Lembro-me deste assalto. Era uma criança e li o Primeiro de Janeiro do meu avô. Acompanhei ao pormenor todas as peripécias deste assalto. Quase que posso afirmar, com muita precisão, que, com este assalto, iniciei as minhas leituras jornalísticas. O assalto ao comboio correio corresponde ao nascimento do meu interesse e iniciação com os jornais. Até discutia com os meus avós. "Antes e depois do assalto". Quem diria que um dia teria de agradecer ao "bandido" que hoje morreu. Pois bem, aqui fica o meu "agradecimento". Que repouse em paz. Estranho, não é? Aparentemente, aparentemente...
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quarta-feira, 18 de dezembro de 2013
Sorrisos no barro
No domingo passado havia uma pequena feira em frente ao Convento de Mafra, eram meia dúzia de casinhas de madeira todas dedicadas ao artesanato ou à venda de produtos da terra, pão, bolos, mel. Demorámos-nos a ver pequenas maravilhas ou coisas encantadoras pela sua simplicidade, que nos fazem recuar no tempo, bibelôs do tempo dos nossos avós, rendas e naperons tecidos em linha grossa, vendidos por mulheres de mãos ásperas e sorriso largo, para todos os objectos uma utilidade à vista, nem que seja a de matar o tempo nas horas mortas, que horas vazias de trabalho aquelas mulheres parecem não saber o que seja. Uma das vendas era só de peças de barro, sobretudo presépios, ia passar por alto mas houve qualquer coisa de estranho que me chamou a atenção, aproximei-me dos bonecos, eram toscos e ao mesmo tempo fantásticos, impossível sair dali, um e outro pareciam chamar, conversar connosco, estava eu ali intrigada com aquele sortilégio sem o entender até que a jovem artesã, aí dos seus trinta anos, saíu do canto onde cinzelava uma nova peça e, limpando as mãos ao avental, disse-me, já viu que todos os meus bonecos estão a rir-se? Faço questão nisso, não há nenhum que não esteja a rir-se, faço sobretudo presépios e santos, veja esta Rainha Santa Isabel, ou esta Nossa Senhora do Ó, faço também o que me encomendarem, até já fiz um Luis de Camões e vendi-o logo, estava a sorrir, claro, a esse não fiz riso a mostrar os dentes mas tinha um ar feliz, mesmo assim.
Acabámos as duas a rir a bom rir, ela a apresentar-me boneco atrás de boneco, era contagioso, irresistível, a Cláudia sabia mesmo puxar a alegria do barro, colava-lhes a boca como toque final, pintava de vermelho, os dentes brancos e aí estava, o riso aberto, os olhos arregalados, nas figuras femininas umas pestanas espetadas, não eram cómicos, nada disso, eram desconcertantes e simplesmente encantadores. O Santo António a atirar o Menino ao ar, como se tivesse sido apanhado assim na brincadeira foi logo o meu preferido, mas também trouxe uma Nossa Senhora grávida, daí o Ó, envolta num manto e o sorriso aberto e doce, e um anjo esparvoado, de grandes asas, a rir-se, com uma estrela a arrastar pelo chão. Vim contente daquela feira, com alguns sorrisos guardados, para os dar pelo Natal.
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
"Mal maior"...
A manhã despertou chuvosa e triste. Abalei. Senti desconforto durante a viagem. Veio-me à memória relatos e descrições de tragédias e de sofrimento humano. O momento presente está cheio desses acontecimentos e o passado recente também. Acabei por concluir que durante a minha vida ocorreram muitas situações que não abonam em nada a favor do valor, do futuro e da natureza humana, e se juntar as que ocorreram no passado, então, fico com a certeza de que a nossa espécie é um falhanço da criação. Viver na esperança de que um dia tudo pode mudar é uma perfeita ilusão que ajuda a viver e a enganar a força centrípeta da morte.
Comecei a trabalhar. Os sons da rua obrigaram-me a olhar através da janela e vi que chovia com tristeza, chuva de dor. Confesso que prefiro ver chover com raiva, mesmo que isso provoque algum temor. Leio as notícias e fico sem saber o que dizer. Deixei de pensar, refugiei-me na solidão e olhei para a chuva que morria no chão. Ouvi o chorar da chuva e o gritar da água quando a pisavam. Até a água grita. Eu vi. Um olhar tão cinzento. O cantar da chuva era tão lento. Não sei se era canto ou lamento, só sei que fiquei a ouvi-la durante um breve momento.
O dia continuou, e a tortura da manhã perdurou. Bem tentei esconjurar os pesadelos, quase que consegui, mas, depois, emergiu a dor de um outro ser humano e todas as minhas preocupações se desvaneceram perante um mais episódio.
A senhora, com traços eslavos, e falando corretamente o português, explicou-me, perante a minha pergunta sacramental se estava bem de saúde, que não. Vi que hesitou um pouco. - Não? - Não. Perdi o meu filho de 24 anos há quatro meses. Engoli em seco. Ia perguntar-lhe se tinha sido de acidente, quando a eslava se antecipou dizendo: - Teve um tumor maligno, um sarcoma abdominal. Depois, deixei-a tentar esvaziar a sua dor. Explicou-me os duros pormenores da doença. Não a interrompi. A breve trecho tentei desviar a conversa, perguntando-lhe se tinha mais filhos na expectativa de a obrigar a falar sobre eles. - Não. Só tinha aquele. Engoli novamente em seco. Perguntei-lhe há quantos anos estava em Portugal. Cerca de doze ou catorze, não me recordo bem. E o seu marido, o que é que faz? - Morreu de acidente há catorze anos. Olhei para a senhora e fiquei esmagado com tamanhas tragédias. Já não consegui engolir em seco. Tem família em Portugal, uma irmã.
O seu sofrimento era evidente, mas a sua força de viver impressionou-me ainda mais, porque apesar de ser bastante mais nova do que eu, possuía uma garra e um desejo de ir à luta que me fez pensar sobre a chuva da dor, sobre a tristeza de um dia que tinha nascido e crescido cinzento, sobre os meus pensamentos e reflexões, sobre as minhas queixas, sobre as minhas apreensões, oferecendo-me com a sua atitude, e sons parecidos com os nossos, uma lição de vida que nunca mais posso esquecer. Há quem sofra de verdadeiros males e que, mesmo assim, consegue ajudar quem menos precisa.
No final, levantou-se e, com um belo sorriso nos lábios, desejou-me um Feliz Natal.
Quando é manifesta a dificuldade em entender que o País optou por viver sob o império da lei...
Relata a imprensa que o senhor Primeiro Ministro disse hoje, em Amarante, que "se nós andarmos todos os anos a sofrer um desgaste imenso por querer reduzir a despesa, porque ela tem de ser reduzida, e depois temos obstáculos de natureza constitucional que não o permitem, isso não dá uma perspetiva positiva de futuro para a economia portuguesa".
Percebo o sentimento de Pedro Passos Coelho. Mas não o posso aceitar, muito menos no quadro de uma estratégia de condicionar o Tribunal Constitucional. Se essa é a intenção do Governo, incorre num erro político do tamanho de um comboio. Julgar que os juízes conselheiros são (im)pressionáveis com afirmações destas, revela, antes de mais, uma surpreendente ingenuidade a par de uma estranha ignorância sobre os princípios que nos governam. Mais: esta afirmação do PM acaba por ser uma quase confissão de inconstitucionalidade das medidas que promoveu, pois só a consciência da desconformidade das normas com a Constituição é que permite ter a Lei Fundamental como "obstáculo".
Mesmo que se compreenda a dificílima missão de governar no caminho estreitado pelas condicionalidades externas, não deixa de espantar que o PM ainda não tenha percebido que os juízes do TC são investidos na função de colocar o obstáculo, não de o remover. É assim num Estado que há muito fez a opção largamente maioritária de viver sob o império da lei, e não sob o império da economia.
A interminável crise do Euro...
1. A confiança dos investidores alemães, avaliada pelo conhecido índice ZEW, que agrega expectativas de empresários e de analistas, subiu em Dezembro para o nível mais elevado em mais de 7 anos, reforçando as expectativas de uma retoma da actividade na zona Euro – é hoje notícia.
2. Vendas de automóveis na zona Euro cresceram em Novembro pelo 3º mês consecutivo (+0,9% em termos homólogos) depois de subidas de 5,5% em Setembro e de 4,6% em Outubro – é tb hoje notícia.
3. Em Portugal as vendas de automóveis cresceram mais de 24% em Novembro, em termos homólogos, e em termos acumulados até Novembro o crescimento foi de 8,8% - foi notícia há poucos dias.
4. As taxas de juro da dívida pública espanhola, implícitas na cotação das obrigações com prazo de 2 e de 5 anos (yields), situam-se nos níveis mais baixos desde 2009 e 2005, respectivamente, reflectindo uma crescente confiança na recuperação da economia e na superação da crise que afectou o sector bancário – foi notícia na semana passada.
5. Por cá continuamos a ser diariamente ou quase brindados por um discurso tremendista, em torno da estafada crise do Euro e das suas terríveis consequências para a vida dos Povos e para a enfermidade das economias...
6. ...discurso de crise sustentado nas mais sólidas análises político-socio-filosófico-económicas, elaboradas em insuspeitos observatórios coimbrões e não só, que apontam justamente o dedo aos malefícios das políticas neo-liberais em má hora adoptadas por uma Europa mergulhada em profunda crise de identidade, incapaz de reconhecer as vantagens da insolvência financeira e os méritos do repúdio da dívida...
7. ...discurso que encontra o mais amplo eco nos excelentes órgãos de comunicação, incluindo aqueles que temos o privilégio de pagar com os nossos impostos...
8. Como dizia V.P.V. na edição do Público do último Domingo, “Que Deus nos dê paciência”...entre outras coisas, para continuar a aturar esta conversa estafada da crise interminável do Euro...
