desenhada – todos os do Gosciny: Asterix, Lucky Luke, Iznogud, etc. Eu assinei até ao fim a revista «Tintim».

Depois virei-me para os clássicos europeus - Victor Hugo, Roman Roland, Balzac, e escritores ingleses, americanos, alemães, russos, etc., etc., etc.

Quanto aos escritores portugueses que eram «estudados» na escola, apanhei-lhes uma aversão visceral. Achei odioso ser obrigado a decifrar os Lusíadas do Camões, verso a verso.

Hoje leio mais livros políticos e técnicos e, sobretudo, esta biblioteca infinita que é a internet.

Quanto ao romance, releio sempre que posso dois escritores que considero dos melhores de sempre: Eça de Queirós e Somerset Maugham.

Manuel Silva disse...

Senhor Pinho Cardão:
Não percebi.
O que é condenável? O acto da escolha ou a filiação ideológica dos entrevistados?
Pelo texto parece-me a 2.ª hipótese, mas o senhor, «pensando» com os (maus) fígados como sempre «pensa», nunca perde uma oportunidade sem deixar a sua marca da Direita, pura e dura.
«E foi mais um governo de Esquerda que instituiu a TLEBS, do senhor Santana Lopes.
Sabia, ou o seu fígado não tem neurónios suficientes para atingir tal conhecimento?

João Pires da Cruz disse...

Literatura é arte. E deveria estar fora daquilo que é o ensino regular.

Quando se eliminou as TIC do currículo, não faltaram críticas quando a realidade mostrava que os putos davam bigodes aos professores que, como regra geral, se estavam nas tintas para a sua própria actualização. O argumento para a eliminação da TIC é que TICs é conhecimento transversal e deveria ser dado em todas as outras disciplinas, se estas fossem bem dadas.

Português é a mesma coisa. Eu concordo que se dane o Camões e os clássicos. Aliás, se a ideia é literatura, então que se dessem os melhores do mundo e não os melhores do meu quintal. Mas este pseudo-conhecimento masturbatório do TLEBS é que não faz sentido nenhum.

Falta coragem para assumir aquilo que é óbvio. Uma disciplina de Português, separada das outras, não faz sentido. Só existe para aproveitamento da capacidade instalada, de milhares de pessoas que passaram por cursos artísticos e sem o sacrifício dos putos não teriam emprego.

Porque é que os livros obrigatórios não são o Cosmos? A Terceira Vaga? A Breve História do Tempo? Porque é que os livros obrigatórios não trazem simultaneamente língua e conhecimento em vez de ser a história do outro que se enrolou com a irmã ou com a mãe?

Parece radical? Aceito argumentos em contrário porque eu não encontro nenhum de jeito há muito tempo.

Rui Fonseca disse...

Excelente comentário, caro António.

O Luis Aguiar-Conraria comentou o disparate, no Destreza das Dúvidas, com uma palavra, de um modo lapidar "à moda de Braga", onde é professor.





Pinho Cardão disse...

Caro Manuel Silva:
Dispensando outros cnsiderandos:
a) o que eu condeno, em substância, é a troca do texto de um clássico da literatura por uma entrevista. Se o entrevistado é de direita ou de esquerda ou do centro é, no caso, mera derivada. Acontece, no entanto, que esta derivada se vem tornando a função principal nos textos propostos para exames de português, quando se sai dos clássicos. Por isso, até considerei a coisa como natural.
b) Sei muito bem que foi no governo de Santana Lopes que o TLEBES foi instituído. E considero que se tratou de um verdadeiro atentado ao gosto e estudo da língua portuguesa. Mais uma capitulação do ministério da educação perante uma tecnocracia linguística ou um conjunto de técnicos, neste caso, linguístas, que se esgotam na criação abstrusa de palavras tantas vezes sem conceito subjacente. Um mau serviço do ministério, que devia orientar e não ser manipulado pela tecnocracia.

Caro António Barreto:
Quem nos acode? No caso, só um governo que tenha força e coragem para alterar a tecnocracia experimentalista vigente no ministério.

Caro João Pires da Cruz:
Desta vez estamos nos antípodas...excepto quanto ao TLEBES.

Cara Suzana Toscano e Caro Rui Fonseca:

Muito obrigado aos meus amigos

Eduardo Freitas disse...

Caro Dr. Pinho Cardão,

Uma pérola, o seu texto! Parabéns!

Suzana Toscano disse...

Caro Diogo, já vejo que somos da mesma geração pela assinatura do Tintim :) saía aos sábados e em minha casa tirava-se à sorte qual dos irmãos era o primeiro a ler, ainda tenho ( quase ) toda a colecção, e dos Astérix, Luky luke, Humpapá, etc. Mas aos outros pode acrescentar Jorge Amado, Gabriel Garcia Marquez, Simone de Beauvoir, Máximo Gorky, sei lá, quem me incutiu o gostosa leitura foram duas professoras de português no liceu, gostei até dos Lusíadas apesar do sofrimento, mas agradava-me aquele decifrar, aquele dizer tanto em cada verso, enfim, faço aqui homenagem aos que souberam e sabem ensinar a ler e a escrever, naquele modo que fica para a vida toda. São raros porque cada um é único. Tal como os bons livros.

Pinho Cardão disse...

Caro Eduardo Freitas:
Muito obrigado