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terça-feira, 10 de dezembro de 2013

"Tragédia"...

Conhecia-o bem, e desde há muito. Uma figura que ganhou carisma e que enriqueceu o ambiente humano de uma pequena terra. A forma do corpo, a maneira de andar, o estilo pachorrento e a afabilidade com que tratava o próximo constituíam a sua imagem de marca. Habituei-me à sua presença, ao seu andar, ao seu falar e ao seu cumprimentar. Fazia parte de um ambiente que o moldou e que acabou por o moldar. Andavam de braço dado, não se distinguiam. Há ambientes que só adquirem vida com a presença de determinadas personalidades, nem sempre são as mais letradas ou convencidas do seu valor que são a alma de um povoado. Recordo-me de um dia de tragédia ocorrida na vila e que ceifou a vida de uma menina. Os restantes sobreviveram, felizmente, mas foram parar ao velho hospital da Universidade. Estava de serviço às urgências. Entrou o jovem, cuja forma de corpo, maneira de andar, estilo pachorrento e afabilidade no trato, que um dia iria marcar a sua terra, me caiu nos braços. Examinei-o. As lesões mais graves eram a da alma, mais dolorosas do que as do corpo. Nunca me esqueci desse episódio. Hoje recordo esse momento, não com saudade mas por estar associado à morte, a uma tragédia que ceifou a vida de uma menina e que poupou a de outros. Depois a vida refez-se. Há uma tendência brutal para a normalidade ou qualquer coisa parecida. Vi-o inúmeras vezes. Partilhei alguns momentos com ele, sobretudo à mesa, o melhor sítio para conhecer o próximo. Há algum tempo vi algo que não me agradou. Senti que havia qualquer coisa que não batia certo. Comentei: - Deve estar muito doente. Depois, passado um tempo, recebi a notícia. Incomodou-me. Incomoda-me saber o mal que atinge as pessoas. Incomoda-me, e muito. Previ o que iria acontecer. É muito fácil profetizar nestes casos. Demasiado fácil e intensamente doloroso. Incomoda-me, e muito. Prefiro não ver e nem ouvir, mas é impossível. Calo-me em certas circunstâncias. Tenho de me defender. Não serve para nada, a não ser para me inquietar e dar um outro significado à existência. A ameaça da morte dói, faz-me sofrer e acabo por desorientar-me. Fujo de certo tipo de conversas, mas é impossível. Naquela noite disseram-me: - Senhor Doutor, amanhã há cozido portuguesa. - Cozido à portuguesa? Ótimo. Adoro. - Sabe porquê? Perguntei naturalmente a razão. Disseram-me que era para satisfazer um desejo de alguém que sempre vi como uma típica forma de corpo, uma curiosa maneira de andar, detentor de um estilo pachorrento e ator de uma rara afabilidade no trato. Fiquei sem apetite. Fiquei sem vontade de comer cozido à portuguesa. Calei-me. Não disse nada. Tinha-me comprometido em comer cozido à portuguesa. No dia seguinte vi-o. Cumprimentei-o de forma suave. Ele sentou-se na mesa com os seus comparsas. A rugosidade da pele macilenta e o amarelo térreo, a denunciar a cama argilosa de um futuro imediato, perturbaram-me. Comi o mesmo cozido à portuguesa, feito exclusivamente para si. Soube-me bem. O apetite que tinha perdido na véspera agigantou-se naquele momento. Tenho dúvidas de que tenha sentido o mesmo. Saí. Ele ficou. À noite disseram-me que tinha sido novamente hospitalizado. Depois ia ouvindo relatos sobre o seu estado. Ouvia em silêncio. Não consigo verbalizar nestas circunstâncias. Sinto uma estranha dor, uma dor da vida, uma dor que me incomoda, uma dor que não consigo habituar-me. Hoje, telefonaram-me, a chorar, a comunicar que tinha sido expulso deste estranho paraíso em que vivemos, ou fingimos que vivemos. E agora? Onde vou ver aquela forma de corpo, aquela maneira de andar, aquele estilo pachorrento e a deliciosa afabilidade no trato? Onde? Pergunto. Não sei.

2 comentários:

Diogo disse...

Dr. Massano, umas palavras de esperança:

http://www.blogdomax.com.br/seremos-imortais-em-20-anos-diz-engenheiro-do-google

Seremos imortais? Em 20 anos, diz engenheiro do Google

O diretor de engenharia do Google, Ray Kurzweil, afirmou que o avanço da tecnologia nos próximos 20 anos nos permitirá viver para sempre.O diretor acredita que em breve será possível “reprogramar” células para se recuperarem de doenças e até mesmo gerar tecido humano em impressoras 3D.

“A expectativa de vida mil anos atrás era de 20 anos. Nos dobramos esse número em 200 anos. Esse processo vai entrar em alta velocidade nos próximos dez ou 20 anos, provavelmente em menos de 15 anos estaremos no ponto de inflexão em que iremos adicionar mais tempo de vida por causa do progresso científico”, disse o diretor. “Iremos observar um tremendo avanço na medicina.”

Kurzweil citou a ideia de usar impressoras 3D com células-tronco para criar tecido humano. Segundo ele, vendo a biologia como um software e reprogramando as células para tratar doenças, os humanos já fizeram grandes avanços na medicina.

“Já existem terapias fantásticas para curar problemas de coração, câncer e todo tipo de doença neurológica baseada na ideia da reprogramação de software”, disse o diretor. “Essas tecnologias serão mil vezes mais potentes que eram dez anos atrás e um milhão de vezes mais em 20 anos.”

As declarações de Kurzweil foram feitas durante a conferência Global Future 2045 World Congress, em Nova York, no último domingo (16), segundo a CNBC.

O chefe de engenharia do Google não é o único a esperar que a tecnologia, de alguma forma, traga a imortalidade para os seres humanos.

Na semana passada, o multimilionário russo Dmitry Itskov apresentou a chamada Iniciativa 2045, que prevê a produção em massa de avatares de baixo custo e aparência humana nos quais seria possível carregar o conteúdo de um cérebro humano, incluindo todos os detalhes específicos de consciência e de personalidade.

(Do portal do jornal Folha de S. Paulo)

Salvador Massano Cardoso disse...

Pois, o transhumanismo começa a dar os primeiros passos, o pior é se pega e depois não conseguimos libertar-nos vida, ou algo semelhante. Assusta!