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
Desespero
Noto uma onda de desespero, vejo nuvens aterradoras, negras, pesadas, sinto a força de um vento destruidor, cruzo-me com almas sem alento e sem esperança e toco em corpos febris tremendo de frio e nem sei se de fome também. O mundo que me cerca está diferente, vazio de alegria e esfomeado de justiça e de dignidade. A natureza humana, a selvagem, a destruidora, consegue vencer os defensores da igualdade e da liberdade, que, humilhados, olham silenciosos uns para os outros sem compreender muito bem o que está a acontecer. O mundo regrediu, os valores e princípios filhos de revoluções libertadoras foram apagados. O mundo rege-se por uma velha ordem que pensavam ter sido destruída. Não, não foi, apenas hibernou e, agora, regressa com força, com violência, com raiva impondo os seus desejos e ignorando os direitos e valores daquilo que se poderia esperar da dignidade humana. O mundo vai ter que mudar em breve. Como? Da maneira habitual, à força, à bruta, com a violência libertadora, com a única arma que lhe resta para fazer afronta ao comportamento ameaçador e destruidor de forças primitivas. Esperar por soluções "civilizadas"? Impossível. Essas soluções constituem o garante da sobrevivência do "ancien régime", que regressou das profundezas do Hades com uma força que nunca teve nos seus velhos tempos. Solução drástica? Talvez. Comportamento pessimista? Talvez. Exagero de apreciação? Talvez. Pode ser tudo isso, mas o mundo "civilizado" em que vivemos tem de ser morto, digo morto e não apagado, e mesmo assim tenho receio da sua capacidade para ressuscitar novamente no eterno retorno de vida e morte. Por mim, não me importo de regressar às véspera de um qualquer "1789". Se for preciso, porque não? Mesmo que isso custe sofrimento ou mesmo a vida é sempre preferível do que viver neste teatro de faz-de-conta, onde a honra, a lealdade, o respeito e a dignidade humana deixaram de ter significado ou valor.
Viver assim cansa, e é fonte de desespero.
Santa Comba Dão, sábado.
14.12.2013
Onde estão os medicamentos...
Comprar medicamentos genéricos está a ficar cada vez mais difícil para os portugueses. Não sei se é uma questão de legislação, regulação e/ou fiscalização, o que sei é que não se compreende que as farmácias não disponham dos medicamentos que são procurados por quem deles necessita.
Há três semanas atrás, depois de ter passado três horas e meia de uma tarde de Sábado com a minha Mãe numa urgência de um hospital, percorri mais de uma dezena de farmácias de serviço na zona central de Lisboa sem ter conseguido aviar os medicamentos prescritos pelos médicos. Medicamentos para tratar uma gripe em fase muito avançada e que precisava de ser imediatamente atacada.
Não tinham nem genéricos nem substitutivos, não era uma questão de preço, tinham alguns medicamentos, mas não tinham outros, não tinham qualquer alternativa para satisfazer o pedido num curto período de tempo. Ruptura de sotcks foi a justificação mais vezes utilizada. É fim-de-semana, outra razão invocada.
Como podem as farmácias funcionar nestes termos? Que serviço público essencial é este que não responde a necessidades básicas? Fico a pensar nos doentes que não tem mobilidade, que vivem em zonas com uma oferta limitada de farmácias, ou nos doentes com doenças graves que não podem esperar pela toma de um medicamento. Se as farmácias não fornecem os medicamentos qual é a alternativa? Só quem passa por elas é que se apercebe do que se está a passar...
Como podem as farmácias funcionar nestes termos? Que serviço público essencial é este que não responde a necessidades básicas? Fico a pensar nos doentes que não tem mobilidade, que vivem em zonas com uma oferta limitada de farmácias, ou nos doentes com doenças graves que não podem esperar pela toma de um medicamento. Se as farmácias não fornecem os medicamentos qual é a alternativa? Só quem passa por elas é que se apercebe do que se está a passar...
domingo, 15 de dezembro de 2013
"Caloteiros"...
O almoço do domingo está a transformar-se num ritual sacralizado. O lugar parece ser um templo pagão em que a necessidade de satisfazer o estômago sucede ou precede qualquer tipo de culto de alma.
Sentei-me numa das habituais mesas, de preferência a um canto a partir do qual consigo ver tudo e ouvir conversas interessantes. Logo de entrada, e enquanto estava a encomendar, nem sei para quê, a rotina já é conhecida dos donos, a vizinha da frente atende o telemóvel. Numa voz mais do que alta, mais típica de quem grita do alto de um outeiro, responde: - Sou eu, sim. Estou em Portugal! Há pouco não atendi, porque estava no meio da missa. Fiquei a saber que estava em Portugal. O dono do estabelecimento, baixinho, explicou-me que ela e o marido tinham acabado de chegar de França. - Ah, pois! Compreendo perfeitamente. Não liguei mais à conversa, só fiquei na dúvida se o seu aparelho terá "gritado" ou não no meio do ato litúrgico. Pelo andar da carruagem presumo que terá ficado indiferente, e entre um pai-nosso ou uma ave-maria, e quem sabe se uma palavra mais vicentina entre-dentes, deverá ter continuado na sua devoção.
Entretanto, estava a começar a comer a habitual canja, quando na televisão, com imagens a preto e branco, devido ao sucesso da implantação da TDT, o locutor descrevia o funeral de Mandela. Os meus parceiros da mesa ao lado pararam de comer por brevíssimos instantes, até que um deles rematou: - Só agora? Já morreu há tantos dias! O que estava a seu lado comentou ato contínuo: - Foi para terem tempo para lhe tirar os órgãos! - Ah! Talvez. Disse o primeiro, enquanto mergulhava com denodo na apetitosa chanfana. O "francês" irrompeu do seu silêncio e, com uma sabedoria transnacional, pôs-se a divagar sobre a figura sul-africana, explicando as razões do funeral, à medida de sonoros arrotos.
As conversas continuavam, cruzadas, como convém nestas circunstâncias, em que se fala de mesa para mesa, mesmo para a mais distante. Na parte final, restavam cinco pessoas, eu e a minha mulher e três homens, dois já com alguma idade e um mais novo. Um dos velhotes, a propósito de uma pessoa que veio à baila, intrometeu-se e contou a história de uma letra que teve de pagar por causa dele. Tinha ficado como fiador e por falta de cumprimento do pagamento ficou a arder. - Esse sacana lixou-me bem lixado. Tive que pagar e até hoje nem um escudo me pagou. A partir daí nunca mais emprestei dinheiro a ninguém. A tristeza era evidente e emborcou um valente copo de vinho, talvez para molhar a boca seca de raiva. O outro velhote, que estava na mesa ao lado acompanhado de um jovem, começou, com uma lentidão surpreendente, olhando para o teto, como se estivesse a soletrar: - Eu também tenho uma boa sementeira por aí. Dez, vinte, trinta, quarenta. De repente acelerou e num tom de voz mais alto: - Cento e cinquenta euros! Aquele filho da puta, e enunciou de imediato o seu nome, deve-me cento e cinquenta euros desde o ano passado. Cabrão. Se um dia destes o apanhar a jeito encosto-lhe o trator, ai encosto, encosto. O velho camponês, do outro lado, numa voz monocórdica e disártrica, recomendou-lhe para não fazer isso, seria um disparate. Foi então que o mais novo se intrometeu e aconselhou que quando emprestasse dinheiro a alguém que o escrevesse numa folha de papel ou numa caderneta. - Vossemecê devia apontar numa folha ou numa caderneta, porque se não o fizer, já sabe o que acontece, passa um dia, passa a romaria. Em seguida foram denunciadas muitas pessoas, conhecidas pelas suas alcunhas, mais do que os seus nomes cristãos e o espaço encheu-se de histórias de caloteiros até dizer basta. O estabelecimento estava praticamente vazio e o facto de estar presente conjuntamente com a minha mulher não os incomodou ou intimidou. Já nos conhecem e consideram-nos como cúmplices silenciosos das conversas mais delicadas, em que abundam as queixas, as falcatruas, as vigarices e a eterna ausência de carácter que reinam por aquelas bandas. Não podemos esquecer que dez, vinte, quarenta e, sobretudo, cento e cinquenta euros são quantias apreciáveis para quem vive de pequenas reformas ou daquilo que conseguem ainda arrancar da terra.
À despedida saudámo-los. Os dois velhotes responderam, gentilmente, esboçando velhas e nobres vénias.
O exemplo alemão
Aí está a grande coligação entre os dois maiores partidos alemães (ou dos três, se incluirmos o CSU da Baviera, partido irmão da CDU), que se puseram de acordo para governar a Alemanha durante os próximos 4 anos. Negociações demoradas, em que cada qual cedeu um pouco, em prol da governabilidade e progresso do país. Coligação aprovada por 75% dos militantes social-democratas, consultados em referendo para o efeito.
Por cá, os barões e baronetes dos partidos, ávidos de poder pessoal e para quem o povo nada conta, o que fazem é cavar diferenças, aumentar hostilidades, inventar, a cada dia, novos pontos de confronto.
Na Alemanha, e mais uma vez, os grandes partidos puseram o povo à frente dos seus interesses egoístas; em Portugal, sempre e todos os dias, coloca-se o interesse partidário à frente do bem do povo.
Também por isso, ou muito por isso, a Alemanha é o que é e nós somos o que somos. Seguramente!
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
Crescimentistas em onda de optimismo ou..."en retraite"?
1. Os simpáticos e sempre afáveis Crescimentistas (modalidade soft), anunciaram ontem uma posição de inesperado optimismo: pretendem que Portugal saia do Programa de Assistência Financeira (em que por gentileza nos meteram, convém recordar) sem recurso a um “segundo resgate” nem, tampouco, um “programa cautelar”...ou ”à Irlandesa”, como agora se diz...
2. Regista-se esta súbita mudança de estado de espírito no discurso Crescimentista, tão inesperada quanto auspiciosa; e não deixa de ser curioso verificar que esta mudança ocorre quase em simultâneo com a informação esta manhã divulgada pelo Eurostat segundo a qual Portugal terá sido o País da Europa com melhor registo, em termos de criação de emprego, no 3º trimestre de 2013, um crescimento de 1,2% (já no 2º trimestre havia sido registado um crescimento de 0,8%).
3. Quem sabe se esta saudável mudança no estado de espírito não terá sido influenciada pelo conhecimento antecipado desta notícia bem como pelas outras que vão dando nota de uma retoma, moderada mas consistente, da actividade económica?
4. Resta saber, quanto a esta proposta de saída do Programa de Assistência na modalidade “à Irlandesa”, como é que os amáveis Crescimentistas a tencionam fundamentar, sendo certo que as suas receitas de política apontam, invariavelmente, no sentido de mais despesa pública e de menos receita fiscal...
5. É possível – temos sempre de dar o benefício da dúvida – que tenham encontrado uma fórmula mágica para oferecer ao país e convencer os credores internacionais, mas a verdade é que existe um risco elevado de, com o seu “track record” e aquele tipo de receitas, uma saída “à Irlandesa” vir a transformar-se rapidamente em “negócio furado”, atirando-nos de novo para uma sessão de austeridade com todos os contornos de um enorme pesadelo...
6. Aguardemos pois uma clarificação destas propostas, não sendo de excluir que estejamos em face de uma bem pensada estratégia de “retraite”, um reconhecimento implícito (explícito, nunca) de que as políticas neo-liberais não serão assim tão maléficas quanto têm sido pintadas – tanto, que até poderão permitir-nos sair do desconchavo financeiro para que um keynesianismo saloio nos atirou...
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
Hoje...e há 600 anos!...
O governo do Estado deve basear-se nas quatro virtudes cardeais e, sob esse ponto de vista, a situação de Portugal não é satisfatória. A força reside em parte na população; é pois preciso evitar o despovoamento, diminuindo os tributos que pesam sobre o povo. Impõem-se medidas que travem a diminuição do número de cavalos e de armas. É preciso assegurar um salário fixo e decente aos coudéis, a fim de se evitarem os abusos que eles cometem para assegurar a sua subsistência. É necessário igualmente diminuir o número de dias de trabalho gratuito que o povo tem de assegurar, e agir de tal forma que o reino se abasteça suficientemente de víveres e de armas; uma viagem de inspeção, atenta a estes aspetos, deveria na realidade fazer-se de dois em dois anos. A justiça só parece reinar em Portugal no coração do Rei [D. João I] e de D. Duarte; e dá ideia que de lá não sai, porque se assim não fosse aqueles que têm por encargo administrá-la comportar-se-iam mais honestamente. A justiça deve dar a cada qual aquilo que lhe é devido, e dar-lho sem delonga. É principalmente deste último ponto de vista que as coisas deixam a desejar: o grande mal está na lentidão da justiça. Enfim, um dos erros que lesam a prudência é o número exagerado das pessoas que fazem parte da casa do Rei e da dos príncipes. De onde decorrem as despesas exageradas que recaem sobre o povo, sob a forma de impostos e de requisições de animais. Acresce que toda a gente ambiciona viver na Corte,sem outra forma de ofício.
Carta enviada de Bruges, pelo Infante D. Pedro a D. Duarte, em 1426, resumo feito por Robert Ricard e constante do seu estudo «L'Infant D.Pedro de Portugal et "O Livro da Virtuosa Bemfeitoria"», in Bulletin des Études Portugaises, do Institut Français au Portugal, Nova série, tomo XVII.
Carta enviada de Bruges, pelo Infante D. Pedro a D. Duarte, em 1426, resumo feito por Robert Ricard e constante do seu estudo «L'Infant D.Pedro de Portugal et "O Livro da Virtuosa Bemfeitoria"», in Bulletin des Études Portugaises, do Institut Français au Portugal, Nova série, tomo XVII.
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
"Tragédia"...
Conhecia-o bem, e desde há muito. Uma figura que ganhou carisma e que enriqueceu o ambiente humano de uma pequena terra. A forma do corpo, a maneira de andar, o estilo pachorrento e a afabilidade com que tratava o próximo constituíam a sua imagem de marca. Habituei-me à sua presença, ao seu andar, ao seu falar e ao seu cumprimentar. Fazia parte de um ambiente que o moldou e que acabou por o moldar. Andavam de braço dado, não se distinguiam. Há ambientes que só adquirem vida com a presença de determinadas personalidades, nem sempre são as mais letradas ou convencidas do seu valor que são a alma de um povoado. Recordo-me de um dia de tragédia ocorrida na vila e que ceifou a vida de uma menina. Os restantes sobreviveram, felizmente, mas foram parar ao velho hospital da Universidade. Estava de serviço às urgências. Entrou o jovem, cuja forma de corpo, maneira de andar, estilo pachorrento e afabilidade no trato, que um dia iria marcar a sua terra, me caiu nos braços. Examinei-o. As lesões mais graves eram a da alma, mais dolorosas do que as do corpo. Nunca me esqueci desse episódio. Hoje recordo esse momento, não com saudade mas por estar associado à morte, a uma tragédia que ceifou a vida de uma menina e que poupou a de outros. Depois a vida refez-se. Há uma tendência brutal para a normalidade ou qualquer coisa parecida. Vi-o inúmeras vezes. Partilhei alguns momentos com ele, sobretudo à mesa, o melhor sítio para conhecer o próximo. Há algum tempo vi algo que não me agradou. Senti que havia qualquer coisa que não batia certo. Comentei: - Deve estar muito doente. Depois, passado um tempo, recebi a notícia. Incomodou-me. Incomoda-me saber o mal que atinge as pessoas. Incomoda-me, e muito. Previ o que iria acontecer. É muito fácil profetizar nestes casos. Demasiado fácil e intensamente doloroso. Incomoda-me, e muito. Prefiro não ver e nem ouvir, mas é impossível. Calo-me em certas circunstâncias. Tenho de me defender. Não serve para nada, a não ser para me inquietar e dar um outro significado à existência. A ameaça da morte dói, faz-me sofrer e acabo por desorientar-me. Fujo de certo tipo de conversas, mas é impossível. Naquela noite disseram-me: - Senhor Doutor, amanhã há cozido portuguesa. - Cozido à portuguesa? Ótimo. Adoro. - Sabe porquê? Perguntei naturalmente a razão. Disseram-me que era para satisfazer um desejo de alguém que sempre vi como uma típica forma de corpo, uma curiosa maneira de andar, detentor de um estilo pachorrento e ator de uma rara afabilidade no trato. Fiquei sem apetite. Fiquei sem vontade de comer cozido à portuguesa. Calei-me. Não disse nada. Tinha-me comprometido em comer cozido à portuguesa. No dia seguinte vi-o. Cumprimentei-o de forma suave. Ele sentou-se na mesa com os seus comparsas. A rugosidade da pele macilenta e o amarelo térreo, a denunciar a cama argilosa de um futuro imediato, perturbaram-me. Comi o mesmo cozido à portuguesa, feito exclusivamente para si. Soube-me bem. O apetite que tinha perdido na véspera agigantou-se naquele momento. Tenho dúvidas de que tenha sentido o mesmo. Saí. Ele ficou. À noite disseram-me que tinha sido novamente hospitalizado. Depois ia ouvindo relatos sobre o seu estado. Ouvia em silêncio. Não consigo verbalizar nestas circunstâncias. Sinto uma estranha dor, uma dor da vida, uma dor que me incomoda, uma dor que não consigo habituar-me. Hoje, telefonaram-me, a chorar, a comunicar que tinha sido expulso deste estranho paraíso em que vivemos, ou fingimos que vivemos. E agora? Onde vou ver aquela forma de corpo, aquela maneira de andar, aquele estilo pachorrento e a deliciosa afabilidade no trato? Onde? Pergunto. Não sei.
Pensões, "condição de recursos", justiça social, austeridade, despesa pública e PIB...
Não raras vezes tenho verificado que
se escreve e se fala do financiamento da segurança social sem ter em conta que
existem dois modelos de financiamento distintos dependendo dos sistemas de que
estamos a falar. Pensões é uma coisa, rendimento social de inserção é outra. O
quadro procura mostrar as diferenças.
O sistema previdencial – tem uma
função de seguro social, inclui as pensões e o subsídio de desemprego, por
exemplo - é financiado pelas contribuições dos trabalhadores e das empresas e
são estas contribuições, que de acordo com o modelo que está em vigor, devem
financiar as pensões em pagamento. O nível das prestações deve ser obtido em função
da regra do esforço contributivo. Quem mais contribui, mais recebe. A despesa
social associada ascende em 2013 a 15,8 mil milhões de euros.
O sistema de protecção social de cidadania
– tem uma função redistributiva, inclui prestações como o abono de família e o
rendimento social de inserção - é financiado pelos impostos. As prestações
devem ser atribuídas tendo em conta a situação económica dos beneficiários.
Este sistema tem por objectivo garantir direitos básicos e o bem-estar das
pessoas e deve por isso ter em conta a situação de carência económica. A sua
aferição deve ser feita mediante a verificação de uma “condição de recursos”,
isto é, de um limite máximo do rendimento/património até ao qual os
beneficiários têm direito às prestações. A despesa social associada ascende em
2013 a 6,5 mil milhões de euros.
Ora, acontece que a condição de
recursos não está generalizada a todas as prestações do Sistema de Protecção
Social de Cidadania, sistema financiado pelos impostos.
Estando as medidas de austeridade concentradas nos cortes de salários e de pensões - inclusive, a aplicação de uma condição de recursos, assim classificada, para cortar nas pensões de sobrevivência dos regimes contributivos - não se compreende
que determinadas prestações sociais do regime não contributivo continuem a ser atribuídas sem cuidar de exigir uma prova de
condição de recursos.
Por falar em pensões, é de salientar o caso dos
complementos sociais atribuídos a mais de um milhão de pensionistas para
garantir pensões mínimas não sujeitos a condição de recursos.
Em 2013 foram pagos 2 mil
milhões de euros em complementos sociais. Estudos (Miguel Gouveia e Carlos Farinha Rodrigues, 2003) apontam para que 68%
dos pensionistas que auferem estas prestações sociais pertencerem a agregados
familiares que não são pobres, o que significa que uma parte significativa
desta despesa da segurança social não seria devida se a estas prestações fosse aplicado
o critério da condição de recursos.
Acresce que estas pensões
têm vindo a ser actualizadas, enquanto a actualização da maioria das prestações
sociais sujeitas a condição de recursos está congelada desde 2010, assim como as pensões baixas dos regimes contributivos.
Numas contas rápidas e
conservadoras, a aplicação do critério da condição de recursos às pensões
sociais poderia libertar, tendo em conta os referidos estudos, mais de mil milhões de euros, o correspondente a 0,6% do
PIB. Dá que pensar...
Situação e perspectivas económicas melhoram, ou será que a realidade está errada?
1. O BdeP divulgou hoje o seu Boletim Económico de Inverno, com melhorias da actividade económica tanto na estimativa para 2013 como sobretudo nas projecções para 2014 e 2015.
2. Para 2013, a estimativa continua a ser de queda do PIB, mas revista em baixa, de -2% na versão do Verão e de -1,6% na versão do Outono, para -1,5% agora.
3. Para 2014 a projecção é agora de um crescimento do PIB de 0,8% - em linha aliás com as previsões mais recentes do FMI - enquanto na projecção anterior (do Verão) se limitava a 0,3%.
4. Mais expressivamente, são avançados significativos superavits para as contas com o exterior, não obstante a retoma prevista da procura interna (cujo contributo para o crescimento do PIB passa a ser positivo de 2014 em diante) – o saldo conjunto das Balanças Corrente e de Capital deverá atingir 2,5% do PIB em 2013 e 3,8% em 2014, enquanto que o saldo das Balanças de Bens e de Serviços chegará a 1,7% do PIB em 2013 e a 2,7% em 2014.
5. Olha-se para estas estimativas e projecções e fica-se incrédulo: então vai ser (vai sendo) mesmo possível, com sujeição a políticas neo-liberais, a economia portuguesa recuperar do atoleiro em que foi deixada pelas políticas parvo-keynesianas que a conduziram até á fronteira da insolvência?
6. Convém recordar, neste ponto, que a economia começou a afundar – com quedas trimestrais sucessivas do nível de actividade - a partir do 2º trimestre de 2010, praticamente no auge das políticas parvo-keynesianas, e que a recuperação foi encetada no 2º trimestre de 2013, em pleno domínio das políticas neo-liberais...
7. Pior ainda, esta recuperação, iniciada no 1º semestre de 2013, promete continuar e mesmo intensificar-se em 2014 e seguintes!...
8. Tudo isto está em total desacerto com o discurso ainda largamente dominante neste País, segundo o qual, com políticas neo-liberais como aquela que nos tem sido imposta pelos credores internacionais e pelos especuladores do mercado de capitais, a economia só tem um caminho: uma recessão cada vez mais profunda (“em espiral”, diz-se a cada passo), o País e os Portugueses cada vez mais pobres...
9. Das duas, uma: ou está errado o discurso dominante ou está errada a realidade! Como o discurso dominante exprime uma verdade axiomática, indiscutível, forçoso é concluir que a realidade é que está errada!
A vez dos outros é cada vez mais cedo?
O rapaz era todo despachado, de uma simpatia franca e aquele entusiasmo a falar de quem sabe que tem a vida toda à frente e vários caminhos à sua escolha. Apesar de já ter um filho de poucos meses, contava que tinha pena de ter tão pouco tempo para o ver, entre o trabalho "na banca" e o estudo intenso para preparar a candidatura a um MBA. Falou com grande segurança das opções de "Business schools" que equacionava e cuja latitude era tão lata quanto Espanha, Fontainebleau, EUA e ainda outro qualquer do topo dos rankings dos melhores do mundo, talvez na Ásia, enfim, ia candidatar-se aos melhores, tentar a bolsa, conseguir uma licença no banco, não percebi onde é que a família entrava nisto tudo mas pareceu-me ouvir de raspão que era só um ou dois anos fora, nada de definitivo. Então e depois, volta para cá?, perguntei, habituada como estou a que isso do regresso é um enorme logo se vê. Ele hesitou e riu-se, a ideia é voltar com o MBA, sim, mas o problema é que agora nos bancos e nas empresas os lugares melhores estão ocupados pelos que têm 40 anos ou pouco mais, estão "agarrados" aos lugares por muitos anos, não largam, não se abre caminho aos mais novos e para ter alguma hipótese de progredir é preciso sair daqui.
Não sei o que esperam estes jovens encontrar "lá fora", suponho que a ânsia de reconhecimento lhes reserve alguns amargos de boca, mas desejo-lhe as maiores felicidades e que volte, com qualificações acrescidas e a capacidade de, quando finalmente chegar a vez dele, saiba dar o lugar "aos outros", consumidos que estejam os breves anos da sua juventude, mas o mais certo é a bitola ir sendo colocada mais adiante...
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
domingo, 8 de dezembro de 2013
Tolerância na boca, ódio no coracao
Os políticos e cidadãos que mais falam sobre Mandela e louvam a sua tolerância são, afinal, os que se revelam mais intolerantes. Basta ver o modo, para não dizer a atitude de ódio, com que os deputados se defrontam no Parlamento. A tolerância está sempre na ponta da língua, mas o ódio está latente no fundo do coração. No fim, pretendem fazer esconder a intolerância própria a custa do exemplo da tolerância alheia.
Seguramente ao contrário de Mandela, que tanto invocam, que acalmou ódios, uniu um povo e conseguiu progresso e paz.
Tudo ao contrário do que fazem em Portugal. Deviam ter vergonha de falar em Mandela.
Silêncio da natureza
Andei, andei e não vi ninguém. Fiquei ali durante alguns momentos no silêncio da natureza sem gente.
Nossa Senhora da Conceição
Nossa Senhora da Conceição que ofereci à minha neta mais nova no dia dos seus anos, quando fez dois anos. Ai quem lhe toque...
Fugi de casa para ver se apanhava o sol, corri até um dos meus lugares anónimos para ver se podia ganhar um pouco de confiança nesta vida tão desprezada e vazia de interesse. Ao chegar o sol já se tinha escondido atrás das casas e só o céu é que reverberava de luz, na terra começava a imperar a sombra e a indiferença. Regressei pelo mesmo caminho. Com o olhar conseguia perseguir a luz do sol, distante, tão distante que não me permitiria chegar a tempo de o beijar. Debaixo do braço levava dois livros. Os livros precisam de apanhar ar e sol. Também gostam, são como eu. Refugiei-me num confortável café. Não li os livros que estavam a dormir sobre a minha mesa, não quis perturbá-los. Li algumas notícias que, em vez de me tranquilizarem, acabaram por me inquietar. Tudo é previsível, a ponto de ficar nauseado. Comentários, citações, falta de originalidade, incorreções, deturpações, mentiras, conspirações, loucuras atrás de loucuras, e, vá lá, ao menos isso, sempre consigo encontrar a doce poesia. Leio-a, releio-a, gravo-a, deixo-me seduzir, tento esquecer qualquer incómodo e dou por mim a cerrar os olhos para poder recordar o belo e os seus satélites naturais. Lá fora deixei de ouvir os sons quentes da banda da filarmónica a querer aquecer e a substituir-se ao sol moribundo. A esta hora já devem ter levado a senhora para a sua capela. Esta noite não dormiu em casa, fez o seu passeio anual à matriz. Está sossegada na escuridão da capela. Prefere a sua deliciosa solidão, em que só as almas cantam, choram e rezam com fervor à poesia que circula no seu coração. É no silêncio da oração que se consegue ouvir o bater de tão delicioso coração. Poesia pura no dia da Nossa Senhora da Conceição.
"Doentes oncológicos sem dinheiro para comer"
Li a notícia, arrepiei-me. A noite ficou mais negra.
É altura de repensar o sistema. Continuar assim é cuspir sobre as almas. Não pode ser permitido cair na ignomínia. O país precisa de vida e não de morte. É impossível sonhar nesta tristeza. A miséria contrasta com a aberração da arrogância. A miséria corrói o corpo e destrói a alma. Não há sorrisos, há afrontas, não há alegria, há lágrimas, não há vontade de viver, há vontade de desaparecer. Não há palavras de amor, há palavras de dor.
País moribundo, país sem rumo, país desgraçado, país sem futuro, país de pobre gente...
Insondáveis critérios jornalisticos
Ontem, abri um canal de televisão e estava um telejornal a debitar as notícias do dia, da véspera e da antevéspera. Num intervalo Mandela, Cavaco Silva em Viseu. Imagens de uma manifestação de protesto contra o orçamento e contra as portagens das auto-estradas. Depois, umas perguntas sobre Mandela.
Fiquei informado:o Presidente deslocou-se a Viseu para animar uma manifestação e falar sobre Mandela.
A informação a que temos direito.
Fiquei informado:o Presidente deslocou-se a Viseu para animar uma manifestação e falar sobre Mandela.
A informação a que temos direito.
sábado, 7 de dezembro de 2013
"Nossa Senhora da Saúde"
Já passei vezes sem conta a seu lado. Já fui tentado vezes sem conta a parar e a entrar. Já fui convidado inúmeras vezes para ir no dia da sua romaria. Não parei, não entrei e nem festejei. Porquê? Não sei bem. Lembro-me de ter ido um dia, deveria ter oito anos, aquando da romaria. Fui, claro, tive que ir. A minha mãe fez uma promessa porque estive bastante doente. Como era o "objeto" da promessa, teve de mostrar à santa que estava bem e que já andava. Para testar que caminhava bem tive que galgar, debaixo de um sol enlouquecido, alguns quilómetros, o que para uma criança tem de ser multiplicado por dois ou por três vezes mais. Os adultos esquecem-se sempre do tamanho das pernas das crianças e nem sabem que não suportam o calor da mesma maneira, logo, o cansaço e a sede começaram a apertar, e de que maneira. Nessa tarde de início de setembro suei as estopinhas na peregrinação à Nossa Senhora da Saúde. A sede apertou-me e os adultos, quais camelos, esquecem-se das necessidades hídricas dos mais pequenos. Protestava com o calor, com a sede e com o pó que se libertava em ondas na estrada de macadame. Cheguei ao destino. Recordo-me de ver muita gente, altifalantes, arraial, copos, sandes, cheiro a vinho, mas água é que não, a que havia era apenas para lavar as canecas. Houve uma alma caridosa de uma casa ao lado da capela que me deu um púcaro de água fresca. Bebi de um trago, pelo menos duas vezes. Chamaram-me, tinha de ir à capela. Fui, agora mais reconfortado por não ter sede e porque já estava a ver alguns "viriatos" que vinham mesmo a calhar para matar a fome. - Entra, vamos. Entrei. Era uma confusão. Consegui chegar ao pé da santa que me curou, mas que, também, me obrigou a palmilhar uma légua e meia sob um sol escaldante e ter de suportar o martírio da sede. - Ajoelha-te. - Eu? - Sim! Claro. A mão caiu sobre o meu ombro e cumpri a ordem. O raio do chão fez-me doer os joelhos nus. Estive naquela posição incómoda durante algum tempo. Lembrei-me que tinha de regressar e isso assustou-me. A minha mãe nunca mais acabava de rezar e eu naquela posição a olhar para a santa, a pensar no regresso, na sede que tinha passado, na fome que já me atormentava, no cansaço que sentia e nas terríveis dores que começavam a martelar os joelhos. Quando acabou de rezar, levantei-me e ainda ouvi um responso: - Não te benzes? - Quem? Eu? - Sim, tu. Agradece à Nossa Senhora da Saúde que te livrou de tão grande mal. Como é que se agradece a uma santa, pensei. Como não sabia, benzi-me e saí para o arraial.
Hoje, vi-a. É uma imagem muito bela. Cheguei a estar, durante alguns momentos, praticamente sozinho na capela com o meu amigo deitado de costas, em paz consigo, com o mundo e com a santa. Levantei-me, fui até ao altar e observei-a com cuidado. Muito bela, de facto. Surpreendentemente bela. Passaram-se tantos anos desde que a conheci, foi pena ter de voltar a vê-la naquelas circunstâncias, preferiria tê-la visto num dia de calor, no meio da alegria de um arraial. Fica para a próxima vez. Não me vou esquecer.
Disse-lhe: - Está bem! Prometo que virei.
"Humanismo"...
Num dia particularmente especial, em que toda a gente fala da morte de uma grande individualidade, em que os comentários se sobrepõem uns aos outros, em que as expressões de condolência se misturam com elogios, encómios, reparos e honras capazes de o "divinizar", em que os mais ilustres e os mais desconhecidos exprimem as suas opiniões, regurgitam a sua dor ou mordem a sua raiva, acabei por me confrontar com um pequeno episódio.
Passaram-se muitos anos sobre a última vez que fui a São Martinho do Porto. Na viagem, de repente, guinei para a direita e esbarrei naquele belo local. Recordei esse momento com mais de trinta anos. Acontecimentos que adquiram vida apesar do tempo e da perda da memória. Calcorreei e esbarrei num monumento. Desconhecia quem era o médico. Acabei por saber quem era, in loco, graças às modernices informáticas. Perante o seu olhar fiquei a saber o que fez. Gostei do que li. O humanismo vibra em toda a parte, em muita gente, a maioria da qual é desconhecida. Hoje, fortuitamente, esbarrei numa memória que acabou por enriquecer a minha memória. De memória em memória vou vivendo até esquecer que existo.
Desenhei na minha memória com um traço negro de dor algumas imagens coloridas de esperança e de grandeza humana. Transcrevo do texto um pequeno comentário "...Contam-nos os mais velhos da nossa freguesia, que o Dr. Graça, quando chamado a tratar doentes cujas doenças eram fatais, muitas vezes se via este homem deixar cair do rosto algumas lágrimas por não poder fazer mais nada na defesa da vida dos seus doentes, que também eram seus amigos."
Olho para o seu busto, para o seu nome, para a data de nascimento, para a data da sua morte, para a data da homenagem e fui embora com a minha pobre memória enriquecida com a memória de alguém que, desconhecido para a maioria de nós, e para a quase totalidade do mundo, foi um exemplo do toque do divino. Uns são homenageados à escala mundial e outros à minúscula escala local. No entanto, não são muito diferentes em termos de humanismo, aquela bela forma de viver que não se pesa, que não se mede, apenas se cultiva e se ama.
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
Decisões sobre pensões: sustentáveis?
Relatórios
de Sustentabilidade Financeira da Segurança Social
Projecções
dos
saldos do Sistema Previdencial em % do PIB
(Fonte: OE)
- clicar em cima da imagem para ver melhor -
Volta a estar em cima da mesa a questão da sustentabilidade dos sistemas públicos de pensões.
O corte de 10% nas pensões dos ex-funcionários públicos e o aumento da idade de
reforma, para destacar as decisões recentes mais polémicas - não apenas de um
ponto de vista político e do direito mas pelo que representam na vida concreta
das pessoas - têm estado no centro do argumento da necessidade de dar
sustentabilidade aos sistemas públicos de pensões – CGA e Segurança Social.
É
inegável que se têm vindo a adensar os desequilíbrios financeiros dos sistemas
públicos de pensões. O gráfico mostra-nos como foi sendo projectada nos
Orçamentos do Estado, desde 2007 até 2014, a conta do sistema previdencial da
Segurança Social.
Constata-se
que a “reforma” de 2007 teve efeitos estruturantes, adiando a ruptura
financeira e reduzindo no longo prazo o peso da despesa com pensões no PIB. Embora
sendo uma reforma paramétrica, as medidas tomadas ao nível do cálculo das
pensões, incluindo a consideração dos ganhos de esperança média de vida aos 65
anos, melhoraram as expectativas de sustentabilidade. Mas não resolveram o
problema de fundo. O sistema assenta em factores que tendo estado na sua origem
são hoje os que colocam dificuldades de sobrevivência à sua fórmula original: a
demografia e a economia.
Verifica-se,
também, de lá para cá, que os sucessivos Orçamentos do Estado foram alterando
as projecções no sentido da deterioração gradual da sustentabilidade e da
antecipação crescente das datas de ruptura financeira do sistema previdencial. Facto
que se explica pela utilização, e posterior correcção, de cenários económicos
que a realidade se foi encarregando de mostrar serem optimistas e irrealistas.
Perante
esta evolução - que não é uma novidade - é preciso agir, estudando e ponderando
a introdução de melhorias e novas soluções que permitam inverter no médio e
longo prazos um caminho de não retorno. É fundamental que nos estudos a fazer,
se distingam as causas e os efeitos da actual conjuntura de crise das tendências
demográficas e económicas de fundo que influenciam a evolução dos sistemas de
pensões.
É
preciso ter presente que as prestações da Segurança Social não foram atribuídas
com base em estudos actuariais de longo prazo e que a sua gestão foi sempre
feita numa óptica de caixa – se a economia e o emprego crescem aumentam-se os
benefícios – e não na lógica do longo prazo em que se cria um certo equilíbrio
intergeracional entre custos e benefícios.
É
fundamental que se avalie actuarialmente/financeiramente as responsabilidades
dos sistemas e os níveis de cobertura existentes para se poderem tomar
decisões.
Refere
o governo, no Relatório de Outubro que sustenta a decisão, que se não fosse
tomada a decisão do aumento a idade de reforma para 66 anos em 2014, não só o défice se mostra expressivo, como a
existência do primeiro ano deficitário seria antecipado já para 2015, levando a
recorrer ao FEFSS prematuramente com as consequências daí resultantes”.
O primeiro
défice, diz o Relatório é, com esta medida, adiado para 2020 como se pode ver no
gráfico: na projecção da curva traçada no Orçamento do Estado de 2014, ascenderá
a 640 milhões de euros, o equivalente a 0,4% do PIB.
Mas
a verdade é que a ruptura financeira já chegou, antecipada pela crise, pelo
efeito brutal do desemprego – decréscimo das contribuições (TSU) e aumento do
subsídio de desemprego e crescimento de pensões por via da maturidade do
sistema (mais pensionistas e pensões mais elevadas). Os défices financeiros do
sistema previdencial têm vindo a ser resolvidos através de transferências extraordinárias
do Orçamento do Estado que ascendem, entre 2012 e 2014, a 3,6 mil milhões de
euros. O governo optou por não recorrer ao Fundo de Estabilização Financeira da
Segurança Social e por financiar os défices com impostos. Mas os desequilíbrios
financeiros são mais antigos, datam, pelo menos, de 2009.
Este
quadro não pode deixar ninguém sossegado. Impõe-se saber como e quando vamos
atacar os problemas estruturais dos sistemas de pensões. A ruptura financeira
está à porta, o sistema tem dificuldades financeiras graves no longo prazo. No
curto prazo, que se está a transformar com o decorrer do tempo em médio prazo,
os desequilíbrios financeiros são financiados pelos impostos e cortes nas
pensões.
Sem economia não haverá pensões adequadas. Medir a despesa com pensões em percentagem do PIB quando não há crescimento económico piora naturalmente as expectativas. Mas se não formos capazes de repensar os sistemas públicos de pensões e de criar um quadro de incentivos que altere a filosofia de vida para a reforma as dificuldades tenderão a crescer assim como serão cada vez mais difíceis e penosos os custos de mudanças. Esta é uma daquelas áreas em que seguramente é necessário ter um plano. Mas um plano que tenha uma perspectiva global e integrada e tecnicamente suportada. Para quando?
Sem economia não haverá pensões adequadas. Medir a despesa com pensões em percentagem do PIB quando não há crescimento económico piora naturalmente as expectativas. Mas se não formos capazes de repensar os sistemas públicos de pensões e de criar um quadro de incentivos que altere a filosofia de vida para a reforma as dificuldades tenderão a crescer assim como serão cada vez mais difíceis e penosos os custos de mudanças. Esta é uma daquelas áreas em que seguramente é necessário ter um plano. Mas um plano que tenha uma perspectiva global e integrada e tecnicamente suportada. Para quando?
"Duas Rosas"...
Hoje, em Lisboa, no decurso de um delicioso almoço com uns amigos, recebo um telefonema. Um amigo do coração, e da razão, telefona-me a pedir autorização para publicar um texto meu, "Duas rosas". Não me lembrava do texto, mas disse logo que sim. Apreciei o gesto. Tudo o que escrevo é para ser lido. Cheguei a casa e fui ver o que é que tinha escrito. Foi no ano passado. Lembro-me do Félix, entretanto falecido na sequência de um acidente, uma queda. Lembro-me dele neste serão solitário. Confesso, sinto saudades dele. Um almoço, um telefonema, um texto e uma lembrança. Em suma, a vida é feita de pequenas associações. O que é que eu posso fazer? Reproduzir o texto, partilhá-lo e beber uma bebida à sua memória. É isso. Vou beber à sua memória.
À memória do Félix.
"Duas Rosas Vermelhas"...
Acabei, ao fim de algum tempo, por saber que teve um passado fermentado pela luxúria, recheado pela aventura e afogado no álcool. Acabou tudo, os primeiros pelo efeito do tempo e o último por vontade própria. Depois começou a perder peso de uma forma assustadora, muitos quilos, tantos, que o homem, já de si perturbado, não sei se pela vivência ou devido à sua estrutura, ficou ainda muito pior. E eu comecei a ficar igualmente. Pus-me a vasculhar pelos meandros do seu corpo para saber onde estaria o gato, mas, por mais voltas que desse, não encontrava nada. Pus a hipótese de que a falta das calorias do tinto seria o responsável, aliada a qualquer perturbação de cariz metabólico não detetável ou a alguma depressão mascarada. Como continuava a emagrecer, joguei, em doses baixas, com o efeito secundário de um medicamento, e, para minha satisfação, deixou de perder peso, começando, lentamente, a engordar. Semana após semana era evidente a alegria do senhor. Eu é que comecei a ficar novamente inquieto porque os quilos começavam a ser demasiado visíveis, insuflando-o em todas as latitudes. Paralelamente a uma boa disposição, também crescente, comecei a conhecer um pouco do seu passado. E que passado! Sempre que tentava abordar alguma das suas aventuras, um sorriso estafado, a lembrar o gato Félix, iluminava-lhe o rosto de uma forma encantadora. Já reparei que aquela forma de rir é muito comum nalgumas pessoas, capaz de seduzir outras, de saias, para ser mais preciso.
Posteriormente fez-se acompanhar da mulher, também doente, para que a consultasse. Faladora nata, ia debitando os seus males, ao mesmo tempo que se "queixava" da vida que o marido lhe dava. E ele sempre calado com o tal sorriso a querer alargar-se nas costas da mulher, quando esta dava a entender algumas das suas marotices. Nesses momentos olhava-o, mas sem grandes sinais de incómodo, parecia que já se tinha habituado. Inicialmente não aprofundei em demasia o assunto, mas sempre ia dando alguma corda para outros momentos, ao mesmo tempo que ganhava a confiança da senhora para que pudesse cumprir a terapêutica e alguns conselhos indispensáveis ao seu bem-estar e saúde.
Com o tempo, quem começou a contar as aventuras do carteiro foi a mulher. Primeiro em França, onde espanholas, francesas, nicaraguanas, e sei lá que mais outras nacionalidades, foram alvo de venturas e algumas desventuras. "Mas o pior não foi em França, senhor doutor". Ai não! Não, foi aqui perto, quando começou a exercer as atividades de carteiro. Não foi tanto assim, dizia o marido, mas era visível que estava comprometido, o sorriso atraiçoava-o. E a mulher contava histórias, uma após outra, enquanto o carteiro, agora reformado, ouvi-a com nítida sensação de regozijo, mas sempre mudo. Então o carteiro entregava cartas e mais alguma coisa, disse-lhe. Pois, o carteiro toca sempre duas vezes, ripostou, embora ficasse com a nítida sensação de que nunca tinha lido a obra de Neruda, cantava-a de ouvido. Mas o senhor não tocava só duas vezes, chegava a tocar cinco ou mais. O sorriso floria-lhe com uma satisfação dos diabos.
Então, ele tem-se portado bem, tem andado satisfeito, perguntei à mulher. Sim, anda pois, passa o dia sem fazer nada, não me aborrece, estou tão admirada que nem quero acreditar, senhor doutor. É verdade! Sabe o que me aconteceu? Não, diga. Não é que ao fim de 43 anos de casada o meu marido ofereceu-me duas rosas vermelhas no dia dos namorados? Olhe que nunca me deu nada em toda a minha vida, isto é, exceto as minhas duas filhas, mas rosas senhor doutor, nem rosas nem nada! Olhei para o gabiru, sentado tranquilamente à minha frente, e o tal sorriso, safado, sedutor, iluminou-se como nunca. E ela, muito orgulhosa e feliz, a que não era alheio a compensação do seu estado clínico e, também, do seu marido, irradiava uma felicidade tão sentida que me tocou. Ambos estão bem, de corpo e sobretudo de alma...
Palavras de sábio
"Num cenário de fragilização psicológica dos indivíduos, o perigo por vir reside menos na derrocada das democracias políticas do que na sua flagelação por minorias perigosas. Após a ditadura sangrenta do Estado totalitário, após a tirania suave do Estado excessivamente protetor, o tempo da escalada decetiva vê surgir a tirania das minorias ativistas" (Giles Lipovetsky, em resposta à pergunta de Bertrand Richard "... este indivíduo hipermoderno, desestabilizado, mal na sua pele, não anuncia um futuro muito divertido. Não haverá aí uma incontornável fonte de inquietudes para as democracias liberais?" - A Sociedade da Deceção, ed. 70, 2012, p. 88)
"Gazeta"...
Ser gazetário não faz parte dos meus hábitos, mas hoje fiquei convencido das suas propriedades. Não fazer nada por obrigação, ou por devoção, mas por inspiração de momento, desencadeada pela circunstância de velhos amigos irem almoçar juntos, levou-me até à capital. Desta vez não tive de ir ao beija-mão de qualquer coisa ligada com o poder. Hoje fui porque quis. Meti-me no comboio e fui almoçar, conviver, falar e passar o tempo de forma diferente. Rechearam-me de atenções e de cuidados coisas a que dou particular atenção. Tive a oportunidade de desfrutar uma viagem tranquila, sem sobressaltos, durante a qual saboreei algumas páginas de um excelente livro, e adormeci sob um agradável sol que, ao penetrar pela janela, aqueceu-me de uma maneira diferente. Pequenas histórias, alguns dizeres, comentários, reflexões ocasionais e o facto de conhecer pessoalmente velhos amigos, tornou o dia num reconfortante episódio que me ajudou a esquecer e a desvalorizar os denominados maus acontecimentos da existência. Foi uma verdadeira terapêutica social em que a amizade pontuou pela elegância e conforto. A natureza humana foi secundada pela outra, a mãe, que se vestiu de azul e de ouro, refrescando o ar com o brilho do seu olhar que, naquelas paragens, adquire algo de belo e de único. Lisboa tem uma das respirações mais límpidas que já vi até hoje, quase que não se sente e nem se vê a sua atmosfera, tamanho é o brilho que resplandece por todo o lado. O dia de hoje comprovou tão belo encanto. Singelas cortesias, belos comentários e sobretudo a sensação de ternura, que a amizade consegue transmitir através de pequenos gestos e cumplicidades de momento, encheram-me completamente. Ainda tive oportunidade de ver alguns apontamentos de arte dispersos em amplos pátios e que fazem jus à necessidade de contemplar a beleza. Fui também ver uma velha igreja, elegante, onde completei uma espécie de viagem ao redor de um grande homem. Curioso este acontecimento, inesperado, mas desejado sem dúvida. Uma espécie de dívida saldada num dia de gazeta. Provocou-me um certo alvoroço. Vou deixar que este apontamento sedimente para poder escrever de novo. Ainda vi o que não sabia que existia, mas é algo que profecia uma estranha sabedoria. Pequenas coisas, pequenos gestos, pequenas gentilezas, pequenas conversas, foram capazes de transformar um vulgar dia num dia que não se esquece. No fundo o que interessa e prevalece é a amizade. Vale a pena ter amigos.
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
CTT, sucessos e perguntas...
Não há dúvida que a privatização dos CTT foi bem sucedida de um ponto de vista do encaixe financeiro. Numa lógica de curto prazo a operação correspondeu aos objectivos do governo, a função financeira foi optimizada.
Mas o sucesso da privatização não se esgota aqui. Só o tempo dirá se a empresa CTT renovada em 70% do seu capital accionista será um bom negócio para o país, não esquecendo que presta um serviço com uma forte componente social.
Ocorrem-me, pelo menos, as seguintes perguntas para as quais ainda não são do domínio público as respostas:
Ocorrem-me, pelo menos, as seguintes perguntas para as quais ainda não são do domínio público as respostas:
- o que vai acontecer aos 30% do capital pertencente ao Estado.
- quem são os novos accionistas, são investidores de longo prazo (estratégicos?) ou são investidores especulativos.
- qual vai ser o quadro regulatório que o governo vai estabelecer para a prestação do serviço público essencial e universal que é o correio.
- como vai a empresa rendibilizar os activos de que dispõe.
Aguardemos, então, esperando que a optimização da função financeira não dificulte o futuro...
Ainda a troca de dívida: tarde parlamentar para esquecer...
1. Li alguns excertos (se tivesse assistido já não poderia escrever este Post, pois teria entrado em colapso físico e mental) do debate desta tarde na AR em que foram esgrimidos argumentos absolutamente confrangedores em torno desta decantada operação de troca de dívida...
2. A começar nos inevitáveis PC e PEV – aos quais os nossos media, incluindo os que pagamos, não poderão, por imperativo patriótico, deixar de prestar total atenção – com a estafada tese de que a renegociação da dívida será a única forma de honrar os nossos compromissos...
3. ...proposta que, adequadamente descodificada, significará que o incumprimento da dívida será a única forma de honrar compromissos, um conceito “sui generis” de HONRA, mas que parece ter ainda muita saída mediática...
4. O BE inventou uma nova fórmula, de uma formidável beleza literária mas absolutamente vazia de conteúdo, perguntando se esta troca de dívida “será uma história de sucesso ou de submissão ao desespero...”...já não dá mesmo mais!
5. Quanto aos Crescimentistas soft, andaram a navegar em divagações hofmanianas, lembrando histórias passadas que nada interessam à apreciação do tema, zero dizendo de concreto ou de útil para o esclarecimento do tema...
6. Alguns apoiantes das hostes governamentais glorificaram o feito, num estilo semi-épico, que também nada serve para o esclarecimento da matéria, numa tentativa, certamente muito louvável, de geminação literária com as divagações Crescimentistas, mas também nada de útil...
7. Prefiro assim esquecer esse cenário patético, recomendando aos nossos leitores a apreciação que é feita, de forma serena e objectiva, na edição de hoje do F. Times, página 28, sob título “Lisbon cuts redemption payments with debt swap”: bem escrito, claro, em tom bem positivo, salientando as vantagens da operação mas ao mesmo tempo estabelecendo uma distância clara em relação ao caso da Irlanda...
Novas fronteiras!...
Trata-se de uma questão de critério. Jornalístico, claro. Preciso e objectivo. Na política, já sabíamos. Mas é sempre bom criar novas fronteiras.
Rendo-me!...
Está frio, mesmo, e com o sol a brihar.
Mas, pronto, rendo-me à teoria. Era o argumento que me faltava: o da evidência empírica.
Super homem ou Clark Kent?
Ontem vi uma notícia num telejornal que dizia que Obama está numa baixa de popularidade tal que resolveu dar início a uma mega campanha de marketing político para "recuperar a imagem". Desta vez, os especialistas de análises de sondagens acham que tal desilusão do eleitorado se deve ao fracasso da política de saúde e ao fiasco total das tecnologias que afinal não permitem o acesso à alteração dos seguros de saúde. Digo "desta vez" porque, quando fui pesquisar a notícia na net, dei com um rol de cabeçalhos "Obama em baixa de popularidade" e não é que havia as de 2009, 2011, 2012... ? De tal modo que me deu algum trabalho encontrar a que se refere à actualidade. Mas adiante, pelos vistos a indústria da "recuperação de popularidade" vai de vento em pôpa e Presidente Obama lá se meteu a caminho, guiado pelos cientistas de imagem que consideram que o melhor é ele demonstrar que não deixou de ser "um homem do povo", um americano como os outros, um simples mortal que não tem culpa nenhuma que as malditas máquinas encravem e os seguros de saúde fiquem suspensos uns tempos. Seguiram-se imagens de Obama em mangas de camisa, numa grande superfície, na fila para pagar uns livros que comprou para a família, e seguir-se-ão outras igualmente muito originais, vamos esperar para nos lembrarmos todos de como os grandes chefes mundiais são afinal pessoas banalíssimas que só vão aos gabinetes tratar de assuntos importantes e depois despem o fato de super homem e ficam o pobre Clark Kent, embora rodeado de jornalistas que o seguem para registar os seus gestos banais tão populares para sossegar as almas inquietas. O pior é que quem ficou para a História foi o herói, o que combatia injustiças, salvava os indefesos e resolvia os problemas que angustiavam a cidade e os cidadãos...
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
"Sem título"....
Tenho alguma dificuldade em arranjar títulos para o que escrevo, mais dificuldade do que investigar ou ensaiar. Quantas vezes deixava para o fim a escolha do título de um trabalho. Às vezes estava tudo feito e depois passava algum tempo às voltas para arranjar o título, que, quase sempre, nunca me satisfazia. Agora, com esta mania de escrevinhar, dou por mim a colocar em primeiro lugar o título e depois é que escrevo, o que condiciona muitas vezes o conteúdo. Tudo por causa da escrita eletrónica, que, no meu processador de texto, por uma questão de elegância, me convida a esse gesto. E eu caio. É o que está a acontecer neste momento. Escolhi um título, "sem título", e pus-me logo a falar de títulos. Não há dúvida que sou sensível aos títulos. Não faz mal, pode acontecer que saia algo que me agrade. Não deve ser este caso, mas nunca se sabe, ainda não terminei.
O dia está quase a terminar, foi longo e pouco enriquecedor, mas foi temerato e causou ansiedade. Agora estou a ler a história de uma neta. Interessante.
Já li. Um encanto. Fiquei mais rico e motivado para escrever, sonhar e continuar a lutar por eles. Adoro os pequenos, são diferentes, ricos e inspiradores. São verdadeiras minas de ideias, são materiais preciosos que sabem moldar as suas características em belas jóias que nunca mais se esquecem e que me obrigam a usá-las.
A história da minha neta mais nova não tem título, mas, também, não precisa.
"- Mamã, eu sei que tu foste uma menina muito especial... a Kikocas contou-me.
- Ai sim?! Então conta-me... Especial como?
- Quando eras pequenina andaste numa cadeira de rodas, não foi?
- Sim, andei...
- Eras feliz, mamã?
- Era!
- Eu também queria ser especial...
- Não digas disparates, Leonor!
- Eu quero ser como tu e como os outros meninos especiais...
- Leonor, o que estás a dizer é pecado!
- O que é pecado, mamã?
- Leonor, pecado é dizer ou fazer coisas que não se devem... E tu, já és uma menina especial, não precisas de andar de cadeira de rodas, de canadianas, de gesso ou seja com o que for para seres ainda mais especial... Percebeste?
- Está bem mamã, não te zangues... Toma este desenho, és tu e a Kikocas! Está lindo?
- ..."
- ..."
(Kikocas - a minha mulher)
"Troika" de dívida parece ter resultado...
1. São conhecidos os resultados da operação de troca de dívida ontem anunciada pelo IGCP e cujos contornos deixei resumidamente anotados em Post também ontem editado: um total de trocas de € 6,65 mil milhões, equivalente a cerca de 25% da dívida pública titulada por OT’s com vencimento em 2014 e 2015.
2. Mais concretamente, os investidores aceitaram trocar (i) dívida com vencimento em Junho e em Outubro de 2014, nos montantes de € 837 milhões e de € 1.640 milhões respectivamente, e (ii) dívida com vencimento em Outubro de 2015, no montante de € 4.164 milhões, por dívida com vencimento em 2017 (€ 2.680 milhões) e em 2018 (€ 3.970 milhões)...(os totais não são exactamente iguais por causa das diferenças dos preços em relação ao par, tanto na venda como na compra).
3. O mercado parece ter reagido de forma muito positiva a esta operação, interpretando-a como um razoável sucesso atentas as particulares circunstâncias em que ocorreu, iniciando um delicado e certamente laborioso processo de “abertura de portas” até o Tesouro voltar a financiar-se no mercado em condições aceitáveis...
4. Não vale a pena escamotear o facto desta operação ter sido afectada pela incerteza quanto ao “juízo final” do TC sobre algumas normas do OE/2014 com maior impacto na redução da despesa corrente das Administrações Públicas...sem esse factor de potencial perturbação, esta operação teria recebido uma resposta bem mais expressiva, certamente.
5. Mas, ponderando esse factor, a operação de troca nem correu mal, permitindo aliviar o serviço da dívida em 2014 e em 2015, o que significa reduzir as necessidades de financiamento líquidas e tornar menos exigente o recurso aos mercados na era pós-Troika...
6. ...resta agora saber como será o misterioso período pós-Troika - na aula magna não se descansa, devem estar a decorrer já exercícios de aquecimento para tornar esse período tão conturbado quanto possível...tentando, por todos os meios, levar-nos ao tapete e anular, gloriosamente, os gigantescos esforços e sacrifícios que Famílias e Empresas privadas têm vindo a fazer para dar a volta ao País...
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
Estado poligonal
"...Urge ter, contudo, em devida linha de conta que só num Estado democrático, logo
de direito, é que o poder político se fundamenta à luz do somatório decorrente
da legitimação proporcionada pelos diferentes "níveis" de coletivos: o nacional,
o regional e o local, sendo consabido que a Constituição da República de 1976
veio consagrar as comunidades locais e regionais, a par do todo nacional, como
verdadeiros centros de imputação da legitimação política dos respetivos
representantes, livre e democraticamente eleitos pelas populações, a ponto de só
a estas coletividades fazer corresponder a existência de pessoas coletivas
públicas de população e território, incumbidas da prossecução de atribuições
obviamente tributárias da satisfação das necessidades económicas, sociais e
culturais. O exercício das diversas funções do Estado sempre deve ter presente a
interdependência e a complementaridade dos poderes públicos, maxime a necessária
articulação da atuação do Estado com as atividades constitucional e legalmente a
cargo do poder local, até porque a natureza unitária do Estado está
parametrizada pelo princípio da subsidiariedade, cuja estrutura, de feição
eminentemente poligonal, repousa nos sistemas relacionais existentes entre as
diferentes entidades públicas (de população e território)...".
Fernando Seara, em artigo Repensar a democracia local, DN, 2/11/2013
Pronto, poligonizemos, que poligonizar é que faz falta. Para animar a malta!...
Livro, "Mistérios".
O dia acabou mais cedo do que esperava o que fez com que ficasse com o meu ritmo laboral perfeitamente destrambelhado. Não estava à espera. Pensei, vou fazer aquilo que mais gosto, vou sair, vou escrever num sítio prazenteiro, beber uma bebida quente, mas vacilei. Resultado, acabei por andar às aranhas. Ainda fui ver se havia uma mesa num espaço agradável ao pé de casa. Sem esperança, atalhei por um beco, desconfiado de que àquela hora os aposentados já o teriam tomado de assalto. Ao aproximar-me vi, nitidamente, através da larga parede de vidro, olhares de quem não sabe o que fazer, olhares secos, pobres, alguns meio patetas mas que não se cansavam de escrutinar quem passava. Ainda bem que não havia lugar. Caminhei de braço dado com o frio que, desesperadamente, queria guilhotinar o meu pescoço. Bem tentou, mas eu não deixei. Entrei na livraria, havia uma mesa vaga. Sentei-me. Tentei ler, não consegui, tentei escrever, também não consegui. Fiquei durante algum tempo a fingir que fazia nem sei o quê. Bebi um café. Olhei em redor e entretive-me a ver as pessoas, as suas caras, os seus maneios, as diferentes formas de beber e de comer, os diferentes bamboleios das ancas, e perguntar por que razão é que põem a tocar uma merda de música capaz de irritar a sensibilidade de quem procura um espaço para ler, escrever, namorar, conversar ou meditar. Atribuí a culpa do meu insucesso de final de tarde à qualidade da música, que mais parecia um vaporizador mata moscas do que outra coisa. Levantei-me e deambulei entre as mesas e as estantes com livros. Há muito que não entrava naquele espaço. Tantos livros, sedutores. Fiquei subitamente surdo, não ouvia a música. Comecei a entristecer. Queria ler aquilo tudo. Que loucura, pensei. Vou comprar um. Qual? Para quê? Não leio a maior parte dos livros, adio eternamente o momento das carícias. Andam por lá, aos pontapés, debaixo e em cima de tudo o que se possa imaginar. Nem vale a pena descrever onde e como amontoo os livros. Tenho esperança de que um dia consiga um grande feito, lê-los. Claro que não vou conseguir. Tantas obras. Bons títulos. Excelentes escritores. Evito tocar-lhes, porque tenho medo de ser contagiado. Quando abro um livro é comum ver delicados farrapos da alma do escritor, como se fossem flocos de neve, a caírem em redor, criando um belo mundo de fantasia. Não lhes toquei. Sabia que ao primeiro toque acabaria por ser aprisionado. Resisti, resisti até ver o nome de um autor. Não me recordo como apareceu na minha mão. Tentei evitar lê-lo, mas não consegui. Comecei a ler algumas passagens e, subitamente, já estava noutro mundo, via as pessoas, sabia como pensavam e o que queriam. Sabia a cor das suas almas, o calor dos seus pensamentos, os seus desejos, temores, tudo me parecia ser tão real que eu próprio duvidei quem era e onde estava. O meu velho autor preferido, um escritor maldito. Atraem-me os escritores malditos, particularmente este, que viveu e sofreu muito, fome, fome de verdade, e que acabou por ser internado numa instituição psiquiátrica onde morreu na mais completa pobreza e repúdio social. Nasceu pobre, viveu grande parte da vida pobre, morreu pobre mas consegue uma proeza única, enriquecer quem o lê. Espero que tenha passado o resto dos seus dias na mais perfeita e tranquila loucura.
Tenho-o aqui, a meu lado. Já o abri novamente e sinto belos flocos de neve a inundar-me. Valeu a pena o dia de trabalho ter acabado mais cedo. Vou lê-lo, melhor, vou saboreá-lo.
"O cagagésimo"...
Na escola primária tínhamos de aprender a diferença entre a classificação cardinal e a ordinal. Esta última não era fácil de dizer, mas aprendíamos, nem que fosse à bofetada. Eu aprendi e não esqueci. Agora, entristece-me o comportamento de um jornalista televisivo, a par de outros, a noticiar um "ranking" qualquer. Hoje, a propósito das escolas de economia do país, o "cagagésimo" do jornalista afirmou que a U. Católica ficou no lugar 25 e as outras nos lugares 34 e 66, ou qualquer coisa parecida. Está bem, está, se tivesses andado na minha escola não falavas assim. É o falavas. Gaita! Não entendo por que razão devemos aprender certas coisas...
IGCP anuncia oferta de troca de dívida: muito interessante, mas...
1. O IGCP anunciou que vai realizar amanhã uma oferta de troca de dívida pública: OT’s com vencimento em 2014 e em 2015, por OT’s com vencimento em 2017 e em 2018.
2. As condições propostas para esta oferta de troca são atractivas, sendo dada aos interessados a possibilidade de, nessa troca, ALIENAR as OT’s com vencimento em 2014 e 2015 por um preço superior ao par, e de ADQUIRIR as OT’s com vencimento em 2017 e 2018 por um preço inferior ao par.
3. Concretamente, OT’s com vencimento em Junho e Outubro de 2014 e em Outubro de 2015 poderão ser alienadas aos preços de € 101,158, de € 100,705 e de € 100,040, respectivamente, sendo adquiridas ao mesmo tempo OT’s de Outubro de 2017 ao preço de € 98,857 (com cupão de 4,35%, oferece yield de 4,677%) e as OT’s de Jun/2018 ao preço de € 97,966 (cupão de 4,45%, yield de 4,956%).
4. É uma solução inteligente de regresso suave aos mercados de dívida, que permitirá aliviar o serviço de reembolsos nos próximos 2 anos, que, sendo o período imediatamente pós-Troika, será o mais crítico para um regresso ao financiamento dos mercados em condições aceitáveis, substituindo o financiamento dos credores internacionais...
5. Esperemos que esta operação venha a recolher uma elevada adesão por parte dos investidores, constituindo mais um sinal de melhoria das perspectivas económicas e financeiras...
6. ...mas fica no ar um senão, ou seja um problema para os gloriosos “diehard” da Aula Magna, que certamente se vão ver na necessidade de lançar mais uma poderosa ofensiva, com o indispensável e prestimoso apoio mediático, tentando o “tudo por tudo” para travar o “regresso aos mercados” e lançar-nos nas perfumadas águas da insolvência, do incumprimento da dívida e da bancarrota, tudo em nome dos mais elevados interesses do País...
"Pietá"...
Consegui. Pela primeira vez na minha vida tenho uma Pietá. Poderei afirmar que santos e santas é coisa que não me falta por estes lados. Uma mania como qualquer outra poderão dizer. Talvez sim, talvez não. Adoro arte sacra, desde sempre, provavelmente devido a uma bela imagem setecentista da minha mãe. É minha, foi sempre minha e continuará a ser enquanto existir. Presumo que fiz alguma espécie de "imprinting" quando nasci sob o seu olhar. Adoro-a. É minha. Julgo termos uma identidade comum. Adoro essa imagem. Um dia versejarei mais a seu propósito, a seu e a meu. Pronto. Penso ter justificado o meu gosto, atração, ou admiração, pela arte sacra onde consigo vislumbrar a fascinante mistura da arte e da fé. Duas artes que não consigo entender, nem dominar, mas que me fascinam e me emocionam. Recebi uma Pietá, uma representação que me atrai sobremaneira por muitos motivos, a representação da dor, a tranquilidade do momento, o respeito pelo sofrimento, o símbolo da força da vida sobre a morte, e o efeito da morte sobre a finalidade da vida. De todas as imagens, a única que consegue absorver os meus pensamentos e retirar-me do mundo em que vivo é a imagem de uma mãe com o filho morto nos braços, a morte nos braços da vida. A existência a olhar para o seu futuro. A dor de uma mãe a olhar para o repouso do seu filho. Não há imagem mais bela, mais triste, mais reveladora da nossa essência do que esta. Não há outra igual. Para mim representa a verdadeira imagem da existência, a vida abraçando a morte dolorosa de um filho
domingo, 1 de dezembro de 2013
"Frase do dia"...
Fui almoçar à "caverna". Chamo-lhe "caverna" não no sentido pejorativo mas como sinónimo de um lugar onde posso desfrutar velhos tempos em que o homem se comportava com regras próprias, primitivas, mas nem por isso menos ricas em termos de experiências e vivências. Uma "caverna" perdida no interior onde ao domingo se cruzam personalidades retiradas de tempos que já lá vão, alguns dos quais tive ainda oportunidade de conviver. Uma viagem no tempo próximo e também no tempo remoto. Ouço conversas, analiso comportamentos, desfruto de momentos e tipos de linguagem que me inspiram e até ajudam a simplificar a existência. As conversas eram poucas, e ainda bem, porque assim conseguia apanhá-las. Deixei que se arrastassem em temas diversos os quais não me estavam a seduzir, até que no televisor, hora do telejornal, o jornalista começou a dar ênfase ao resultado de futebol da Académica com o Porto, com a vitória inesperada do primeiro clube, coisa que não acontecia há mais de quarenta anos. Como se tratava de futebol, e ainda por cima de uma derrota do Futebol Clube do Porto, teve direito a notícia e a uma reportagem com entrevistas a alguns simpatizantes que consideraram uma vergonha a derrota do seu clube, para não falar dos desacatos dos que não sabem perder, umas bestas, que tanto dão vivas como são capazes de vociferar e desejar a "morte" da equipa. Um dos companheiros da "caverna", que não sabia do resultado, comentou para um vizinho: - O Porto perdeu? É uma vergonha. Resposta imediata: - Vergonha? Vergonha é roubar e ser apanhado! Fiquei com aquela no ouvido e não pude deixar de rir. Com que então "vergonha é roubar e ser apanhado". Agora começo a compreender a falta de vergonha que anda por aí, às tantas é devida ao facto dos ladrões do país não serem apanhados! O meu comentário não impediu que continuasse a ouvir a conversa, até que um deles olhou para a cântara e diz: - Oh diabo! Está vazia. - Está? Então tome lá a minha que eu já acabei de comer. - Obrigado. Recebe a cântara que ainda tinha algum vinho e começou a fazer a higiene oral, bochechando os dentes com um valente copázio. O Ah! de satisfação alastrou-se pelo antro. A conversa continuou com diálogos em que alternativamente o burro falava para o tamanco. Entretanto, o bronco, cujas costas esbarravam contra as minhas, baixou a cabeça para a mesa e atacou a travessa. - A senhora chama-lhe a atenção para o prato que tinha ao lado. - Leve o prato, sempre é menos um que tem de lavar, eu como da travessa. A voz grossa, alimentada pelo vinho que ia emborcando em enormes copos de cerveja, cheios de um qualquer carrascão, denotava uma grosseria típica daquelas bandas. Deve ter vindo das serranias em redor. Presumo que é a segunda ou terceira vez que o vejo. A mulher, ainda mais calada, deve divertir-se com a sua diabetes ao mamar taças avantajadas de arroz-doce. A dona da casa de pasto já lhe chamou a atenção para esse perigo na sequência de uma conversa tida anteriormente. Qual quê, diz ela, já que tem de morrer, ao menos que morra com doces. Ouço a conversa nas minhas costas e comento baixinho: - Pois, morrer morre, mas uma coisa ela não sabe, a morte dela não vai ser doce, nem pêra doce. Esta gente não tem vergonha. - Vergonha? Então não acabaste de ouvir que "vergonha é roubar e ser apanhado"! Ah, pois é, tens razão, já me esquecia que estamos num país de desenvergonhados.
Frase do dia: "vergonha é roubar e ser apanhado".
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